Política e Resenha

O Xadrez Político Brasileiro: Entre Mudanças e Continuidades

 

 

Por Padre Carlos

A política brasileira vive um momento de inflexão. Como bem observou o político mineiro, “política é como nuvem, muda de lugar a qualquer momento” – e nunca essa máxima foi tão atual quanto nos dias que correm. O cenário eleitoral que se desenha para 2026 revela não apenas a fragmentação dos grandes blocos ideológicos, mas também a emergência de novos atores e arranjos que podem redefinir o mapa político nacional. Este artigo analisa as dinâmicas de mudanças e continuidades no xadrez político brasileiro, com foco nas estratégias da direita, da esquerda, do centro e nos cenários regionais, especialmente na Bahia e no Ceará.

O Movimento das Peças no Tabuleiro Nacional

A Direita em Renovação

A direita brasileira passa por um processo de renovação inevitável. Embora Jair Bolsonaro ainda mantenha relevância no discurso político, os ventos sopram em direção a novas lideranças. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, emerge como o nome de maior projeção, representando uma direita mais palatável ao eleitorado moderado, sem abrir mão dos princípios conservadores que mobilizam sua base. Eleito em 2022 com 55,34% dos votos (TSE), Tarcísio tem alta aprovação, com 62% em fevereiro de 2025 (Real Time Big Data). Apesar de afirmar em maio de 2025 que buscará a reeleição em São Paulo (Valor International), especulações sobre uma candidatura presidencial persistem, especialmente porque aliados de Lula o veem como um adversário mais forte que Bolsonaro (Valor International).

A possível composição com Antônio Carlos Magalhães Neto (ACM Neto) como vice-presidente é uma jogada estratégica de largo alcance. ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e atual secretário-geral do União Brasil, tem forte influência no Nordeste, especialmente na Bahia, onde perdeu a eleição para governador em 2022 para Jerônimo Rodrigues (PT) (Wikipedia). Essa aliança visa unir o pragmatismo paulista à articulação política nordestina, com o objetivo de quebrar a hegemonia do PT no Nordeste, particularmente na Bahia e no Ceará. Em maio de 2025, ACM Neto indicou que, se disputar em 2026, é “improvável que não seja para governador” da Bahia, mas também considera o Senado ou uma vice-presidência (OffNews). Essa estratégia pode incluir alianças com o PSB em Pernambuco para enfraquecer ainda mais o PT.

A Esquerda e o Dilema Existencial

A esquerda, liderada pelo PT, enfrenta um dilema existencial. Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de ser a figura mais forte do campo progressista, enfrenta desafios devido à sua idade e à necessidade de renovação. Em junho de 2025, a desaprovação de Lula aumentou devido à alta inflação e ao descontentamento econômico (Bloomberg). A eventual candidatura de João Campos, prefeito do Recife, reeleito em 2024 com 78,11% dos votos (TSE), representa uma tentativa de renovação, mas também um alinhamento com forças que buscam manter a influência do PT. Campos, que assumirá a liderança nacional do PSB em 2025, é elogiado por Lula como uma promessa política (CNN Brasil). No entanto, sua candidatura em 2026 ainda é incerta, e ele pode optar por focar em sua gestão no Recife ou mirar o governo de Pernambuco.

O Centro como Fiel da Balança

Entre esses dois polos, Gilberto Kassab e o “Centrão” mantêm sua posição histórica de fiel da balança. Kassab, presidente do PSD e secretário de Governo e Relações Institucionais de São Paulo, é uma figura central no centro-direita. Em abril de 2025, ele afirmou que o centro-direita poderia se unir em torno de Tarcísio de Freitas, mas, caso ele não dispute, o campo pode se fragmentar entre “seis ou sete candidatos” (Valor International). O PSD, sob sua liderança, elegeu o maior número de prefeitos em 2024, consolidando sua influência (Brazilian Report). O voto presidencial, sendo de opinião e não de cabresto, torna o discurso e os projetos crucial para atrair eleitores indecisos que priorizam governabilidade.

A Estratégia da Direita no Nordeste

A movimentação de Ciro Gomes, alinhado ao bolsonarismo no Ceará, ilustra a estratégia da direita de desafiar o PT em seus redutos. Em maio de 2025, o governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), acusou Ciro de ser um “aliado prioritário do bolsonarismo” por apoiar candidatos bolsonaristas em eleições municipais e ao Senado (UOL). Embora Ciro tenha indicado que não disputará a presidência em 2026 (Revista Fórum), especula-se que ele possa concorrer ao governo do Ceará, desafiando diretamente o PT. Essa estratégia visa “nadar de braçadas” no Sul e Sudeste, onde a direita é forte, e quebrar a espinha do PT no Nordeste, com Ciro e ACM Neto.

A Bahia no Olho do Furacão

Na Bahia, governada pelo PT desde 2007, com Jerônimo Rodrigues como atual governador, a reconfiguração política nacional ganha contornos dramáticos. A menção à prefeita Sheila Lemos, de Vitória da Conquista, como possível candidata ao governo estadual em 2026, reflete o desejo de mudança. Reeleita em 2024 com 58,83% dos votos, Sheila consolidou-se como uma líder local com capacidade de articulação. No entanto, sua candidatura ao governo ainda é especulativa, e ela precisará avaliar se o eleitorado baiano está disposto a romper com a hegemonia petista, que enfrenta fadiga, mas mantém lealdades históricas.

A oposição na Bahia enfrenta o desafio de formar uma frente ampla de direita e centro. Enquanto parte da direita local ainda se alinha ao PT, a construção de um projeto de direita dica inviavel.

Figura Política

Cargo Atual

Partido

Possível Papel em 2026

Região de Influência

Tarcísio de Freitas

Governador de SP

Republicanos

Reeleição em SP ou Presidência

Sul/Sudeste

ACM Neto

Secretário-Geral do União Brasil

União Brasil

Governador da BA, Senado ou Vice-Presidência

Nordeste (Bahia)

Sheila Lemos

Prefeita de Vitória da Conquista

União Brasil

Governadora da BA (especulativo)

Bahia

João Campos

Prefeito do Recife

PSB

Governador de PE ou cargo nacional

Nordeste (Pernambuco)

Gilberto Kassab

Presidente do PSD

PSD

Estrategista do centro-direita

Nacional

Ciro Gomes

Vice-Presidente do PDT

PDT

Governador do CE (especulativo)

Nordeste (Ceará)

Entre o Desejo de Mudança e a Realidade do Poder

O grande desafio para a oposição, tanto na Bahia quanto no Brasil, é construir um projeto que vá além da crítica ao status quo. A direita precisa incluir parcelas da sociedade que historicamente votam no PT, oferecendo propostas que ressoem com as demandas populares. A análise sobre a necessidade de superar a condição de fornecedor de matérias-primas é pertinente. O Brasil precisa de um projeto de desenvolvimento que o coloque na vanguarda da economia do conhecimento e da inovação tecnológica. Isso exige planejamento, investimento e continuidade de políticas públicas que transcendam ciclos eleitorais, um desafio que tanto a esquerda quanto a direita enfrentam.

O Tempo da Política

A política é uma arte do tempo, exigindo paciência, persistência e resiliência. Os grandes movimentos políticos são construídos ao longo de anos, com articulação e entrega de resultados concretos. O eleitorado brasileiro, amadurecido por crises econômicas e políticas, exige comprovação de capacidade gestora. Candidaturas alternativas, como as de Tarcísio, Sheila Lemos tem muito a perder se não decolarem, quanto a Ciro Gomes, este é um velho jogador. Se realmente estiverem dispostos entrar no jogo, será preciso demonstrar competência para governar, enquanto o PT deve provar que ainda tem energia para enfrentar os desafios do século XXI.

Conclusão: O Futuro se Constrói no Presente

O cenário político brasileiro em 2025 é de oportunidade e risco. Para a oposição, a janela para desafiar o PT está aberta, mas não será eterna. Para os grupos no poder, o desafio é apresentar propostas inovadoras. A Bahia e o Ceará, como microcosmos do Brasil, viverão intensamente essas contradições. Entre a força da tradição e o ímpeto da renovação, o país definirá não apenas seus governantes, mas o tipo de sociedade que deseja construir. A política, como o mar, segue ritmos imprevisíveis, mas cabe aos cidadãos navegar essas águas com responsabilidade, sabendo que o destino coletivo depende de suas escolhas.