Política e Resenha

Quando o tempo leva os sonhos, que fique o amor

Por Padre Carlos

Hoje tive uma sensação difícil de explicar: a de que o tempo está levando, pouco a pouco, tudo aquilo que um dia sonhei. Talvez seja uma sensação própria de quem começa a olhar para a própria história não apenas pelo que ainda deseja viver, mas também por aquilo que já viveu. O tempo, quando somos jovens, parece uma estrada interminável. Depois, descobrimos que ele é também um rio: passa silenciosamente, leva pessoas, lugares, sonhos, certezas e até algumas versões de nós mesmos.

E, de repente, percebemos que muita coisa que imaginávamos permanente era apenas uma passagem.

O rio que tudo carrega

Hoje penso nisso com uma certa melancolia. Não porque considere a vida um fracasso. Muito pelo contrário. Talvez justamente porque vivi intensamente. Amei pessoas. Fiz amizades. Partilhei sonhos. Tive encontros que mudaram minha vida. Conheci a força da amizade na Pituba, no Nordeste, na militância, no seminário e em tantos outros lugares onde a vida me permitiu caminhar ao lado de outras pessoas.

Algumas dessas pessoas continuam perto. Outras ficaram distantes. Algumas já partiram. Há ainda aquelas que talvez nem saibam o quanto foram importantes para mim. É estranho perceber que a vida é feita também dessas ausências.

Com o passar dos anos, vamos entendendo que não levaremos conosco as coisas que acumulamos, os títulos que conquistamos, os lugares que ocupamos ou mesmo as discussões que um dia nos pareceram tão importantes. O que talvez permaneça seja outra coisa, muito mais simples e muito mais profunda: aquilo que fomos capazes de deixar no coração de alguém.

O que gostaria de deixar

Quando chegar o dia em que eu partir desta vida, não quero que minha passagem seja lembrada apenas pelas palavras que escrevi, pelas opiniões que defendi ou pelas escolhas que fiz. Gostaria que alguém, em algum lugar, lembrasse do meu sorriso e se sentisse acolhido.

“Gostaria que alguém dissesse: ‘Ele me fez bem.’ Talvez essa seja uma das maiores realizações que um ser humano pode alcançar.”

Não ser inesquecível para todos. Isso seria impossível. Mas ser uma lembrança boa para alguém. Que uma pessoa distante, ao lembrar de mim, sorria. Que uma velha amizade aperte o peito com aquela saudade que não machuca completamente, porque vem acompanhada de gratidão. Que alguém se lembre de uma conversa, de um abraço, de uma palavra dita no momento certo.

Que alguém pense: “Foi bom ter cruzado o caminho dele.”

Uma forma silenciosa de eternidade

No fundo, talvez seja isso que todos nós buscamos, embora muitas vezes não saibamos. Queremos permanecer. Não necessariamente em monumentos, fotografias ou livros. Queremos permanecer na memória afetiva daqueles que amamos. Queremos sobreviver na pequena lembrança de uma tarde, numa fotografia antiga, numa música, numa rua, numa conversa.

Quem sabe até naquele sorriso inesperado que aparece no rosto de alguém quando uma lembrança nossa atravessa o pensamento. É uma forma silenciosa de eternidade. Porque a morte pode interromper a presença, mas não necessariamente consegue apagar aquilo que foi vivido com amor.

O tempo pode levar nossos cabelos, nossa juventude, nossas forças, nossos projetos e até algumas das pessoas que mais amamos. Mas há coisas que o tempo não consegue levar completamente. Uma delas é o bem que fizemos. Uma palavra de esperança pode continuar vivendo em alguém durante décadas. Um gesto de carinho pode acompanhar uma pessoa por toda a vida. Uma amizade pode sobreviver à distância. Um amor verdadeiro pode continuar existindo mesmo quando já não existe a possibilidade do encontro.

As perguntas que ficam

É por isso que, olhando para trás, percebo que talvez eu tenha passado grande parte da vida tentando construir coisas que o tempo inevitavelmente levaria. E hoje começo a compreender que o verdadeiro legado não está naquilo que conseguimos possuir, mas naquilo que conseguimos compartilhar. A vida não pergunta apenas o que fizemos com os nossos anos. Ela também pergunta o que fizemos com as pessoas que encontramos durante esses anos.

Fomos capazes de acolher?

Fomos capazes de perdoar?

Fomos capazes de amar?

Fomos capazes de tornar a caminhada de alguém um pouco menos pesada?

Essas perguntas me acompanham hoje. E talvez sejam mais importantes do que todas as outras. Porque, quando a noite da vida chegar, talvez não sejam os grandes acontecimentos que ocuparão nossa memória. Talvez sejam os pequenos detalhes: um rosto, uma voz, uma amizade, uma conversa, uma mão estendida, uma risada compartilhada. É possível que a verdadeira riqueza de uma existência esteja escondida justamente nessas pequenas coisas.

Que não leve o amor

Por isso, se algum dia minha ausência deixar saudade, gostaria que fosse uma saudade acompanhada de ternura. Que minha memória não fosse peso, mas presença. Que meu nome não trouxesse apenas lágrimas, mas também algum sorriso. Gostaria de me tornar, na memória de quem amei, aquela lembrança boa que permanece mesmo depois que a vida muda de lugar.

Talvez seja essa a forma mais bonita de continuar vivo. Não no corpo. Mas na memória. Não na presença física. Mas no afeto. Não naquilo que possuímos. Mas no bem que partilhamos.

Hoje sinto que o tempo está levando alguns dos meus sonhos. Talvez esteja mesmo. Mas também compreendo que o tempo não precisa levar tudo. Pode levar os anos. Pode levar a juventude. Pode mudar os caminhos. Pode afastar pessoas. Pode transformar sonhos. Mas que não leve o amor. Que não leve a capacidade de fazer o bem. Que não leve a memória dos encontros que fizeram a vida valer a pena.

E, quando chegar o meu último dia, se alguma coisa de mim puder permanecer, que seja justamente isso: a lembrança de alguém que passou por esta vida, amou profundamente, errou muitas vezes, acertou outras tantas, sonhou, lutou, acreditou e tentou fazer do mundo um lugar um pouco mais humano. E que alguém, em algum lugar, talvez muitos anos depois, ao lembrar de mim, possa sorrir. Então saberei que não passei em vão.

Porque talvez a verdadeira eternidade não seja viver para sempre. Talvez seja continuar fazendo parte da vida de alguém depois que já não estivermos aqui. E, se for assim, quero acreditar que o amor que ofereci continuará caminhando por aí, silenciosamente, dentro daqueles que um dia cruzaram o meu caminho.

Esse será o meu legado. E talvez seja o único sonho que o tempo não consiga levar.

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Padre Carlos  — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha