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Quando um senador chora pela fome: a memória do médico que viu crianças reduzidas aos ossos

Política e Resenha  |  Opinião

A fome que emociona Otto Alencar e a política que devolve dignidade ao Brasil

Por Padre Carlos Josaphat

Há testemunhos que ultrapassam as fronteiras da política e alcançam a consciência humana. Foi o que aconteceu quando o senador Otto Alencar (PSD), durante entrevista ao programa Giro Baiana, da Rádio Baiana FM, recordou os anos em que trabalhou como médico ao lado de Santa Dulce dos Pobres, na Bahia. Ao falar das crianças que chegavam ao Hospital Santo Antônio, nas décadas de 1970 e 1980, com fraturas espontâneas provocadas pela subnutrição, Otto não falou apenas como senador. Falou como médico, como testemunha de uma realidade dolorosa e como alguém que carrega na memória as marcas de uma tragédia social.

O testemunho de um médico

O relato é perturbador. Crianças de apenas 12 anos, segundo recordou o senador, chegavam ao hospital reduzidas praticamente aos ossos. Adultos sofriam de tuberculose óssea e outras consequências da miséria. Não se trata de uma estatística fria, de um número apresentado em uma planilha ou de um gráfico utilizado em debates parlamentares. São vidas humanas submetidas à privação de alimentos, à falta de condições básicas de sobrevivência e à negação de direitos fundamentais.

A fome tem essa capacidade cruel de roubar a infância, enfraquecer o corpo, comprometer o desenvolvimento e destruir a esperança. E, quando alcança crianças, revela de maneira particularmente dramática o fracasso de uma sociedade em cumprir suas obrigações mais elementares.

A emoção de Otto Alencar merece ser compreendida nesse contexto. Quem testemunhou de perto a miséria extrema sabe que a fome não pode ser tratada como uma abstração ideológica. Ela tem rosto, nome, história e consequências. A experiência médica do senador, vivida ao lado de Irmã Dulce, oferece uma dimensão concreta a um problema que frequentemente desaparece sob a retórica dos discursos políticos.

A caridade e o dever do Estado

Irmã Dulce compreendeu que a caridade não poderia esperar pela solução de todas as contradições sociais. Era preciso acolher, alimentar, cuidar e salvar vidas. Sua obra, nascida da solidariedade cristã, tornou-se também um testemunho permanente daquilo que uma sociedade não pode aceitar como normal: pessoas abandonadas à própria sorte enquanto a riqueza e os recursos existem, mas não chegam a todos.

Entretanto, a solidariedade individual, por mais extraordinária que seja, não substitui a responsabilidade do Estado. A caridade pode socorrer quem passa fome hoje; políticas públicas bem estruturadas precisam impedir que novas gerações sejam condenadas à mesma condição amanhã. É nesse ponto que o testemunho do senador se transforma em uma reflexão política incontornável.

O que dizem os indicadores

Ao atribuir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a retirada do Brasil do mapa da fome e afirmar que o governo de Jair Bolsonaro permitiu o retorno do país a essa situação, Otto colocou no centro do debate a relação entre decisões governamentais e condições de vida da população. Sua declaração expressa uma avaliação política que precisa ser examinada à luz dos indicadores sociais e das políticas públicas adotadas em cada período.

O combate à fome no Brasil não começou com um único governo, nem pode ser explicado exclusivamente pela ação de um presidente. É resultado de uma trajetória que envolve mobilização social, políticas de transferência de renda, valorização do salário mínimo, geração de empregos, agricultura familiar, alimentação escolar, segurança alimentar e iniciativas de diferentes governos. Contudo, as escolhas de cada administração podem fortalecer ou enfraquecer essa rede de proteção.

Linha do tempo — Brasil e o Mapa da Fome
2014 — o Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), resultado associado à redução da subalimentação ao longo dos anos anteriores.
2019–2021 — o país retornou ao Mapa da Fome, em meio à deterioração das condições sociais, agravada pela pandemia de Covid-19 e pela perda de renda de numerosas famílias.
Julho de 2025 — a FAO anunciou que o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome, considerando a média trienal de prevalência de subalimentação de 2022 a 2024, inferior ao limite de 2,5% utilizado pela organização.

Nos primeiros governos Lula, programas como o Bolsa Família e o fortalecimento de políticas de segurança alimentar ganharam protagonismo na estratégia de enfrentamento da pobreza. Em 2014, o Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), resultado associado à redução da subalimentação ao longo dos anos anteriores.

Posteriormente, o país enfrentou uma deterioração das condições sociais, agravada pela pandemia de Covid-19, pela perda de renda de numerosas famílias e por dificuldades no acesso regular à alimentação. O retorno do Brasil ao Mapa da Fome, no período de referência de 2019 a 2021, evidenciou a gravidade do problema. A pandemia foi um fator decisivo nesse contexto, embora não explique sozinha todas as dificuldades enfrentadas pelas famílias brasileiras.

Com a retomada de políticas de combate à pobreza e de segurança alimentar, o governo Lula voltou a colocar a erradicação da fome entre suas prioridades. A FAO anunciou, em julho de 2025, que o Brasil havia saído novamente do Mapa da Fome, considerando a média trienal de prevalência de subalimentação de 2022 a 2024, inferior ao limite de 2,5% utilizado pela organização para essa classificação.

Esse resultado é relevante, mas não significa que a fome tenha desaparecido do território brasileiro. Milhões de pessoas ainda enfrentam insegurança alimentar em diferentes graus, e muitas famílias continuam vulneráveis à alta dos preços, à informalidade, ao desemprego e à insuficiência de renda. Sair do Mapa da Fome é uma conquista importante; garantir que ninguém volte a passar fome exige continuidade, fiscalização e compromisso permanente.

É necessário, portanto, distinguir o reconhecimento de um resultado da ideia de que o problema foi definitivamente resolvido. A redução da fome deve ser comemorada sem triunfalismo, assim como os retrocessos precisam ser reconhecidos sem que se ignorem as circunstâncias históricas e econômicas de cada período. O interesse público exige dados, responsabilidade e disposição para corrigir os erros.

Que sociedade queremos construir?

O depoimento de Otto Alencar também nos convida a refletir sobre uma questão moral mais profunda: que tipo de sociedade queremos construir? Uma sociedade que naturaliza a pobreza, responsabiliza exclusivamente os indivíduos por sua condição e considera a assistência social um desperdício? Ou uma sociedade que reconhece a desigualdade, compreende as suas causas e procura garantir condições mínimas para que cada pessoa possa viver com dignidade?

Não se trata de transformar a fome em instrumento de propaganda partidária. Seria desrespeitoso com aqueles que sofreram e ainda sofrem suas consequências. Trata-se de reconhecer que as políticas públicas têm efeitos concretos sobre a mesa das famílias, o desenvolvimento das crianças e a sobrevivência de pessoas que dependem da proteção social.

A memória de Irmã Dulce, a experiência médica de Otto Alencar e os indicadores de segurança alimentar apontam para uma mesma exigência: a dignidade humana precisa estar acima das disputas políticas. Governos devem ser avaliados também por sua capacidade de assegurar alimentação, saúde, educação, trabalho e proteção aos cidadãos mais vulneráveis.

A fome não pergunta em quem uma pessoa votou. Não distingue partido, religião ou ideologia.

Ela atinge quem não tem dinheiro para comprar alimentos, quem perde o emprego, quem vive em condições precárias e quem não encontra uma rede de proteção capaz de impedir a privação extrema. Por isso, combatê-la é uma obrigação ética e política de qualquer governo democrático.

A grandeza de uma nação

Quando Otto Alencar se emociona ao recordar as crianças que viu no Hospital Santo Antônio, sua memória nos obriga a olhar para além das disputas eleitorais. A política, em sua dimensão mais nobre, existe para transformar a realidade e impedir que o sofrimento evitável continue sendo parte da vida de milhões de pessoas.

Um país não se torna justo apenas porque produz riqueza. Torna-se mais justo quando essa riqueza se converte em alimentação, saúde, educação e oportunidades; quando nenhuma criança precisa crescer desnutrida; quando nenhuma família precisa escolher entre comprar comida e pagar as contas essenciais.

A grandeza de uma nação não está somente no tamanho de sua economia, na força de suas instituições ou na influência de seus governantes. Está também na maneira como trata aqueles que mais precisam.

A emoção de Otto Alencar, ao recordar as vítimas da fome que conheceu como médico, recupera uma verdade que a política jamais deveria esquecer: combater a fome não é favor de governante, concessão partidária ou gesto de generosidade pessoal. É compromisso com a vida, dever do Estado e condição indispensável para que a democracia tenha significado concreto na existência dos mais pobres.

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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha