Padre Carlos
Há acontecimentos que ultrapassam a dimensão de uma festa. Eles se transformam em expressão de uma cidade, de um bairro e, sobretudo, da capacidade de uma comunidade de se organizar, trabalhar coletivamente e construir momentos de convivência. O São Pedro da Família, realizado no bairro Patagônia, em Vitória da Conquista, parece caminhar exatamente nessa direção.
A 10ª edição do evento, realizada nos dias 25 e 26 de julho, reuniu mais de 35 mil pessoas e foi considerada a maior desde a criação da festa. O número, por si só, impressiona. Mas talvez seja mais importante compreender o que existe por trás dele.
Uma multidão não aparece simplesmente porque alguém decidiu colocar um palco em determinado lugar. Para que uma festa comunitária alcance essa dimensão são necessárias organização, planejamento, voluntariado, participação dos moradores, apoio institucional e, principalmente, confiança da população.
Foi justamente esse trabalho coletivo que a Câmara Municipal de Vitória da Conquista decidiu reconhecer durante a Sessão Itinerante realizada no bairro Patagônia. A entrega da Moção de Aplauso à comissão organizadora, de autoria do vereador Ricardo Babão, não deve ser vista apenas como uma homenagem protocolar. Ela representa o reconhecimento público de uma iniciativa que nasceu da comunidade e que vem crescendo com ela.
A declaração de Jucimara Santana, uma das responsáveis pela organização, resume talvez a principal lição do São Pedro da Família: “um evento dessa grandeza se faz com o trabalho de muitas mãos”.
Essa frase merece ser guardada.
Em tempos de individualismo, quando tantas vezes valorizamos apenas aqueles que aparecem no palco, é importante lembrar que por trás de uma grande festa existem dezenas, talvez centenas, de pessoas que trabalham longe dos holofotes. São organizadores, voluntários, comerciantes, trabalhadores informais, profissionais da segurança, equipes de limpeza, produtores culturais, artistas e moradores.
Existe ainda uma dimensão econômica que não pode ser ignorada.
Uma festa que reúne mais de 35 mil pessoas movimenta o comércio, cria oportunidades para vendedores, ambulantes, prestadores de serviços e pequenos empreendedores. O dinheiro circula dentro do próprio território e beneficia famílias que muitas vezes encontram justamente nesses eventos uma oportunidade de complementar sua renda.
Por isso, cultura também é economia.
E economia local não se constrói apenas com grandes empresas ou grandes investimentos. Ela também nasce nas pequenas oportunidades que aparecem quando a cidade cria condições para que milhares de pessoas se encontrem, consumam, trabalhem e participem.
Mas há algo ainda maior.
O São Pedro da Família ajuda a construir pertencimento. Em uma cidade do tamanho de Vitória da Conquista, que cresce, se transforma e recebe diariamente novos moradores, preservar e fortalecer as manifestações culturais dos bairros é uma maneira de manter viva a identidade comunitária.
Uma cidade não é feita somente de avenidas, prédios, obras e números orçamentários. Uma cidade também é feita de memória, música, encontros, festas populares, tradições e histórias compartilhadas.
É por isso que a cultura precisa ser compreendida como política pública e não como simples entretenimento.
A Sessão Itinerante da Câmara Municipal, realizada no próprio bairro Patagônia, também possui um significado importante. Quando o Legislativo sai de suas dependências e vai ao encontro dos moradores, cria-se uma oportunidade para aproximar a instituição da sociedade.
Democracia também é proximidade.
É ouvir quem mora no bairro, conhecer suas demandas, reconhecer suas iniciativas e compreender que a vida de uma cidade acontece muito além dos gabinetes e dos plenários.
A homenagem ao São Pedro da Família ganha ainda mais significado porque reconhece uma experiência que parece ter conseguido unir cultura, lazer, convivência comunitária e movimentação econômica.
E talvez seja justamente essa combinação que explique o crescimento da festa.
Quando uma comunidade percebe que determinada iniciativa pertence a todos, ela deixa de ser apenas um evento organizado por algumas pessoas e passa a ser incorporada à própria identidade do lugar.
Dez edições depois, o São Pedro da Família parece ter alcançado esse estágio.
Mais de 35 mil pessoas não representam apenas um número. Representam famílias que saíram de casa, amigos que se encontraram, trabalhadores que tiveram oportunidade de vender seus produtos, artistas que tiveram espaço para se apresentar e moradores que ajudaram a transformar o bairro Patagônia em um dos centros da vida cultural de Vitória da Conquista durante aqueles dias.
Por isso, a Moção de Aplauso é merecida.
Mas a maior homenagem talvez seja outra: reconhecer que iniciativas como essa precisam ser valorizadas, preservadas e fortalecidas.
Vitória da Conquista tem uma rica vida cultural espalhada por seus bairros. Muitas vezes, porém, aquilo que nasce nas comunidades recebe menos atenção do que deveria. O São Pedro da Família mostra que existe uma força extraordinária quando moradores, organizadores, artistas, comerciantes e poder público conseguem trabalhar na mesma direção.
Uma cidade forte não é aquela que apenas constrói grandes obras.
É aquela que também consegue construir vínculos.
E o São Pedro da Família, ao chegar à sua décima edição reunindo mais de 35 mil pessoas, demonstra que uma festa pode ser muito mais do que uma festa.
Pode ser cultura.
Pode ser economia.
Pode ser oportunidade.
Pode ser memória.
E, acima de tudo, pode ser uma demonstração de que, quando muitas mãos trabalham juntas, uma comunidade consegue transformar um simples evento em parte da história de Vitória da Conquista.





