Política e Resenha

 Uma bancada velha  que destruiu o PT por dentro

 

Por que Lula tem razão, e por que a bancada de deputado federal baiana é o espelho mais fiel desse problema

Há momentos em que a lucidez política surge de onde menos se espera: não de um manifesto programático, não de uma convenção partidária, mas de um presidente de oitenta anos olhando para o espelho e dizendo, em voz alta, o que muitos preferem sussurrar nos corredores. Quando Lula instruiu a direção do PT a buscar candidatos jovens e declarou publicamente que o partido está “ficando velho”, ele não apenas enunciou um diagnóstico óbvio — ele fez algo politicamente custoso. Apontou o problema de dentro, correndo o risco de desagradar justamente aqueles que sustentam sua base parlamentar.

E ele tem razão. Razão plena.

O PT carrega hoje a terceira média de idade mais alta da Câmara dos Deputados — 59,2 anos. Isso não é apenas um número. É a tradução estatística de um partido que, ao longo de décadas, foi construindo muros invisíveis contra a renovação, protegendo mandatos, garantindo redutos e confundindo experiência com ossificação. A fala do próprio Lula entrega o mecanismo interno: “No PT, a gente fala muito em igualdade, mas está cheio de companheiro deputado que não quer que saia outro deputado para não concorrer com ele.” Não há retórica mais honesta que essa.

Mas se o problema nacional já é grave, o problema baiano é estrutural.

A bancada do PT na Bahia, forjada ao longo de décadas de hegemonia estadual, carrega uma característica que vai além da média de idade: ela foi construída sobre fidelidades, não sobre projetos. Nomes que entraram na política quando o PT ainda era jovem e rebelde foram se acomodando nos gabinetes, nos fundos partidários e nas listas de coligação, tornando-se parte da própria estrutura que um dia prometeram transformar. O resultado é uma representação que, em muitos casos, conhece mais as pautas do passado do que os desafios do presente.

A Bahia, vale lembrar, é um estado de contrastes brutais e de uma juventude que pulsa com força própria — nas periferias de Salvador, nos movimentos culturais do interior, nas universidades públicas que formam uma geração politicamente ativa e sem padrinho. Essa juventude, frequentemente, não se vê nas listas eleitorais do partido que historicamente foi seu lar natural. E quando não se vê representada, ela migra — para outras legendas, para o abstencionismo, para o vazio que os extremos adoram preencher.

Não é coincidência que Lula perca hoje para Flávio Bolsonaro entre eleitores de 16 a 24 anos em levantamentos recentes. Essa não é uma derrota ideológica — é uma derrota geracional. E ela começa exatamente onde o PT falhou em se renovar: nas bancadas estaduais, nas câmaras municipais, nas listas que chegam a cada eleição com os mesmos rostos de sempre.

Rejuvenescer uma bancada não significa abandonar a memória. Significa ter a coragem de perceber que a memória, sozinha, não governa. Os filhos e netos daqueles que foram à passeata das Diretas Já precisam encontrar no PT um espaço que seja deles — não uma herança administrada por quem não quer largar o inventário.

Lula abriu a porta. Agora cabe à Bahia — ao seu diretório estadual, às suas lideranças municipais, às suas figuras mais influentes — decidir se vão atravessá-la ou apenas admirá-la de longe, esperando que o problema se resolva sozinho.

O problema não se resolve sozinho. Nunca se resolveu.

A renovação não é traição à história. É o único jeito de não ser devorado por ela.

 

Hegemonia e Estagnação: Uma Análise Estrutural da Bancada Federal do PT na Bahia e o Fenômeno da Não-Renovação

A paisagem política da Bahia, ao longo das últimas duas décadas, foi marcada por uma estabilidade institucional sem precedentes sob a égide do Partido dos Trabalhadores (PT). Desde a vitória de Jaques Wagner em 2006, o partido logrou êxito em estabelecer um ciclo de poder que já se estende por cinco mandatos consecutivos no Poder Executivo estadual. Contudo, ao observar a bancada federal petista na Câmara dos Deputados, nota-se um fenômeno distinto da alternância observada no governo do estado. Enquanto o Executivo promoveu transições de liderança entre Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, a representação legislativa em Brasília consolidou-se em torno de um núcleo de veteranos cujas carreiras se entrelaçam com a própria história da redemocratização e da fundação da legenda no estado. Esta análise busca desvelar a métrica da permanência desses parlamentares, os mecanismos que asseguram sua longevidade e as implicações da escassa renovação geracional para o ecossistema político baiano.

A Métrica da Longevidade: O Tempo como Ativo Político

Para compreender a extensão da permanência da bancada federal do PT da Bahia no poder, é necessário expandir a análise para além do exercício estrito do mandato de deputado federal. A política baiana opera em um sistema de “carreira ascendente” ou “porta giratória”, onde lideranças alternam-se entre mandatos eletivos e cargos de alto escalão no Poder Executivo estadual e federal. Dessa forma, um parlamentar pode estar “no poder” há décadas, mesmo que tenha trocado de cargo ou esfera de atuação ao longo do período.

Ao calcular a média de tempo em cargos de relevância (sejam eles eletivos ou por nomeação política de alto nível), observa-se que o núcleo duro da bancada petista baiana possui uma trajetória que, em média, supera os vinte anos de presença contínua nos centros de decisão.

Tabela 1: Cronologia de Permanência e Ciclos de Poder (Bancada PT-BA)

Parlamentar Início em Cargo de Relevância Cargos Ocupados (Resumo) Anos de Atuação Contínua (aprox.)
Jorge Solla 1999 Sec. Municipal (Conquista), Sec. Estadual (BA), Dep. Federal 27 anos
Zé Neto 2001 Vereador (Feira), Dep. Estadual (4 mandatos), Dep. Federal 25 anos
Joseildo Ramos 2001 Prefeito (Alagoinhas), Dep. Estadual, Dep. Federal 25 anos
Waldenor Pereira 2003 Dep. Estadual (2 mandatos), Dep. Federal (4 mandatos) 23 anos
Josias Gomes 2003 Dep. Federal (vários), Sec. Estadual (Relações Inst., Des. Rural) 23 anos
Valmir Assunção 2005 Dep. Estadual, Sec. Estadual (Combate à Pobreza), Dep. Federal 21 anos
Afonso Florence 2007 Sec. Estadual (Casa Civil, SEDUR), Ministro (MDA), Dep. Federal 19 anos
Ivoneide Caetano 2023 Deputada Federal (Primeiro mandato eletivo) 3 anos

 

A aplicação de um modelo estatístico para determinar a média de permanência revela a calcificação da representação. Definindo Tp​ como o tempo total de permanência de cada indivíduo em postos de comando e n como o número de parlamentares analisados, a média aritmética Aˉ é expressa pela fórmula:

Aˉ=n1​i=1∑nTp,i

Utilizando os dados da Tabela 1 para os oito nomes que orbitam a bancada titular e a suplência imediata em exercício:

Aˉ=827+25+25+23+23+21+19+3​=20,75 anos

Este valor de 20,75 anos de permanência média indica que a renovação no PT da Bahia não é um processo de substituição de elites, mas sim de acréscimo pontual ou sucessão familiar, como no caso de Ivoneide Caetano, cujo ingresso ocorre em uma base política já consolidada por seu cônjuge, Luiz Caetano, veterano com décadas de atuação.

Anatomia da Imobilidade: Por que os “Caciques” Permanecem?

A manutenção desses nomes na Câmara dos Deputados por múltiplos mandatos não é um evento fortuito; ela deriva de uma arquitetura política que privilegia a consolidação de bases territoriais e setoriais quase impenetráveis por novos atores. O PT baiano especializou-se na criação de representações “orgânicas”, onde cada deputado federal atua como o embaixador de um segmento social ou de uma região geográfica específica.

O Segmento Sanitarista: A Hegemonia de Jorge Solla

Jorge Solla exemplifica a permanência baseada na especialização técnica e política. Sua trajetória iniciada na militância estudantil em 1979 e consolidada na fundação do PT na Bahia evoluiu para uma carreira de gestor que lhe conferiu controle sobre as redes de saúde. Ao ocupar a Secretaria de Saúde da Bahia (SESAB) entre 2007 e 2014, Solla estruturou uma rede de influência que abrange desde a alta gestão hospitalar até os agentes comunitários de saúde.

Essa base é resiliente porque se fundamenta na prestação de serviços e na pauta corporativa do setor de saúde. Nas eleições de 2018 e 2022, Solla manteve votações expressivas (135 mil e 128 mil votos, respectivamente), demonstrando que seu eleitorado não busca “renovação”, mas sim a manutenção de um interlocutor direto com o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais. A longevidade de Solla impede a ascensão de novas lideranças na área da saúde coletiva que desejem pleitear representação federal, uma vez que o espaço político já está totalmente ocupado por sua estrutura de campanha permanente.

A Questão Agrária e o MST: A Cadeira de Valmir Assunção

Outro pilar da imobilidade é a representação de movimentos sociais de massa. Valmir Assunção, vinculado à direção nacional do MST desde 1990, ocupa espaços legislativos desde 2005. Sua permanência na Câmara Federal (desde 2011) é vista como estratégica para o movimento, que prefere manter um quadro experiente e com trânsito em Brasília a arriscar-se em uma renovação que poderia fragilizar a articulação política da reforma agrária.

O mandato de Valmir funciona como uma embaixada do MST no Parlamento. Projetos como a remissão de dívidas de agricultores (Lei 13.001/2014) e a defesa de políticas para comunidades tradicionais cimentam sua base eleitoral. A ausência de renovação neste caso é uma decisão deliberada do movimento, que prioriza a “acumulação de força” através da senioridade parlamentar. Contudo, o efeito colateral é o bloqueio para que novas lideranças jovens do campo ascendam à política institucional, criando um vácuo geracional nas frentes de luta.

As Bases Regionais: Waldenor Pereira, Zé Neto e Joseildo Ramos

A permanência de Waldenor Pereira, Zé Neto e Joseildo Ramos está atrelada ao domínio de polos regionais: Vitória da Conquista, Feira de Santana e Alagoinhas, respectivamente.

Waldenor Pereira, com 23 anos de poder, utiliza sua origem acadêmica e o prestígio como ex-reitor da UESB para monopolizar a representação do PT no Sudoeste baiano. Zé Neto, com 25 anos de atuação entre a vereança e a Câmara Federal, tornou-se a face onipresente do partido em Feira de Santana, acumulando mandatos estaduais e federais de forma ininterrupta. Joseildo Ramos segue lógica similar em Alagoinhas, onde foi prefeito por dois mandatos antes de migrar para a esfera legislativa.

Esses parlamentares tornaram-se “instituições regionais”. Suas estruturas de gabinete funcionam como verdadeiras prefeituras paralelas, distribuindo emendas e mediando conflitos locais. Essa eficácia administrativa gera um ciclo de reeleição automática que desencoraja candidaturas de jovens vereadores ou lideranças locais do próprio PT, que sabem ser impossível competir com o volume de recursos e a visibilidade dos detentores de mandato.

O Mecanismo da “Suplência Eterna” e a Blindagem dos Veteranos

Um dos aspectos mais sofisticados da falta de renovação na bancada federal do PT da Bahia é o uso estratégico das suplências. O partido opera um sistema onde nenhum “quadro histórico” fica desamparado, mesmo quando não obtém votos suficientes para a eleição direta ou quando é derrotado em pleitos majoritários.

Josias Gomes é o caso paradigmático deste fenômeno. Com uma carreira iniciada em 1980 na fundação do partido e mandatos federais que remontam a 2003, Josias frequentemente alterna entre o exercício do mandato e cargos de secretário estadual. Em legislaturas onde figurou como suplente, sua ascensão ao cargo de titular foi rapidamente articulada através do licenciamento de outros nomes para compor o secretariado do governo estadual. Em 2023, ele assumiu a vaga de Afonso Florence, que se licenciou para a Casa Civil.

Este sistema de “cadeiras musicais” garante que o núcleo de poder permaneça o mesmo há duas décadas. Quando um veterano sai para o Executivo, outro veterano assume a vaga no Legislativo. A renovação real — ou seja, a entrada de um suplente que represente uma nova geração ou uma nova frente de luta — é sistematicamente barrada por este arranjo de conveniência entre o governo estadual e a bancada federal.

Tabela 2: Movimentações na Bancada e Uso de Suplências (Legislatura 57)

Titular Eleito Destino / Motivo Suplente em Exercício Perfil do Suplente
Afonso Florence Licenciado (Sec. Casa Civil-BA) Josias Gomes Veterano (desde 2003)
Zé Neto Licença Temporária (Eleições 2024) Elisângela Araújo Liderança Sindical / Agricultura Familiar
Afonso Florence Licença (Manutenção) Elisângela Araújo Retorno em 2026 como suplente

 

A entrada de Elisângela Araújo é uma das raras exceções que conferem um ar de renovação à bancada, mas seu mandato é precário e dependente da generosidade política dos titulares. A estrutura de poder do PT baiano não cria novos titulares; ela permite, ocasionalmente, que novos nomes “visitem” o Congresso Nacional, enquanto os veteranos mantêm o controle real sobre as bases eleitorais e os recursos partidários.

A Federação como Barreira à Oxigenação

A criação das federações partidárias (no caso, a Federação Brasil da Esperança: PT, PCdoB e PV) introduziu uma nova camada de proteção para os detentores de mandato. Ao unir os votos das três legendas para o cálculo do quociente eleitoral, a federação diminui o risco de perda de cadeiras para os partidos aliados, mas endurece a competição interna.

Nas eleições de 2022, a federação na Bahia elegeu uma bancada robusta, mas o resultado foi a consagração quase absoluta da continuidade. Além dos nomes do PT, figuras como Alice Portugal e Daniel Almeida (ambos do PCdoB) também possuem décadas de mandatos ininterruptos, reforçando a percepção de uma bancada “congelada” no tempo.

Tabela 3: Renovação na Bancada Federal da Bahia (Recorte 2022)

Indicador Valor para a Bahia (Geral) Valor Estimado para o PT-BA
Taxa de Renovação 31% ~12,5% (1 em 8)
Deputados Reeleitos 27 de 39 7 de 8 (incluindo suplentes de longa data)
Novos Nomes 12 de 39 1 (Ivoneide Caetano)

 

A discrepância entre a renovação geral da bancada baiana (31%) e a do PT (aproximadamente 12%) é reveladora. Enquanto outros partidos, por pressões de mercado eleitoral ou crises internas, promovem alguma oxigenação, o PT baiano utiliza sua posição de hegemonia governamental para abafar dissidências e manter o status quo. A renovação de 31% na Bahia foi a segunda menor do Nordeste, o que indica que o estado como um todo vive um processo de estabilização de elites, com o PT liderando este movimento de resistência à mudança.

Implicações Sociais e Políticas da Falta de Renovação

A permanência prolongada de um mesmo grupo no poder federal tem consequências profundas para a representatividade democrática. Embora o PT baiano argumente que a continuidade garante experiência e capacidade de articulação, críticos e analistas apontam para o surgimento de vícios estruturais e o distanciamento de novas realidades sociais.

O Teto de Vidro da Juventude e da Diversidade

A direção do PT na Bahia afirma que a renovação ocorre “nas bases” e em cargos do governo estadual. No entanto, há um claro “teto de vidro” para a representação legislativa. Lideranças jovens que surgem no movimento estudantil ou em frentes periféricas não encontram caminho para a Câmara Federal porque as vagas estão “reservadas” aos veteranos.

A ausência de renovação também afeta a diversidade de gênero e raça na bancada. Ivoneide Caetano foi a única mulher eleita pelo PT da Bahia em 2022, uma marca pífia para um partido que defende a paridade em seus discursos. A permanência de homens brancos veteranos (como Solla, Waldenor, Zé Neto e Florence) bloqueia a ascensão de mulheres negras e jovens que são a base militante da legenda no estado.

O Risco da Esclerose Programática

Um parlamentar que ocupa o mesmo cargo por 20 anos tende a cristalizar suas pautas. A bancada petista baiana é reconhecida por sua atuação em áreas tradicionais: educação superior, saúde pública e agricultura familiar. No entanto, temas emergentes como a economia digital, a reforma do estado, as novas dinâmicas urbanas e as questões ambientais de nova geração sofrem com a falta de “sangue novo” no debate parlamentar.

A dependência de um “núcleo histórico envelhecido” torna o partido vulnerável às mudanças de humor do eleitorado jovem, que não se vê representado em figuras que já estavam no poder antes mesmo de esses eleitores nascerem. O PT corre o risco de se tornar um partido de “gestores e veteranos”, perdendo a capacidade de conexão emocional e discursiva com as novas classes trabalhadoras.

O Suicídio Político em Câmera Lenta: Quando o Deputado Destrói o Deputado

Há derrotas que ensinam. Há derrotas que apenas confirmam o que já se sabia. E há um terceiro tipo — mais raro e mais grave — que não apenas registra um fracasso pontual, mas corrói ativamente o capital político que o derrotado ainda possuía. As candidaturas de Zé Neto e Waldenor Pereira em 2024 pertencem, com distinção, a essa terceira categoria.

A responsabilidade pelo que ocorreu não está no adversário que venceu, nem no eleitorado que escolheu mal, nem no contexto político desfavorável. Está na decisão — pessoal, calculada e reiterada — de cada um desses parlamentares de colocar seu próprio nome onde ele não cabia mais.

Zé Neto: a sexta vez como epitáfio

Zé Neto não perdeu uma eleição em 2024. Zé Neto perdeu a mesma eleição pela sexta vez consecutiva. Há nesse número algo que transcende o azar e desafia a própria noção de autocrítica. Cada derrota anterior deveria ter funcionado como sinal. Funcionou, ao contrário, como combustível para a seguinte candidatura — e cada tentativa fracassada foi retirando, camada por camada, a aura de liderança que seu mandato federal ainda sustentava.

O problema não é ter perdido para José Ronaldo. O problema é que, ao insistir numa disputa que o eleitorado feirense já havia encerrado, Zé Neto transformou sua imagem de parlamentar experiente e influente na imagem de alguém que o próprio município rejeita com regularidade. Há uma diferença abissal entre ser um deputado federal respeitado que optou por não disputar a prefeitura e ser um deputado federal que tentou seis vezes e perdeu seis vezes. O eleitorado — inclusive o seu, o federal — enxerga essa diferença com uma clareza que os assessores parecem incapazes de transmitir.

Cada nova derrota municipal não é um capítulo isolado: ela reescreve retroativamente todos os anteriores. E o mandato que vem depois carrega o peso acumulado de todas as tentativas frustradas.

Waldenor Pereira: eliminado antes do intervalo

Se Zé Neto acumulou derrotas ao longo dos anos, Waldenor Pereira optou pela eficiência: foi derrotado em primeiro turno, em Vitória da Conquista, por Sheila Lemos. Não houve segundo ato. O eleitorado não considerou necessário.

A gravidade aqui é de outra natureza. Waldenor construiu sua trajetória política tendo Vitória da Conquista como base eleitoral, como território, como identidade política. Ao sair derrotado ainda no primeiro turno — sem capacidade de mobilização suficiente sequer para forçar um segundo round — ele não apenas perdeu a eleição. Ele expôs publicamente os limites reais de sua influência na cidade que deveria ser seu reduto.

E isso tem consequências que vão muito além de 2024. Um parlamentar federal tem seu poder de negociação, de articulação e de atração de recursos intimamente ligado à percepção de que ele representa alguém, que ele move votos, que ele tem território. Quando essa percepção é desmontada às urnas — no seu próprio quintal — o mandato seguinte começa enfraquecido, independentemente do número de emendas distribuídas.

O perigo real: não é a derrota, é o que ela deixa para trás

A leitura superficial diz que ambos perderam eleições municipais e seguirão como deputados federais. Essa leitura é confortável e equivocada.

O que 2024 produziu foi algo mais corrosivo: a prova documentada, registrada em votos, de que esses nomes não convertem mais. E num sistema político em que força eleitoral é moeda de troca — para alianças, para composições, para influência dentro do próprio partido —, perder essa moeda é perder poder real, independentemente do cargo que se ocupa.

O deputado que vai a Brasília depois de uma derrota dessas vai diminuído. Os aliados calculam. Os adversários anotam. Os prefeitos que precisam decidir com quem se alinham fazem a conta. A pergunta que passa a circular nos bastidores não é mais “o que esse parlamentar pode fazer por mim?” — é “esse parlamentar ainda tem força para fazer algo por alguém?”

A ironia cruel é que, ao tentarem crescer, Zé Neto e Waldenor encolheram. Ao buscarem um cargo a mais, fragilizaram o cargo que já tinham. Apostaram o capital político acumulado em anos de mandato numa disputa que o eleitorado já havia, silenciosamente, encerrado antes mesmo do primeiro debate.

Em política, há momentos em que a maior demonstração de inteligência é saber o que não disputar. Esse momento, para ambos, passou — e a conta chegou antes do que esperavam.

 

Perspectivas e o Horizonte de 2026

O cenário para as eleições de 2026 indica que o PT da Bahia enfrentará um dilema existencial. A estratégia de manter os veteranos para garantir a base de apoio a Lula no Congresso é eficaz no curto prazo, mas acelera o envelhecimento da legenda no estado.

Há uma pressão interna silenciosa por parte de secretários de estado jovens e deputados estaduais em ascensão que desejam migrar para a esfera federal. Contudo, enquanto o sistema de suplências e a influência das correntes internas (como a Articulação e a Democracia Socialista) continuarem privilegiando a senioridade, a renovação será meramente cosmética.

A média de 20,75 anos de poder para os deputados petistas baianos é um dado que confronta o discurso de “partido das transformações”. A Bahia, que foi o motor das vitórias nacionais do PT, hoje apresenta a bancada federal mais estável e, consequentemente, menos oxigenada do partido. O desafio de 2026 será promover uma transição que não desmonte as bases eleitorais construídas, mas que permita que o PT baiano volte a ser uma incubadora de lideranças nacionais e não apenas um refúgio para carreiras legislativas vitalícias.

A permanência prolongada, se por um lado garante estabilidade ao governo Jerônimo Rodrigues, por outro cria um passivo de renovação que, quando cobrado pelas urnas, pode vir de forma abrupta e desorganizada, como sugeriram os resultados municipais de 2024. A elite parlamentar petista da Bahia encontra-se no apogeu de sua senioridade, mas também no limiar de sua capacidade de representar uma sociedade que muda em ritmo muito mais acelerado do que suas cadeiras na Câmara dos Deputados.