Política e Resenha

Agosto de Fé: O Sertão que se Renova com Nossa Senhora das Vitórias

 

 

 

Com a licença do sagrado e o respeito que a alma nordestina guarda no peito, venho prosear em verso e fé sobre o tempo mais bonito de nossa Vitória da Conquista. É no comecinho de agosto, quando o sol se espicha mais demorado no céu, pintando de ouro a poeira que dança no ar, que o coração do sertanejo já sabe: é tempo de Nossa Senhora. O vento, que antes soprava seco e choroso, parece que muda de toada; traz consigo um cheiro de mato querendo florir, um perfume teimoso de quem não se entrega, e se mistura ao aroma de incenso que escapa das frestas da Catedral. E os sinos… ah, os sinos! O dobrar deles não é só um chamado para a novena, é a própria voz de Deus costurando o tempo, unindo o céu e a terra, a cidade e a roça. Cada badalada é um convite para aquietar as pressas do mundo e preparar a morada do coração, como quem ajeita a rede na varanda para esperar a visita mais amada, a Mãe das Vitórias, que vem renovar a esperança em nossa gente.

E nesse sertão de meu Deus, que sabe ser duro e flor ao mesmo tempo, a fé se parece com a vegetação que nos cerca. Como não lembrar dos versos do poeta Gonzaguinha, que parecem ter sido cantados para este tempo sagrado: “Catingueira fulorou! Macambira se abriu! As donzelas se animaram! E a estrada se floriu!”. A catingueira, com seus galhos retorcidos pela seca, é o retrato mais fiel da mulher sertaneja. Ela é a personificação da resiliência, uma Maria anônima que guarda dentro de si a seiva da fé, a força que faz brotar a vida onde tudo parece morte. Vejo o rosto da Virgem Santíssima no semblante de cada mãe de família, de cada avó que benze o neto com um ramo de arruda, de cada moça que sonha com um futuro mais justo. São elas, as mulheres que quebram pedras sob o sol, que colhem o café com as mãos marcadas pela lida, as verdadeiras catingueiras em flor. Elas, como Maria, não conheceram vitórias de reinos e coroas, mas a vitória silenciosa e invencível do amor que se doa, do serviço que não pede nada em troca, da fé que sustenta a caminhada, mesmo quando a estrada é de pó e espinhos.

A nossa festa é feita dessa argamassa que só o povo nordestino sabe amassar: uma medida de alegria para duas de saudade, uma pitada de riso para temperar o pranto que corre por dentro. Na procissão que ilumina a noite, as velas que tremulam nas mãos do povo são faróis de esperança, mas em cada chama dança também a sombra de uma dor, a lembrança de um filho que partiu, de uma promessa que ainda espera pelo milagre. É nesse contraste sagrado, nesse claro-escuro da alma, que a nossa fé ganha profundidade e verdade. Não cremos apesar do sofrimento; cremos a partir dele. Aprendemos com o chão rachado que a vida mais teimosa brota da fenda, que a flor mais bonita é aquela que desabrocha no cacto. É hora de entender que as lágrimas que rolaram pelo rosto durante o ano, salgadas e sofridas, foram as mesmas que regaram a terra seca do nosso coração, preparando-a para a colheita da graça. A vitória que celebramos não é a ausência da luta, mas a certeza da presença de Deus e de sua Mãe em meio a ela.

Por isso, este tempo nos chama à conversão, a uma mudança de rumo na estrada da vida. É hora de varrer para fora de casa o orgulho que cria poeira nos cantos da alma. É hora de abrir as janelas para que a luz do perdão entre e desfaça as teias de aranha da mágoa. É hora de partilhar não apenas o que sobra na mesa, mas o pão amassado com o fermento da compaixão, o tempo que se doa na escuta, o abraço que cura mais que remédio. Cada um de nós, do doutor ao lavrador, é convidado a ser romeiro nesta jornada interior. A caminhada com Maria nos ensina a conjugar os verbos essenciais do Evangelho, numa gradação que nos eleva a Deus: é preciso primeiro rezar, para então partilhar, e ao partilhar, aprender a compadecer-se, e por fim, em compaixão, doar-se por inteiro, até que nosso querer seja o mesmo querer do Pai. Que a nossa devoção não seja apenas um enfeite de agosto, mas a viga mestra que sustenta os outros onze meses do ano.

E assim, o sertão inteiro se torna um altar a céu aberto. A fé se manifesta na paisagem e no povo. A gente vê a Virgem no brilho dos olhos das catadoras de café, na força dos homens que erguem as paredes de uma nova casa, na pureza do riso das crianças que correm no adro da igreja. A caatinga, antes cinzenta e silenciosa, parece florescer em cores e cantos. As cidades, com seu barulho e sua pressa, se aquietam para ouvir a voz que vem do alto. A estrada poeirenta, que viu tantas despedidas e jornadas sofridas, agora se enfeita para a passagem do andor, e parece sorrir florida, como no verso do poeta. É o clímax da fé comunitária, o momento em que a prece solitária de cada um se transforma numa única e poderosa voz que sobe aos céus. O cheiro das velas se une ao cheiro da terra, o som dos cânticos se harmoniza com o canto dos pássaros, e por um instante sagrado, o céu beija o nosso sertão.

Quando a festa se acaba, quando a última música silencia e a praça se esvazia, fica em nós a semente da verdadeira vitória. A celebração de Nossa Senhora não é o ponto de chegada, mas um ponto de partida. Voltar para casa com o coração em paz é bom, mas o convite da Mãe é para mais. É para transformar essa paz em ação, essa devoção em missão. Seguir Maria é, em essência, seguir os passos de seu Filho, Jesus. É fazer da nossa vida um evangelho vivo, onde cada gesto de serviço é uma oração, cada palavra de consolo é um louvor. A verdadeira vitória não está nos fogos de artifício que sobem aos céus, mas na luz que se acende dentro de nós, um compromisso renovado de ser sal da terra e luz do mundo. Que a Senhora das Vitórias nos ensine a vencer o mal com o bem, a tristeza com a esperança e a construir, no chão do nosso dia a dia, o Reino de amor e justiça que seu Filho nos anunciou.