Opinião
Uma Carta ao Mundo que Escolheu Não Ver

Sobre compaixão seletiva, dignidade humana e o silêncio que nos custa a alma
O silêncio sobre os escombros
Há lugares no mundo onde a noite não traz descanso, apenas a incerteza de saber se o teto ainda vai existir pela manhã. Há mães que embalam os filhos no colo não para que durmam em paz, mas para que, se a morte vier, ao menos venham juntos. É assim que vive, hoje, uma parte inteira do povo palestino: entre escombros que já foram casas, entre filas por água que já foi potável, entre hospitais que já não têm o que oferecer além de coragem.
Crianças que deveriam estar aprendendo a ler contam, em vez disso, o número de vezes que já precisaram fugir. Crianças que deveriam ter medo do escuro têm medo do céu — porque é de lá que a morte, muitas vezes, decide chegar. Não há infância possível onde não há segurança, comida, nem sequer a garantia de acordar no dia seguinte. E ainda assim, o mundo segue seu curso, folheando essas imagens como quem folheia mais uma notícia qualquer.
Será que essas crianças não despertam compaixão? Não nos sensibiliza vê-las sem comida, doentes, enfrentando epidemias provocadas pela fome, pela falta de sono, pelas condições desumanas em que vivem? Se, como seres humanos, não conseguimos sentir a dor de outros seres humanos, então algo essencial em nós já se perdeu.
“Qualquer pessoa que não consiga se sensibilizar com o que está acontecendo — independentemente de ser muçulmana, cristã ou judia — perdeu parte da própria humanidade. Não deveria ser assim.”
Se continuarmos fechando os olhos, resta um único pedido a quem tem o poder de decidir: façam um exercício simples. Coloquem a si mesmos, e a seus filhos, para viver apenas um dia naquelas condições. Um único dia na rua, sob o sol, sob a chuva, no frio. Que experimentem, ainda que por instantes, como é sobreviver dessa maneira.
O peso desigual do luto
Há algo profundamente perturbador em perceber que, muitas vezes, a morte de um cão ou de um gato do outro lado do mundo comove mais, mobiliza mais campanhas e gera mais indignação nas redes do que a morte de uma criança na Palestina. Não se trata de diminuir o amor que sentimos pelos animais — esse amor também nos honra. Trata-se de perguntar, com a voz embargada, por que a empatia humana parece ter fronteiras, preferências, filtros.
Quando uma vida infantil se torna apenas mais uma linha em um boletim, quando o luto de uma família inteira cabe em uma nota de rodapé, alguma coisa se rompeu na forma como decidimos, coletivamente, o que merece nossa dor. Uma criança não é uma estatística. Uma criança é um nome, uma risada que existiu, um futuro que não vai mais acontecer.
A distância entre uma enchente e outra
Quando enchentes acontecem em nossos países, procuramos abrigo, fugimos para nos proteger, e o mundo se mobiliza para socorrer. Mas quando as enchentes acontecem em Gaza, ou na Palestina, muitas vezes não há sequer onde se aquecer, nem como se proteger da chuva ou do sol.
Isso é uma vergonha para todos nós.
Uma vergonha para o mundo inteiro — não apenas para os países árabes ou para a África, mas para toda a humanidade.
É uma vergonha para quem tem poder de decisão e permite que pessoas iguais a nós continuem vivendo assim.
Um número não é uma vida

Um número não é uma vida.
É tudo o que eu queria dizer. Muito obrigado.
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— Coluna de Opinião




