Política e Resenha

COSME E DAMIÃO: QUANDO A BAHIA TRANSFORMA FÉ EM MEMÓRIA, CULTURA E RESISTÊNCIA

ARTIGO DE OPINIÃO

Por Padre Carlos

Há coisas que somente a Bahia consegue explicar. Ou talvez seja mais correto dizer: há coisas que a Bahia não precisa explicar, porque elas simplesmente vivem no coração do seu povo.

É o menino que recebe o prato de caruru. É a senhora que acende uma vela. É a família que reúne parentes e amigos. É a criança que espera pelos doces. É o atabaque que toca. É a reza católica que se mistura ao canto de terreiro. É o cheiro do dendê espalhando-se pela casa. É a memória dos antepassados entrando pela porta junto com os convidados.

E, no centro de tudo isso, estão Cosme e Damião.

No dia 27 de setembro, a Bahia não celebra apenas dois santos reconhecidos pela tradição católica. Celebra uma das mais bonitas expressões de sua própria formação cultural.

Em 2024, o Governo da Bahia reconheceu oficialmente o Caruru de São Cosme e São Damião como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado. O reconhecimento não foi apenas uma homenagem burocrática. Foi a confirmação institucional de algo que o povo baiano já sabia há muitas gerações: essa festa pertence à memória cultural da Bahia.

Entre santos, orixás e resistência

E aqui começa uma história muito mais profunda.

Porque Cosme e Damião, na cultura popular baiana, atravessaram as fronteiras entre o catolicismo e as religiões de matriz africana.

Na tradição afro-brasileira, os santos gêmeos passaram a ser associados aos Ibejis, divindades ligadas à infância, à alegria e à ideia de proteção. É justamente nesse encontro entre diferentes universos religiosos que nasceu uma das manifestações mais características da religiosidade baiana.

“Alguns chamam isso de sincretismo. Eu prefiro enxergar como uma história de resistência.”

Porque o povo negro trazido violentamente da África não chegou ao Brasil sem Deus, sem memória e sem cultura. Trouxe consigo uma visão de mundo, seus orixás, seus ancestrais, seus ritmos, seus sabores, seus modos de celebrar e sua relação sagrada com a natureza e com a comunidade.

Aqui encontrou uma sociedade que lhe impôs outra religião.

E o que fez?

Não simplesmente abandonou aquilo que trazia.
Guardou.
Recriou.
Adaptou.
Protegeu.

E, muitas vezes, encontrou nos santos católicos uma maneira de preservar referências religiosas africanas em uma sociedade que durante séculos perseguiu as manifestações de matriz africana.

Cosme e Damião passaram, assim, a fazer parte dessa complexa linguagem religiosa que a Bahia soube construir.

Uma linguagem em que a fé católica pode estar presente ao lado do culto aos orixás.

Uma linguagem em que uma imagem de santo pode dividir espaço com símbolos de outra tradição.

Uma linguagem em que rezar não significa necessariamente abandonar a ancestralidade.

Essa é uma das grandes riquezas da cultura baiana.

O caruru como memória viva

E é justamente por isso que o caruru não pode ser reduzido a um simples prato típico.

O caruru é comida, mas também é memória.
É culinária, mas também é religiosidade.
É festa, mas também é ancestralidade.
É partilha, mas também é identidade.
É o dendê carregando uma história que atravessou o Atlântico.
É a comida transformada em gesto de fé.
É uma mesa que deixa de ser apenas mesa e se transforma em território de encontro.

O próprio Estado da Bahia reconhece que as celebrações de Cosme e Damião apresentam diferentes formas pelo território baiano, envolvendo famílias, comunidades, rezas, sambas e práticas católicas e afro-brasileiras.

E talvez esteja justamente aí uma das maiores forças dessa tradição.

Ela não pertence somente ao terreiro.

Não pertence somente à igreja.

Não pertence somente a uma família.

Ela pertence à cultura popular.

A Bahia é feita de encontros

Na Bahia, a tradição se espalha de Salvador ao Recôncavo, das cidades grandes às pequenas comunidades do interior.

E quando chegamos ao Recôncavo Baiano, percebemos ainda mais claramente essa extraordinária capacidade de diálogo entre religiosidade, música, comida e ancestralidade.

O samba de roda, por exemplo, está historicamente relacionado às tradições afro-brasileiras e aparece associado às festas de São Cosme e Damião e também a momentos posteriores aos rituais para caboclos nos terreiros de candomblé. O IPHAN reconhece o Samba de Roda do Recôncavo como patrimônio cultural, e a UNESCO o reconheceu como patrimônio mundial.

É impossível compreender a Bahia sem compreender essa mistura.

A Bahia é feita de encontros.
Encontro entre África e Brasil.
Encontro entre o sagrado e o cotidiano.
Encontro entre o terreiro e a rua.
Encontro entre o catolicismo popular e as religiões de matriz africana.
Encontro entre a comida e a oração.
Encontro entre a memória dos mortos e a alegria dos vivos.

E Cosme e Damião são uma das expressões mais bonitas desse encontro.

O preconceito que ainda resiste

Mas existe outra questão que não podemos esconder debaixo do tapete: o preconceito.

Ainda existe gente que olha para o caruru e enxerga algo que deveria ser rejeitado. Ainda existem famílias que têm medo de assumir determinadas tradições. Ainda existem pessoas que escondem sua relação com o terreiro para evitar julgamento. Ainda existe racismo religioso.

“Combater esse preconceito não significa obrigar ninguém a acreditar em determinada religião. Significa defender o direito de cada pessoa viver sua fé, sua cultura e sua tradição.”

A Constituição protege a liberdade religiosa.

A cultura brasileira nasceu de muitas matrizes.

E a Bahia, talvez mais do que qualquer outro estado brasileiro, carrega no próprio corpo essa mistura.

Uma panela carregada de história

Por isso, quando uma criança recebe um prato de caruru, não está apenas recebendo comida.

Está recebendo uma história.

Quando uma família realiza sua festa, está transmitindo uma memória.

Quando um terreiro preserva seus cânticos, seus ritos e seus saberes, está mantendo viva uma parte da história brasileira.

Quando uma baiana prepara o caruru, há muito mais do que gastronomia naquela panela.

Há África.
Há Brasil.
Há Bahia.
Há resistência.
Há ancestralidade.
E há futuro.

Por isso considero importante o reconhecimento oficial do Caruru de São Cosme e São Damião como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia.

Patrimônio não é apenas aquilo que colocamos atrás de uma vitrine.

Patrimônio é aquilo que uma comunidade reconhece como parte de sua própria existência.

E o caruru continua vivo justamente porque o povo o pratica.

O IPAC atualmente registra o Caruru de São Cosme e São Damião tanto entre os saberes e modos de fazer quanto entre os eventos e celebrações reconhecidos como patrimônio cultural da Bahia.

Vitória da Conquista também tem sua história

E Vitória da Conquista também tem sua história para contar.

Em 2025, a Câmara Municipal registrou publicamente a importância da tradição de Cosme e Damião para a cidade e anunciou a intenção de reconhecer o caruru como patrimônio cultural imaterial municipal. O debate recuperou inclusive a memória do antigo Mercadão Fernando Espíndola, historicamente associado às celebrações.

Isso mostra que a história não está somente em Salvador.

Está também no sertão.
Está no sudoeste.
Está nas pequenas cidades.
Está nas casas simples.
Está nas cozinhas.
Está nas comunidades.
Está nos terreiros.

Está na memória das mulheres que aprenderam com suas mães e avós como preparar a comida.

Está nas crianças que continuam esperando pelos doces.

Está nos mais velhos que contam como era antigamente.

É assim que uma cultura sobrevive.

Não apenas através de livros.

Mas através da transmissão de uma geração para outra.

A fé também pode morar numa panela

Talvez seja essa a grande lição de Cosme e Damião.

A fé não é somente aquilo que ensinamos nos templos.

A fé também pode morar numa panela.
Pode morar numa cantiga.
Pode morar numa dança.
Pode morar numa criança.
Pode morar numa mesa onde todos comem juntos.
E pode morar numa tradição que sobreviveu apesar de séculos de preconceito.

Como sacerdote que conheceu profundamente a tradição católica, mas que também aprendeu a olhar para a sociedade para além dos muros institucionais, vejo nessa história uma extraordinária manifestação da capacidade humana de preservar aquilo que considera sagrado.

A Bahia não destruiu suas diferenças.

Aprendeu, muitas vezes, a conviver com elas.

É claro que essa convivência nunca foi perfeita.

Houve perseguição. Houve intolerância. Houve violência. Houve tentativa de apagar memórias.

Mas a cultura de terreiro resistiu.

Aquilo que a intolerância não conseguiu apagar

E talvez seja justamente por isso que hoje possamos olhar para uma mesa de caruru e perceber nela muito mais do que um prato tradicional.

Ali existe uma parte da história do Brasil.

Ali existe a África que o Brasil tentou apagar e não conseguiu.

Ali existe a criatividade de um povo que transformou dor em cultura.

Ali existe a ancestralidade transformada em festa.

Ali existe uma Bahia que não cabe em discursos preconceituosos.

“Compreender Cosme e Damião na Bahia é compreender um pouco da própria Bahia. E compreender a Bahia é compreender uma parte essencial da alma brasileira.”

E quando chega o dia 27 de setembro, quando Cosme e Damião voltam a ocupar as casas, as ruas, as igrejas, os terreiros e as mesas da Bahia, talvez devêssemos olhar para essa tradição com menos preconceito e mais conhecimento.

Porque compreender Cosme e Damião na Bahia é compreender um pouco da própria Bahia.

E compreender a Bahia é compreender uma parte essencial da alma brasileira.


Viva Cosme e Damião!
Viva os Ibejis!
Viva a cultura popular!
Viva a ancestralidade africana que ajudou a construir o Brasil!

E que nunca nos falte coragem para defender aquilo que a intolerância tentou destruir, mas que a memória do nosso povo conseguiu preservar.

Padre Carlos

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