
Um contraponto ao artigo do professor Durval Menezes, publicado no Política e Resenha
O
professor Durval Menezes, em texto recente publicado neste mesmo Política e Resenha, defendeu que a fama de Vitória da Conquista como cidade historicamente violenta seria, em boa medida, um exagero — uma narrativa que se acumulou ao longo das décadas mais por repetição do que por lastro histórico. É uma tese respeitável, construída com o rigor de quem conhece a cidade e sua historiografia. Mas há quem discorde, e a discordância, quando fundamentada, é a própria matéria-prima do conhecimento histórico. Paulo Nunes, conquistense de nascimento e de memória, apresenta aqui um contraponto: não para desqualificar o professor, mas para lembrar que a história de uma cidade não é uma coisa só, e que a memória oral de seu povo carrega camadas que os arquivos institucionais nem sempre registram.
Convém, antes de tudo, separar duas violências que não devem ser confundidas. A de hoje — ligada ao tráfico, ao crime organizado, à circulação de mercadoria roubada que se dilui no comércio urbano sem que ninguém pergunte a origem — é filha de um tempo novo, com lógicas próprias, nacionais, que Vitória da Conquista compartilha com centenas de outras cidades brasileiras. A de ontem era outra: pessoal, doméstica, movida por honra, por terra, por ciúme de poder. Confundir as duas é perder de vista que ambas, cada uma a seu modo, compõem a mesma linha do tempo de uma cidade que jamais foi, segundo a memória de seus mais velhos, um remanso de paz.
“Toda cidade que cresceu rápido, no sertão, criou seus próprios códigos de justiça — e quase sempre esses códigos favoreceram quem já tinha poder.” — é essa, em essência, a memória que Paulo Nunes traz à mesa: não a de uma cidade excepcionalmente cruel, mas a de uma cidade onde a violência, por muito tempo, teve endereço certo e impunidade garantida.
O coronelismo, herança que o sertão baiano compartilhou com quase todo o interior do Brasil, não foi apenas um sistema de trocas de favores políticos — foi, na lembrança de muita gente que viveu aquele tempo, um sistema de proteção que se estendia sobre quem tinha nome de família forte e se recolhia sobre quem não tinha. As disputas por terra, tão comuns no processo de povoamento e expansão agropecuária da região, frequentemente extrapolavam os limites do cartório e chegavam à bala — e a memória popular guarda, com nomes que hoje se preserva por respeito às famílias, episódios de vingança que nunca viraram processo, porque o processo, naquele tempo, era outro instrumento de poder, não de justiça.
Há também, na memória oral conquistense, uma camada mais sombria: a intolerância. Vitória da Conquista, como tantas cidades do interior brasileiro do século XX, guardou episódios de violência extrema contra homossexuais — crimes que jamais foram esclarecidos, que circularam por gerações como sussurro e não como sentença judicial, e que por isso mesmo talvez nunca entrem nas estatísticas oficiais, mas seguem vivos na lembrança de quem os testemunhou ou ouviu contar. É próprio da intolerância histórica esse padrão: o crime acontece, a cidade sabe, e a justiça formal olha para o outro lado.
Um detalhe da memória popular conquistense ilustra bem essa engrenagem: fala-se, entre os mais antigos, de uma prática na delegacia da cidade em que as queixas eram registradas em dois livros distintos — um para os casos comuns, outro, dizem, reservado às ocorrências envolvendo famílias de posse, cujo desfecho raramente era a punição. Verdade documental ou lenda urbana que carrega uma verdade maior, o relato sobrevive porque descreve, com precisão simbólica, como funcionava a impunidade num sertão onde a lei escrita convivia com uma lei não escrita — e mais forte.
As famílias tradicionais, por sua vez, não exerciam apenas influência econômica: exerciam, na lembrança de quem cresceu sob sua sombra, uma espécie de jurisdição paralela. Sabia-se, na Vitória da Conquista de décadas passadas, quais nomes não se contrariava, quais famílias tinham a força de calar um inquérito ou de proteger quem as servia. A Guarda Municipal, mais numerosa e mais temida, em certos períodos, do que a própria Polícia Militar, é lembrada por muitos como braço armado dessa ordem informal — um poder que, segundo o relato de quem viveu aquele tempo, ultrapassava com frequência os limites da lei que deveria fazer cumprir.
E há, por fim, a origem mais funda de tudo: Vitória da Conquista nasceu, como tantas cidades do interior brasileiro, de um processo de expansão sobre terras indígenas marcado por confronto e violência. Reconhecer essa origem não é golpear a cidade — é apenas devolver-lhe a complexidade de uma formação histórica que, como a de quase todo o Brasil profundo, mistura fé, trabalho, coragem e sangue.
Nada disso diminui Vitória da Conquista. Cidades não são julgadas pelo que sofreram ou pelo que causaram no passado, mas pela maneira como aprendem a lidar com sua própria memória. Reconhecer que houve violência — coronelismo, impunidade, intolerância, crimes sem solução — não é desmerecer o povo conquistense; é, ao contrário, prestar-lhe a homenagem mais honesta possível: a de contar sua história inteira, sem os retoques que apagam o que dói, para que as próximas gerações compreendam de onde vieram e o que ainda precisam superar. Entre a leitura do professor Durval Menezes e a memória de Paulo Nunes não há necessariamente contradição irreconciliável — há, isso sim, duas lentes legítimas sobre o mesmo passado, e é do encontro dessas lentes que nasce a história mais completa que uma cidade pode contar sobre si mesma.
Memória Conquistense
Coronelismo
Sertão Baiano
História de Vitória da Conquista
Paulo Nunes
Este artigo expressa exclusivamente a interpretação histórica e as memórias de Paulo Nunes, constituindo um contraponto ao artigo publicado pelo professor Durval Menezes no blog Política e Resenha. O objetivo é contribuir para o debate plural sobre a história de Vitória da Conquista, reconhecendo que diferentes leituras podem coexistir no campo da pesquisa histórica e da memória social.




