Opinião
Sobre a coragem silenciosa de duas pessoas que escolhem, todos os dias, continuar escolhendo-se
Quantos casamentos você conhece que ainda respiram? Não os que sobrevivem por hábito ou por medo da solidão — mas os que, depois de vinte, trinta anos, ainda se olham como quem escolheu ficar. Poucos, não é? E talvez isso não seja acaso. Talvez seja porque confundimos amor com sentimento, quando na verdade ele é, antes de tudo, uma obra de engenharia — construída pedra sobre pedra, por mãos que sabem exatamente o que estão fazendo.
Oamor é uma construção inteligente de duas pessoas sábias. Não uma faísca que cai do céu, não um raio que atinge dois desconhecidos e os condena a uma felicidade automática. É antes um projeto — desenhado, revisado, reconstruído sempre que uma parede racha. Duas pessoas que decidem, com os olhos abertos, ser amigas, companheiras, cúmplices, camaradas e boas amantes. Cada uma dessas palavras carrega um andaime diferente da mesma casa, e é preciso habitar todos os cômodos para que a construção não desabe com a primeira tempestade.
Conheci, há anos, um casal de lavradores do sertão baiano. Ele tinha as mãos rachadas pelo sol; ela, o rosto marcado pelas noites de vigília com os filhos doentes. Perguntei ao velho, certa vez, qual era o segredo de quarenta e dois anos de casamento. Ele não falou de paixão. Olhou para a roça, como quem mede o tempo pelas colheitas, e respondeu: “Todo dia a gente escolhe ficar.” Não disse que o amor durou. Disse que os dois o escolheram, manhã após manhã, como quem planta sabendo que a terra não devolve nada sem trabalho.
A ilusão do amor-destino
Nossa cultura sentimental — alimentada por novelas, canções e algoritmos de aplicativos de namoro — vendeu-nos a fantasia do amor-destino: aquele que acontece a você, como um acidente feliz, e que dura sozinho, por força própria, sem que ninguém precise erguer um dedo. É uma mentira confortável, mas devastadora. Porque quando a rotina desgasta o encanto inicial — e ela sempre desgasta —, quem acreditou no destino se sente traído. Acha que “o amor acabou”, quando na verdade nunca houve ali uma construção capaz de sustentar peso algum. Havia apenas fascínio, que é coisa de início, não de travessia.
Os dados da psicologia relacional confirmam o que os avós já sabiam sem diploma: pesquisas sobre longevidade conjugal, como as conduzidas por décadas na Universidade de Washington, apontam repetidamente que não é a ausência de conflito que sustenta um casamento, mas a forma como o casal repara o vínculo depois da briga. Não é o brilho dos olhos no primeiro encontro. É a capacidade de, depois do erro, do silêncio pesado, da palavra dita com raiva, os dois se sentarem à mesma mesa e decidirem, de novo, ficar.
“O amor que dura não é o que nunca tropeça. É aquele em que os dois, depois de cada queda, se levantam e estendem a mão um para o outro — não por obrigação, mas por escolha renovada.”
Amigos antes de amantes
Há algo de profundamente contracultural em afirmar que o amor exige, primeiro, amizade. Vivemos tempos em que o desejo é hierarquizado acima de tudo — e o desejo, por sua própria natureza, é ondulante: sobe, desce, se ausenta em fases de cansaço, doença, luto. Quem construiu o amor apenas sobre o desejo constrói sobre areia movediça. Mas quem cultivou, ao lado do desejo, uma amizade verdadeira — aquela que ri das mesmas bobagens, que guarda segredos, que defende o outro mesmo quando discorda dele em particular — esse tem um chão sob os pés quando a maré do desejo baixa, como sempre baixa.
E há mais: a cumplicidade. Ser cúmplice é escolher o mesmo time, mesmo quando o time erra. É camaradagem que atravessa contas atrasadas, diagnósticos inesperados, filhos que decepcionam, sonhos que não vingam. É amor que não terceiriza a lealdade para os dias fáceis.
O ponto de virada
Talvez o momento mais decisivo de qualquer relação não seja o dia do casamento, nem o nascimento do primeiro filho. Seja aquela manhã anônima, sem data marcada no calendário, em que os dois acordam cansados, desiludidos, tentados a desistir — e, mesmo assim, sem aplausos e sem testemunhas, escolhem ficar. É nesse instante invisível, repetido em milhões de casas, que o amor deixa de ser sentimento e se torna caráter.
Não é romantismo ingênuo dizer isso. É, antes, um ato de resistência. Numa época em que tudo se descarta ao primeiro desconforto — o emprego, o aplicativo, o parceiro —, escolher permanecer é quase um gesto revolucionário. Não por masoquismo, não por medo de estar só, mas porque duas pessoas sábias entendem que toda construção duradoura exige manutenção: pintura nova quando o tempo desbota a parede, reparo quando a fundação treme, paciência quando o outro está em sua pior versão.
Escolher-se todas as manhãs
Se há uma frase que resume o que estas linhas tentam dizer, é esta: o amor que dura é o que se escolhe todas as manhãs. Não porque os problemas desapareçam — eles nunca desaparecem, apenas mudam de forma, de doença em doença, de crise em crise, de silêncio em silêncio — mas porque duas pessoas decidem, com lucidez e ternura, caminhar juntas apesar deles. Não por ingenuidade. Por sabedoria.
É por isso que envelhecer ao lado de alguém que continua escolhendo você — e que você continua escolhendo — é talvez a forma mais silenciosa e mais profunda de heroísmo que a vida oferece. Não sai nos jornais. Não rende medalhas. Mas sustenta o mundo, uma manhã de cada vez.
O amor não se encontra. Constrói-se. E quem o constrói bem, constrói também a si mesmo.
Sociedade
Reflexão
Padre Carlos Josaphat — Teólogo, sacerdote e colunista político — Política e Resenha





