Política e Resenha

A Quaresma de São Miguel

Quarenta dias para vencer as batalhas que ninguém vê

por Padre Carlos

Há batalhas que travamos diante dos olhos do mundo e há outras que ninguém vê. Existem lutas contra as circunstâncias da vida, contra as injustiças, contra as perdas, contra as decepções. Mas existem também combates que acontecem dentro de nós: contra o medo, o desânimo, a tentação, o orgulho, a desesperança e tudo aquilo que pouco a pouco pode nos afastar de Deus.

É nesse território invisível da alma que a Quaresma de São Miguel Arcanjo ganha um significado particularmente profundo.

A tradição consiste em dedicar quarenta dias à oração e à penitência, culminando na festa de São Miguel, São Gabriel e São Rafael, celebrada em 29 de setembro. Mais do que uma prática devocional, para milhões de católicos esse período representa uma oportunidade de parar, silenciar o coração e reencontrar o caminho da fé.

E essa tradição tem uma ligação muito bonita com São Francisco de Assis.

A herança de São Francisco

Francisco tinha uma profunda devoção ao Arcanjo São Miguel. Depois da festa da Assunção de Nossa Senhora, costumava dedicar um período especial à oração e ao jejum em sua honra. Era uma experiência de recolhimento, penitência e busca de Deus.

Foi justamente durante um desses períodos de oração que aconteceu um dos episódios mais extraordinários da vida de São Francisco.

Em 1224, no Monte Alverne, Francisco viveu uma experiência mística na qual contemplou Cristo crucificado de maneira extraordinária e recebeu em seu próprio corpo os estigmas, as marcas da Paixão de Cristo.

A tradição franciscana guarda esse acontecimento como uma das expressões mais profundas da identificação de Francisco com Jesus. Aquele homem que havia escolhido a pobreza, a simplicidade e o Evangelho terminou carregando no próprio corpo os sinais daquele que amava.

Há algo profundamente simbólico nisso.

Francisco não procurava uma religião de privilégios. Procurava uma religião de transformação. Não queria simplesmente falar de Cristo; queria aproximar sua própria vida da vida de Cristo.

E talvez essa seja uma das grandes mensagens escondidas na Quaresma de São Miguel.

Do que precisamos ser protegidos?

Nós podemos pedir proteção a São Miguel, mas também precisamos perguntar: do que precisamos ser protegidos?

Talvez seja do ódio que carregamos.

Da mágoa que não conseguimos abandonar.

Da vaidade que alimentamos.

Da necessidade de sempre ter razão.

Da inveja silenciosa.

Do ressentimento.

Da desesperança.

Daquilo que sabemos que precisamos mudar, mas continuamos adiando.

São Miguel, na tradição cristã, aparece como aquele que combate o mal e permanece fiel a Deus. Seu nome significa uma pergunta que atravessa os séculos: “Quem como Deus?”

Não é apenas uma frase. É uma profissão de fé.

É reconhecer que nenhuma força humana, nenhum poder político, nenhuma riqueza, nenhuma autoridade e nenhuma ambição pode ocupar o lugar de Deus.

Vivemos em uma época marcada por ansiedade, conflitos, polarização, intolerância e excesso de informações. Temos acesso a praticamente tudo, mas muitas vezes não conseguimos encontrar silêncio. Conversamos com milhares de pessoas pelas redes sociais, mas frequentemente temos dificuldade de conversar com a nossa própria consciência.

Por isso, quarenta dias de oração podem ser também quarenta dias de silêncio interior.

Quarenta dias para diminuir o barulho.

Quarenta dias para examinar a própria consciência.

Quarenta dias para pedir perdão.

Quarenta dias para agradecer.

Quarenta dias para reaprender a confiar.

Uma oração que termina em conversão

A penitência cristã não deveria ser compreendida apenas como sofrimento ou privação. Ela é, antes de tudo, um exercício de liberdade. É aprender que nem tudo aquilo que desejamos precisa ser imediatamente satisfeito.

É dizer ao próprio coração: eu não sou escravo dos meus desejos.

E quando rezamos a São Miguel, não estamos simplesmente pedindo que um guerreiro celestial lute por nós. Estamos reconhecendo que existe uma dimensão espiritual da existência e que precisamos permanecer vigilantes diante do mal.

A oração de consagração a São Miguel expressa exatamente isso.

Nela, colocamos nossa própria vida, nossa família e aquilo que possuímos sob a proteção do Arcanjo. Pedimos auxílio para vencer nossas fraquezas, alcançar o perdão, amar a Deus, seguir Jesus Cristo e permanecer sob a proteção de Maria Santíssima.

É uma oração que começa falando de proteção, mas termina falando de conversão.

E talvez essa seja a parte mais importante.

Porque não adianta pedir que Deus mude o mundo se não permitimos que Ele comece mudando alguma coisa dentro de nós. Não adianta pedir proteção contra os inimigos se continuamos cultivando inimigos dentro do próprio coração.

Não adianta pedir a vitória contra o mal se não estamos dispostos a abandonar aquilo que nos aproxima dele.

O exemplo de Francisco

A espiritualidade cristã nunca foi apenas uma fuga do mundo. Ela é uma maneira diferente de permanecer no mundo.

São Francisco entendeu isso profundamente.

Ele não venceu suas batalhas acumulando poder. Venceu-as pela humildade.

Não buscou riqueza. Abraçou a pobreza.

Não procurou dominar os outros. Procurou servir.

Não respondeu à violência com violência. Tornou-se instrumento de paz.

Por isso, talvez a verdadeira Quaresma de São Miguel não seja apenas aquela que fazemos durante quarenta dias. Talvez ela precise continuar dentro de nós depois que chega o dia 29 de setembro.

Porque o maior combate não acontece no calendário.

Acontece diariamente.

Cada manhã nos apresenta uma escolha. Podemos alimentar a raiva ou cultivar a paz. Podemos escolher o ressentimento ou o perdão. Podemos alimentar o ego ou praticar a humildade. Podemos sucumbir ao medo ou renovar a esperança.

São Miguel nos recorda que a vida também é combate.

Mas o cristão não combate sozinho.

Combate sustentado pela fé, pela oração, pela esperança e pela certeza de que o mal não tem a última palavra.

Uma pergunta para levar conosco

Por isso, ao concluir estes quarenta dias, talvez devêssemos levar conosco uma pergunta simples e profunda:

O que mudou dentro de mim?

Se a resposta for nada, talvez tenhamos apenas contado quarenta dias.

Mas se a oração nos tornou mais pacientes, mais humildes, mais capazes de perdoar, mais próximos de Deus e mais comprometidos com o bem, então a Quaresma de São Miguel realmente cumpriu seu propósito.

Que São Miguel Arcanjo proteja nossas famílias, fortaleça nossa fé, nos ajude nas batalhas da vida e nos ensine a permanecer firmes diante do mal.

E que, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis, possamos compreender que a maior vitória não é derrotar alguém. A maior vitória é permitir que Deus vença dentro de nós aquilo que ainda precisa ser transformado.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate.

Para que não pereçamos no supremo juízo.

Amém.

Oração de Consagração a São Miguel Arcanjo

“Ó Príncipe nobilíssimo dos Anjos, valoroso guerreiro do Altíssimo, zeloso defensor da glória do Senhor, terror dos espíritos rebeldes, amor e delícia de todos os Anjos justos, meu diletíssimo Arcanjo São Miguel, desejando eu fazer parte do número dos vossos devotos e servos, a vós hoje me consagro, me dou e me ofereço e ponho-me a mim próprio, a minha família e tudo o que me pertence debaixo da vossa poderosíssima proteção.

É pequena a oferta do meu serviço, sendo como sou um miserável pecador, mas vós engrandecereis o afeto do meu coração; recordai-vos que de hoje em diante estou debaixo do vosso sustento e deveis assistir-me em toda a minha vida e obter-me o perdão dos meus muitos e graves pecados, a graça de amar a Deus de todo o coração, ao meu querido Salvador Jesus Cristo e à minha Mãe Maria Santíssima, obtende-me aqueles auxílios que me são necessários para obter a coroa da eterna glória.

Defendei-me dos inimigos da alma, especialmente na hora da morte. Vinde, ó príncipe gloriosíssimo, assistir-me na última luta e, com a vossa arma poderosa, lançai para longe, precipitando nos abismos do inferno, aquele anjo quebrador de promessas e soberbo que um dia prostrastes no combate no Céu.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para que não pereçamos no supremo juízo.”

Amém.

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Escrito por Padre Carlos