Política e Resenha · 27 de outubro de 2026
Por Padre Carlos
Hoje, 27 de outubro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva completa 81 anos. E há datas que não pertencem apenas ao calendário: pertencem à memória de um povo, às páginas da história e às perguntas que uma nação ainda precisa responder sobre si mesma.
Hoje é o aniversário de um homem cuja trajetória começou longe dos palácios, dos gabinetes presidenciais e das solenidades do poder. Começou no Nordeste brasileiro, no seio de uma família humilde, sob o olhar de dona Lindu, sua mãe, e no horizonte de um menino que ainda não sabia que a vida o levaria a atravessar algumas das mais profundas contradições do Brasil.
Ele não nasceu entre os privilegiados. Não recebeu como herança um sobrenome poderoso, grandes propriedades ou os caminhos abertos das elites. Sua história foi construída entre dificuldades, trabalho, derrotas, esperanças e recomeços.
Da estrada à fábrica
Lula nasceu em Pernambuco, em 27 de outubro de 1945. Ainda criança, deixou sua terra natal com a família, em busca de melhores condições de vida em São Paulo. Aquela viagem não foi apenas o deslocamento de uma família nordestina. Foi também o retrato de um Brasil no qual milhões de pessoas precisavam abandonar suas raízes para tentar encontrar oportunidades que lhes eram negadas em sua própria terra.
Naquela estrada, seguiam muitos Brasis. Seguiam as mães que carregavam os filhos, os trabalhadores que procuravam emprego, as crianças que amadureciam antes do tempo e as famílias que aprenderam a transformar a necessidade de sobreviver em coragem para recomeçar.
O menino cresceu. Tornou-se torneiro mecânico. Conheceu o barulho das máquinas, o cansaço das jornadas de trabalho e a dureza de uma vida em que quase tudo precisava ser conquistado com o próprio esforço.
Foi no mundo do trabalho que sua história começou a ganhar uma dimensão coletiva. Lula descobriu que a dor de um trabalhador não era apenas sua, que a luta por melhores salários não se separava da luta por dignidade e que a voz de um homem podia adquirir outra força quando se unia à voz de milhares.
Nas greves do ABC paulista, durante a ditadura militar, sua liderança encontrou espaço. Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. Vieram as campanhas eleitorais, as derrotas, as críticas, os recomeços e, finalmente, a vitória presidencial de 2002. Em janeiro de 2003, o antigo operário assumiu a Presidência da República.
O instante simbólico
Imagino aquele momento.
Não apenas o homem que chegava ao poder, mas tudo aquilo que caminhava com ele: a lembrança da infância difícil, a presença de dona Lindu, a memória dos trabalhadores, as derrotas eleitorais e a persistência de quem se recusou a considerar encerrada a própria história.
Perguntas que a data nos faz
Quantas vidas cabiam simbolicamente naquele instante?
Quantas mães brasileiras poderiam olhar para aquela cena e pensar nos próprios filhos? Quantos trabalhadores poderiam sentir que alguém vindo de um universo semelhante ao seu havia chegado ao lugar de onde se tomam decisões que afetam milhões de pessoas?
É nesse ponto que a biografia ultrapassa seus limites e se transforma em símbolo.
Um mito político contemporâneo
Em meu artigo A Dimensão Simbólica de Lula, publicado no Política e Resenha, procurei refletir sobre essa passagem do homem à representação coletiva. O antropólogo Claude Lévi-Strauss nos ajuda a compreender como os mitos oferecem às sociedades narrativas para interpretar suas contradições, enfrentar suas angústias e imaginar possibilidades de superação.
É nesse sentido que podemos compreender Lula como um mito político contemporâneo: não como um homem infalível, acima das críticas, mas como uma figura cuja trajetória adquiriu significados que ultrapassam sua própria biografia.
Para milhões de brasileiros, Lula representa a possibilidade de atravessar fronteiras sociais que pareciam intransponíveis. Sua origem popular tornou-se parte de uma narrativa sobre um país que deseja ser menos desigual, menos indiferente à pobreza e menos prisioneiro dos privilégios de nascimento.
Isso não significa transformar um político em santo ou fazer de sua história uma epopeia sem contradições. A política é humana demais para permitir tamanha simplificação. Lula tem decisões que merecem reconhecimento, escolhas que precisam ser discutidas e contradições que devem permanecer abertas ao julgamento da história.
Há brasileiros que admiram sua trajetória e reconhecem em seus governos avanços sociais importantes. Outros rejeitam seu projeto político, criticam suas decisões e questionam seu legado. Essa diversidade de interpretações faz parte da democracia e precisa ser respeitada.
Biografia e memória coletiva
Mas a dimensão simbólica de Lula não pode ser compreendida apenas pela divisão entre admiradores e adversários. Ela também nasce do encontro entre uma história individual e a memória coletiva de um povo.
Quando Lula fala de pobreza, muitos brasileiros recordam a própria infância, a mesa que nem sempre teve comida suficiente, o pai que saía cedo para trabalhar, a mãe que multiplicava o pouco que possuía e os filhos que precisaram amadurecer antes do tempo.
Quando fala do Nordeste, não fala apenas de uma região geográfica. Para muitos, evoca uma história de migração, resistência e busca por dignidade.
Quando fala dos trabalhadores, desperta a memória de homens e mulheres que construíram fábricas, estradas, cidades e riquezas sem ocupar os espaços de decisão na mesma proporção em que ergueram o país.
Por isso, no dia em que Lula completa 81 anos, a data convida menos ao ufanismo do que à reflexão. Admirado ou criticado, ele é parte inseparável de uma história brasileira que continua sendo escrita — e que cada geração precisa aprender a ler com honestidade.
Que o aniversário seja ocasião de lembrar que nenhuma trajetória se explica sozinha: por trás de cada nome que a história guarda, há uma multidão que caminhou junto, quase sempre em silêncio.
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Padre Carlos — Colunista político — Política e Resenha





