Política e Resenha

A solidão da urna: por que o brasileiro decidiu não ouvir mais ninguém

Pesquisa Datafolha mostra que padres, pastores, jornalistas, amigos e até companheiros de cama perderam o púlpito que um dia tiveram sobre o voto presidencial. O eleitor brasileiro, ao que tudo indica, decidiu se trancar a sete chaves com sua própria consciência — e talvez seja tarde demais para lamentar isso.

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á um certo tipo de solidão que não se lamenta nas rodas de bar nem nos púlpitos de domingo, mas que uma pesquisa de opinião, com sua frieza estatística, consegue revelar melhor do que qualquer sociólogo de plantão. É a solidão do eleitor brasileiro diante da urna eletrônica de outubro. Segundo o mais recente levantamento do Datafolha, a maioria esmagadora dos brasileiros afirma, sem meias palavras, que a opinião de parentes, amigos próximos, jornalistas, influenciadores digitais e — atenção, isso é notável — líderes religiosos não terá absolutamente nenhuma influência na escolha do próximo presidente da República. Em todos os seis grupos testados pela pesquisa, sem exceção, “nenhuma influência” foi a resposta majoritária. O índice variou de 58%, no caso da imprensa, a expressivos 67% quando o assunto foram os líderes de igreja.

Não é pouca coisa. Durante décadas, o Brasil político foi descrito — e com razão — como uma nação de mediações: o compadre que orientava o voto da rua, o padre que sussurrava do altar, o líder sindical que arrebanhava a categoria, o apresentador de telejornal que fechava a noite com sua opinião disfarçada de fato. Pois bem: essa arquitetura de influências, que Getúlio Vargas soube tão bem manipular e que a Igreja Católica, depois as igrejas evangélicas, souberam tão bem converter em capital político, parece estar sendo silenciosamente desmontada pelo próprio eleitor, tijolo por tijolo, resposta por resposta.

Os números de uma autonomia proclamada

Entre os entrevistados que vivem relacionamento estável, 60% garantem que a opinião do companheiro ou da companheira não pesará nem um pouco na hora do voto — o que, convenhamos, diz muito sobre como o brasileiro protege sua intimidade política até da própria cama. Entre os que têm filhos com 16 anos ou mais, 61% afirmam a mesma coisa: nem a prole será ouvida. Amigos próximos e pessoas seguidas nas redes sociais empatam tecnicamente, com 62% de “nenhuma influência” cada — uma pista de que, no Brasil de 2026, a bolha do WhatsApp e a bolha do bar já se equivalem em irrelevância declarada.

Somadas as respostas “muita” e “um pouco” de influência, jornalistas e pessoas da imprensa chegam a 38% — o maior número entre os seis grupos testados. Mesmo assim, é uma minoria. A maioria do país decidiu, com uma espécie de orgulho silencioso, que decide sozinha.

Quando se isola apenas a resposta “muita influência” — a mais contundente das três opções oferecidas —, os números encolhem ainda mais: 21% para os filhos, 20% para os companheiros, 17% para jornalistas, 16% para amigos próximos, 15% para pessoas seguidas nas redes e apenas 13% para os líderes religiosos. As diferenças entre os primeiros colocados, é bom que se diga, ficam dentro da margem de erro — não há um campeão isolado da influência, há apenas graus distintos de irrelevância.

O padre, o pastor e o silêncio da nave

Como sacerdote e como colunista, permito-me deter um instante sobre o dado que mais me toca: os líderes religiosos, entre todos os grupos testados, são os que menos influenciam o voto presidencial. Apenas 23% dos brasileiros dizem que a opinião de seu padre, seu pastor ou sua liderança espiritual terá muita ou alguma influência sobre sua escolha em outubro. É um número que deveria provocar, nas sacristias e nos templos, mais reflexão do que indignação.

A diferença entre católicos e evangélicos, note-se, está dentro da margem de erro: 28% dos evangélicos e 24% dos católicos atribuem alguma influência a seus líderes religiosos. Não há, portanto, um cisma estatístico entre as duas grandes famílias de fé brasileiras nesse quesito — há, isso sim, um recuo comum, uma espécie de laicização silenciosa da consciência eleitoral, que atravessa igrejas e denominações por igual.

A influência dos líderes religiosos varia, isso sim, conforme a escolaridade e a região. Entre entrevistados com apenas o ensino fundamental, 30% reconhecem peso à opinião do púlpito — o dobro dos 15% registrados entre quem tem ensino superior. E, geograficamente, o Nordeste segue sendo a região onde a voz religiosa ainda ecoa com mais força: 29% de influência declarada, contra 20% no Sudeste e apenas 14% no Sul.

Há, nessa geografia da fé, uma pista importante para quem, como este colunista, escreve do sertão baiano: a religiosidade nordestina ainda carrega um componente comunitário e público que o Sul, mais urbano e mais individualizado, já dissolveu quase por completo. Não é que o Nordeste seja mais devoto — é que, aqui, a fé ainda se pratica em praça pública, e não apenas dentro do peito.

Lula, Bolsonaro e a imprensa como bode expiatório

Um dado, porém, merece ser lido com a lupa do historiador, não apenas do estatístico: entre os que votaram em Lula no segundo turno de 2022, 41% dizem que jornalistas e pessoas da imprensa terão muita ou alguma influência no voto deste ano; entre os eleitores de Bolsonaro, esse número cai para 33%. A diferença supera as margens de erro dos dois grupos. Não é exagero dizer que o bolsonarismo, depois de uma década de guerra discursiva contra a “grande mídia”, conseguiu aquilo que talvez fosse seu maior objetivo simbólico: convencer sua própria base de que a imprensa simplesmente não conta mais.

É digno de nota, ainda, — e aqui friso a diferença de gênero — que a opinião de amigos próximos pesa mais para os homens (40%) do que para as mulheres (31%), padrão que se repete quase que identicamente entre pessoas seguidas nas redes sociais (36% contra 29%). Se há uma masculinidade digital brasileira, ela parece mais suscetível ao coro dos pares do que a feminilidade digital, que declara maior blindagem.

O pano de fundo: Lula na frente, sem arrependimento

Convém situar esses números num quadro maior. A mesma rodada do Datafolha mostra Lula com 48% das intenções de voto contra 43% de Flávio Bolsonaro numa simulação de segundo turno — cenário estável em relação a junho. A avaliação do governo também permanece parada: 38% consideram a gestão ruim ou péssima, 32% ótima ou boa, 28% regular. É um Brasil empatado consigo mesmo, sem grandes sobressaltos, mas também sem grandes esperanças de reconciliação.

E há, por fim, um dado que talvez explique por que ninguém mais quer ouvir ninguém: entre quem votou em Lula ou Bolsonaro em 2022, 92% dizem não se arrepender da escolha — 90% entre os lulistas, 94% entre os bolsonaristas. Um país onde quase todo mundo tem certeza de que acertou não é um país disposto a se deixar convencer do contrário. A polarização brasileira não é mais um debate: é uma identidade. E identidade, como sabe qualquer teólogo pastoral, não se discute — professa-se.

A urna como confessionário

Talvez estejamos diante de um fenômeno que Eduardo Galeano chamaria de “a solidão que se disfarça de liberdade”. O eleitor brasileiro de 2026 quer decidir sozinho — ou, ao menos, quer que se saiba que decidiu sozinho. É uma reação, compreensível, a anos de bombardeio informacional, de família dividida à mesa de domingo, de grupo de WhatsApp que virou campo de batalha, de pastor que virou cabo eleitoral, de repórter que virou personagem da própria matéria. Cansado de ser puxado por todos os lados, o brasileiro ergueu um muro em torno de sua urna e decidiu, ao menos no discurso, que ali dentro manda ele.

Resta saber se essa autonomia declarada é real ou apenas uma nova forma de vaidade democrática — a vaidade de quem quer se ver como sujeito livre de um processo que, na prática, continua sendo moldado por algoritmos, púlpitos e manchetes que agem sobre nós de maneiras que nem sempre conseguimos nomear. A história brasileira ensina que a influência, quando não vem de cima, vem de lado; quando não vem da igreja, vem da tela do celular. O que a pesquisa Datafolha realmente documenta, talvez, não seja o fim da influência — mas o fim da influência confessada.

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*Com informações de Laura Intrieri/Folhapress

Padre Carlos  — Teólogo, Filósofo e colunista político — Política e Resenha