
Padre Carlos
A política não perdoa improvisos — e tampouco recompensa ingenuidades. O anúncio da chapa liderada por ACM Neto, marcado para esta segunda-feira em Feira de Santana, não é apenas um ato formal de campanha. É, antes de tudo, um movimento calculado em um jogo de xadrez onde cada peça carrega o peso de regiões, interesses e expectativas.
Feira de Santana não foi escolhida por acaso. Segunda maior cidade da Bahia, entroncamento econômico e político, ela simboliza o coração estratégico do estado — o ponto onde o interior dialoga com a capital. Ao levar o anúncio para lá, Neto tenta enviar uma mensagem clara: sua candidatura não pertence apenas a Salvador, mas quer se enraizar no interior profundo, onde historicamente se decidem eleições.
A escolha de Zé Cocá como vice-governador é, nesse sentido, uma jogada de inteligência regional. Prefeito de Jequié, Cocá representa uma liderança consolidada no interior, com capilaridade política e capacidade de diálogo com bases que muitas vezes se sentem esquecidas pelo poder central. Sua presença na chapa não é apenas simbólica — é uma tentativa de territorializar votos e reduzir a distância entre discurso e realidade.
Mas é na composição para o Senado que o desenho político revela suas tensões mais profundas. A presença de Angelo Coronel e João Roma expõe uma engenharia política ousada — e, ao mesmo tempo, arriscada. Coronel, experiente e já inserido nas engrenagens do poder, traz densidade institucional. Roma, por sua vez, carrega consigo um eleitorado mais alinhado ao bolsonarismo e a uma direita ideológica mais definida.
A pergunta que se impõe é inevitável: essa aliança soma ou tensiona?
Na política baiana, alianças amplas sempre foram a regra. Mas há uma linha tênue entre amplitude e incoerência. Quando projetos distintos tentam coexistir sob o mesmo guarda-chuva, o risco não está apenas na disputa externa — mas nas fissuras internas que podem emergir no calor da campanha.
O movimento de Neto também precisa ser lido à luz de um cenário mais amplo: a força do grupo governista, a máquina pública, e a narrativa de continuidade que ainda encontra eco em parte significativa do eleitorado. Para enfrentar esse bloco, não basta montar uma chapa forte no papel — é preciso construir uma narrativa que convença, emocione e mobilize.
E aqui reside talvez o maior desafio.
Porque eleições não são decididas apenas por nomes ou alianças, mas por percepção. O eleitor baiano, cada vez mais atento e crítico, quer mais do que promessas — quer coerência, identidade e projeto. Quer saber não apenas quem está na chapa, mas o que aquela chapa representa de fato.
O anúncio desta segunda-feira, portanto, é mais do que um evento político. É um teste. Um teste de unidade, de estratégia e, sobretudo, de capacidade de leitura do momento histórico.
Se acertar, ACM Neto poderá reposicionar sua candidatura como uma alternativa real de poder. Se errar, poderá ver sua engenharia política se transformar em um castelo de cartas, bonito por fora — mas vulnerável ao primeiro vento mais forte da realidade.
A Bahia, mais uma vez, não será palco de uma eleição simples. Será um campo de disputa entre projetos, narrativas e visões de futuro.
E o jogo — como sempre — já começou.




