Política e Resenha

ARTIGO – Jesus não negaria a comunhão

 

(Padre Carlos)

A cena se repete ao longo da história cristã: quando o rigorismo moral toma conta da religião, a misericórdia de Cristo é trancada a sete chaves e a mesa da Eucaristia, em vez de espaço de encontro, torna-se trincheira de exclusão. Recentemente, na Inglaterra, o padre Ian Vane anunciou publicamente que o deputado católico Chris Coghlan não seria admitido à comunhão, por ter votado favoravelmente à legalização da eutanásia. O gesto, além de pastoralmente equivocado, revela uma leitura seletiva e ideológica da doutrina católica.

Ao longo da história da Igreja, muitos já foram banidos, excomungados, silenciados ou queimados — não porque deixaram de amar a Deus, mas porque ousaram pensar diferente dos cânones do seu tempo. Os que afirmaram que a Terra girava em torno do Sol. Os que condenaram a escravidão quando esta ainda era justificada pelos doutores da lei. Os que lutaram contra o racismo enquanto teólogos brancos citavam São Paulo fora de contexto para manter estruturas opressoras. A lista é longa — e dolorosa.

O que está em jogo não é apenas a coerência doutrinária, mas a integridade evangélica. O mesmo zelo que exclui alguém da comunhão por ter votado a favor da eutanásia deveria, por coerência, fazer o mesmo com os que aprovam a pena de morte. Com os que enriquecem explorando trabalhadores. Com os que devastam o meio ambiente, corrompem a política, promovem o ódio ao estrangeiro, sustentam sistemas de desigualdade ou destroem lares e dignidades humanas. Mas não: a moral seletiva costuma mirar apenas os temas bioéticos, esquecendo que o Evangelho também fala — e muito — de justiça, acolhimento e amor ao próximo.

Jesus não negaria a comunhão. Prova disso é que, na Última Ceia, entregou o pão até a Judas, sabendo de sua traição. Alimentou Pedro antes de questioná-lo sobre o amor. Curou, perdoou, acolheu — nunca levantou barreiras entre as pessoas e o Reino de Deus. O Evangelho é claro: Ele veio para os doentes, não para os sãos. A Eucaristia, disse o Papa Francisco, “não é prêmio para os perfeitos, mas remédio para os fracos”.

O gesto do padre inglês, ainda que pretenda ser fiel à doutrina, trai o coração do Evangelho. Porque a comunhão não é mérito, é graça. Não é troféu de moralidade, mas mesa de encontro com Aquele que nos amou até o fim — inclusive, e sobretudo, quando erramos. E se há algo que Jesus nos ensinou, é que o altar é lugar de inclusão, nunca de castigo.

Se a Igreja quiser realmente ser fiel ao Cristo que partiu o pão com todos, precisa lembrar que o Evangelho começou com um convite: “Vinde a mim todos…” Não há exceções nessa frase. Nem parênteses, nem asteriscos.