
Padre Carlos
Há coisas na política brasileira que desafiam a lógica, a matemática e até a imaginação de quem já viu quase tudo. A declaração de Romeu Zema sobre a doação de R$ 1 milhão ao Novo é uma dessas preciosidades que fazem a gente parar, respirar fundo e perguntar: “Será que eu entendi direito ou alguém esqueceu de avisar que hoje é primeiro de abril?”
Segundo a declaração atribuída a Zema, a doação milionária teria sido feita ao partido por engano. Sim, você leu corretamente: por engano.
Agora imagine a cena.
O cidadão acorda de manhã, toma café, abre o aplicativo do banco e pensa:
— Hoje vou fazer uma pequena transferência.
Aí digita alguns números, confirma a operação e, quando percebe, mandou R$ 1 milhão para o Partido Novo.
“Puxa vida! Era para mandar R$ 100!”
É quase a versão política daquele sujeito que entra na padaria para comprar um pão francês e sai de lá com uma Ferrari.
Convenhamos: errar o destinatário de um Pix de R$ 1 milhão não é exatamente como mandar “bom dia” no grupo da família errado.
Um milhão de reais!
Com esse dinheiro, muita gente consegue comprar uma casa. Outras conseguem quitar dívidas. Algumas poderiam passar anos tentando juntar essa quantia. Mas, na política brasileira, aparentemente existe uma nova categoria de erro: o erro milionário.
E aí vem a melhor parte: Zema teria dito que confundiu a conta pessoal com a conta do partido.
Ah, bom!
Agora tudo faz sentido.
Porque todos nós, de vez em quando, confundimos nossas contas bancárias. O problema é que, normalmente, a gente manda R$ 100 para a conta errada. Zema aparentemente trabalha em outra escala.
É o famoso:
— “Ops! Errei!”
— “Quanto?”
— “Só um milhão.”
Aí você olha para o extrato, olha para o sujeito e pensa: “Meu amigo, se isso foi engano, eu sou o Papai Noel.”
E não é que eu tenha alguma coisa contra o Papai Noel. Muito pelo contrário. O velhinho tem uma reputação respeitável. Mas até ele, depois de tantos anos distribuindo presentes, provavelmente conferiria duas vezes a conta antes de mandar um milhão de reais.
O episódio seria apenas engraçado se não estivéssemos falando de política, dinheiro e financiamento partidário.
Porque o cidadão comum precisa explicar cada centavo que movimenta. O pequeno empresário precisa prestar contas. O trabalhador precisa declarar renda. O aposentado precisa justificar despesas. Mas, quando aparece um milhão de reais no universo político, de repente surge uma explicação com a simplicidade de quem esqueceu o guarda-chuva em casa.
“Foi engano.”
Pronto.
Está explicado.
Só falta agora alguém dizer que o dinheiro também estava com saudade e resolveu voltar para casa.
O curioso é que o Partido Novo construiu sua identidade política justamente em torno de uma ideia de rigor, responsabilidade, eficiência, austeridade e defesa de uma gestão mais profissional dos recursos.
Por isso, a história fica ainda mais saborosa.
Imagine uma empresa dizendo que preza pela precisão administrativa e, depois, o diretor aparecer dizendo:
— “Transferi um milhão por engano.”
O conselho de administração provavelmente faria uma reunião.
No mundo político, aparentemente, basta uma coletiva.
E aqui não se trata de afirmar que houve ilegalidade. Não estou dizendo isso. O ponto é outro: uma explicação dessa natureza, envolvendo uma quantia tão expressiva, naturalmente provoca perguntas.
E política, especialmente em ano eleitoral, não combina muito bem com “confia em mim”.
Combina com transparência.
Combina com documento.
Combina com explicação detalhada.
Combina com aquela coisa antiga chamada prestação de contas.
Porque, se foi realmente um engano, ótimo. Que se mostre o engano, explique-se a operação e vida que segue.
Agora, se a política brasileira chegar ao ponto em que R$ 1 milhão pode ser transferido por engano sem que ninguém ache estranho, talvez o problema não esteja apenas no dinheiro.
Talvez esteja na nossa capacidade de acreditar em qualquer explicação desde que venha acompanhada de terno, microfone e uma expressão séria.
Eu, particularmente, prefiro continuar desconfiado.
Porque, se Zema realmente acredita que nós vamos engolir essa história sem fazer perguntas, faço uma última advertência:
Se ele acredita que eu sou Papai Noel, que prepare logo a lista de presentes.
Só espero que não mande o pagamento do trenó por engano para a conta do Novo.
Aí já seria sacanagem com o velhinho.




