Política e Resenha

Divergência Não é Ruptura: A Verdade Sobre o Grupo de Sheila Lemos

 

Padre Carlos

 

Há momentos na política em que a disputa pela narrativa parece ser tão importante quanto a própria disputa eleitoral. Em Vitória da Conquista, estamos diante de um desses momentos. Nos últimos dias, vozes ligadas à oposição passaram a sustentar a tese de que o grupo político da prefeita Sheila Lemos estaria “esfacelado”. A afirmação é forte, chama atenção, produz manchetes e alimenta comentários nas redes sociais. Mas uma pergunta precisa ser feita: estamos diante de um fato político concreto ou de uma tentativa de transformar divergências naturais de uma eleição em uma crise que, na realidade, não possui a dimensão anunciada?

É preciso separar duas coisas: divergência política e rompimento de grupo. Um grupo político formado por vários partidos, lideranças e interesses não funciona como uma igreja onde todos precisam repetir a mesma oração. Muito menos em uma eleição proporcional, na qual cada partido ou federação possui sua própria estratégia eleitoral.

A legislação eleitoral é clara ao estabelecer que as eleições proporcionais para deputado estadual e deputado federal são disputadas por partidos e federações, sem coligações proporcionais. O cálculo das vagas considera justamente o desempenho das legendas ou federações. Em outras palavras, existe uma lógica partidária própria nesse processo.

Então, convenhamos: como alguém pode imaginar que a prefeita Sheila Lemos teria condições de determinar que todos os partidos de seu grupo político apresentassem um único candidato a deputado?

Não teria.

E talvez aí esteja o ponto central que alguns analistas estão convenientemente esquecendo.

Sheila pode ter liderança política, pode declarar apoio a um candidato, pode trabalhar por determinado nome e pode exercer influência sobre sua base. Mas ela não é dona dos partidos que integram o campo político ao qual pertence. Cada legenda tem seus dirigentes, seus pré-candidatos, suas estratégias, suas alianças e seus interesses eleitorais.

Aliás, seria interessante fazer uma pergunta aos próprios críticos: o PT tem apenas um candidato a deputado?

Se a resposta for não, então por que exigir do grupo da prefeita uma unidade que nenhum outro campo político consegue produzir?

Dentro do próprio PT existem correntes, grupos, lideranças e projetos diferentes. Há deputados buscando reeleição, novos nomes tentando conquistar espaço, lideranças regionais defendendo seus candidatos e grupos internos que, naturalmente, fazem escolhas eleitorais distintas. Isso não significa necessariamente que o PT esteja esfacelado.

É simplesmente a política funcionando.

E essa lógica vale para todos.

A eleição proporcional, por sua própria natureza, produz competição dentro dos campos políticos. Um candidato disputa votos com outro candidato. Uma liderança apoia determinado nome. Um vereador faz sua escolha. Um prefeito pode apoiar um deputado. Um partido pode estabelecer sua estratégia. E nada disso, isoladamente, significa que uma aliança majoritária deixou de existir.

É importante reconhecer que existem, sim, divergências e desgastes no campo político de Sheila Lemos. Isso não precisa ser escondido. A imprensa já registrou conflitos envolvendo a prefeita, o vereador Diogo Azevedo e o deputado estadual Tiago Correia, além das diferentes movimentações em torno das candidaturas proporcionais. A própria Sheila reconheceu anteriormente a existência de divergências dentro do grupo.

Mas reconhecer divergências é uma coisa. Transformá-las automaticamente em “esfacelamento” é outra completamente diferente.

A política não pode ser analisada com a lógica simplista de que, se dois aliados disputam espaço, então todo o grupo acabou.

Se fosse assim, praticamente nenhum grande agrupamento político brasileiro sobreviveria a uma eleição.

O que parece existir em Vitória da Conquista é uma disputa por espaço dentro de um campo político que continua buscando organizar suas candidaturas para 2026. A própria movimentação de Sheila no cenário estadual mostra que ela continua sendo considerada uma liderança relevante dentro da oposição baiana. Em março, por exemplo, ACM Neto destacou a importância de seu apoio na consolidação da chapa majoritária.

E há outro detalhe que merece atenção.

A própria candidatura de Wagner Alves demonstra que existe uma estratégia eleitoral sendo construída. Em entrevista, Sheila afirmou que a pré-candidatura do marido foi discutida internamente e que ele vinha recebendo apoios. Também explicou que a definição partidária precisava levar em conta as “contas” da eleição proporcional.

Ora, se é necessário fazer contas, conversar com partidos, avaliar chapas e analisar possibilidades eleitorais, então estamos falando de estratégia política, e não necessariamente de desintegração de um grupo.

Talvez o que esteja acontecendo seja justamente o contrário do que alguns porta-vozes da oposição desejam fazer parecer.

A oposição percebeu que existe uma disputa interna por candidaturas e resolveu transformá-la em uma narrativa de crise.

É uma estratégia política legítima. Toda oposição tem o direito de explorar as dificuldades de seus adversários. O problema começa quando a narrativa passa a ser apresentada como fato consumado.

Divergência não é ruptura. Competição não é esfacelamento. Disputa por votos não é necessariamente guerra política.

Em uma democracia, grupos políticos são organismos vivos. Eles mudam, incorporam novas lideranças, perdem algumas, ganham outras e reorganizam suas estratégias de acordo com cada eleição.

O próprio resultado das eleições municipais de 2024 mostra a força eleitoral que Sheila ainda possui em Vitória da Conquista. E, olhando para 2026, o campo oposicionista continua articulando nomes, partidos e alianças no Sudoeste baiano.

Portanto, é preciso ter cautela antes de decretar a morte política de qualquer grupo.

A política, especialmente em ano eleitoral, é feita também de expectativas, especulações, interpretações e, algumas vezes, de desejos.

Quem torce para que um grupo se divida pode enxergar qualquer divergência como uma implosão.

Quem observa os fatos com mais serenidade talvez enxergue apenas aquilo que normalmente acontece antes de uma eleição: cada partido tentando eleger seus candidatos e cada liderança tentando preservar seu espaço.

E há uma pergunta que continuará incomodando aqueles que insistem na tese do “grupo esfacelado”:

Se o grupo de Sheila realmente estivesse esfacelado, por que ainda seria necessário criar uma narrativa para provar que ele está?

Talvez porque, na política, quando o fato não é suficientemente grande, alguns tentam aumentar o volume da narrativa.

Mas eleitor não é bobo.

O eleitor de Vitória da Conquista sabe distinguir uma crise real de uma disputa eleitoral. Sabe que partidos possuem interesses próprios. Sabe que deputados têm suas bases. Sabe que vereadores fazem suas escolhas. Sabe que prefeitos possuem aliados, mas não são proprietários das consciências políticas de ninguém.

E sabe, principalmente, que eleição só termina quando termina.

Por isso, talvez seja cedo demais para anunciar o “esfacelamento” do grupo de Sheila Lemos.

Pode haver conflitos? Evidentemente.

Pode haver perdas? Certamente.

Pode haver disputa interna? É natural.

Mas transformar tudo isso em uma ruptura definitiva parece muito mais uma tentativa de construir um fato político do que a constatação de um fato já consumado.

No fim, a urna será muito mais eloquente do que os discursos.

E talvez seja justamente por isso que alguns estejam tão apressados para declarar hoje aquilo que somente o eleitor poderá confirmar amanhã.