Política e Resenha

Morre Douglas Franklin, segundo maior artilheiro da história do Bahia

Crônica · Esporte Clube Bahia

Picolé e Douglas — Ídolos Além do Campo

Um adeus ao homem que fez da Fonte Nova um palco de poesia em movimento

O
torcedor baiano acordou mais triste neste domingo. Aos 76 anos, morreu Douglas Franklin, um dos maiores craques que já vestiram o manto tricolor. O ex-atacante enfrentava um câncer no intestino e faleceu em São Paulo, cidade onde viveu seus últimos anos. O velório teve início às 8h, e o sepultamento está marcado para as 13h30, em Barretos, no interior paulista — terra que o acolheu, mas que nunca apagou o sotaque baiano que ele carregava no coração.

Há dores que o futebol não ensina a suportar. E esta é uma delas. Porque Douglas não foi apenas um jogador de números expressivos — 456 partidas, 184 gols, o posto de maior líder de assistências da história do Bahia. Ele foi, antes de tudo, um narrador de afetos. Um homem que transformou o gramado da antiga Fonte Nova em um lugar onde se contavam histórias com os pés, e onde cada torcedor se sentia, por noventa minutos, parte de algo maior do que si mesmo.

A dupla que virou sinfonia

Não se pode falar de Douglas sem falar de Picolé. Paulo Roberto Rodrigues Matheus e Luís Cláudio Bezerra Marcondes — os nomes de batismo que o futebol transformou em apelidos eternos — chegaram ao Bahia juntos, em 1972, e ali construíram algo raro: uma parceria que não pertencia apenas à tática, mas ao afeto. Entre 1972 e 1980, foram protagonistas de uma das eras mais gloriosas do clube, com sete conquistas seguidas do Campeonato Baiano. Suas tabelinhas tinham cadência de música. Suas jogadas tinham a naturalidade de quem se conhece desde sempre.

“Não há tabelinha que se esqueça, nem parceria que a morte consiga desfazer por completo. O que dois homens constroem dentro de campo, com lealdade e talento, o tempo apenas empresta ao silêncio — nunca ao esquecimento.”

Picolé partiu cedo, aos 42 anos, vítima de um acidente de carro em 1995. Por três décadas, Douglas seguiu carregando sozinho a memória viva daquela dupla — em entrevistas, em homenagens, no comentário esportivo que passou a fazer depois de pendurar as chuteiras. Cada vez que falava do amigo, falava também de si mesmo, porque os dois, no fundo, nunca deixaram de formar uma dupla.

O reencontro que a fé promete

Como sacerdote, permito-me crer que o campo não termina na última linha branca. Há um gramado que não se vê, onde os craques que amamos seguem jogando para uma torcida que nunca se cansa de aplaudir. É lá, na Casa do Pai, que ouso imaginar Douglas reencontrando Picolé — não mais como lembrança, mas como presença. Dois compadres que separaram-se por um instante de trinta anos e que agora, enfim, retomam a tabelinha interrompida. Vai com Deus, companheiro. Que Ele o receba em sua casa, ao lado de quem já o esperava.

O Esporte Clube Bahia, em nota, lamentou a perda de um dos maiores nomes de sua história e destacou a marca deixada por Douglas como líder geral de assistências e segundo maior artilheiro do clube. Mas os números, por mais expressivos que sejam, dizem menos do que o silêncio que hoje toma conta de quem o viu jogar. Dizem menos do que as lágrimas de quem cresceu ouvindo seu nome ao lado do nome de Picolé, como se um não pudesse ser pronunciado sem o outro.

Um legado que não se apaga

Há times que vencem títulos. Poucos, porém, vencem o tempo. Picolé e Douglas venceram o tempo. Suas camisas, aposentadas nas galerias do clube, são hoje relicários de uma época em que o futebol baiano ensinou ao Brasil o que era jogar com alma. Enquanto houver quem lembre da Fonte Nova cheia, das tabelinhas certeiras e da irmandade que unia aqueles dois meninos vindos de fora que se tornaram filhos da Bahia, Douglas e Picolé continuarão jogando — em algum lugar entre a memória e a eternidade.

Descanse em paz, Douglas Franklin. O Esquadrão chora, mas também agradece. E se há justiça no céu, que seja também um estádio — e que a bola, hoje, esteja com você e com seu eterno parceiro de ataque.

Esporte Clube Bahia
Memória
Homenagem

Padre Carlos Josaphat — Teólogo, sacerdote e colunista político — Política e Resenha