Política e Resenha

Para onde está apontada a metralhadora do Caso Master?

Análise & Opinião

Por Padre Carlos

Há momentos em que a pergunta mais importante de uma investigação não é apenas quem está sendo investigado, mas quem está deixando de ser investigado com a mesma intensidade.

O Caso Master chegou a um ponto em que já não cabe mais ser contado como uma simples história envolvendo um banqueiro, um banco quebrado e operações financeiras suspeitas. O que está sobre a mesa é muito maior: Banco Master, Banco de Brasília (BRB), recursos previdenciários do Rio de Janeiro, políticos, autoridades públicas, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e ministros do Supremo Tribunal Federal.

E é justamente por isso que uma pergunta incômoda precisa ser feita: para onde está apontada a metralhadora institucional do relator André Mendonça?

Não se trata de proteger Alexandre de Moraes. Muito menos de proteger André Mendonça. Trata-se de aplicar a mesma régua a todos. E aqui está o verdadeiro teste da República.

A metáfora pode parecer forte, mas ajuda a compreender o problema. Uma investigação dessa dimensão não pode mirar apenas determinado setor do alvo enquanto deixa outros pontos relevantes em segundo plano. Se existe uma rede de relações políticas, financeiras e institucionais em torno do Banco Master, a investigação precisa seguir o dinheiro, as decisões, os interesses e os eventuais beneficiários — independentemente do partido, do cargo ou da proximidade com qualquer autoridade.

E o Rio de Janeiro?

O Rio de Janeiro não pode desaparecer do centro do Caso Master.

A Polícia Federal investigou aproximadamente R$ 3 bilhões em recursos do Rioprevidência que foram direcionados para operações relacionadas ao Banco Master. Em maio, por determinação de André Mendonça e a pedido da PF, foram cumpridos mandados de busca e apreensão na residência do ex-governador Cláudio Castro e contra ex-dirigentes da previdência estadual.

Isso é grave e precisa ser investigado até o fim.

Mas justamente porque é grave, a investigação precisa responder a todas as perguntas: quem autorizou as operações? Quem recomendou os investimentos? Quem intermediou? Quem ganhou? Quem perdeu? Houve favorecimento político? Houve corrupção? Houve negligência? Houve manipulação de informações?

E, principalmente: onde foram parar os recursos?

O dinheiro dos aposentados e pensionistas não tem ideologia.

Se houve crime, que os responsáveis sejam punidos. Se não houve crime, que os investigados sejam inocentados. Mas ninguém pode ser protegido simplesmente porque pertence a determinado grupo político.

E o Banco de Brasília?

O BRB também é uma peça central desse quebra-cabeça.

O Supremo confirmou as prisões preventivas do ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, e de um advogado ligado ao caso. A própria Corte informou que a investigação envolve suspeitas de gestão fraudulenta ou temerária, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Mais recentemente, a Polícia Federal informou ter identificado outros diretores do BRB que teriam participado das operações envolvendo o Master e pediu prazo adicional para concluir as diligências.

Portanto, não há razão para transformar o Caso Master numa guerra pessoal entre instituições.

O BRB é um banco público. O dinheiro envolvido interessa diretamente à sociedade.

Se houve decisões erradas dentro do banco, é preciso saber quem tomou essas decisões. Se houve fraude, é preciso identificar os fraudadores. Se houve corrupção, que se descubra quem pagou e quem recebeu.

A investigação não pode parar na porta de ninguém.

E Ciro Nogueira?

Aqui aparece outro ponto que não pode ser esquecido.

Em maio, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra o senador Ciro Nogueira, no âmbito do Caso Master. Segundo a Reuters, a investigação apontava suspeitas de vantagens indevidas e mencionava uma proposta apresentada no Senado que elevaria o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.

Isso não significa que Ciro Nogueira seja culpado.

Significa que há fatos investigados e que precisam ser esclarecidos.

E é justamente aí que entra o princípio da isonomia.

Se André Mendonça entende que mensagens envolvendo um ministro do Supremo justificam uma apuração aprofundada, por que não deveria haver o mesmo rigor quando aparecem parlamentares, governadores, dirigentes de bancos públicos ou qualquer outra autoridade? A régua precisa ser uma só.

O que é grave quando envolve Chico não pode deixar de ser grave quando envolve Francisco.

E os outros políticos?

É aqui que o Caso Master começa a ficar ainda mais desconfortável.

As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro revelaram contatos com diferentes personagens da vida pública brasileira. A imprensa já identificou referências a Alexandre de Moraes, Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Mario Frias e outros personagens, além de relações com advogados e autoridades.

Mas uma coisa precisa ficar absolutamente clara: aparecer no celular de um investigado não transforma automaticamente ninguém em criminoso.

Uma mensagem pode significar amizade. Pode significar negócio legítimo. Pode significar pedido de favor. Pode significar tentativa de influência. Pode significar algo muito mais grave.

Quem determina isso são as provas.

Por isso, a investigação precisa fazer exatamente o que uma investigação séria deve fazer: separar relacionamento social de tráfico de influência; negócio legítimo de corrupção; lobby permitido de favorecimento ilícito; conversa política de interferência criminosa.

E isso vale para todos.

O problema não é investigar Moraes. O problema seria investigar somente Moraes.

Talvez essa seja a questão central.

Se as mensagens encontradas pela Polícia Federal indicam possível relacionamento de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes, é correto que os fatos sejam esclarecidos.

Nenhum ministro do STF pode ser considerado acima da investigação simplesmente porque ocupa uma cadeira na Suprema Corte.

Mas exatamente pela mesma razão, nenhum político, empresário, banqueiro, governador, dirigente de banco público, procurador ou outro ministro pode estar acima da investigação.

A República não pode funcionar com duas justiças.

Uma justiça para os adversários e outra para os aliados.

Uma régua para a esquerda e outra para a direita.

Uma régua para ministros e outra para políticos.

Uma régua para quem está perto de Mendonça e outra para quem está longe dele.

Quem investiga o investigador?

Esse é outro ponto delicado.

A Procuradoria-Geral da República pediu a anulação da investigação envolvendo as conversas de Alexandre de Moraes com Vorcaro. Paulo Gonet sustentou que Mendonça teria aprofundado a apuração sobre outro ministro do Supremo sem a autorização prévia do plenário da Corte.

Juristas também passaram a divergir sobre a validade dos procedimentos adotados pelo relator. Parte deles questiona a competência utilizada por Mendonça para determinar determinadas diligências, enquanto outros defendem a preservação de elementos da investigação mediante correção dos procedimentos.

É exatamente aí que a crise deixa de ser apenas o Caso Master e passa a ser uma crise institucional.

Porque a pergunta deixa de ser somente “o que Moraes fez?” e passa a incluir outra: “O que Mendonça pode fazer?”

E ainda uma terceira: “Quem controla os limites de um ministro quando ele próprio está no comando da investigação?”

A resposta, numa democracia constitucional, não pode ser: ninguém.

A metralhadora precisa girar 360 graus

Se existe uma imagem que pode traduzir o momento atual, talvez seja esta: a metralhadora da investigação precisa girar 360 graus.

Rio de Janeiro.
Brasília.
BRB.
Banco Master.
Rioprevidência.
Ciro Nogueira.
Cláudio Castro.
Dirigentes bancários.
Empresários.
Operadores financeiros.
Ministros.
Advogados.
Agentes públicos.
E todos os demais personagens que as provas colocarem no caminho.

Não significa que todos sejam culpados. Significa exatamente o contrário: todos devem ter o direito de ser investigados, acusados, defendidos e, se for o caso, absolvidos ou condenados conforme as provas.

A democracia não funciona pela escolha antecipada de culpados.

Funciona pela descoberta dos fatos.

O Brasil não precisa de heróis togados

Existe uma tentação perigosa na política brasileira: transformar ministros em salvadores da República.

Ontem, alguns enxergavam determinados ministros como heróis porque enfrentavam seus adversários. Hoje, podem enxergar outros como heróis porque enfrentam os primeiros.

Esse é um caminho perigoso.

Ministro do Supremo não deve ser herói. Não deve ser inimigo. Não deve ser militante. Não deve ser investigador onipotente. Deve ser juiz.

E juiz, numa democracia, tem poder justamente porque aceita os limites impostos pela Constituição e pela lei.

O Brasil já aprendeu, com episódios anteriores, que a mistura entre investigação, acusação e julgamento pode produzir distorções graves. Não podemos combater um excesso institucional criando outro.

O Caso Master precisa chegar ao fundo

O que o país quer saber é simples, embora a resposta possa ser complexa:

Quem ganhou dinheiro? Quem perdeu dinheiro? Quem tomou as decisões? Quem influenciou essas decisões? Quem recebeu vantagens? Quem ofereceu vantagens?

Houve corrupção? Houve tráfico de influência? Houve lavagem de dinheiro? Houve fraude contra bancos públicos ou fundos previdenciários? Houve utilização indevida de relações com autoridades?

E, finalmente: houve tentativa de proteger alguém?

Se a resposta for sim, não importa o nome.

Se for Moraes, que responda.

Se for Mendonça, que responda.

Se for Ciro Nogueira, que responda.

Se for Cláudio Castro, que responda.

Se for um dirigente do BRB, que responda.

Se for um empresário, que responda.

Se for um procurador, que responda.

Se for um policial, que responda.

Se for qualquer outro político, autoridade ou cidadão, que responda.

Essa é a essência da República.

Porque, no final das contas, o maior perigo não é a investigação atingir pessoas poderosas.

O maior perigo é ela escolher seletivamente quem merece ser atingido.

E é por isso que a pergunta continua ecoando:

Para onde está apontada a metralhadora do Caso Master?

A resposta que o Brasil espera é uma só: para todos os lados onde as provas apontarem.

Nem Chico. Nem Francisco.

A mesma lei para todos. A mesma Constituição para todos. A mesma Justiça para todos.


CASO MASTER
BANCO MASTER
BRB
STF
RIOPREVIDÊNCIA
POLÍTICA

— Padre Carlos

Para onde está apontada a metralhadora do Caso Master?

Análise & Opinião

Por Padre Carlos

Há momentos em que a pergunta mais importante de uma investigação não é apenas quem está sendo investigado, mas quem está deixando de ser investigado com a mesma intensidade.

O Caso Master chegou a um ponto em que já não cabe mais ser contado como uma simples história envolvendo um banqueiro, um banco quebrado e operações financeiras suspeitas. O que está sobre a mesa é muito maior: Banco Master, Banco de Brasília (BRB), recursos previdenciários do Rio de Janeiro, políticos, autoridades públicas, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e ministros do Supremo Tribunal Federal.

E é justamente por isso que uma pergunta incômoda precisa ser feita: para onde está apontada a metralhadora institucional do relator André Mendonça?

Não se trata de proteger Alexandre de Moraes. Muito menos de proteger André Mendonça. Trata-se de aplicar a mesma régua a todos. E aqui está o verdadeiro teste da República.

A metáfora pode parecer forte, mas ajuda a compreender o problema. Uma investigação dessa dimensão não pode mirar apenas determinado setor do alvo enquanto deixa outros pontos relevantes em segundo plano. Se existe uma rede de relações políticas, financeiras e institucionais em torno do Banco Master, a investigação precisa seguir o dinheiro, as decisões, os interesses e os eventuais beneficiários — independentemente do partido, do cargo ou da proximidade com qualquer autoridade.

E o Rio de Janeiro?

O Rio de Janeiro não pode desaparecer do centro do Caso Master.

A Polícia Federal investigou aproximadamente R$ 3 bilhões em recursos do Rioprevidência que foram direcionados para operações relacionadas ao Banco Master. Em maio, por determinação de André Mendonça e a pedido da PF, foram cumpridos mandados de busca e apreensão na residência do ex-governador Cláudio Castro e contra ex-dirigentes da previdência estadual.

Isso é grave e precisa ser investigado até o fim.

Mas justamente porque é grave, a investigação precisa responder a todas as perguntas: quem autorizou as operações? Quem recomendou os investimentos? Quem intermediou? Quem ganhou? Quem perdeu? Houve favorecimento político? Houve corrupção? Houve negligência? Houve manipulação de informações?

E, principalmente: onde foram parar os recursos?

O dinheiro dos aposentados e pensionistas não tem ideologia.

Se houve crime, que os responsáveis sejam punidos. Se não houve crime, que os investigados sejam inocentados. Mas ninguém pode ser protegido simplesmente porque pertence a determinado grupo político.

E o Banco de Brasília?

O BRB também é uma peça central desse quebra-cabeça.

O Supremo confirmou as prisões preventivas do ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, e de um advogado ligado ao caso. A própria Corte informou que a investigação envolve suspeitas de gestão fraudulenta ou temerária, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Mais recentemente, a Polícia Federal informou ter identificado outros diretores do BRB que teriam participado das operações envolvendo o Master e pediu prazo adicional para concluir as diligências.

Portanto, não há razão para transformar o Caso Master numa guerra pessoal entre instituições.

O BRB é um banco público. O dinheiro envolvido interessa diretamente à sociedade.

Se houve decisões erradas dentro do banco, é preciso saber quem tomou essas decisões. Se houve fraude, é preciso identificar os fraudadores. Se houve corrupção, que se descubra quem pagou e quem recebeu.

A investigação não pode parar na porta de ninguém.

E Ciro Nogueira?

Aqui aparece outro ponto que não pode ser esquecido.

Em maio, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra o senador Ciro Nogueira, no âmbito do Caso Master. Segundo a Reuters, a investigação apontava suspeitas de vantagens indevidas e mencionava uma proposta apresentada no Senado que elevaria o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.

Isso não significa que Ciro Nogueira seja culpado.

Significa que há fatos investigados e que precisam ser esclarecidos.

E é justamente aí que entra o princípio da isonomia.

Se André Mendonça entende que mensagens envolvendo um ministro do Supremo justificam uma apuração aprofundada, por que não deveria haver o mesmo rigor quando aparecem parlamentares, governadores, dirigentes de bancos públicos ou qualquer outra autoridade? A régua precisa ser uma só.

O que é grave quando envolve Chico não pode deixar de ser grave quando envolve Francisco.

E os outros políticos?

É aqui que o Caso Master começa a ficar ainda mais desconfortável.

As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro revelaram contatos com diferentes personagens da vida pública brasileira. A imprensa já identificou referências a Alexandre de Moraes, Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Mario Frias e outros personagens, além de relações com advogados e autoridades.

Mas uma coisa precisa ficar absolutamente clara: aparecer no celular de um investigado não transforma automaticamente ninguém em criminoso.

Uma mensagem pode significar amizade. Pode significar negócio legítimo. Pode significar pedido de favor. Pode significar tentativa de influência. Pode significar algo muito mais grave.

Quem determina isso são as provas.

Por isso, a investigação precisa fazer exatamente o que uma investigação séria deve fazer: separar relacionamento social de tráfico de influência; negócio legítimo de corrupção; lobby permitido de favorecimento ilícito; conversa política de interferência criminosa.

E isso vale para todos.

O problema não é investigar Moraes. O problema seria investigar somente Moraes.

Talvez essa seja a questão central.

Se as mensagens encontradas pela Polícia Federal indicam possível relacionamento de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes, é correto que os fatos sejam esclarecidos.

Nenhum ministro do STF pode ser considerado acima da investigação simplesmente porque ocupa uma cadeira na Suprema Corte.

Mas exatamente pela mesma razão, nenhum político, empresário, banqueiro, governador, dirigente de banco público, procurador ou outro ministro pode estar acima da investigação.

A República não pode funcionar com duas justiças.

Uma justiça para os adversários e outra para os aliados.

Uma régua para a esquerda e outra para a direita.

Uma régua para ministros e outra para políticos.

Uma régua para quem está perto de Mendonça e outra para quem está longe dele.

Quem investiga o investigador?

Esse é outro ponto delicado.

A Procuradoria-Geral da República pediu a anulação da investigação envolvendo as conversas de Alexandre de Moraes com Vorcaro. Paulo Gonet sustentou que Mendonça teria aprofundado a apuração sobre outro ministro do Supremo sem a autorização prévia do plenário da Corte.

Juristas também passaram a divergir sobre a validade dos procedimentos adotados pelo relator. Parte deles questiona a competência utilizada por Mendonça para determinar determinadas diligências, enquanto outros defendem a preservação de elementos da investigação mediante correção dos procedimentos.

É exatamente aí que a crise deixa de ser apenas o Caso Master e passa a ser uma crise institucional.

Porque a pergunta deixa de ser somente “o que Moraes fez?” e passa a incluir outra: “O que Mendonça pode fazer?”

E ainda uma terceira: “Quem controla os limites de um ministro quando ele próprio está no comando da investigação?”

A resposta, numa democracia constitucional, não pode ser: ninguém.

A metralhadora precisa girar 360 graus

Se existe uma imagem que pode traduzir o momento atual, talvez seja esta: a metralhadora da investigação precisa girar 360 graus.

Rio de Janeiro.
Brasília.
BRB.
Banco Master.
Rioprevidência.
Ciro Nogueira.
Cláudio Castro.
Dirigentes bancários.
Empresários.
Operadores financeiros.
Ministros.
Advogados.
Agentes públicos.
E todos os demais personagens que as provas colocarem no caminho.

Não significa que todos sejam culpados. Significa exatamente o contrário: todos devem ter o direito de ser investigados, acusados, defendidos e, se for o caso, absolvidos ou condenados conforme as provas.

A democracia não funciona pela escolha antecipada de culpados.

Funciona pela descoberta dos fatos.

O Brasil não precisa de heróis togados

Existe uma tentação perigosa na política brasileira: transformar ministros em salvadores da República.

Ontem, alguns enxergavam determinados ministros como heróis porque enfrentavam seus adversários. Hoje, podem enxergar outros como heróis porque enfrentam os primeiros.

Esse é um caminho perigoso.

Ministro do Supremo não deve ser herói. Não deve ser inimigo. Não deve ser militante. Não deve ser investigador onipotente. Deve ser juiz.

E juiz, numa democracia, tem poder justamente porque aceita os limites impostos pela Constituição e pela lei.

O Brasil já aprendeu, com episódios anteriores, que a mistura entre investigação, acusação e julgamento pode produzir distorções graves. Não podemos combater um excesso institucional criando outro.

O Caso Master precisa chegar ao fundo

O que o país quer saber é simples, embora a resposta possa ser complexa:

Quem ganhou dinheiro? Quem perdeu dinheiro? Quem tomou as decisões? Quem influenciou essas decisões? Quem recebeu vantagens? Quem ofereceu vantagens?

Houve corrupção? Houve tráfico de influência? Houve lavagem de dinheiro? Houve fraude contra bancos públicos ou fundos previdenciários? Houve utilização indevida de relações com autoridades?

E, finalmente: houve tentativa de proteger alguém?

Se a resposta for sim, não importa o nome.

Se for Moraes, que responda.

Se for Mendonça, que responda.

Se for Ciro Nogueira, que responda.

Se for Cláudio Castro, que responda.

Se for um dirigente do BRB, que responda.

Se for um empresário, que responda.

Se for um procurador, que responda.

Se for um policial, que responda.

Se for qualquer outro político, autoridade ou cidadão, que responda.

Essa é a essência da República.

Porque, no final das contas, o maior perigo não é a investigação atingir pessoas poderosas.

O maior perigo é ela escolher seletivamente quem merece ser atingido.

E é por isso que a pergunta continua ecoando:

Para onde está apontada a metralhadora do Caso Master?

A resposta que o Brasil espera é uma só: para todos os lados onde as provas apontarem.

Nem Chico. Nem Francisco.

A mesma lei para todos. A mesma Constituição para todos. A mesma Justiça para todos.


CASO MASTER
BANCO MASTER
BRB
STF
RIOPREVIDÊNCIA
POLÍTICA

— Padre Carlos

QUANDO O PÔR DO SOL TRAZ QUEM A SAUDADE LEVOU

Claro. Transformei o texto em um artigo de opinião mais elaborado, preservando a delicadeza da memória, aprofundando a reflexão sobre saudade e ausência e estruturando tudo para colar diretamente no **WordPress Classic Editor → aba Texto**.

Há ausências que aprendem a morar nos pequenos detalhes da vida

Oentardecer tem essa mania bonita e dolorosa de parar o tempo. Quando o céu se tinge de laranja e o vento finalmente cala a poeira do dia, a vida parece diminuir o passo, como se o mundo, por alguns instantes, nos concedesse uma trégua. É como se o relógio deixasse de contar as horas para nos obrigar a contar aquilo que realmente importa.

Talvez seja por isso que algumas lembranças escolham justamente o fim da tarde para voltar. Elas não chegam fazendo barulho. Não batem à porta. Não pedem licença. Simplesmente aparecem. Sentam-se ao nosso lado diante da janela e ficam ali, silenciosas, olhando conosco para aquilo que já passou.

O COTIDIANO TAMBÉM GUARDA MEMÓRIAS

Na copa da palmeira, o ritual se repete com a pontualidade dos dias normais. As pombas Asas Brancas chegam em bando, pacíficas, bicando o sustento sem pressa, completamente alheias ao peso do mundo. Elas não sabem das nossas perdas, das nossas perguntas, das nossas noites silenciosas. Não sabem que existem pessoas que gostaríamos de encontrar novamente.

Para elas, é apenas mais uma tarde. Mais um galho. Mais um alimento. Mais um voo.

Mas o cotidiano, por mais simples que pareça, muda completamente de significado quando a ausência se senta ao nosso lado.

É curioso como a saudade consegue transformar coisas aparentemente insignificantes em pequenas relíquias. Uma janela deixa de ser apenas uma janela. Uma árvore deixa de ser apenas uma árvore. Um canto de passarinho deixa de ser apenas um som.

Tudo passa a carregar um nome.

É assim que a ausência transforma o mundo: aquilo que antes parecia pequeno passa a conter uma história inteira. O tempo não leva tudo. Algumas coisas permanecem escondidas nos detalhes, esperando apenas o instante certo para nos lembrar de quem fomos, de quem amamos e de quem ainda carregamos dentro de nós.

E ENTÃO, O BANDO LEVANTOU VOO

Hoje, depois que o bando levantou voo, ficou apenas uma rolinha Fogo-apagou.

Pousada no mesmo galho, pequena diante da imensidão do céu, ela soltou seu canto alto, quase teimoso, quebrando o silêncio do jardim.

Foi impossível não lembrar de como você sorria ao tentar imitar aquele som agudo.

Você brincava com aquilo. Achava graça. Talvez nem imaginasse que um dia aquele canto tão simples poderia se transformar em uma lembrança tão poderosa.

Há pessoas que possuem esse dom raro: conseguem fazer com que a simplicidade fique para sempre.

Não precisam de grandes acontecimentos. Não precisam de fotografias perfeitas, discursos memoráveis ou monumentos de pedra. Basta um sorriso diante de uma coisa pequena. Basta uma brincadeira. Basta uma tarde comum.

E, quando essas pessoas partem, descobrimos que a memória não escolhe os grandes acontecimentos para sobreviver. Ela prefere os pequenos.

“Naquele instante, pareceu que a ave não veio apenas comer; veio trazer um recado discreto, um carinho em formato de melodia para quem ficou lembrando de você.”

TALVEZ A SAUDADE SEJA UMA FORMA DE PRESENÇA

Tenho pensado que a saudade é uma das experiências mais estranhas da existência humana.

Ela dói porque alguém não está mais onde gostaríamos que estivesse. Mas, ao mesmo tempo, ela consola porque somente sentimos saudade daquilo que um dia nos fez profundamente felizes.

A saudade é esse aperto no peito que mistura a dor da falta com a sorte do encontro.

Porque houve encontro.

Houve convivência.

Houve amor.

Houve momentos que, embora tenham terminado, jamais deixarão de ter acontecido.

E talvez essa seja uma das poucas vitórias que temos contra o tempo: ele pode levar as pessoas, pode envelhecer os rostos, pode apagar os sons das casas e mudar completamente as paisagens. Mas não consegue desfazer aquilo que verdadeiramente vivemos.

O passado não volta. Mas também não desaparece completamente.

“Quem aprende a enxergar a beleza nos pequenos gestos nunca parte por inteiro.”

O AMOR NÃO TERMINA QUANDO A NOITE CHEGA

A vida passa rápida como o voo de um pássaro.

Num instante, estamos olhando alguém sorrir. No outro, estamos tentando encontrar aquela pessoa em alguma fotografia, numa música, numa frase, numa lembrança antiga ou, quem sabe, no canto insistente de uma ave pousada no galho de uma palmeira.

É por isso que eu já não consigo olhar para essas pequenas coincidências da vida apenas como coincidências.

Talvez seja apenas a natureza cumprindo seu ciclo. Talvez seja somente uma rolinha procurando alimento. Talvez aquele canto não tenha qualquer mensagem além daquela que a própria ave pretende comunicar às outras.

Mas há momentos em que o coração interpreta o mundo de outra maneira.

E quem somos nós para impedir o coração de encontrar significado onde a razão só enxerga acaso?

Naquele fim de tarde, preferi acreditar que havia ali alguma delicadeza escondida. Que aquele pequeno pássaro tinha trazido consigo alguma coisa além do canto. Um sinal. Uma lembrança. Um carinho.

Não porque eu precise transformar a saudade em milagre.

Mas porque algumas lembranças merecem ser tratadas com ternura.

VOCÊ AINDA ESTÁ AQUI

Você continua ali.

No dourado do pôr do sol.

No farfalhar das folhas.

Na sombra da palmeira.

Na janela diante da qual a tarde lentamente desaparece.

E, sobretudo, naquele canto solitário que insiste em lembrar que algumas pessoas continuam vivendo dentro de nós mesmo depois que já não podemos encontrá-las do lado de fora.

Talvez seja isso que o amor faz quando vence a distância definitiva: muda de lugar.

Antes, estava no abraço. Depois, passa a morar na lembrança.

Antes, estava na voz. Depois, passa a morar no silêncio.

Antes, estava na presença. Depois, passa a morar nos pequenos sinais que o coração aprende a reconhecer.

E assim seguimos.

Vivendo.

Lembrando.

Sentindo.

Aprendendo, pouco a pouco, que a ausência não é necessariamente o fim de uma história. Às vezes, é apenas o começo de outra forma de presença.

O sol desce. A noite chega. As aves desaparecem entre as árvores.

Mas alguma coisa permanece.

Permanece o amor.

Permanece a lembrança.

Permanece aquele sorriso que o tempo não conseguiu apagar.

E amanhã, quando outra tarde chegar e o céu voltar a ficar dourado, talvez uma ave novamente pouse naquele galho.

Talvez cante.

E talvez, por alguns segundos, o coração reconheça naquele canto uma velha companhia.

Porque há amores que não precisam mais de presença para continuar existindo.

Eles simplesmente ficam.

Ficam na memória. Ficam na alma. Ficam naquilo que somos.

PADRE CARLOS

SAUDADE
MEMÓRIA
AMOR
VIDA
LEMBRANÇAS

“Algumas pessoas partem dos nossos olhos, mas nunca do nosso coração.”

QUANDO O PÔR DO SOL TRAZ QUEM A SAUDADE LEVOU

Claro. Transformei o texto em um artigo de opinião mais elaborado, preservando a delicadeza da memória, aprofundando a reflexão sobre saudade e ausência e estruturando tudo para colar diretamente no **WordPress Classic Editor → aba Texto**.

Há ausências que aprendem a morar nos pequenos detalhes da vida

Oentardecer tem essa mania bonita e dolorosa de parar o tempo. Quando o céu se tinge de laranja e o vento finalmente cala a poeira do dia, a vida parece diminuir o passo, como se o mundo, por alguns instantes, nos concedesse uma trégua. É como se o relógio deixasse de contar as horas para nos obrigar a contar aquilo que realmente importa.

Talvez seja por isso que algumas lembranças escolham justamente o fim da tarde para voltar. Elas não chegam fazendo barulho. Não batem à porta. Não pedem licença. Simplesmente aparecem. Sentam-se ao nosso lado diante da janela e ficam ali, silenciosas, olhando conosco para aquilo que já passou.

O COTIDIANO TAMBÉM GUARDA MEMÓRIAS

Na copa da palmeira, o ritual se repete com a pontualidade dos dias normais. As pombas Asas Brancas chegam em bando, pacíficas, bicando o sustento sem pressa, completamente alheias ao peso do mundo. Elas não sabem das nossas perdas, das nossas perguntas, das nossas noites silenciosas. Não sabem que existem pessoas que gostaríamos de encontrar novamente.

Para elas, é apenas mais uma tarde. Mais um galho. Mais um alimento. Mais um voo.

Mas o cotidiano, por mais simples que pareça, muda completamente de significado quando a ausência se senta ao nosso lado.

É curioso como a saudade consegue transformar coisas aparentemente insignificantes em pequenas relíquias. Uma janela deixa de ser apenas uma janela. Uma árvore deixa de ser apenas uma árvore. Um canto de passarinho deixa de ser apenas um som.

Tudo passa a carregar um nome.

É assim que a ausência transforma o mundo: aquilo que antes parecia pequeno passa a conter uma história inteira. O tempo não leva tudo. Algumas coisas permanecem escondidas nos detalhes, esperando apenas o instante certo para nos lembrar de quem fomos, de quem amamos e de quem ainda carregamos dentro de nós.

E ENTÃO, O BANDO LEVANTOU VOO

Hoje, depois que o bando levantou voo, ficou apenas uma rolinha Fogo-apagou.

Pousada no mesmo galho, pequena diante da imensidão do céu, ela soltou seu canto alto, quase teimoso, quebrando o silêncio do jardim.

Foi impossível não lembrar de como você sorria ao tentar imitar aquele som agudo.

Você brincava com aquilo. Achava graça. Talvez nem imaginasse que um dia aquele canto tão simples poderia se transformar em uma lembrança tão poderosa.

Há pessoas que possuem esse dom raro: conseguem fazer com que a simplicidade fique para sempre.

Não precisam de grandes acontecimentos. Não precisam de fotografias perfeitas, discursos memoráveis ou monumentos de pedra. Basta um sorriso diante de uma coisa pequena. Basta uma brincadeira. Basta uma tarde comum.

E, quando essas pessoas partem, descobrimos que a memória não escolhe os grandes acontecimentos para sobreviver. Ela prefere os pequenos.

“Naquele instante, pareceu que a ave não veio apenas comer; veio trazer um recado discreto, um carinho em formato de melodia para quem ficou lembrando de você.”

TALVEZ A SAUDADE SEJA UMA FORMA DE PRESENÇA

Tenho pensado que a saudade é uma das experiências mais estranhas da existência humana.

Ela dói porque alguém não está mais onde gostaríamos que estivesse. Mas, ao mesmo tempo, ela consola porque somente sentimos saudade daquilo que um dia nos fez profundamente felizes.

A saudade é esse aperto no peito que mistura a dor da falta com a sorte do encontro.

Porque houve encontro.

Houve convivência.

Houve amor.

Houve momentos que, embora tenham terminado, jamais deixarão de ter acontecido.

E talvez essa seja uma das poucas vitórias que temos contra o tempo: ele pode levar as pessoas, pode envelhecer os rostos, pode apagar os sons das casas e mudar completamente as paisagens. Mas não consegue desfazer aquilo que verdadeiramente vivemos.

O passado não volta. Mas também não desaparece completamente.

“Quem aprende a enxergar a beleza nos pequenos gestos nunca parte por inteiro.”

O AMOR NÃO TERMINA QUANDO A NOITE CHEGA

A vida passa rápida como o voo de um pássaro.

Num instante, estamos olhando alguém sorrir. No outro, estamos tentando encontrar aquela pessoa em alguma fotografia, numa música, numa frase, numa lembrança antiga ou, quem sabe, no canto insistente de uma ave pousada no galho de uma palmeira.

É por isso que eu já não consigo olhar para essas pequenas coincidências da vida apenas como coincidências.

Talvez seja apenas a natureza cumprindo seu ciclo. Talvez seja somente uma rolinha procurando alimento. Talvez aquele canto não tenha qualquer mensagem além daquela que a própria ave pretende comunicar às outras.

Mas há momentos em que o coração interpreta o mundo de outra maneira.

E quem somos nós para impedir o coração de encontrar significado onde a razão só enxerga acaso?

Naquele fim de tarde, preferi acreditar que havia ali alguma delicadeza escondida. Que aquele pequeno pássaro tinha trazido consigo alguma coisa além do canto. Um sinal. Uma lembrança. Um carinho.

Não porque eu precise transformar a saudade em milagre.

Mas porque algumas lembranças merecem ser tratadas com ternura.

VOCÊ AINDA ESTÁ AQUI

Você continua ali.

No dourado do pôr do sol.

No farfalhar das folhas.

Na sombra da palmeira.

Na janela diante da qual a tarde lentamente desaparece.

E, sobretudo, naquele canto solitário que insiste em lembrar que algumas pessoas continuam vivendo dentro de nós mesmo depois que já não podemos encontrá-las do lado de fora.

Talvez seja isso que o amor faz quando vence a distância definitiva: muda de lugar.

Antes, estava no abraço. Depois, passa a morar na lembrança.

Antes, estava na voz. Depois, passa a morar no silêncio.

Antes, estava na presença. Depois, passa a morar nos pequenos sinais que o coração aprende a reconhecer.

E assim seguimos.

Vivendo.

Lembrando.

Sentindo.

Aprendendo, pouco a pouco, que a ausência não é necessariamente o fim de uma história. Às vezes, é apenas o começo de outra forma de presença.

O sol desce. A noite chega. As aves desaparecem entre as árvores.

Mas alguma coisa permanece.

Permanece o amor.

Permanece a lembrança.

Permanece aquele sorriso que o tempo não conseguiu apagar.

E amanhã, quando outra tarde chegar e o céu voltar a ficar dourado, talvez uma ave novamente pouse naquele galho.

Talvez cante.

E talvez, por alguns segundos, o coração reconheça naquele canto uma velha companhia.

Porque há amores que não precisam mais de presença para continuar existindo.

Eles simplesmente ficam.

Ficam na memória. Ficam na alma. Ficam naquilo que somos.

PADRE CARLOS

SAUDADE
MEMÓRIA
AMOR
VIDA
LEMBRANÇAS

“Algumas pessoas partem dos nossos olhos, mas nunca do nosso coração.”

A PITUBA QUE VIVE EM MIM

 

“`

MEMÓRIA • CRÔNICA • SALVADOR

Por Padre Carlos

Há lugares que nós visitamos. Há outros que nos visitam para sempre.

A Pituba pertence a essa segunda categoria.

Posso mudar de cidade, atravessar ruas que nunca conheci, morar longe das praias onde passei a infância, envelhecer e ver o mundo se transformar diante dos meus olhos. Mas basta uma palavra — Pituba — para que alguma coisa dentro de mim se mova. É como se uma porta antiga se abrisse e, do outro lado, estivesse novamente aquele menino correndo pelas ruas de uma Salvador que já não existe.

Talvez seja essa a maior força da memória: ela não devolve o tempo, mas devolve aquilo que fomos.

Onde começou a minha história

Nasci na Pituba, em uma época em que o bairro ainda vivia entre dois mundos. De um lado, o antigo balneário, com suas casas de veraneio, seus jardins, coqueiros, praias e famílias que chegavam durante as férias. Do outro, uma cidade que crescia rapidamente e começava a transformar aquele pedaço de Salvador em um dos seus mais importantes bairros residenciais.

Meu pai veio do interior em busca de uma vida melhor. Minha mãe, ainda muito jovem, havia conhecido a vida religiosa e estava ligada às Irmãs Mercedárias. Eles tinham pouco dinheiro, mas carregavam aquilo que muitas famílias pobres carregavam naquele tempo: fé, esperança e disposição para trabalhar.

Foi assim que nossa família chegou àquela casa de veraneio dos Machado.

E foi ali, na simplicidade de uma casa de caseiro, que começou a minha história.

Quando penso naquela casa, não me lembro primeiro das paredes, das portas ou dos móveis. Lembro-me do jardim.

E, sobretudo, lembro-me do jasmim.

Havia um pé de jasmim branco que oferecia sombra nas tardes quentes. Minha mãe gostava daquela sombra. Talvez por isso, até hoje, o cheiro do jasmim tenha para mim alguma coisa de sagrado.

Existem perfumes que não pertencem às flores.
Pertencem à nossa história.

O cheiro do jasmim me devolve minha mãe.
Devolve-me a infância.

Devolve-me uma época em que a felicidade não precisava de muito. Bastava uma bicicleta, uma bola, alguns amigos, uma rua para correr e a certeza de que alguém estaria esperando por nós quando a noite chegasse.

Crianças brincando no meio da história

Naquele tempo, a Pituba ainda tinha espaços que hoje parecem pertencer à imaginação. Havia terrenos vazios, caminhos de terra, rios, fazendas, árvores, casas enormes e crianças que podiam transformar qualquer pedaço de chão em território de aventura.

Eu frequentava a Escola da Irmã Catarina, das Irmãs Mercedárias. Brincava com minha irmã Tereza, minha primeira companheira de aventuras. A infância era feita de pequenas coisas que, somente muitos anos depois, descobrimos terem sido gigantescas.

A gente não sabia que estava sendo feliz.
Apenas era.

Talvez essa seja uma das maiores ironias da vida.

Quando somos crianças, queremos crescer. Quando crescemos, passamos boa parte da vida tentando voltar ao lugar onde fomos crianças.

Quando a cidade começou a mudar

E a Pituba mudou.

Como mudou Salvador.

A antiga fazenda foi sendo transformada. O bairro planejado sonhado por Teodoro Fernandes Sampaio foi ganhando ruas, casas, comércio e novas avenidas. O antigo balneário foi deixando de ser apenas lugar de férias para se transformar em um dos grandes espaços urbanos de Salvador.

A modernidade chegou trazendo progresso, mas também carregando consigo histórias que nem sempre foram preservadas.

Onde hoje vemos avenidas, edifícios e jardins, existiram caminhos de terra.

Onde hoje há urbanização, existiram casas simples.

Onde existe o Jardim dos Namorados, existiram pessoas, famílias, pescadores e uma comunidade cuja história merece ser lembrada.

É justamente aí que a memória deixa de ser apenas saudade.

Ela passa a ser também responsabilidade.

Uma cidade não é feita somente de concreto.

É feita de lembranças.

É feita das pessoas que chegaram antes dos edifícios, das crianças que brincaram onde hoje existem avenidas, dos trabalhadores que construíram aquilo que outros desfrutariam depois, das famílias que deram nomes às ruas e dos personagens anônimos que jamais aparecerão nos livros oficiais.

A família, os amigos e a infância

A Pituba que conheci era muito diferente daquela que existe hoje.

Mas talvez ela não tenha desaparecido completamente.

Ela continua escondida em mim.

Está no cheiro do jasmim.

Está na lembrança de minha mãe.

Está na voz de meu pai.

Está nas brincadeiras com Tereza.

Está nos amigos da infância.

Está na família Meireles, que ocupou um lugar especial na minha história.

Os Meireles eram muitos. Aliás, as famílias eram grandes: Dona Núbia, Dona Esthe, Dona Maria de Filinho, Dona Naná, Dona Maria Clara e Dona Regina, Gil Ferreira  e as corridas. E havia ainda as velhinhas que moravam na Rua São Paulo: Dona Zizi e Dona Tudinha.

Eram famílias grandes, daquelas que faziam uma casa parecer uma pequena cidade. Essas matriarcas e seus filhos fizeram parte de uma época em que as relações humanas tinham uma proximidade que hoje parece cada vez mais rara.

Eles nos acolheram.

E isso ficou em mim.

Talvez porque uma criança não compreenda perfeitamente as diferenças sociais. Ela percebe, antes de tudo, quem lhe estende a mão.

Foi naquele convívio que aprendi uma das lições mais importantes da minha vida: a dignidade não depende da condição econômica de uma pessoa, e o afeto verdadeiro não reconhece fronteiras sociais, culturais ou religiosas.

Um domingo no meio da transformação

Lembro-me das amizades, das brincadeiras e daquele grande piquenique que reuniu crianças da Pituba.

Saímos em direção às áreas ainda pouco ocupadas pela cidade. Caminhamos, atravessamos o rio, passamos por máquinas e tratores que anunciavam um futuro que nós, crianças, não conseguíamos compreender.

Enquanto brincávamos,
Salvador estava sendo construída.

Nós éramos crianças brincando no meio da história.

Hoje percebo isso com uma clareza que não tinha naquele domingo.

O que para nós era aventura era também transformação urbana.

As máquinas anunciavam novos conjuntos habitacionais. As ruas de terra dariam lugar ao asfalto. Os espaços vazios seriam ocupados por prédios. A paisagem desapareceria lentamente.

E nós também mudaríamos.

É assim que o tempo trabalha.

Primeiro ele modifica a paisagem.
Depois modifica as pessoas.

Um dia, percebemos que aquela rua já não existe. O amigo se mudou. A casa foi demolida. A árvore desapareceu. O comércio mudou de nome. A praia foi urbanizada. O terreno onde jogávamos bola virou um edifício.

E então compreendemos que não sentimos saudade apenas dos lugares.

Sentimos saudade de quem éramos quando aqueles lugares existiam.

O menino que ainda mora em mim

Hoje, quando penso na Pituba, não vejo apenas o bairro moderno, suas grandes avenidas, seus edifícios, restaurantes e comércio.

Vejo também a estrada de chão batido.

Vejo o bonde chegando pelo Largo de Amaralina.

Vejo a antiga paisagem da Fazenda Pituba.

Vejo as famílias chegando para o verão.

Vejo os pescadores.

Vejo crianças correndo.

Vejo meu pai.

Vejo minha mãe.

E vejo aquele menino que ainda mora em algum lugar dentro de mim.

Ele não sabe nada sobre o homem que eu me tornaria.

Não sabe das escolhas que faria.

Não conhece minhas vitórias nem minhas derrotas.

Não sabe que um dia eu entraria para o seminário, estudaria filosofia e teologia, viveria a experiência do sacerdócio, conheceria o amor, constituiria uma família e chegaria à maturidade carregando tantas histórias.

Ele apenas corre.

E talvez seja por isso que, quando penso nele, tenho vontade de abraçá-lo.

Dizer-lhe para não ter pressa.

Para brincar mais.

Para olhar melhor para o céu.

Para prestar atenção no cheiro das flores.

Para guardar o rosto da mãe.

Para aproveitar os amigos.

Para entender que aquele momento aparentemente comum seria, muitos anos depois, uma das maiores riquezas de sua vida.

Mas o menino não me escuta.

Ele continua correndo.
E eu continuo olhando.

Escrever para que a memória não morra

Talvez seja esse o mistério da existência: passamos a vida inteira tentando alcançar o futuro, sem perceber que um dia o futuro será justamente o momento em que estaremos olhando para o passado.

Por isso escrevo.

Escrevo porque tenho medo de que as cidades esqueçam seus mortos, suas crianças, suas casas, seus personagens e suas histórias.

Escrevo porque acredito que preservar a memória é uma forma de preservar a própria identidade.

Escrevo porque Salvador não pode ser apenas aquilo que está diante dos nossos olhos.

Salvador também é aquilo que desapareceu.

Os nomes que resistem ao tempo

A Pituba de minha infância já não existe fisicamente da mesma maneira.

Mas existe dentro de mim.

O Campo do Barreiro
O time Pitubinha
A Festa da Pituba
A Cabana de Pedro
O Boit de Aurino
O Clube Português
O Armazém Popular

E talvez seja essa a verdadeira vitória contra o tempo.

Os prédios podem substituir as casas. As avenidas podem cobrir os caminhos antigos. O progresso pode modificar a paisagem. As máquinas podem transformar terrenos inteiros.

Mas existe alguma coisa que o concreto não consegue destruir.

A memória.

Enquanto alguém lembrar, aquela Pituba continuará existindo.

Enquanto alguém contar a história de uma mãe sentada sob um pé de jasmim, ela continuará viva.

Enquanto alguém lembrar das crianças correndo pelas ruas, dos amigos, das famílias, dos piqueniques e das antigas paisagens, aquela Salvador continuará respirando.

Quando o perfume do jasmim volta

Por isso, quando sinto o perfume do jasmim, não é apenas uma flor que sinto.

É minha infância chegando devagar.

É minha mãe voltando por alguns segundos.

É meu pai novamente jovem.

É Tereza ao meu lado.

São meus amigos.

São as famílias que faziam parte das ruas Rio de Janeiro e São Paulo.

É a Pituba.
É Salvador.

E talvez seja também Deus me lembrando, silenciosamente, que a vida passa depressa, mas aquilo que amamos verdadeiramente encontra uma maneira de permanecer.

A Pituba mudou. Salvador mudou. Eu também mudei.

Mas há uma janela que o tempo jamais conseguiu fechar.

Abro essa janela quando escrevo.

E do outro lado ainda está aquele menino.

Correndo.
Livre.
Feliz.
Sob o céu azul da antiga Pituba.

E, por alguns instantes,
eu volto para casa.

PITUBA
SALVADOR
MEMÓRIA
INFÂNCIA
CRÔNICA

Texto e memória

Padre Carlos

“A memória é a janela pela qual aquilo que amamos continua respirando.”

“`

A PITUBA QUE VIVE EM MIM

 

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MEMÓRIA • CRÔNICA • SALVADOR

Por Padre Carlos

Há lugares que nós visitamos. Há outros que nos visitam para sempre.

A Pituba pertence a essa segunda categoria.

Posso mudar de cidade, atravessar ruas que nunca conheci, morar longe das praias onde passei a infância, envelhecer e ver o mundo se transformar diante dos meus olhos. Mas basta uma palavra — Pituba — para que alguma coisa dentro de mim se mova. É como se uma porta antiga se abrisse e, do outro lado, estivesse novamente aquele menino correndo pelas ruas de uma Salvador que já não existe.

Talvez seja essa a maior força da memória: ela não devolve o tempo, mas devolve aquilo que fomos.

Onde começou a minha história

Nasci na Pituba, em uma época em que o bairro ainda vivia entre dois mundos. De um lado, o antigo balneário, com suas casas de veraneio, seus jardins, coqueiros, praias e famílias que chegavam durante as férias. Do outro, uma cidade que crescia rapidamente e começava a transformar aquele pedaço de Salvador em um dos seus mais importantes bairros residenciais.

Meu pai veio do interior em busca de uma vida melhor. Minha mãe, ainda muito jovem, havia conhecido a vida religiosa e estava ligada às Irmãs Mercedárias. Eles tinham pouco dinheiro, mas carregavam aquilo que muitas famílias pobres carregavam naquele tempo: fé, esperança e disposição para trabalhar.

Foi assim que nossa família chegou àquela casa de veraneio dos Machado.

E foi ali, na simplicidade de uma casa de caseiro, que começou a minha história.

Quando penso naquela casa, não me lembro primeiro das paredes, das portas ou dos móveis. Lembro-me do jardim.

E, sobretudo, lembro-me do jasmim.

Havia um pé de jasmim branco que oferecia sombra nas tardes quentes. Minha mãe gostava daquela sombra. Talvez por isso, até hoje, o cheiro do jasmim tenha para mim alguma coisa de sagrado.

Existem perfumes que não pertencem às flores.
Pertencem à nossa história.

O cheiro do jasmim me devolve minha mãe.
Devolve-me a infância.

Devolve-me uma época em que a felicidade não precisava de muito. Bastava uma bicicleta, uma bola, alguns amigos, uma rua para correr e a certeza de que alguém estaria esperando por nós quando a noite chegasse.

Crianças brincando no meio da história

Naquele tempo, a Pituba ainda tinha espaços que hoje parecem pertencer à imaginação. Havia terrenos vazios, caminhos de terra, rios, fazendas, árvores, casas enormes e crianças que podiam transformar qualquer pedaço de chão em território de aventura.

Eu frequentava a Escola da Irmã Catarina, das Irmãs Mercedárias. Brincava com minha irmã Tereza, minha primeira companheira de aventuras. A infância era feita de pequenas coisas que, somente muitos anos depois, descobrimos terem sido gigantescas.

A gente não sabia que estava sendo feliz.
Apenas era.

Talvez essa seja uma das maiores ironias da vida.

Quando somos crianças, queremos crescer. Quando crescemos, passamos boa parte da vida tentando voltar ao lugar onde fomos crianças.

Quando a cidade começou a mudar

E a Pituba mudou.

Como mudou Salvador.

A antiga fazenda foi sendo transformada. O bairro planejado sonhado por Teodoro Fernandes Sampaio foi ganhando ruas, casas, comércio e novas avenidas. O antigo balneário foi deixando de ser apenas lugar de férias para se transformar em um dos grandes espaços urbanos de Salvador.

A modernidade chegou trazendo progresso, mas também carregando consigo histórias que nem sempre foram preservadas.

Onde hoje vemos avenidas, edifícios e jardins, existiram caminhos de terra.

Onde hoje há urbanização, existiram casas simples.

Onde existe o Jardim dos Namorados, existiram pessoas, famílias, pescadores e uma comunidade cuja história merece ser lembrada.

É justamente aí que a memória deixa de ser apenas saudade.

Ela passa a ser também responsabilidade.

Uma cidade não é feita somente de concreto.

É feita de lembranças.

É feita das pessoas que chegaram antes dos edifícios, das crianças que brincaram onde hoje existem avenidas, dos trabalhadores que construíram aquilo que outros desfrutariam depois, das famílias que deram nomes às ruas e dos personagens anônimos que jamais aparecerão nos livros oficiais.

A família, os amigos e a infância

A Pituba que conheci era muito diferente daquela que existe hoje.

Mas talvez ela não tenha desaparecido completamente.

Ela continua escondida em mim.

Está no cheiro do jasmim.

Está na lembrança de minha mãe.

Está na voz de meu pai.

Está nas brincadeiras com Tereza.

Está nos amigos da infância.

Está na família Meireles, que ocupou um lugar especial na minha história.

Os Meireles eram muitos. Aliás, as famílias eram grandes: Dona Núbia, Dona Esthe, Dona Maria de Filinho, Dona Naná, Dona Maria Clara e Dona Regina, Gil Ferreira  e as corridas. E havia ainda as velhinhas que moravam na Rua São Paulo: Dona Zizi e Dona Tudinha.

Eram famílias grandes, daquelas que faziam uma casa parecer uma pequena cidade. Essas matriarcas e seus filhos fizeram parte de uma época em que as relações humanas tinham uma proximidade que hoje parece cada vez mais rara.

Eles nos acolheram.

E isso ficou em mim.

Talvez porque uma criança não compreenda perfeitamente as diferenças sociais. Ela percebe, antes de tudo, quem lhe estende a mão.

Foi naquele convívio que aprendi uma das lições mais importantes da minha vida: a dignidade não depende da condição econômica de uma pessoa, e o afeto verdadeiro não reconhece fronteiras sociais, culturais ou religiosas.

Um domingo no meio da transformação

Lembro-me das amizades, das brincadeiras e daquele grande piquenique que reuniu crianças da Pituba.

Saímos em direção às áreas ainda pouco ocupadas pela cidade. Caminhamos, atravessamos o rio, passamos por máquinas e tratores que anunciavam um futuro que nós, crianças, não conseguíamos compreender.

Enquanto brincávamos,
Salvador estava sendo construída.

Nós éramos crianças brincando no meio da história.

Hoje percebo isso com uma clareza que não tinha naquele domingo.

O que para nós era aventura era também transformação urbana.

As máquinas anunciavam novos conjuntos habitacionais. As ruas de terra dariam lugar ao asfalto. Os espaços vazios seriam ocupados por prédios. A paisagem desapareceria lentamente.

E nós também mudaríamos.

É assim que o tempo trabalha.

Primeiro ele modifica a paisagem.
Depois modifica as pessoas.

Um dia, percebemos que aquela rua já não existe. O amigo se mudou. A casa foi demolida. A árvore desapareceu. O comércio mudou de nome. A praia foi urbanizada. O terreno onde jogávamos bola virou um edifício.

E então compreendemos que não sentimos saudade apenas dos lugares.

Sentimos saudade de quem éramos quando aqueles lugares existiam.

O menino que ainda mora em mim

Hoje, quando penso na Pituba, não vejo apenas o bairro moderno, suas grandes avenidas, seus edifícios, restaurantes e comércio.

Vejo também a estrada de chão batido.

Vejo o bonde chegando pelo Largo de Amaralina.

Vejo a antiga paisagem da Fazenda Pituba.

Vejo as famílias chegando para o verão.

Vejo os pescadores.

Vejo crianças correndo.

Vejo meu pai.

Vejo minha mãe.

E vejo aquele menino que ainda mora em algum lugar dentro de mim.

Ele não sabe nada sobre o homem que eu me tornaria.

Não sabe das escolhas que faria.

Não conhece minhas vitórias nem minhas derrotas.

Não sabe que um dia eu entraria para o seminário, estudaria filosofia e teologia, viveria a experiência do sacerdócio, conheceria o amor, constituiria uma família e chegaria à maturidade carregando tantas histórias.

Ele apenas corre.

E talvez seja por isso que, quando penso nele, tenho vontade de abraçá-lo.

Dizer-lhe para não ter pressa.

Para brincar mais.

Para olhar melhor para o céu.

Para prestar atenção no cheiro das flores.

Para guardar o rosto da mãe.

Para aproveitar os amigos.

Para entender que aquele momento aparentemente comum seria, muitos anos depois, uma das maiores riquezas de sua vida.

Mas o menino não me escuta.

Ele continua correndo.
E eu continuo olhando.

Escrever para que a memória não morra

Talvez seja esse o mistério da existência: passamos a vida inteira tentando alcançar o futuro, sem perceber que um dia o futuro será justamente o momento em que estaremos olhando para o passado.

Por isso escrevo.

Escrevo porque tenho medo de que as cidades esqueçam seus mortos, suas crianças, suas casas, seus personagens e suas histórias.

Escrevo porque acredito que preservar a memória é uma forma de preservar a própria identidade.

Escrevo porque Salvador não pode ser apenas aquilo que está diante dos nossos olhos.

Salvador também é aquilo que desapareceu.

Os nomes que resistem ao tempo

A Pituba de minha infância já não existe fisicamente da mesma maneira.

Mas existe dentro de mim.

O Campo do Barreiro
O time Pitubinha
A Festa da Pituba
A Cabana de Pedro
O Boit de Aurino
O Clube Português
O Armazém Popular

E talvez seja essa a verdadeira vitória contra o tempo.

Os prédios podem substituir as casas. As avenidas podem cobrir os caminhos antigos. O progresso pode modificar a paisagem. As máquinas podem transformar terrenos inteiros.

Mas existe alguma coisa que o concreto não consegue destruir.

A memória.

Enquanto alguém lembrar, aquela Pituba continuará existindo.

Enquanto alguém contar a história de uma mãe sentada sob um pé de jasmim, ela continuará viva.

Enquanto alguém lembrar das crianças correndo pelas ruas, dos amigos, das famílias, dos piqueniques e das antigas paisagens, aquela Salvador continuará respirando.

Quando o perfume do jasmim volta

Por isso, quando sinto o perfume do jasmim, não é apenas uma flor que sinto.

É minha infância chegando devagar.

É minha mãe voltando por alguns segundos.

É meu pai novamente jovem.

É Tereza ao meu lado.

São meus amigos.

São as famílias que faziam parte das ruas Rio de Janeiro e São Paulo.

É a Pituba.
É Salvador.

E talvez seja também Deus me lembrando, silenciosamente, que a vida passa depressa, mas aquilo que amamos verdadeiramente encontra uma maneira de permanecer.

A Pituba mudou. Salvador mudou. Eu também mudei.

Mas há uma janela que o tempo jamais conseguiu fechar.

Abro essa janela quando escrevo.

E do outro lado ainda está aquele menino.

Correndo.
Livre.
Feliz.
Sob o céu azul da antiga Pituba.

E, por alguns instantes,
eu volto para casa.

PITUBA
SALVADOR
MEMÓRIA
INFÂNCIA
CRÔNICA

Texto e memória

Padre Carlos

“A memória é a janela pela qual aquilo que amamos continua respirando.”

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A Quaresma de São Miguel

Quarenta dias para vencer as batalhas que ninguém vê

por Padre Carlos

Há batalhas que travamos diante dos olhos do mundo e há outras que ninguém vê. Existem lutas contra as circunstâncias da vida, contra as injustiças, contra as perdas, contra as decepções. Mas existem também combates que acontecem dentro de nós: contra o medo, o desânimo, a tentação, o orgulho, a desesperança e tudo aquilo que pouco a pouco pode nos afastar de Deus.

É nesse território invisível da alma que a Quaresma de São Miguel Arcanjo ganha um significado particularmente profundo.

A tradição consiste em dedicar quarenta dias à oração e à penitência, culminando na festa de São Miguel, São Gabriel e São Rafael, celebrada em 29 de setembro. Mais do que uma prática devocional, para milhões de católicos esse período representa uma oportunidade de parar, silenciar o coração e reencontrar o caminho da fé.

E essa tradição tem uma ligação muito bonita com São Francisco de Assis.

A herança de São Francisco

Francisco tinha uma profunda devoção ao Arcanjo São Miguel. Depois da festa da Assunção de Nossa Senhora, costumava dedicar um período especial à oração e ao jejum em sua honra. Era uma experiência de recolhimento, penitência e busca de Deus.

Foi justamente durante um desses períodos de oração que aconteceu um dos episódios mais extraordinários da vida de São Francisco.

Em 1224, no Monte Alverne, Francisco viveu uma experiência mística na qual contemplou Cristo crucificado de maneira extraordinária e recebeu em seu próprio corpo os estigmas, as marcas da Paixão de Cristo.

A tradição franciscana guarda esse acontecimento como uma das expressões mais profundas da identificação de Francisco com Jesus. Aquele homem que havia escolhido a pobreza, a simplicidade e o Evangelho terminou carregando no próprio corpo os sinais daquele que amava.

Há algo profundamente simbólico nisso.

Francisco não procurava uma religião de privilégios. Procurava uma religião de transformação. Não queria simplesmente falar de Cristo; queria aproximar sua própria vida da vida de Cristo.

E talvez essa seja uma das grandes mensagens escondidas na Quaresma de São Miguel.

Do que precisamos ser protegidos?

Nós podemos pedir proteção a São Miguel, mas também precisamos perguntar: do que precisamos ser protegidos?

Talvez seja do ódio que carregamos.

Da mágoa que não conseguimos abandonar.

Da vaidade que alimentamos.

Da necessidade de sempre ter razão.

Da inveja silenciosa.

Do ressentimento.

Da desesperança.

Daquilo que sabemos que precisamos mudar, mas continuamos adiando.

São Miguel, na tradição cristã, aparece como aquele que combate o mal e permanece fiel a Deus. Seu nome significa uma pergunta que atravessa os séculos: “Quem como Deus?”

Não é apenas uma frase. É uma profissão de fé.

É reconhecer que nenhuma força humana, nenhum poder político, nenhuma riqueza, nenhuma autoridade e nenhuma ambição pode ocupar o lugar de Deus.

Vivemos em uma época marcada por ansiedade, conflitos, polarização, intolerância e excesso de informações. Temos acesso a praticamente tudo, mas muitas vezes não conseguimos encontrar silêncio. Conversamos com milhares de pessoas pelas redes sociais, mas frequentemente temos dificuldade de conversar com a nossa própria consciência.

Por isso, quarenta dias de oração podem ser também quarenta dias de silêncio interior.

Quarenta dias para diminuir o barulho.

Quarenta dias para examinar a própria consciência.

Quarenta dias para pedir perdão.

Quarenta dias para agradecer.

Quarenta dias para reaprender a confiar.

Uma oração que termina em conversão

A penitência cristã não deveria ser compreendida apenas como sofrimento ou privação. Ela é, antes de tudo, um exercício de liberdade. É aprender que nem tudo aquilo que desejamos precisa ser imediatamente satisfeito.

É dizer ao próprio coração: eu não sou escravo dos meus desejos.

E quando rezamos a São Miguel, não estamos simplesmente pedindo que um guerreiro celestial lute por nós. Estamos reconhecendo que existe uma dimensão espiritual da existência e que precisamos permanecer vigilantes diante do mal.

A oração de consagração a São Miguel expressa exatamente isso.

Nela, colocamos nossa própria vida, nossa família e aquilo que possuímos sob a proteção do Arcanjo. Pedimos auxílio para vencer nossas fraquezas, alcançar o perdão, amar a Deus, seguir Jesus Cristo e permanecer sob a proteção de Maria Santíssima.

É uma oração que começa falando de proteção, mas termina falando de conversão.

E talvez essa seja a parte mais importante.

Porque não adianta pedir que Deus mude o mundo se não permitimos que Ele comece mudando alguma coisa dentro de nós. Não adianta pedir proteção contra os inimigos se continuamos cultivando inimigos dentro do próprio coração.

Não adianta pedir a vitória contra o mal se não estamos dispostos a abandonar aquilo que nos aproxima dele.

O exemplo de Francisco

A espiritualidade cristã nunca foi apenas uma fuga do mundo. Ela é uma maneira diferente de permanecer no mundo.

São Francisco entendeu isso profundamente.

Ele não venceu suas batalhas acumulando poder. Venceu-as pela humildade.

Não buscou riqueza. Abraçou a pobreza.

Não procurou dominar os outros. Procurou servir.

Não respondeu à violência com violência. Tornou-se instrumento de paz.

Por isso, talvez a verdadeira Quaresma de São Miguel não seja apenas aquela que fazemos durante quarenta dias. Talvez ela precise continuar dentro de nós depois que chega o dia 29 de setembro.

Porque o maior combate não acontece no calendário.

Acontece diariamente.

Cada manhã nos apresenta uma escolha. Podemos alimentar a raiva ou cultivar a paz. Podemos escolher o ressentimento ou o perdão. Podemos alimentar o ego ou praticar a humildade. Podemos sucumbir ao medo ou renovar a esperança.

São Miguel nos recorda que a vida também é combate.

Mas o cristão não combate sozinho.

Combate sustentado pela fé, pela oração, pela esperança e pela certeza de que o mal não tem a última palavra.

Uma pergunta para levar conosco

Por isso, ao concluir estes quarenta dias, talvez devêssemos levar conosco uma pergunta simples e profunda:

O que mudou dentro de mim?

Se a resposta for nada, talvez tenhamos apenas contado quarenta dias.

Mas se a oração nos tornou mais pacientes, mais humildes, mais capazes de perdoar, mais próximos de Deus e mais comprometidos com o bem, então a Quaresma de São Miguel realmente cumpriu seu propósito.

Que São Miguel Arcanjo proteja nossas famílias, fortaleça nossa fé, nos ajude nas batalhas da vida e nos ensine a permanecer firmes diante do mal.

E que, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis, possamos compreender que a maior vitória não é derrotar alguém. A maior vitória é permitir que Deus vença dentro de nós aquilo que ainda precisa ser transformado.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate.

Para que não pereçamos no supremo juízo.

Amém.

Oração de Consagração a São Miguel Arcanjo

“Ó Príncipe nobilíssimo dos Anjos, valoroso guerreiro do Altíssimo, zeloso defensor da glória do Senhor, terror dos espíritos rebeldes, amor e delícia de todos os Anjos justos, meu diletíssimo Arcanjo São Miguel, desejando eu fazer parte do número dos vossos devotos e servos, a vós hoje me consagro, me dou e me ofereço e ponho-me a mim próprio, a minha família e tudo o que me pertence debaixo da vossa poderosíssima proteção.

É pequena a oferta do meu serviço, sendo como sou um miserável pecador, mas vós engrandecereis o afeto do meu coração; recordai-vos que de hoje em diante estou debaixo do vosso sustento e deveis assistir-me em toda a minha vida e obter-me o perdão dos meus muitos e graves pecados, a graça de amar a Deus de todo o coração, ao meu querido Salvador Jesus Cristo e à minha Mãe Maria Santíssima, obtende-me aqueles auxílios que me são necessários para obter a coroa da eterna glória.

Defendei-me dos inimigos da alma, especialmente na hora da morte. Vinde, ó príncipe gloriosíssimo, assistir-me na última luta e, com a vossa arma poderosa, lançai para longe, precipitando nos abismos do inferno, aquele anjo quebrador de promessas e soberbo que um dia prostrastes no combate no Céu.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para que não pereçamos no supremo juízo.”

Amém.

Quaresma de São MiguelSão Francisco de AssisOraçãoEspiritualidade

Escrito por Padre Carlos

A Quaresma de São Miguel

Quarenta dias para vencer as batalhas que ninguém vê

por Padre Carlos

Há batalhas que travamos diante dos olhos do mundo e há outras que ninguém vê. Existem lutas contra as circunstâncias da vida, contra as injustiças, contra as perdas, contra as decepções. Mas existem também combates que acontecem dentro de nós: contra o medo, o desânimo, a tentação, o orgulho, a desesperança e tudo aquilo que pouco a pouco pode nos afastar de Deus.

É nesse território invisível da alma que a Quaresma de São Miguel Arcanjo ganha um significado particularmente profundo.

A tradição consiste em dedicar quarenta dias à oração e à penitência, culminando na festa de São Miguel, São Gabriel e São Rafael, celebrada em 29 de setembro. Mais do que uma prática devocional, para milhões de católicos esse período representa uma oportunidade de parar, silenciar o coração e reencontrar o caminho da fé.

E essa tradição tem uma ligação muito bonita com São Francisco de Assis.

A herança de São Francisco

Francisco tinha uma profunda devoção ao Arcanjo São Miguel. Depois da festa da Assunção de Nossa Senhora, costumava dedicar um período especial à oração e ao jejum em sua honra. Era uma experiência de recolhimento, penitência e busca de Deus.

Foi justamente durante um desses períodos de oração que aconteceu um dos episódios mais extraordinários da vida de São Francisco.

Em 1224, no Monte Alverne, Francisco viveu uma experiência mística na qual contemplou Cristo crucificado de maneira extraordinária e recebeu em seu próprio corpo os estigmas, as marcas da Paixão de Cristo.

A tradição franciscana guarda esse acontecimento como uma das expressões mais profundas da identificação de Francisco com Jesus. Aquele homem que havia escolhido a pobreza, a simplicidade e o Evangelho terminou carregando no próprio corpo os sinais daquele que amava.

Há algo profundamente simbólico nisso.

Francisco não procurava uma religião de privilégios. Procurava uma religião de transformação. Não queria simplesmente falar de Cristo; queria aproximar sua própria vida da vida de Cristo.

E talvez essa seja uma das grandes mensagens escondidas na Quaresma de São Miguel.

Do que precisamos ser protegidos?

Nós podemos pedir proteção a São Miguel, mas também precisamos perguntar: do que precisamos ser protegidos?

Talvez seja do ódio que carregamos.

Da mágoa que não conseguimos abandonar.

Da vaidade que alimentamos.

Da necessidade de sempre ter razão.

Da inveja silenciosa.

Do ressentimento.

Da desesperança.

Daquilo que sabemos que precisamos mudar, mas continuamos adiando.

São Miguel, na tradição cristã, aparece como aquele que combate o mal e permanece fiel a Deus. Seu nome significa uma pergunta que atravessa os séculos: “Quem como Deus?”

Não é apenas uma frase. É uma profissão de fé.

É reconhecer que nenhuma força humana, nenhum poder político, nenhuma riqueza, nenhuma autoridade e nenhuma ambição pode ocupar o lugar de Deus.

Vivemos em uma época marcada por ansiedade, conflitos, polarização, intolerância e excesso de informações. Temos acesso a praticamente tudo, mas muitas vezes não conseguimos encontrar silêncio. Conversamos com milhares de pessoas pelas redes sociais, mas frequentemente temos dificuldade de conversar com a nossa própria consciência.

Por isso, quarenta dias de oração podem ser também quarenta dias de silêncio interior.

Quarenta dias para diminuir o barulho.

Quarenta dias para examinar a própria consciência.

Quarenta dias para pedir perdão.

Quarenta dias para agradecer.

Quarenta dias para reaprender a confiar.

Uma oração que termina em conversão

A penitência cristã não deveria ser compreendida apenas como sofrimento ou privação. Ela é, antes de tudo, um exercício de liberdade. É aprender que nem tudo aquilo que desejamos precisa ser imediatamente satisfeito.

É dizer ao próprio coração: eu não sou escravo dos meus desejos.

E quando rezamos a São Miguel, não estamos simplesmente pedindo que um guerreiro celestial lute por nós. Estamos reconhecendo que existe uma dimensão espiritual da existência e que precisamos permanecer vigilantes diante do mal.

A oração de consagração a São Miguel expressa exatamente isso.

Nela, colocamos nossa própria vida, nossa família e aquilo que possuímos sob a proteção do Arcanjo. Pedimos auxílio para vencer nossas fraquezas, alcançar o perdão, amar a Deus, seguir Jesus Cristo e permanecer sob a proteção de Maria Santíssima.

É uma oração que começa falando de proteção, mas termina falando de conversão.

E talvez essa seja a parte mais importante.

Porque não adianta pedir que Deus mude o mundo se não permitimos que Ele comece mudando alguma coisa dentro de nós. Não adianta pedir proteção contra os inimigos se continuamos cultivando inimigos dentro do próprio coração.

Não adianta pedir a vitória contra o mal se não estamos dispostos a abandonar aquilo que nos aproxima dele.

O exemplo de Francisco

A espiritualidade cristã nunca foi apenas uma fuga do mundo. Ela é uma maneira diferente de permanecer no mundo.

São Francisco entendeu isso profundamente.

Ele não venceu suas batalhas acumulando poder. Venceu-as pela humildade.

Não buscou riqueza. Abraçou a pobreza.

Não procurou dominar os outros. Procurou servir.

Não respondeu à violência com violência. Tornou-se instrumento de paz.

Por isso, talvez a verdadeira Quaresma de São Miguel não seja apenas aquela que fazemos durante quarenta dias. Talvez ela precise continuar dentro de nós depois que chega o dia 29 de setembro.

Porque o maior combate não acontece no calendário.

Acontece diariamente.

Cada manhã nos apresenta uma escolha. Podemos alimentar a raiva ou cultivar a paz. Podemos escolher o ressentimento ou o perdão. Podemos alimentar o ego ou praticar a humildade. Podemos sucumbir ao medo ou renovar a esperança.

São Miguel nos recorda que a vida também é combate.

Mas o cristão não combate sozinho.

Combate sustentado pela fé, pela oração, pela esperança e pela certeza de que o mal não tem a última palavra.

Uma pergunta para levar conosco

Por isso, ao concluir estes quarenta dias, talvez devêssemos levar conosco uma pergunta simples e profunda:

O que mudou dentro de mim?

Se a resposta for nada, talvez tenhamos apenas contado quarenta dias.

Mas se a oração nos tornou mais pacientes, mais humildes, mais capazes de perdoar, mais próximos de Deus e mais comprometidos com o bem, então a Quaresma de São Miguel realmente cumpriu seu propósito.

Que São Miguel Arcanjo proteja nossas famílias, fortaleça nossa fé, nos ajude nas batalhas da vida e nos ensine a permanecer firmes diante do mal.

E que, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis, possamos compreender que a maior vitória não é derrotar alguém. A maior vitória é permitir que Deus vença dentro de nós aquilo que ainda precisa ser transformado.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate.

Para que não pereçamos no supremo juízo.

Amém.

Oração de Consagração a São Miguel Arcanjo

“Ó Príncipe nobilíssimo dos Anjos, valoroso guerreiro do Altíssimo, zeloso defensor da glória do Senhor, terror dos espíritos rebeldes, amor e delícia de todos os Anjos justos, meu diletíssimo Arcanjo São Miguel, desejando eu fazer parte do número dos vossos devotos e servos, a vós hoje me consagro, me dou e me ofereço e ponho-me a mim próprio, a minha família e tudo o que me pertence debaixo da vossa poderosíssima proteção.

É pequena a oferta do meu serviço, sendo como sou um miserável pecador, mas vós engrandecereis o afeto do meu coração; recordai-vos que de hoje em diante estou debaixo do vosso sustento e deveis assistir-me em toda a minha vida e obter-me o perdão dos meus muitos e graves pecados, a graça de amar a Deus de todo o coração, ao meu querido Salvador Jesus Cristo e à minha Mãe Maria Santíssima, obtende-me aqueles auxílios que me são necessários para obter a coroa da eterna glória.

Defendei-me dos inimigos da alma, especialmente na hora da morte. Vinde, ó príncipe gloriosíssimo, assistir-me na última luta e, com a vossa arma poderosa, lançai para longe, precipitando nos abismos do inferno, aquele anjo quebrador de promessas e soberbo que um dia prostrastes no combate no Céu.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para que não pereçamos no supremo juízo.”

Amém.

Quaresma de São MiguelSão Francisco de AssisOraçãoEspiritualidade

Escrito por Padre Carlos

Se vale para Moraes, tem que valer para todos os ministros do STF

Se vale para Moraes, tem que valer para todos os ministros do STF

Por Padre Carlos

Odebate que tomou conta do Supremo Tribunal Federal não deveria ser transformado em uma disputa entre Alexandre de Moraes e André Mendonça. Essa é uma maneira pequena de enxergar uma questão que é muito maior.

O que está em discussão é o próprio funcionamento das instituições brasileiras.

E, quando falamos de instituições, existe um princípio que não pode ser negociado: a regra precisa valer para todos.

Uma régua para todos, sem exceção

Se uma relação financeira, profissional ou familiar é suficiente para justificar questionamentos sobre a conduta de um ministro do Supremo, então o mesmo critério precisa ser aplicado a todos os demais ministros.

Sem exceção.

Sem amigos.

Sem inimigos.

Sem esquerda.

Sem direita.

Sem bolsonaristas.

Sem lulistas.

A Constituição não pode ter dois pesos e duas medidas.

As informações que vieram a público envolvendo Daniel Vorcaro e pessoas ligadas a integrantes do Supremo levantam justamente essa questão. Há relatos de que familiares de ministros teriam prestado serviços ao empresário, assim como há a informação de uma relação empresarial envolvendo Dias Toffoli e Vorcaro. São fatos que precisam ser corretamente estabelecidos, contextualizados e, se houver elementos suficientes, submetidos à apuração competente.

Mas é preciso fazer uma distinção fundamental: relação profissional ou familiar não significa automaticamente crime.

O problema aparece quando uma relação dessa natureza pode criar dúvida razoável sobre a independência, a imparcialidade ou a aparência de imparcialidade de um magistrado. E é justamente por isso que existem regras de impedimento, suspeição, ética e transparência.

Se um ministro do Supremo julga ou participa de decisões que podem afetar diretamente alguém com quem ele ou um familiar mantém uma relação econômica relevante, a sociedade tem o direito de perguntar. E o ministro tem o direito de explicar.

Isso não é perseguição.
Isso é democracia.

O Estado Democrático de Direito não pode funcionar segundo a lógica de que somente os adversários devem ser investigados.

Se André Mendonça deve explicar seus atos, que explique.

Se Alexandre de Moraes precisa esclarecer alguma relação, que esclareça.

Se Dias Toffoli precisa explicar uma relação empresarial, que explique.

Se Luiz Fux precisa esclarecer relações profissionais envolvendo seu filho, que esclareça.

Se Kassio Nunes Marques estiver diante de situação semelhante, que também explique.

A régua precisa ser a mesma.

Investigar não é condenar

E aqui está o ponto central que muitas vezes desaparece no debate político: não estamos falando de condenar ninguém antecipadamente. Estamos falando de investigar quando existem elementos que justificam uma investigação.

Investigar não é condenar.

Perguntar não é acusar.

Apurar não é perseguir.

E esclarecer não é confessar culpa.

Uma República madura não tem medo dessas palavras.

Aliás, quanto mais poderosa é a autoridade, maior deve ser a transparência exigida de sua atuação.

Um cidadão comum pode ser submetido a uma série de controles quando existe suspeita de irregularidade. Um delegado pode ser investigado. Um procurador pode ser investigado. Um deputado pode ser investigado. Um ministro de Estado pode ser investigado.

Por que um ministro do Supremo deveria ser tratado como alguém acima de qualquer questionamento? Não deveria.

Mas existe uma diferença essencial: ministro do Supremo possui prerrogativas institucionais e essas prerrogativas precisam ser respeitadas. Por isso, uma eventual investigação deve seguir rigorosamente as regras constitucionais e regimentais.

Entre o arbítrio e a blindagem

É justamente aí que está o verdadeiro debate. Não se pode utilizar a defesa da investigação para atropelar a competência institucional do próprio Supremo. Da mesma forma, não se pode utilizar a defesa das prerrogativas dos ministros para impedir qualquer apuração sobre fatos relevantes.

Os dois extremos são perigosos. De um lado está o arbítrio de quem quer investigar qualquer pessoa a qualquer preço. Do outro está a blindagem de quem entende que determinadas autoridades não podem ser questionadas. Nenhum dos dois serve à democracia.

O Brasil já pagou um preço muito alto quando instituições passaram a funcionar movidas por interesses políticos. Não podemos repetir o erro.

Se há indícios envolvendo Alexandre de Moraes, que sejam examinados dentro das regras. Se há indícios envolvendo André Mendonça, que sejam examinados dentro das regras. Se há indícios envolvendo qualquer outro ministro, que sejam examinados dentro das regras.

E se, ao final, ficar demonstrado que não houve irregularidade, que isso seja igualmente afirmado com a mesma força com que a suspeita foi divulgada. Esse é o verdadeiro compromisso com a Justiça.

Os familiares dos magistrados

Há ainda uma questão que merece atenção especial: os familiares dos magistrados. É evidente que filho, filha, esposa, marido ou qualquer outro parente de um ministro não perde seus direitos profissionais simplesmente porque alguém da família ocupa uma cadeira no Supremo. Seria absurdo defender isso.

Mas também seria ingênuo ignorar que a proximidade familiar com uma autoridade de tamanho poder pode produzir vantagens, oportunidades ou relações econômicas que precisam ser examinadas quando envolvem pessoas diretamente interessadas em decisões daquela autoridade.

Não estou dizendo que todo contrato de um familiar com alguém relacionado ao Supremo seja ilegal. Estou dizendo algo muito mais simples: se a condição de parente de um ministro foi utilizada para obter vantagem, influência ou acesso privilegiado, isso precisa ser investigado. E se não foi, que a investigação demonstre que não foi.

Essa é a diferença entre uma República séria e uma República baseada em suspeitas permanentes.

Não devemos condenar filhos pelos atos dos pais. Nem pais pelos atos dos filhos. Mas também não podemos fingir que relações familiares são absolutamente irrelevantes quando existem grandes interesses econômicos e decisões judiciais de enorme impacto.

A ética pública trabalha também com a aparência de conflito de interesses. Porque Justiça não precisa apenas ser feita. Ela precisa parecer independente aos olhos da sociedade. Esse princípio vale para todos.

Não adianta defender Alexandre de Moraes simplesmente porque ele enfrentou Bolsonaro. Também não adianta atacar Alexandre de Moraes simplesmente porque ele se tornou o principal adversário político do bolsonarismo. O julgamento de um ministro não pode depender de quem ele combateu ou de quem o combate. O que deve importar é a Constituição.

Defender as instituições é exigir que cumpram as regras

E aqui faço uma defesa clara do Supremo Tribunal Federal. Precisamos defender o STF. Precisamos defender a democracia. Precisamos defender a independência judicial. Precisamos defender a Polícia Federal quando cumpre a lei. Precisamos defender a Procuradoria-Geral da República quando atua dentro de suas competências.

Mas defender as instituições não significa transformar seus integrantes em seres intocáveis. Muito pelo contrário. A melhor maneira de defender uma instituição é exigir que ela cumpra rigorosamente as regras que justificam sua existência.

O STF será mais forte se investigar corretamente.

Será mais forte se seus ministros forem transparentes.

Será mais forte se houver colegialidade.

Será mais forte se as regras de impedimento e suspeição forem respeitadas.

Será mais forte se nenhum ministro puder ser acusado de utilizar o poder da Corte para atingir adversários.

E será muito mais forte se puder demonstrar à sociedade que a mesma régua utilizada para examinar Alexandre de Moraes será utilizada para examinar André Mendonça, Dias Toffoli, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques ou qualquer outro integrante da Corte. Essa é a questão.

Não quero um Supremo enfraquecido. Quero um Supremo respeitado. E um Supremo só será verdadeiramente respeitado quando a sociedade tiver certeza de que ninguém dentro dele está acima das regras.

Não é sobre nomes, é sobre princípios

Não devemos escolher entre Moraes e Mendonça.

Devemos escolher entre arbítrio e Estado Democrático de Direito.

Não devemos escolher entre um ministro e outro.

Devemos escolher entre privilégio e igualdade perante a lei.

Não devemos escolher entre direita e esquerda.

Devemos escolher entre instituições fortes e instituições submetidas às conveniências políticas.

E há uma frase que deveria orientar todo esse debate:

Se a regra vale para um ministro, precisa valer para todos os ministros.

Se houver irregularidade, investigue-se.

Se houver crime, responsabilize-se.

Se não houver nada, arquive-se.

Mas que tudo seja feito dentro da Constituição, do devido processo legal e das regras do Supremo Tribunal Federal.

Porque, no fim das contas, não é Alexandre de Moraes que precisamos proteger. Não é André Mendonça que precisamos proteger. Não é qualquer outro ministro que precisamos proteger.

É a República.

É a Constituição.

É o Estado Democrático de Direito.

E, sobretudo, é a confiança do cidadão nas instituições brasileiras.


#STF
#Moraes
#Mendonça
#Democracia
#Justiça
#Instituições

— Padre Carlos

Se vale para Moraes, tem que valer para todos os ministros do STF

Se vale para Moraes, tem que valer para todos os ministros do STF

Por Padre Carlos

Odebate que tomou conta do Supremo Tribunal Federal não deveria ser transformado em uma disputa entre Alexandre de Moraes e André Mendonça. Essa é uma maneira pequena de enxergar uma questão que é muito maior.

O que está em discussão é o próprio funcionamento das instituições brasileiras.

E, quando falamos de instituições, existe um princípio que não pode ser negociado: a regra precisa valer para todos.

Uma régua para todos, sem exceção

Se uma relação financeira, profissional ou familiar é suficiente para justificar questionamentos sobre a conduta de um ministro do Supremo, então o mesmo critério precisa ser aplicado a todos os demais ministros.

Sem exceção.

Sem amigos.

Sem inimigos.

Sem esquerda.

Sem direita.

Sem bolsonaristas.

Sem lulistas.

A Constituição não pode ter dois pesos e duas medidas.

As informações que vieram a público envolvendo Daniel Vorcaro e pessoas ligadas a integrantes do Supremo levantam justamente essa questão. Há relatos de que familiares de ministros teriam prestado serviços ao empresário, assim como há a informação de uma relação empresarial envolvendo Dias Toffoli e Vorcaro. São fatos que precisam ser corretamente estabelecidos, contextualizados e, se houver elementos suficientes, submetidos à apuração competente.

Mas é preciso fazer uma distinção fundamental: relação profissional ou familiar não significa automaticamente crime.

O problema aparece quando uma relação dessa natureza pode criar dúvida razoável sobre a independência, a imparcialidade ou a aparência de imparcialidade de um magistrado. E é justamente por isso que existem regras de impedimento, suspeição, ética e transparência.

Se um ministro do Supremo julga ou participa de decisões que podem afetar diretamente alguém com quem ele ou um familiar mantém uma relação econômica relevante, a sociedade tem o direito de perguntar. E o ministro tem o direito de explicar.

Isso não é perseguição.
Isso é democracia.

O Estado Democrático de Direito não pode funcionar segundo a lógica de que somente os adversários devem ser investigados.

Se André Mendonça deve explicar seus atos, que explique.

Se Alexandre de Moraes precisa esclarecer alguma relação, que esclareça.

Se Dias Toffoli precisa explicar uma relação empresarial, que explique.

Se Luiz Fux precisa esclarecer relações profissionais envolvendo seu filho, que esclareça.

Se Kassio Nunes Marques estiver diante de situação semelhante, que também explique.

A régua precisa ser a mesma.

Investigar não é condenar

E aqui está o ponto central que muitas vezes desaparece no debate político: não estamos falando de condenar ninguém antecipadamente. Estamos falando de investigar quando existem elementos que justificam uma investigação.

Investigar não é condenar.

Perguntar não é acusar.

Apurar não é perseguir.

E esclarecer não é confessar culpa.

Uma República madura não tem medo dessas palavras.

Aliás, quanto mais poderosa é a autoridade, maior deve ser a transparência exigida de sua atuação.

Um cidadão comum pode ser submetido a uma série de controles quando existe suspeita de irregularidade. Um delegado pode ser investigado. Um procurador pode ser investigado. Um deputado pode ser investigado. Um ministro de Estado pode ser investigado.

Por que um ministro do Supremo deveria ser tratado como alguém acima de qualquer questionamento? Não deveria.

Mas existe uma diferença essencial: ministro do Supremo possui prerrogativas institucionais e essas prerrogativas precisam ser respeitadas. Por isso, uma eventual investigação deve seguir rigorosamente as regras constitucionais e regimentais.

Entre o arbítrio e a blindagem

É justamente aí que está o verdadeiro debate. Não se pode utilizar a defesa da investigação para atropelar a competência institucional do próprio Supremo. Da mesma forma, não se pode utilizar a defesa das prerrogativas dos ministros para impedir qualquer apuração sobre fatos relevantes.

Os dois extremos são perigosos. De um lado está o arbítrio de quem quer investigar qualquer pessoa a qualquer preço. Do outro está a blindagem de quem entende que determinadas autoridades não podem ser questionadas. Nenhum dos dois serve à democracia.

O Brasil já pagou um preço muito alto quando instituições passaram a funcionar movidas por interesses políticos. Não podemos repetir o erro.

Se há indícios envolvendo Alexandre de Moraes, que sejam examinados dentro das regras. Se há indícios envolvendo André Mendonça, que sejam examinados dentro das regras. Se há indícios envolvendo qualquer outro ministro, que sejam examinados dentro das regras.

E se, ao final, ficar demonstrado que não houve irregularidade, que isso seja igualmente afirmado com a mesma força com que a suspeita foi divulgada. Esse é o verdadeiro compromisso com a Justiça.

Os familiares dos magistrados

Há ainda uma questão que merece atenção especial: os familiares dos magistrados. É evidente que filho, filha, esposa, marido ou qualquer outro parente de um ministro não perde seus direitos profissionais simplesmente porque alguém da família ocupa uma cadeira no Supremo. Seria absurdo defender isso.

Mas também seria ingênuo ignorar que a proximidade familiar com uma autoridade de tamanho poder pode produzir vantagens, oportunidades ou relações econômicas que precisam ser examinadas quando envolvem pessoas diretamente interessadas em decisões daquela autoridade.

Não estou dizendo que todo contrato de um familiar com alguém relacionado ao Supremo seja ilegal. Estou dizendo algo muito mais simples: se a condição de parente de um ministro foi utilizada para obter vantagem, influência ou acesso privilegiado, isso precisa ser investigado. E se não foi, que a investigação demonstre que não foi.

Essa é a diferença entre uma República séria e uma República baseada em suspeitas permanentes.

Não devemos condenar filhos pelos atos dos pais. Nem pais pelos atos dos filhos. Mas também não podemos fingir que relações familiares são absolutamente irrelevantes quando existem grandes interesses econômicos e decisões judiciais de enorme impacto.

A ética pública trabalha também com a aparência de conflito de interesses. Porque Justiça não precisa apenas ser feita. Ela precisa parecer independente aos olhos da sociedade. Esse princípio vale para todos.

Não adianta defender Alexandre de Moraes simplesmente porque ele enfrentou Bolsonaro. Também não adianta atacar Alexandre de Moraes simplesmente porque ele se tornou o principal adversário político do bolsonarismo. O julgamento de um ministro não pode depender de quem ele combateu ou de quem o combate. O que deve importar é a Constituição.

Defender as instituições é exigir que cumpram as regras

E aqui faço uma defesa clara do Supremo Tribunal Federal. Precisamos defender o STF. Precisamos defender a democracia. Precisamos defender a independência judicial. Precisamos defender a Polícia Federal quando cumpre a lei. Precisamos defender a Procuradoria-Geral da República quando atua dentro de suas competências.

Mas defender as instituições não significa transformar seus integrantes em seres intocáveis. Muito pelo contrário. A melhor maneira de defender uma instituição é exigir que ela cumpra rigorosamente as regras que justificam sua existência.

O STF será mais forte se investigar corretamente.

Será mais forte se seus ministros forem transparentes.

Será mais forte se houver colegialidade.

Será mais forte se as regras de impedimento e suspeição forem respeitadas.

Será mais forte se nenhum ministro puder ser acusado de utilizar o poder da Corte para atingir adversários.

E será muito mais forte se puder demonstrar à sociedade que a mesma régua utilizada para examinar Alexandre de Moraes será utilizada para examinar André Mendonça, Dias Toffoli, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques ou qualquer outro integrante da Corte. Essa é a questão.

Não quero um Supremo enfraquecido. Quero um Supremo respeitado. E um Supremo só será verdadeiramente respeitado quando a sociedade tiver certeza de que ninguém dentro dele está acima das regras.

Não é sobre nomes, é sobre princípios

Não devemos escolher entre Moraes e Mendonça.

Devemos escolher entre arbítrio e Estado Democrático de Direito.

Não devemos escolher entre um ministro e outro.

Devemos escolher entre privilégio e igualdade perante a lei.

Não devemos escolher entre direita e esquerda.

Devemos escolher entre instituições fortes e instituições submetidas às conveniências políticas.

E há uma frase que deveria orientar todo esse debate:

Se a regra vale para um ministro, precisa valer para todos os ministros.

Se houver irregularidade, investigue-se.

Se houver crime, responsabilize-se.

Se não houver nada, arquive-se.

Mas que tudo seja feito dentro da Constituição, do devido processo legal e das regras do Supremo Tribunal Federal.

Porque, no fim das contas, não é Alexandre de Moraes que precisamos proteger. Não é André Mendonça que precisamos proteger. Não é qualquer outro ministro que precisamos proteger.

É a República.

É a Constituição.

É o Estado Democrático de Direito.

E, sobretudo, é a confiança do cidadão nas instituições brasileiras.


#STF
#Moraes
#Mendonça
#Democracia
#Justiça
#Instituições

— Padre Carlos

O Dia da(o) Florista e as Pragas da Antevéspera da Primavera

José Alcimar de Oliveira*

“A rosa é sem porquê, floresce porque floresce, pouco importa se alguém a vê”
— Angelus Silesius

S
etembro: mês em que se inicia a primavera e se comemora o Dia da(o) Florista. E muito gostaria de falar da primavera, das flores (inclusive as do bem) sem manifestar a menor restrição às do mal da bela e forte composição poética de Baudelaire. Setembro é meu mês preferido, porque nele vim ao mundo e agora caminho para os 70 no próximo dia 15. Mas no Brasil, neste 2026, setembro se iniciou estranho, pesado, aterrador, sob o registro de uma espetacularização mediática do palco político. Como subtrair cinzas aos dias?

I. O silêncio que fala mais alto

Nunca o silêncio foi mais explícito, óbvio e falou com tanta força como nessa quebra de sigilo (nome sofisticado para vazamento seletivo), que desde o dia 01 de setembro de 2026, e ainda, continua a hegemonizar o noticiário do poder mediático nacional e associado. Vários setores da burguesia entraram em ritmo de festim. Ainda não é o fim da história. Cabe perguntar: a quem interessa implodir o STF numa ação pensada e modulada por um ministro do próprio STF, direcionada a um único ministro do STF para, a partir do alvo escolhido, embaralhar o jogo político?

E toda a ação a poucos dias das eleições presidenciais de 2026. Desde o dia um desse mês o Brasil reativou e acelerou mais uma vez o velho e regressivo modo golpista. Mas como dar voz ao que é silenciado e produzido pelo silêncio de um vazamento seletivo? De quantos silêncios seletivos se constitui um golpe de Estado?

II. O apelo do STF e o silêncio das instituições

Do atual presidente do STF, ministro Edson Fachin, veio o apelo à “serenidade, responsabilidade e firmeza”. Apelo necessário. Mas faltou imprimir energia ao apelo. Golpismo não se combate de modo anódino e protocolar. Mesmo sob o Estado burguês a guarda maior do ainda constitucional Estado Democrático de Direito é atribuição do STF.

Por que se eximir de dar nome próprio às coisas. O que esperar das ruas, de onde deveria se organizar a verdadeira resistência? No momento, penso que pouco ou nada, para ser otimista. E dos Sindicatos, Movimentos, Associações, Instituições Civis, Universidades e Institutos Públicos de Ensino e Pesquisa Federais, Estaduais, Distritais e Municipais? Apenas silêncio obsequioso? E do Congresso, em grande medida pautado pelo reacionarismo? Menos ainda. O Executivo está acuado.

Só nos resta, na verdade, o STF, contraditoriamente de onde emergiu a faísca que ameaça se alastrar e submergir todo o arcabouço institucional num golpe dentro do golpe dentro do golpe… Parodiando o grande Brecht: onde há aquelas e aqueles que lutam e resistem, a solução só poderá vir de quem luta e resiste.

III. A aposta da extrema direita

A extrema direita, com um candidato medíocre, que, organicamente, só tem a seu favor o antipetismo, fez uma aposta com muitas consequências e risco. Foi para o tudo ou nada. Se tudo prosperar a seu favor e o golpe se consolidar, com o Império do Norte cercando o que trata como seu quintal, tendo ocupado e transformado a Venezuela em sua mais rica colônia, vamos desgraçadamente concluir que os quatro anos do inominável foi apenas a antecâmara do inferno. O poder do pior sempre pode mais.

Post scriptum

Ontem revisitei meditações sobre o silêncio e o recolhimento feitas pelo monge trapista Thomas Merton, precocemente falecido em 1968, aos 53 anos. Seguem atuais suas palavras diante do inferno e da agitação, da tagarelice e da superficialidade desses tempos de redes digitais:

“No inferno não há recolhimento. Os condenados são exilados não só de Deus e dos outros, mas de si mesmos.”

Em síntese, penso: não é preciso recorrer à metafísica da cristandade medieval para concluir pela existência do inferno. Ele nos cerca — e, pior, pode nos habitar de forma histórica, contínua e imanente.

*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Setembro de 2026.

Política STF Golpismo Primavera Filosofia

José Alcimar de Oliveira — Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas — Política e Resenha

O Dia da(o) Florista e as Pragas da Antevéspera da Primavera

José Alcimar de Oliveira*

“A rosa é sem porquê, floresce porque floresce, pouco importa se alguém a vê”
— Angelus Silesius

S
etembro: mês em que se inicia a primavera e se comemora o Dia da(o) Florista. E muito gostaria de falar da primavera, das flores (inclusive as do bem) sem manifestar a menor restrição às do mal da bela e forte composição poética de Baudelaire. Setembro é meu mês preferido, porque nele vim ao mundo e agora caminho para os 70 no próximo dia 15. Mas no Brasil, neste 2026, setembro se iniciou estranho, pesado, aterrador, sob o registro de uma espetacularização mediática do palco político. Como subtrair cinzas aos dias?

I. O silêncio que fala mais alto

Nunca o silêncio foi mais explícito, óbvio e falou com tanta força como nessa quebra de sigilo (nome sofisticado para vazamento seletivo), que desde o dia 01 de setembro de 2026, e ainda, continua a hegemonizar o noticiário do poder mediático nacional e associado. Vários setores da burguesia entraram em ritmo de festim. Ainda não é o fim da história. Cabe perguntar: a quem interessa implodir o STF numa ação pensada e modulada por um ministro do próprio STF, direcionada a um único ministro do STF para, a partir do alvo escolhido, embaralhar o jogo político?

E toda a ação a poucos dias das eleições presidenciais de 2026. Desde o dia um desse mês o Brasil reativou e acelerou mais uma vez o velho e regressivo modo golpista. Mas como dar voz ao que é silenciado e produzido pelo silêncio de um vazamento seletivo? De quantos silêncios seletivos se constitui um golpe de Estado?

II. O apelo do STF e o silêncio das instituições

Do atual presidente do STF, ministro Edson Fachin, veio o apelo à “serenidade, responsabilidade e firmeza”. Apelo necessário. Mas faltou imprimir energia ao apelo. Golpismo não se combate de modo anódino e protocolar. Mesmo sob o Estado burguês a guarda maior do ainda constitucional Estado Democrático de Direito é atribuição do STF.

Por que se eximir de dar nome próprio às coisas. O que esperar das ruas, de onde deveria se organizar a verdadeira resistência? No momento, penso que pouco ou nada, para ser otimista. E dos Sindicatos, Movimentos, Associações, Instituições Civis, Universidades e Institutos Públicos de Ensino e Pesquisa Federais, Estaduais, Distritais e Municipais? Apenas silêncio obsequioso? E do Congresso, em grande medida pautado pelo reacionarismo? Menos ainda. O Executivo está acuado.

Só nos resta, na verdade, o STF, contraditoriamente de onde emergiu a faísca que ameaça se alastrar e submergir todo o arcabouço institucional num golpe dentro do golpe dentro do golpe… Parodiando o grande Brecht: onde há aquelas e aqueles que lutam e resistem, a solução só poderá vir de quem luta e resiste.

III. A aposta da extrema direita

A extrema direita, com um candidato medíocre, que, organicamente, só tem a seu favor o antipetismo, fez uma aposta com muitas consequências e risco. Foi para o tudo ou nada. Se tudo prosperar a seu favor e o golpe se consolidar, com o Império do Norte cercando o que trata como seu quintal, tendo ocupado e transformado a Venezuela em sua mais rica colônia, vamos desgraçadamente concluir que os quatro anos do inominável foi apenas a antecâmara do inferno. O poder do pior sempre pode mais.

Post scriptum

Ontem revisitei meditações sobre o silêncio e o recolhimento feitas pelo monge trapista Thomas Merton, precocemente falecido em 1968, aos 53 anos. Seguem atuais suas palavras diante do inferno e da agitação, da tagarelice e da superficialidade desses tempos de redes digitais:

“No inferno não há recolhimento. Os condenados são exilados não só de Deus e dos outros, mas de si mesmos.”

Em síntese, penso: não é preciso recorrer à metafísica da cristandade medieval para concluir pela existência do inferno. Ele nos cerca — e, pior, pode nos habitar de forma histórica, contínua e imanente.

*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Setembro de 2026.

Política STF Golpismo Primavera Filosofia

José Alcimar de Oliveira — Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas — Política e Resenha

ARTIGO — QUANDO UM MINISTRO DO STF EXPÕE O PRÓPRIO TRIBUNAL

Padre Carlos

Há momentos em que uma crise institucional não nasce apenas daquilo que está sendo investigado, mas também da maneira como as instituições decidem investigar. O episódio envolvendo o ministro André Mendonça, o ministro Alexandre de Moraes, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal chegou a um ponto particularmente delicado: a própria PGR pediu ao Supremo Tribunal Federal a nulidade do relatório da PF que aprofundou as referências à relação entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Para Paulo Gonet, Mendonça teria ultrapassado os limites de sua atuação jurisdicional ao determinar, sem provocação do Ministério Público ou da própria Polícia Federal, o aprofundamento de diligências envolvendo um colega de Corte.

É preciso dizer com clareza: investigar qualquer cidadão quando existem indícios de crime é uma obrigação do Estado. Ministro do Supremo não está acima da lei. Ao contrário, justamente porque ocupa uma das posições mais importantes da República, deve estar submetido a um escrutínio ainda mais rigoroso. Mas uma coisa é defender a investigação de eventuais ilícitos; outra, completamente diferente, é admitir que um único ministro da Suprema Corte possa, por iniciativa própria, determinar uma investigação dirigida contra outro integrante do próprio Tribunal, sem que o Plenário seja previamente chamado a decidir.

É exatamente nesse ponto que o parecer de Paulo Gonet produz uma questão jurídica de enorme importância. Segundo o procurador-geral, a ordem de Mendonça teria sido nula porque o magistrado, na fase pré-processual, não poderia assumir funções próprias da acusação ou da investigação policial. A PGR também sustenta que, diante da identificação de um ministro do STF entre os alvos da apuração, o caminho institucional deveria ter sido levar os elementos ao presidente da Corte para que o Plenário decidisse sobre a continuidade da investigação.

E aqui está o primeiro problema político: o Judiciário não pode transformar divergências internas em espetáculo público de autodestruição institucional.

Um ministro da Suprema Corte possui uma responsabilidade que ultrapassa sua própria convicção jurídica. Ele não representa apenas a si mesmo. Cada decisão sua repercute sobre a imagem do Supremo Tribunal Federal, sobre a confiança da sociedade na Justiça e sobre o equilíbrio entre os Poderes da República.

Se havia elementos envolvendo Alexandre de Moraes, o caminho mais seguro institucionalmente seria preservar a investigação e, simultaneamente, preservar o Supremo. Isso significa permitir que os fatos fossem examinados por quem constitucionalmente tem competência para fazê-lo, com transparência, contraditório e respeito às regras processuais.

A questão não é proteger Moraes. Tampouco é proteger Mendonça.

É proteger o Estado Democrático de Direito.

E é justamente por isso que a atuação de Mendonça merece uma crítica política e institucional severa. Não porque um ministro não possa discordar de outro. Não porque Moraes esteja acima de qualquer investigação. Mas porque, segundo a própria PGR, o procedimento adotado colocou em xeque os limites entre julgar, investigar e acusar.

O segundo ponto é ainda mais grave: a exposição da Procuradoria-Geral da República.

Paulo Gonet aparece mencionado no próprio material produzido pela Polícia Federal. Ou seja, temos uma situação excepcional em que o procurador-geral da República é citado nas informações investigativas e, ao mesmo tempo, precisa se manifestar sobre a validade jurídica da investigação que envolve essas informações. Isso demonstra a dimensão extraordinária da crise.

A PGR, entretanto, não poderia simplesmente silenciar para preservar sua própria imagem. Se entendesse que houve ilegalidade, caberia ao procurador-geral apontá-la. E foi exatamente isso que Gonet fez ao pedir a nulidade da investigação realizada por determinação de Mendonça.

O terceiro ponto envolve a Polícia Federal.

A PF é uma instituição de Estado, não instrumento de disputa entre ministros, partidos ou grupos políticos. Quando um magistrado determina diretamente que a Polícia Federal aprofunde determinada linha investigativa, surge necessariamente a discussão sobre os limites da atuação judicial na fase pré-processual.

A Constituição e o sistema acusatório brasileiro exigem que os papéis institucionais sejam respeitados. Polícia investiga. Ministério Público exerce suas atribuições constitucionais de acusação e controle da atividade investigativa. O Judiciário julga e controla a legalidade. Quando essas fronteiras se confundem, mesmo que exista uma boa intenção por trás da iniciativa, o resultado pode ser institucionalmente perigoso.

É por isso que o argumento de Gonet precisa ser levado a sério. Segundo ele, não caberia ao magistrado utilizar a Polícia Judiciária como uma espécie de extensão de sua própria atividade investigativa.

Mas há uma contradição que também precisa ser reconhecida: o próprio André Mendonça posteriormente defendeu que as conversas atribuídas a Vorcaro e Moraes fossem analisadas pelo Plenário do Supremo e retirou o sigilo de parte do material. Isso demonstra que a questão não pode ser reduzida a uma narrativa simplista de mocinhos e vilões. Existe uma disputa jurídica real sobre competência, procedimento, foro e limites da atuação judicial.

E justamente por isso o melhor caminho é o Plenário.

Não cabe a um ministro decidir sozinho aquilo que pode atingir a credibilidade de toda a Suprema Corte.

Não cabe a um ministro transformar outro ministro em objeto de investigação sem que o colegiado tenha oportunidade de examinar previamente a questão.

E também não cabe ao debate político transformar uma eventual irregularidade processual em prova automática de inocência ou culpa.

O Supremo precisa estar acima das disputas pessoais.

Se existem indícios contra Alexandre de Moraes, que sejam examinados. Se existem indícios contra qualquer autoridade da República, que sejam investigados. Se existem suspeitas contra Paulo Gonet, que sejam igualmente esclarecidas. Se houver qualquer irregularidade na atuação de André Mendonça, ela também deve ser examinada.

Mas tudo isso precisa acontecer dentro das regras do jogo democrático.

O que não podemos aceitar é a República sendo colocada diante de uma situação em que Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal passam a parecer personagens de uma disputa interna.

É aí que está o verdadeiro perigo.

Quando um ministro do STF expõe outro ministro, não está expondo apenas uma pessoa. Está expondo a própria instituição. Quando uma decisão judicial provoca uma reação formal da PGR questionando a competência do magistrado, a controvérsia deixa de ser apenas jurídica e passa a ter consequências políticas. Quando a Polícia Federal aparece no centro desse conflito, sua imagem de instituição de Estado também pode ser atingida.

São três instituições fundamentais da República envolvidas no mesmo terremoto: Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal.

E nenhuma democracia pode se dar ao luxo de enfraquecer simultaneamente essas três estruturas.

Por isso, a posição mais responsável neste momento não é pedir blindagem para Alexandre de Moraes, nem comemorar uma eventual derrota de André Mendonça. Também não é transformar o caso em munição para a guerra política que há anos tenta destruir a confiança dos brasileiros nas instituições.

A resposta deve ser institucional.

Se a investigação é legal, que continue sob o controle das autoridades competentes. Se é ilegal, que seja anulada. Se existem fatos graves envolvendo qualquer ministro, que sejam submetidos ao procedimento constitucional adequado. E se existe dúvida sobre a competência de um ministro para tomar determinada decisão, que o próprio Plenário do Supremo esclareça a questão.

A democracia não precisa de ministros infalíveis.

Precisa de instituições capazes de reconhecer limites.

O STF não pode funcionar como uma arena onde ministros travam batalhas particulares. A Suprema Corte precisa ser justamente o lugar onde as paixões políticas encontram o limite da Constituição.

André Mendonça tem todo o direito de divergir. Alexandre de Moraes tem todo o direito de se defender. Paulo Gonet tem o dever de defender a ordem jurídica. A Polícia Federal tem o dever de investigar dentro de suas competências.

Mas nenhum deles pode esquecer que existe algo maior do que suas próprias posições: a República.

E quando a disputa entre autoridades começa a produzir a impressão de que as instituições estão investigando umas às outras sem uma clara coordenação constitucional, quem perde não é apenas um ministro.

Quem perde é a confiança do cidadão na Justiça.

Por isso, neste momento, o Supremo precisa fazer aquilo que se espera de uma Suprema Corte: menos personalismo, menos exposição pública, menos disputa entre ministros e mais colegialidade.

O caso deve ser levado ao Plenário.

Que os onze ministros decidam.

Que a Constituição prevaleça.

Que a Polícia Federal continue sendo Polícia Federal.

Que a PGR continue sendo PGR.

E que o Supremo continue sendo Supremo.

Porque, no fim das contas, nenhum ministro é maior do que a instituição que representa — e nenhuma instituição é maior do que a Constituição da República.

ARTIGO — QUANDO UM MINISTRO DO STF EXPÕE O PRÓPRIO TRIBUNAL

Padre Carlos

Há momentos em que uma crise institucional não nasce apenas daquilo que está sendo investigado, mas também da maneira como as instituições decidem investigar. O episódio envolvendo o ministro André Mendonça, o ministro Alexandre de Moraes, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal chegou a um ponto particularmente delicado: a própria PGR pediu ao Supremo Tribunal Federal a nulidade do relatório da PF que aprofundou as referências à relação entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Para Paulo Gonet, Mendonça teria ultrapassado os limites de sua atuação jurisdicional ao determinar, sem provocação do Ministério Público ou da própria Polícia Federal, o aprofundamento de diligências envolvendo um colega de Corte.

É preciso dizer com clareza: investigar qualquer cidadão quando existem indícios de crime é uma obrigação do Estado. Ministro do Supremo não está acima da lei. Ao contrário, justamente porque ocupa uma das posições mais importantes da República, deve estar submetido a um escrutínio ainda mais rigoroso. Mas uma coisa é defender a investigação de eventuais ilícitos; outra, completamente diferente, é admitir que um único ministro da Suprema Corte possa, por iniciativa própria, determinar uma investigação dirigida contra outro integrante do próprio Tribunal, sem que o Plenário seja previamente chamado a decidir.

É exatamente nesse ponto que o parecer de Paulo Gonet produz uma questão jurídica de enorme importância. Segundo o procurador-geral, a ordem de Mendonça teria sido nula porque o magistrado, na fase pré-processual, não poderia assumir funções próprias da acusação ou da investigação policial. A PGR também sustenta que, diante da identificação de um ministro do STF entre os alvos da apuração, o caminho institucional deveria ter sido levar os elementos ao presidente da Corte para que o Plenário decidisse sobre a continuidade da investigação.

E aqui está o primeiro problema político: o Judiciário não pode transformar divergências internas em espetáculo público de autodestruição institucional.

Um ministro da Suprema Corte possui uma responsabilidade que ultrapassa sua própria convicção jurídica. Ele não representa apenas a si mesmo. Cada decisão sua repercute sobre a imagem do Supremo Tribunal Federal, sobre a confiança da sociedade na Justiça e sobre o equilíbrio entre os Poderes da República.

Se havia elementos envolvendo Alexandre de Moraes, o caminho mais seguro institucionalmente seria preservar a investigação e, simultaneamente, preservar o Supremo. Isso significa permitir que os fatos fossem examinados por quem constitucionalmente tem competência para fazê-lo, com transparência, contraditório e respeito às regras processuais.

A questão não é proteger Moraes. Tampouco é proteger Mendonça.

É proteger o Estado Democrático de Direito.

E é justamente por isso que a atuação de Mendonça merece uma crítica política e institucional severa. Não porque um ministro não possa discordar de outro. Não porque Moraes esteja acima de qualquer investigação. Mas porque, segundo a própria PGR, o procedimento adotado colocou em xeque os limites entre julgar, investigar e acusar.

O segundo ponto é ainda mais grave: a exposição da Procuradoria-Geral da República.

Paulo Gonet aparece mencionado no próprio material produzido pela Polícia Federal. Ou seja, temos uma situação excepcional em que o procurador-geral da República é citado nas informações investigativas e, ao mesmo tempo, precisa se manifestar sobre a validade jurídica da investigação que envolve essas informações. Isso demonstra a dimensão extraordinária da crise.

A PGR, entretanto, não poderia simplesmente silenciar para preservar sua própria imagem. Se entendesse que houve ilegalidade, caberia ao procurador-geral apontá-la. E foi exatamente isso que Gonet fez ao pedir a nulidade da investigação realizada por determinação de Mendonça.

O terceiro ponto envolve a Polícia Federal.

A PF é uma instituição de Estado, não instrumento de disputa entre ministros, partidos ou grupos políticos. Quando um magistrado determina diretamente que a Polícia Federal aprofunde determinada linha investigativa, surge necessariamente a discussão sobre os limites da atuação judicial na fase pré-processual.

A Constituição e o sistema acusatório brasileiro exigem que os papéis institucionais sejam respeitados. Polícia investiga. Ministério Público exerce suas atribuições constitucionais de acusação e controle da atividade investigativa. O Judiciário julga e controla a legalidade. Quando essas fronteiras se confundem, mesmo que exista uma boa intenção por trás da iniciativa, o resultado pode ser institucionalmente perigoso.

É por isso que o argumento de Gonet precisa ser levado a sério. Segundo ele, não caberia ao magistrado utilizar a Polícia Judiciária como uma espécie de extensão de sua própria atividade investigativa.

Mas há uma contradição que também precisa ser reconhecida: o próprio André Mendonça posteriormente defendeu que as conversas atribuídas a Vorcaro e Moraes fossem analisadas pelo Plenário do Supremo e retirou o sigilo de parte do material. Isso demonstra que a questão não pode ser reduzida a uma narrativa simplista de mocinhos e vilões. Existe uma disputa jurídica real sobre competência, procedimento, foro e limites da atuação judicial.

E justamente por isso o melhor caminho é o Plenário.

Não cabe a um ministro decidir sozinho aquilo que pode atingir a credibilidade de toda a Suprema Corte.

Não cabe a um ministro transformar outro ministro em objeto de investigação sem que o colegiado tenha oportunidade de examinar previamente a questão.

E também não cabe ao debate político transformar uma eventual irregularidade processual em prova automática de inocência ou culpa.

O Supremo precisa estar acima das disputas pessoais.

Se existem indícios contra Alexandre de Moraes, que sejam examinados. Se existem indícios contra qualquer autoridade da República, que sejam investigados. Se existem suspeitas contra Paulo Gonet, que sejam igualmente esclarecidas. Se houver qualquer irregularidade na atuação de André Mendonça, ela também deve ser examinada.

Mas tudo isso precisa acontecer dentro das regras do jogo democrático.

O que não podemos aceitar é a República sendo colocada diante de uma situação em que Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal passam a parecer personagens de uma disputa interna.

É aí que está o verdadeiro perigo.

Quando um ministro do STF expõe outro ministro, não está expondo apenas uma pessoa. Está expondo a própria instituição. Quando uma decisão judicial provoca uma reação formal da PGR questionando a competência do magistrado, a controvérsia deixa de ser apenas jurídica e passa a ter consequências políticas. Quando a Polícia Federal aparece no centro desse conflito, sua imagem de instituição de Estado também pode ser atingida.

São três instituições fundamentais da República envolvidas no mesmo terremoto: Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal.

E nenhuma democracia pode se dar ao luxo de enfraquecer simultaneamente essas três estruturas.

Por isso, a posição mais responsável neste momento não é pedir blindagem para Alexandre de Moraes, nem comemorar uma eventual derrota de André Mendonça. Também não é transformar o caso em munição para a guerra política que há anos tenta destruir a confiança dos brasileiros nas instituições.

A resposta deve ser institucional.

Se a investigação é legal, que continue sob o controle das autoridades competentes. Se é ilegal, que seja anulada. Se existem fatos graves envolvendo qualquer ministro, que sejam submetidos ao procedimento constitucional adequado. E se existe dúvida sobre a competência de um ministro para tomar determinada decisão, que o próprio Plenário do Supremo esclareça a questão.

A democracia não precisa de ministros infalíveis.

Precisa de instituições capazes de reconhecer limites.

O STF não pode funcionar como uma arena onde ministros travam batalhas particulares. A Suprema Corte precisa ser justamente o lugar onde as paixões políticas encontram o limite da Constituição.

André Mendonça tem todo o direito de divergir. Alexandre de Moraes tem todo o direito de se defender. Paulo Gonet tem o dever de defender a ordem jurídica. A Polícia Federal tem o dever de investigar dentro de suas competências.

Mas nenhum deles pode esquecer que existe algo maior do que suas próprias posições: a República.

E quando a disputa entre autoridades começa a produzir a impressão de que as instituições estão investigando umas às outras sem uma clara coordenação constitucional, quem perde não é apenas um ministro.

Quem perde é a confiança do cidadão na Justiça.

Por isso, neste momento, o Supremo precisa fazer aquilo que se espera de uma Suprema Corte: menos personalismo, menos exposição pública, menos disputa entre ministros e mais colegialidade.

O caso deve ser levado ao Plenário.

Que os onze ministros decidam.

Que a Constituição prevaleça.

Que a Polícia Federal continue sendo Polícia Federal.

Que a PGR continue sendo PGR.

E que o Supremo continue sendo Supremo.

Porque, no fim das contas, nenhum ministro é maior do que a instituição que representa — e nenhuma instituição é maior do que a Constituição da República.

Wagner Alves entra no jogo das últimas vagas e Vitória da Conquista volta a mirar a ALBA

Política • Bahia • Eleições 2026

Por Padre Carlos

Há momentos em que uma eleição deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos e passa a representar uma disputa pelo espaço político de uma cidade. O levantamento divulgado pelo Bahia Notícias sobre a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, coloca Vitória da Conquista novamente no centro do tabuleiro eleitoral da Bahia. E o nome que aparece nessa equação é o de Wagner Alves.

A informação merece ser observada com atenção. Não se trata de afirmar que a eleição está ganha — longe disso. Eleição proporcional é uma matemática complexa, marcada por votos de legenda, desempenho individual, quociente eleitoral, distribuição das sobras e, principalmente, pela capacidade de cada candidato construir uma votação competitiva dentro da própria federação.

Mas há algo politicamente importante no levantamento: Wagner Alves aparece entre os nomes que podem disputar justamente as vagas adicionais da União Progressista para a Assembleia Legislativa da Bahia.

O que diz o levantamento

Segundo a apuração do Bahia Notícias, existe dentro da federação a avaliação de que pelo menos dez cadeiras na AL-BA estão encaminhadas, com possibilidade de alcançar uma 11ª e até uma 12ª vaga. Para essas cadeiras adicionais, Wagner Alves aparece entre os nomes que mais chamam atenção.

E é justamente aí que a política de Vitória da Conquista entra em cena.

A cidade conhece há décadas a dificuldade de transformar sua força eleitoral em representação proporcional ao seu tamanho. Vitória da Conquista é um dos maiores colégios eleitorais da Bahia e exerce influência sobre uma extensa região do Sudoeste. Mesmo assim, muitas vezes o município viu seus votos ajudarem a eleger representantes de outras regiões sem conseguir transformar essa força eleitoral em uma bancada estadual suficientemente expressiva.

Uma candidatura que ultrapassa os limites do município

Por isso, a candidatura de Wagner Alves não deve ser analisada apenas pelo prisma pessoal ou familiar. Ela precisa ser observada sob a perspectiva de representação política regional.

Wagner está ligado ao grupo político da prefeita Sheila Lemos e ao campo político liderado por ACM Neto. Sua filiação ao União Brasil e sua pré-candidatura à Assembleia Legislativa colocaram seu nome definitivamente no cenário estadual. O próprio percurso recente demonstra que deixou de ser apenas uma possibilidade local para tornar-se uma peça dentro de uma estratégia política mais ampla.

Isso muda a natureza da disputa.

Uma candidatura estadual não pode sobreviver apenas com votos de Vitória da Conquista. Precisa construir pontes com municípios vizinhos, lideranças regionais, vereadores, prefeitos, ex-prefeitos, grupos políticos e segmentos sociais. E é justamente no Sudoeste que poderá estar a chave para transformar uma candidatura competitiva em uma candidatura eleita.

O levantamento do Bahia Notícias ajuda a compreender essa lógica. A federação não está disputando apenas dez cadeiras. Se conseguir alcançar a 11ª ou a 12ª vaga, abre-se uma verdadeira batalha interna. E, nesse tipo de disputa, não basta estar entre os nomes conhecidos. É necessário apresentar uma votação capaz de superar concorrentes que também possuem estruturas políticas espalhadas pela Bahia.

O Sudoeste como diferencial

Vitória da Conquista tem uma característica política peculiar: quando consegue unir forças em torno de um projeto regional, sua capacidade de influência aumenta significativamente. A cidade não precisa apenas eleger um deputado estadual; precisa eleger alguém que compreenda que seu mandato deverá ultrapassar os limites geográficos do município.

Um deputado estadual de Conquista precisa pensar na saúde regional, na educação, na infraestrutura, na segurança pública, nas estradas, na agricultura, no comércio, na geração de empregos e no fortalecimento econômico de todo o Sudoeste.

E há uma questão ainda mais profunda: a eleição de Wagner Alves representaria também a presença de Vitória da Conquista em uma bancada que pode nascer fortalecida na Assembleia Legislativa da Bahia. Se a Federação União Progressista realmente alcançar 11 ou 12 cadeiras, como projetam seus aliados, o grupo terá peso considerável no Legislativo estadual. Para Conquista, isso pode significar uma oportunidade política.

“Representação importa. Quem está dentro da Assembleia Legislativa participa dos debates, apresenta projetos, fiscaliza o Executivo, articula recursos e pode defender investimentos para sua região.”

É evidente que nenhuma cidade deve imaginar que um deputado estadual resolverá sozinho seus problemas. A política pública depende de prefeitos, governo estadual, governo federal, vereadores, deputados federais, senadores e, sobretudo, de planejamento e capacidade administrativa. Mas representação importa.

É por isso que a presença de Wagner Alves entre os nomes destacados pelo levantamento do Bahia Notícias deve ser recebida, sobretudo, como um sinal de que Vitória da Conquista voltou a ocupar uma posição relevante no jogo estadual.

O verdadeiro teste eleitoral

A política, entretanto, não perdoa acomodação. Ser citado em uma projeção não elege ninguém. Ter o apoio de lideranças importantes também não. O eleitorado é quem dará a palavra final.

Wagner terá pela frente uma tarefa difícil: transformar visibilidade em voto, voto em densidade eleitoral e densidade eleitoral em uma das cadeiras da Assembleia Legislativa.

E terá ainda que enfrentar uma disputa dentro da própria casa. A Federação União Progressista reúne União Brasil e PP e, portanto, coloca aliados e correligionários diante de uma competição que será tão intensa internamente quanto na disputa contra outras forças políticas. O levantamento do BN deixa claro que existem nomes considerados mais encaminhados e outros que brigam pelas vagas restantes.

Nesse cenário, cada voto do Sudoeste poderá adquirir um valor extraordinário. Não se trata apenas de quantos votos Wagner conseguirá em Vitória da Conquista. A pergunta será: quantos votos ele conseguirá transformar em uma rede regional capaz de sustentá-lo até a última cadeira?

Essa talvez seja a verdadeira eleição.

Um detalhe que não pode ser ignorado

Wagner Alves é um estreante nas urnas. Diferentemente de políticos que já possuem vários mandatos e máquinas eleitorais consolidadas, ele precisa transformar uma estrutura política existente em uma candidatura eleitoralmente viável. Pesquisas anteriores já haviam apontado crescimento de seu nome em Vitória da Conquista, embora pesquisas e projeções não substituam o voto depositado na urna.

A política baiana está diante de uma eleição em que velhas estruturas começam a conviver com novas lideranças. Vitória da Conquista, por sua vez, precisa decidir se continuará fragmentando sua força eleitoral entre inúmeros projetos individuais ou se conseguirá construir uma representação capaz de defender interesses coletivos.

É uma escolha que pertence ao eleitor.

O Sudoeste como fiel da balança

O fato concreto, neste momento, é que Wagner Alves entrou no radar da disputa estadual. E quando um nome de Vitória da Conquista aparece entre os postulantes às últimas cadeiras de uma federação que pode eleger até 12 deputados estaduais, já não estamos falando de uma candidatura meramente local.

Estamos falando de uma disputa pelo futuro espaço político de Conquista na Bahia.

Agora começa a parte mais difícil. Transformar expectativa em realidade.

E, para Wagner Alves, cada voto do Sudoeste poderá ser decisivo entre assistir à eleição pela televisão ou ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia para representar Vitória da Conquista e toda a região.

A eleição de 2026 começa a mostrar, portanto, que o Sudoeste não será apenas território eleitoral. Poderá ser o fiel da balança.

Política
Bahia
Eleições 2026
Vitória da Conquista
Assembleia Legislativa

Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha

Wagner Alves entra no jogo das últimas vagas e Vitória da Conquista volta a mirar a ALBA

Política • Bahia • Eleições 2026

Por Padre Carlos

Há momentos em que uma eleição deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos e passa a representar uma disputa pelo espaço político de uma cidade. O levantamento divulgado pelo Bahia Notícias sobre a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, coloca Vitória da Conquista novamente no centro do tabuleiro eleitoral da Bahia. E o nome que aparece nessa equação é o de Wagner Alves.

A informação merece ser observada com atenção. Não se trata de afirmar que a eleição está ganha — longe disso. Eleição proporcional é uma matemática complexa, marcada por votos de legenda, desempenho individual, quociente eleitoral, distribuição das sobras e, principalmente, pela capacidade de cada candidato construir uma votação competitiva dentro da própria federação.

Mas há algo politicamente importante no levantamento: Wagner Alves aparece entre os nomes que podem disputar justamente as vagas adicionais da União Progressista para a Assembleia Legislativa da Bahia.

O que diz o levantamento

Segundo a apuração do Bahia Notícias, existe dentro da federação a avaliação de que pelo menos dez cadeiras na AL-BA estão encaminhadas, com possibilidade de alcançar uma 11ª e até uma 12ª vaga. Para essas cadeiras adicionais, Wagner Alves aparece entre os nomes que mais chamam atenção.

E é justamente aí que a política de Vitória da Conquista entra em cena.

A cidade conhece há décadas a dificuldade de transformar sua força eleitoral em representação proporcional ao seu tamanho. Vitória da Conquista é um dos maiores colégios eleitorais da Bahia e exerce influência sobre uma extensa região do Sudoeste. Mesmo assim, muitas vezes o município viu seus votos ajudarem a eleger representantes de outras regiões sem conseguir transformar essa força eleitoral em uma bancada estadual suficientemente expressiva.

Uma candidatura que ultrapassa os limites do município

Por isso, a candidatura de Wagner Alves não deve ser analisada apenas pelo prisma pessoal ou familiar. Ela precisa ser observada sob a perspectiva de representação política regional.

Wagner está ligado ao grupo político da prefeita Sheila Lemos e ao campo político liderado por ACM Neto. Sua filiação ao União Brasil e sua pré-candidatura à Assembleia Legislativa colocaram seu nome definitivamente no cenário estadual. O próprio percurso recente demonstra que deixou de ser apenas uma possibilidade local para tornar-se uma peça dentro de uma estratégia política mais ampla.

Isso muda a natureza da disputa.

Uma candidatura estadual não pode sobreviver apenas com votos de Vitória da Conquista. Precisa construir pontes com municípios vizinhos, lideranças regionais, vereadores, prefeitos, ex-prefeitos, grupos políticos e segmentos sociais. E é justamente no Sudoeste que poderá estar a chave para transformar uma candidatura competitiva em uma candidatura eleita.

O levantamento do Bahia Notícias ajuda a compreender essa lógica. A federação não está disputando apenas dez cadeiras. Se conseguir alcançar a 11ª ou a 12ª vaga, abre-se uma verdadeira batalha interna. E, nesse tipo de disputa, não basta estar entre os nomes conhecidos. É necessário apresentar uma votação capaz de superar concorrentes que também possuem estruturas políticas espalhadas pela Bahia.

O Sudoeste como diferencial

Vitória da Conquista tem uma característica política peculiar: quando consegue unir forças em torno de um projeto regional, sua capacidade de influência aumenta significativamente. A cidade não precisa apenas eleger um deputado estadual; precisa eleger alguém que compreenda que seu mandato deverá ultrapassar os limites geográficos do município.

Um deputado estadual de Conquista precisa pensar na saúde regional, na educação, na infraestrutura, na segurança pública, nas estradas, na agricultura, no comércio, na geração de empregos e no fortalecimento econômico de todo o Sudoeste.

E há uma questão ainda mais profunda: a eleição de Wagner Alves representaria também a presença de Vitória da Conquista em uma bancada que pode nascer fortalecida na Assembleia Legislativa da Bahia. Se a Federação União Progressista realmente alcançar 11 ou 12 cadeiras, como projetam seus aliados, o grupo terá peso considerável no Legislativo estadual. Para Conquista, isso pode significar uma oportunidade política.

“Representação importa. Quem está dentro da Assembleia Legislativa participa dos debates, apresenta projetos, fiscaliza o Executivo, articula recursos e pode defender investimentos para sua região.”

É evidente que nenhuma cidade deve imaginar que um deputado estadual resolverá sozinho seus problemas. A política pública depende de prefeitos, governo estadual, governo federal, vereadores, deputados federais, senadores e, sobretudo, de planejamento e capacidade administrativa. Mas representação importa.

É por isso que a presença de Wagner Alves entre os nomes destacados pelo levantamento do Bahia Notícias deve ser recebida, sobretudo, como um sinal de que Vitória da Conquista voltou a ocupar uma posição relevante no jogo estadual.

O verdadeiro teste eleitoral

A política, entretanto, não perdoa acomodação. Ser citado em uma projeção não elege ninguém. Ter o apoio de lideranças importantes também não. O eleitorado é quem dará a palavra final.

Wagner terá pela frente uma tarefa difícil: transformar visibilidade em voto, voto em densidade eleitoral e densidade eleitoral em uma das cadeiras da Assembleia Legislativa.

E terá ainda que enfrentar uma disputa dentro da própria casa. A Federação União Progressista reúne União Brasil e PP e, portanto, coloca aliados e correligionários diante de uma competição que será tão intensa internamente quanto na disputa contra outras forças políticas. O levantamento do BN deixa claro que existem nomes considerados mais encaminhados e outros que brigam pelas vagas restantes.

Nesse cenário, cada voto do Sudoeste poderá adquirir um valor extraordinário. Não se trata apenas de quantos votos Wagner conseguirá em Vitória da Conquista. A pergunta será: quantos votos ele conseguirá transformar em uma rede regional capaz de sustentá-lo até a última cadeira?

Essa talvez seja a verdadeira eleição.

Um detalhe que não pode ser ignorado

Wagner Alves é um estreante nas urnas. Diferentemente de políticos que já possuem vários mandatos e máquinas eleitorais consolidadas, ele precisa transformar uma estrutura política existente em uma candidatura eleitoralmente viável. Pesquisas anteriores já haviam apontado crescimento de seu nome em Vitória da Conquista, embora pesquisas e projeções não substituam o voto depositado na urna.

A política baiana está diante de uma eleição em que velhas estruturas começam a conviver com novas lideranças. Vitória da Conquista, por sua vez, precisa decidir se continuará fragmentando sua força eleitoral entre inúmeros projetos individuais ou se conseguirá construir uma representação capaz de defender interesses coletivos.

É uma escolha que pertence ao eleitor.

O Sudoeste como fiel da balança

O fato concreto, neste momento, é que Wagner Alves entrou no radar da disputa estadual. E quando um nome de Vitória da Conquista aparece entre os postulantes às últimas cadeiras de uma federação que pode eleger até 12 deputados estaduais, já não estamos falando de uma candidatura meramente local.

Estamos falando de uma disputa pelo futuro espaço político de Conquista na Bahia.

Agora começa a parte mais difícil. Transformar expectativa em realidade.

E, para Wagner Alves, cada voto do Sudoeste poderá ser decisivo entre assistir à eleição pela televisão ou ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia para representar Vitória da Conquista e toda a região.

A eleição de 2026 começa a mostrar, portanto, que o Sudoeste não será apenas território eleitoral. Poderá ser o fiel da balança.

Política
Bahia
Eleições 2026
Vitória da Conquista
Assembleia Legislativa

Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha

A FIDELIDADE POLÍTICA ACIMA DA CONVENIÊNCIA PARTIDÁRIA

Política & Análise

Por Padre Carlos

Na política, há momentos em que uma decisão vale mais do que um discurso. É justamente nesses momentos que se mede a dimensão de uma liderança. Otto Alencar, senador da República e presidente do PSD da Bahia, está diante de uma dessas circunstâncias. O PSD nacional decidiu disputar a Presidência da República com Ronaldo Caiado, tendo Gilberto Kassab como candidato a vice. Mas a Bahia tomou outro caminho político: Otto reafirmou que o PSD baiano continuará apoiando Luiz Inácio Lula da Silva.

Não se trata de uma informação secundária dentro do cenário eleitoral de 2026. É uma demonstração concreta de que um partido nacional pode apresentar uma estratégia própria para a disputa presidencial e, ao mesmo tempo, preservar nos estados alianças políticas construídas ao longo dos anos. Otto não esconde essa posição. Ao contrário, tornou-a pública e reafirmou que sua fidelidade à aliança construída na Bahia permanece.

Uma trajetória construída sobre alianças

Essa posição ganha ainda mais significado quando se observa a trajetória política de Otto Alencar. Experiente, articulado, firme e reconhecido pela capacidade de diálogo, o senador construiu sua liderança política sobre relações que atravessaram diferentes momentos da história recente da Bahia. Em pronunciamento no Senado, ele próprio lembrou que, desde 2010, mantinha uma aliança política com Jaques Wagner, posteriormente estendida a Rui Costa e ao atual governador Jerônimo Rodrigues.

Na mesma manifestação, Otto afirmou que o PSD mantinha sustentação política aos governos de Lula no Senado e na Câmara e definiu sua posição como uma atuação de centro associada à defesa da área social. É nesse contexto que sua posição atual precisa ser compreendida. A política de Otto não parece estar sendo conduzida pela lógica de simplesmente acompanhar a decisão nacional do partido. Há uma lógica estadual, uma história de alianças e compromissos políticos que ele considera relevantes.

“Minha fidelidade ao senhor não vai parar em momento nenhum.”

— Otto Alencar, a Lula, julho de 2026

Quando declarou essa frase, Otto deixou explícita a natureza de sua escolha. O caso do PSD baiano revela, portanto, uma particularidade importante do federalismo partidário brasileiro. O mesmo partido pode ter, em Brasília, uma candidatura presidencial própria e, na Bahia, apoiar outro candidato à Presidência. Essa realidade pode parecer contraditória à primeira vista, mas é compatível com a diversidade das alianças estaduais que caracterizam a política brasileira.

Uma equação política específica

No caso baiano, Otto Alencar tornou-se o principal responsável por administrar essa equação. De um lado está a decisão nacional do PSD de disputar a Presidência com Ronaldo Caiado; de outro, está a decisão do diretório baiano de permanecer ao lado de Lula e da aliança política construída no estado. Não é uma questão de “terceira via”, nem de apresentar uma alternativa entre campos políticos. É uma situação mais específica: um partido com projeto presidencial próprio e uma direção estadual que mantém uma aliança presidencial diferente.

Duas estratégias, uma só legenda

É justamente aí que está o aspecto mais marcante da trajetória de Otto Alencar: a capacidade de separar a estratégia nacional do partido das relações políticas que considera fundamentais para a Bahia. O senador não rompeu com o PSD nacional, tampouco esconde que a legenda tem candidato à Presidência. Ao mesmo tempo, mantém sua posição em favor de Lula e da aliança política construída no estado.

O PSD baiano, sob sua liderança, segue uma lógica própria dentro da federação partidária. Otto Alencar, com sua experiência, sua serenidade, sua firmeza e sua capacidade de articulação, tornou-se o rosto dessa decisão. E talvez essa seja a imagem mais interessante para compreender o momento: enquanto o PSD nacional marcha com seu candidato à Presidência, o PSD da Bahia permanece ao lado de Lula.

No tabuleiro político brasileiro, são caminhos diferentes dentro da mesma legenda. E Otto Alencar deixou claro qual caminho pretende percorrer na Bahia.

Política
Bahia
PSD
Eleições 2026

Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha

A FIDELIDADE POLÍTICA ACIMA DA CONVENIÊNCIA PARTIDÁRIA

Política & Análise

Por Padre Carlos

Na política, há momentos em que uma decisão vale mais do que um discurso. É justamente nesses momentos que se mede a dimensão de uma liderança. Otto Alencar, senador da República e presidente do PSD da Bahia, está diante de uma dessas circunstâncias. O PSD nacional decidiu disputar a Presidência da República com Ronaldo Caiado, tendo Gilberto Kassab como candidato a vice. Mas a Bahia tomou outro caminho político: Otto reafirmou que o PSD baiano continuará apoiando Luiz Inácio Lula da Silva.

Não se trata de uma informação secundária dentro do cenário eleitoral de 2026. É uma demonstração concreta de que um partido nacional pode apresentar uma estratégia própria para a disputa presidencial e, ao mesmo tempo, preservar nos estados alianças políticas construídas ao longo dos anos. Otto não esconde essa posição. Ao contrário, tornou-a pública e reafirmou que sua fidelidade à aliança construída na Bahia permanece.

Uma trajetória construída sobre alianças

Essa posição ganha ainda mais significado quando se observa a trajetória política de Otto Alencar. Experiente, articulado, firme e reconhecido pela capacidade de diálogo, o senador construiu sua liderança política sobre relações que atravessaram diferentes momentos da história recente da Bahia. Em pronunciamento no Senado, ele próprio lembrou que, desde 2010, mantinha uma aliança política com Jaques Wagner, posteriormente estendida a Rui Costa e ao atual governador Jerônimo Rodrigues.

Na mesma manifestação, Otto afirmou que o PSD mantinha sustentação política aos governos de Lula no Senado e na Câmara e definiu sua posição como uma atuação de centro associada à defesa da área social. É nesse contexto que sua posição atual precisa ser compreendida. A política de Otto não parece estar sendo conduzida pela lógica de simplesmente acompanhar a decisão nacional do partido. Há uma lógica estadual, uma história de alianças e compromissos políticos que ele considera relevantes.

“Minha fidelidade ao senhor não vai parar em momento nenhum.”

— Otto Alencar, a Lula, julho de 2026

Quando declarou essa frase, Otto deixou explícita a natureza de sua escolha. O caso do PSD baiano revela, portanto, uma particularidade importante do federalismo partidário brasileiro. O mesmo partido pode ter, em Brasília, uma candidatura presidencial própria e, na Bahia, apoiar outro candidato à Presidência. Essa realidade pode parecer contraditória à primeira vista, mas é compatível com a diversidade das alianças estaduais que caracterizam a política brasileira.

Uma equação política específica

No caso baiano, Otto Alencar tornou-se o principal responsável por administrar essa equação. De um lado está a decisão nacional do PSD de disputar a Presidência com Ronaldo Caiado; de outro, está a decisão do diretório baiano de permanecer ao lado de Lula e da aliança política construída no estado. Não é uma questão de “terceira via”, nem de apresentar uma alternativa entre campos políticos. É uma situação mais específica: um partido com projeto presidencial próprio e uma direção estadual que mantém uma aliança presidencial diferente.

Duas estratégias, uma só legenda

É justamente aí que está o aspecto mais marcante da trajetória de Otto Alencar: a capacidade de separar a estratégia nacional do partido das relações políticas que considera fundamentais para a Bahia. O senador não rompeu com o PSD nacional, tampouco esconde que a legenda tem candidato à Presidência. Ao mesmo tempo, mantém sua posição em favor de Lula e da aliança política construída no estado.

O PSD baiano, sob sua liderança, segue uma lógica própria dentro da federação partidária. Otto Alencar, com sua experiência, sua serenidade, sua firmeza e sua capacidade de articulação, tornou-se o rosto dessa decisão. E talvez essa seja a imagem mais interessante para compreender o momento: enquanto o PSD nacional marcha com seu candidato à Presidência, o PSD da Bahia permanece ao lado de Lula.

No tabuleiro político brasileiro, são caminhos diferentes dentro da mesma legenda. E Otto Alencar deixou claro qual caminho pretende percorrer na Bahia.

Política
Bahia
PSD
Eleições 2026

Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha

A QUEM INTERESSA DESLEGITIMAR ALEXANDRE DE MORAES?

Por Padre Carlos

Existe uma pergunta que o Brasil precisa fazer sem medo, sem paixão partidária e sem cair na armadilha da polarização:

A quem interessa desestabilizar Alexandre de Moraes e, por consequência, enfraquecer o Supremo Tribunal Federal?

A pergunta não significa que Alexandre de Moraes esteja acima da lei. Não está.
Não significa que ministros do Supremo sejam intocáveis. Não são.
Não significa sequer que as relações mencionadas no caso envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro não devam ser investigadas. Devem.

Significa apenas que precisamos ter cuidado para não transformar uma investigação legítima em uma operação política de deslegitimação de uma instituição fundamental da República.

Há uma diferença enorme entre investigar um ministro e destruir a credibilidade do Supremo Tribunal Federal.
E essa diferença precisa ser preservada.

O episódio envolvendo Daniel Vorcaro, as mensagens atribuídas ao banqueiro e as referências a Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues precisam ser esclarecidos. O ministro André Mendonça fez chegar o caso à Procuradoria-Geral da República, e cabe às instituições examinar os fatos.

Até aqui, o caminho institucional está sendo utilizado.
É assim que deve ser.

Mas há outra questão que não pode ser escondida debaixo do tapete: o critério precisa valer para todos.

Se uma mensagem, uma relação financeira ou uma conexão familiar é suficiente para justificar questionamentos sobre um ministro, esse mesmo padrão precisa ser aplicado aos demais integrantes da Corte.

O próprio debate público sobre o caso menciona relações de outros ministros ou de seus familiares com Daniel Vorcaro e questiona por que determinados vínculos recebem tratamento diferente.

Essa é uma pergunta legítima.
E fazer essa pergunta não significa atacar o Supremo.
Ao contrário.
Significa querer um Supremo mais transparente.

O problema começa quando a transparência deixa de ser princípio republicano e passa a ser utilizada seletivamente como arma política.
Aí temos um problema.

O SUPREMO NÃO PODE SER REFÉM DA POLARIZAÇÃO

O Brasil vive uma disputa política que ultrapassou os limites razoáveis da democracia.

De um lado, existem aqueles que enxergam Alexandre de Moraes como uma espécie de inimigo absoluto.
Do outro, há quem considere qualquer questionamento ao ministro uma ameaça à democracia.

As duas posições são perigosas.

Alexandre de Moraes não precisa ser transformado em herói.
Também não pode ser transformado em vilão por antecipação.
Ele é ministro do Supremo Tribunal Federal.
E deve responder pelos seus atos dentro das regras constitucionais.

Se houver irregularidade, que seja apurada.
Se houver abuso, que seja responsabilizado.
Se houver conflito de interesses, que seja esclarecido.

Mas, se não houver prova suficiente, não podemos transformar suspeitas em condenações.
Estado Democrático de Direito não funciona assim.

A QUEM INTERESSA A GUERRA CONTRA O STF?

Essa talvez seja a pergunta mais incômoda.
Porque o ataque a Alexandre de Moraes não acontece no vazio.

Moraes tornou-se, para determinados setores políticos, o símbolo de tudo aquilo que eles rejeitam no Supremo.
Foi um dos ministros mais visíveis na defesa das instituições democráticas diante dos ataques contra o sistema eleitoral, das ameaças às instituições e dos acontecimentos relacionados ao 8 de Janeiro.

Por isso, atingir Moraes também pode significar atingir a narrativa construída em torno da resistência institucional aos movimentos que questionaram a democracia brasileira.

Não estou dizendo que todo aquele que critica Moraes tenha essa intenção.
Seria injusto.

Existem críticas legítimas ao Supremo.
Existem decisões controversas.
Existem debates que precisam ser feitos sobre poderes individuais de ministros, decisões monocráticas, transparência, conflitos de interesse, regras de impedimento e responsabilidade institucional.

O próprio material que estamos analisando registra a avaliação de que o caso Vorcaro acabou escancarando uma discussão mais ampla sobre o funcionamento do Supremo e sobre mudanças que precisam ser debatidas.
E essa discussão deve acontecer.

Mas uma coisa é reformar instituições.
Outra é destruí-las porque elas contrariaram determinado projeto político.

NÃO PRECISAMOS DE UMA MAIORIA NO SENADO PARA COMEÇAR UMA CRISE

É aqui que entra uma preocupação que considero fundamental.

Não é necessário que o bolsonarismo conquiste uma maioria esmagadora no Senado Federal para começar uma ofensiva contra ministros do Supremo.
Basta construir uma maioria circunstancial disposta a utilizar o impeachment como instrumento de pressão política.

E isso seria muito grave.
Não porque ministros sejam infalíveis.
Mas porque o impeachment de ministro do STF não pode se transformar em mecanismo de vingança contra decisões judiciais.

Hoje pode ser Alexandre de Moraes.
Amanhã pode ser outro ministro.
Depois outro.

E, quando percebermos, o Supremo estará funcionando sob uma espécie de ameaça política permanente.

Isso não é independência judicial. É submissão política.

DEFENDER O STF NÃO É DEFENDER CADA DECISÃO DO STF

Precisamos deixar isso absolutamente claro.

Eu posso discordar de Alexandre de Moraes.
Posso discordar de uma decisão de Dias Toffoli.
Posso discordar de Luís Roberto Barroso.
Posso discordar de qualquer ministro.
Isso faz parte da democracia.

Discordância não é golpismo.
Crítica não é ataque institucional.
Questionamento não é crime.

Mas existe uma diferença entre criticar uma decisão e construir uma narrativa segundo a qual o Supremo inteiro seria ilegítimo.
Essa diferença precisa ser respeitada.

Porque quando se destrói a confiança nas instituições, abre-se espaço para algo muito pior.
O vazio institucional.
E quando o vazio institucional aparece, alguém sempre tenta ocupá-lo pela força.

MAS O SUPREMO TAMBÉM PRECISA SE OLHAR NO ESPELHO

Defender o Supremo não significa fechar os olhos para seus problemas.
Ao contrário.

Uma instituição forte precisa ser capaz de olhar para si mesma.
Precisa discutir seus procedimentos.
Precisa discutir transparência.
Precisa discutir impedimentos.
Precisa discutir relações econômicas e familiares que possam gerar dúvidas.
Precisa discutir seus mecanismos internos de controle.
Precisa discutir a duração dos processos.
Precisa discutir decisões monocráticas.
Precisa discutir a relação entre Supremo, Congresso, Ministério Público e Polícia Federal.

E precisa fazer isso sem esperar que a extrema direita transforme cada problema em munição política.

Porque existe uma verdade simples: quanto mais transparente for o Supremo, menos espaço haverá para teorias conspiratórias.

Quanto mais claras forem as regras, menor será a possibilidade de manipulação política.
Quanto mais iguais forem os critérios, menor será a acusação de seletividade.

O MESMO CRITÉRIO PARA TODOS

É aqui que está, para mim, o ponto central.

Se Alexandre de Moraes deve explicar alguma relação, que explique.
Mas que todos os ministros sejam submetidos aos mesmos critérios.

Se um vínculo financeiro é relevante, que seja relevante independentemente do ministro.
Se uma relação familiar é relevante, que seja analisada em todos os casos.
Se uma mensagem é suficiente para provocar investigação, que o princípio valha para todos.

Não podemos construir uma República onde a régua muda conforme o nome escrito na decisão.

Isso seria tão perigoso quanto a própria perseguição política.
A democracia exige igualdade diante das regras.

INVESTIGAR NÃO É DESESTABILIZAR

André Mendonça tem o direito de pedir esclarecimentos.
A PGR tem o dever de analisar aquilo que chegar ao seu conhecimento.
A Polícia Federal deve investigar aquilo que estiver dentro de sua competência.
O Supremo deve respeitar suas próprias regras.
E o Congresso deve exercer suas atribuições constitucionais.

Tudo isso é democracia.

O que não podemos aceitar é que qualquer uma dessas instituições seja utilizada como instrumento de uma guerra política.

Investigação não é perseguição.
Transparência não é ataque.
Crítica não é golpe.
E defesa das instituições não significa blindagem contra a lei.

Essas quatro frases deveriam estar escritas na porta de todas as instituições brasileiras.

O PERIGO DA POLÍTICA DA VINGANÇA

O Brasil precisa decidir que tipo de democracia deseja construir depois de tantos anos de polarização.

Uma democracia baseada em instituições ou uma democracia baseada na vingança?

Se determinado grupo chegar ao poder e utilizar sua maioria para destruir os adversários, estaremos apenas reproduzindo aquilo que dizemos combater.

A democracia não pode ser: “Eu respeito as instituições quando elas me favorecem.”
Isso não é democracia.
É conveniência.

Democracia é aceitar as regras mesmo quando perdemos.
É respeitar a Justiça mesmo quando discordamos.
É reconhecer o resultado eleitoral mesmo quando nosso candidato é derrotado.
É aceitar a decisão judicial mesmo quando ela nos desagrada — sem abrir mão do direito de recorrer, criticar e questionar dentro da lei.

NÃO PODEMOS PERMITIR QUE O BRASIL ENTRE NOVAMENTE NESSA ARMADILHA

O Brasil ainda está cicatrizando as feridas provocadas pelos ataques às instituições.
Ainda estamos tentando reconstruir pontes.
Ainda estamos tentando recuperar a confiança na democracia.

Não precisamos de uma nova guerra institucional.

Precisamos de investigação. Precisamos de transparência. Precisamos de responsabilidade. Precisamos de imprensa livre. Precisamos de oposição. Precisamos de governo. Precisamos de Congresso. Precisamos de Judiciário.

E precisamos que todos respeitem os limites constitucionais de suas funções.

Por isso, se existem fatos envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, que sejam esclarecidos.
Se existem provas, que sejam apresentadas.
Se existem irregularidades, que sejam responsabilizadas.

Mas, se não existem provas, não podemos aceitar que suspeitas sejam transformadas em sentença política.

A DEFESA DA DEMOCRACIA NÃO PODE SER SELETIVA

Eu não defendo Alexandre de Moraes porque considero que ele seja infalível.
Defendo a instituição.

Defendo o Supremo Tribunal Federal porque acredito que o Brasil precisa de uma Corte constitucional independente.
Defendo o Estado Democrático de Direito porque ele é maior do que qualquer governo, qualquer partido e qualquer ministro.

E justamente por isso também defendo que o Supremo seja transparente, responsável e submetido à Constituição.

Não quero ministros acima da lei.
Mas também não quero ministros ajoelhados diante da maioria política de ocasião.
Não quero impunidade.
Mas também não quero perseguição.
Não quero blindagem.
Mas também não quero linchamento político.
Quero instituições funcionando.

EIS A VERDADEIRA BATALHA

Talvez a batalha mais importante que o Brasil esteja travando não seja entre Alexandre de Moraes e seus adversários.

Seja entre a política institucional e a política da vingança.
Entre a investigação e a condenação antecipada.
Entre a crítica democrática e a deslegitimação das instituições.
Entre a Constituição e a vontade política de ocasião.

Por isso, faço novamente a pergunta:

A quem interessa desestabilizar Alexandre de Moraes?

Mas acrescento outra: a quem interessa fazer o brasileiro acreditar que o Supremo Tribunal Federal não merece mais confiança?

Essa segunda pergunta é ainda mais importante.

Porque ministros passam. Presidentes passam. Governos passam. Partidos passam. Deputados passam. Senadores passam.
As instituições permanecem.

E quando defendemos o Supremo, não estamos defendendo Alexandre de Moraes contra a sociedade.
Estamos defendendo a sociedade contra a possibilidade de que, amanhã, qualquer maioria política possa destruir uma instituição simplesmente porque não gostou das decisões que ela tomou.

Que Alexandre de Moraes seja investigado, se houver motivo.
Que todos os ministros sejam investigados quando houver motivo.
Que ninguém esteja acima da lei.
Mas que ninguém esteja abaixo dela também.

É esse equilíbrio que separa uma democracia de uma guerra política.
E é esse equilíbrio que o Brasil precisa preservar.

Não podemos permitir que aqueles que fracassaram em deslegitimar a democracia agora tentem deslegitimar as instituições que a sustentam.

A democracia brasileira não precisa de ministros-heróis.
Precisa de instituições fortes, independentes e submetidas à Constituição.

É por isso que precisamos defender o Supremo Tribunal Federal. Não porque seus ministros sejam perfeitos. Mas porque sem instituições independentes não existe Estado Democrático de Direito.

STF
Alexandre de Moraes
Democracia
Instituições
Caso Vorcaro

— Padre Carlos

A QUEM INTERESSA DESLEGITIMAR ALEXANDRE DE MORAES?

Por Padre Carlos

Existe uma pergunta que o Brasil precisa fazer sem medo, sem paixão partidária e sem cair na armadilha da polarização:

A quem interessa desestabilizar Alexandre de Moraes e, por consequência, enfraquecer o Supremo Tribunal Federal?

A pergunta não significa que Alexandre de Moraes esteja acima da lei. Não está.
Não significa que ministros do Supremo sejam intocáveis. Não são.
Não significa sequer que as relações mencionadas no caso envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro não devam ser investigadas. Devem.

Significa apenas que precisamos ter cuidado para não transformar uma investigação legítima em uma operação política de deslegitimação de uma instituição fundamental da República.

Há uma diferença enorme entre investigar um ministro e destruir a credibilidade do Supremo Tribunal Federal.
E essa diferença precisa ser preservada.

O episódio envolvendo Daniel Vorcaro, as mensagens atribuídas ao banqueiro e as referências a Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues precisam ser esclarecidos. O ministro André Mendonça fez chegar o caso à Procuradoria-Geral da República, e cabe às instituições examinar os fatos.

Até aqui, o caminho institucional está sendo utilizado.
É assim que deve ser.

Mas há outra questão que não pode ser escondida debaixo do tapete: o critério precisa valer para todos.

Se uma mensagem, uma relação financeira ou uma conexão familiar é suficiente para justificar questionamentos sobre um ministro, esse mesmo padrão precisa ser aplicado aos demais integrantes da Corte.

O próprio debate público sobre o caso menciona relações de outros ministros ou de seus familiares com Daniel Vorcaro e questiona por que determinados vínculos recebem tratamento diferente.

Essa é uma pergunta legítima.
E fazer essa pergunta não significa atacar o Supremo.
Ao contrário.
Significa querer um Supremo mais transparente.

O problema começa quando a transparência deixa de ser princípio republicano e passa a ser utilizada seletivamente como arma política.
Aí temos um problema.

O SUPREMO NÃO PODE SER REFÉM DA POLARIZAÇÃO

O Brasil vive uma disputa política que ultrapassou os limites razoáveis da democracia.

De um lado, existem aqueles que enxergam Alexandre de Moraes como uma espécie de inimigo absoluto.
Do outro, há quem considere qualquer questionamento ao ministro uma ameaça à democracia.

As duas posições são perigosas.

Alexandre de Moraes não precisa ser transformado em herói.
Também não pode ser transformado em vilão por antecipação.
Ele é ministro do Supremo Tribunal Federal.
E deve responder pelos seus atos dentro das regras constitucionais.

Se houver irregularidade, que seja apurada.
Se houver abuso, que seja responsabilizado.
Se houver conflito de interesses, que seja esclarecido.

Mas, se não houver prova suficiente, não podemos transformar suspeitas em condenações.
Estado Democrático de Direito não funciona assim.

A QUEM INTERESSA A GUERRA CONTRA O STF?

Essa talvez seja a pergunta mais incômoda.
Porque o ataque a Alexandre de Moraes não acontece no vazio.

Moraes tornou-se, para determinados setores políticos, o símbolo de tudo aquilo que eles rejeitam no Supremo.
Foi um dos ministros mais visíveis na defesa das instituições democráticas diante dos ataques contra o sistema eleitoral, das ameaças às instituições e dos acontecimentos relacionados ao 8 de Janeiro.

Por isso, atingir Moraes também pode significar atingir a narrativa construída em torno da resistência institucional aos movimentos que questionaram a democracia brasileira.

Não estou dizendo que todo aquele que critica Moraes tenha essa intenção.
Seria injusto.

Existem críticas legítimas ao Supremo.
Existem decisões controversas.
Existem debates que precisam ser feitos sobre poderes individuais de ministros, decisões monocráticas, transparência, conflitos de interesse, regras de impedimento e responsabilidade institucional.

O próprio material que estamos analisando registra a avaliação de que o caso Vorcaro acabou escancarando uma discussão mais ampla sobre o funcionamento do Supremo e sobre mudanças que precisam ser debatidas.
E essa discussão deve acontecer.

Mas uma coisa é reformar instituições.
Outra é destruí-las porque elas contrariaram determinado projeto político.

NÃO PRECISAMOS DE UMA MAIORIA NO SENADO PARA COMEÇAR UMA CRISE

É aqui que entra uma preocupação que considero fundamental.

Não é necessário que o bolsonarismo conquiste uma maioria esmagadora no Senado Federal para começar uma ofensiva contra ministros do Supremo.
Basta construir uma maioria circunstancial disposta a utilizar o impeachment como instrumento de pressão política.

E isso seria muito grave.
Não porque ministros sejam infalíveis.
Mas porque o impeachment de ministro do STF não pode se transformar em mecanismo de vingança contra decisões judiciais.

Hoje pode ser Alexandre de Moraes.
Amanhã pode ser outro ministro.
Depois outro.

E, quando percebermos, o Supremo estará funcionando sob uma espécie de ameaça política permanente.

Isso não é independência judicial. É submissão política.

DEFENDER O STF NÃO É DEFENDER CADA DECISÃO DO STF

Precisamos deixar isso absolutamente claro.

Eu posso discordar de Alexandre de Moraes.
Posso discordar de uma decisão de Dias Toffoli.
Posso discordar de Luís Roberto Barroso.
Posso discordar de qualquer ministro.
Isso faz parte da democracia.

Discordância não é golpismo.
Crítica não é ataque institucional.
Questionamento não é crime.

Mas existe uma diferença entre criticar uma decisão e construir uma narrativa segundo a qual o Supremo inteiro seria ilegítimo.
Essa diferença precisa ser respeitada.

Porque quando se destrói a confiança nas instituições, abre-se espaço para algo muito pior.
O vazio institucional.
E quando o vazio institucional aparece, alguém sempre tenta ocupá-lo pela força.

MAS O SUPREMO TAMBÉM PRECISA SE OLHAR NO ESPELHO

Defender o Supremo não significa fechar os olhos para seus problemas.
Ao contrário.

Uma instituição forte precisa ser capaz de olhar para si mesma.
Precisa discutir seus procedimentos.
Precisa discutir transparência.
Precisa discutir impedimentos.
Precisa discutir relações econômicas e familiares que possam gerar dúvidas.
Precisa discutir seus mecanismos internos de controle.
Precisa discutir a duração dos processos.
Precisa discutir decisões monocráticas.
Precisa discutir a relação entre Supremo, Congresso, Ministério Público e Polícia Federal.

E precisa fazer isso sem esperar que a extrema direita transforme cada problema em munição política.

Porque existe uma verdade simples: quanto mais transparente for o Supremo, menos espaço haverá para teorias conspiratórias.

Quanto mais claras forem as regras, menor será a possibilidade de manipulação política.
Quanto mais iguais forem os critérios, menor será a acusação de seletividade.

O MESMO CRITÉRIO PARA TODOS

É aqui que está, para mim, o ponto central.

Se Alexandre de Moraes deve explicar alguma relação, que explique.
Mas que todos os ministros sejam submetidos aos mesmos critérios.

Se um vínculo financeiro é relevante, que seja relevante independentemente do ministro.
Se uma relação familiar é relevante, que seja analisada em todos os casos.
Se uma mensagem é suficiente para provocar investigação, que o princípio valha para todos.

Não podemos construir uma República onde a régua muda conforme o nome escrito na decisão.

Isso seria tão perigoso quanto a própria perseguição política.
A democracia exige igualdade diante das regras.

INVESTIGAR NÃO É DESESTABILIZAR

André Mendonça tem o direito de pedir esclarecimentos.
A PGR tem o dever de analisar aquilo que chegar ao seu conhecimento.
A Polícia Federal deve investigar aquilo que estiver dentro de sua competência.
O Supremo deve respeitar suas próprias regras.
E o Congresso deve exercer suas atribuições constitucionais.

Tudo isso é democracia.

O que não podemos aceitar é que qualquer uma dessas instituições seja utilizada como instrumento de uma guerra política.

Investigação não é perseguição.
Transparência não é ataque.
Crítica não é golpe.
E defesa das instituições não significa blindagem contra a lei.

Essas quatro frases deveriam estar escritas na porta de todas as instituições brasileiras.

O PERIGO DA POLÍTICA DA VINGANÇA

O Brasil precisa decidir que tipo de democracia deseja construir depois de tantos anos de polarização.

Uma democracia baseada em instituições ou uma democracia baseada na vingança?

Se determinado grupo chegar ao poder e utilizar sua maioria para destruir os adversários, estaremos apenas reproduzindo aquilo que dizemos combater.

A democracia não pode ser: “Eu respeito as instituições quando elas me favorecem.”
Isso não é democracia.
É conveniência.

Democracia é aceitar as regras mesmo quando perdemos.
É respeitar a Justiça mesmo quando discordamos.
É reconhecer o resultado eleitoral mesmo quando nosso candidato é derrotado.
É aceitar a decisão judicial mesmo quando ela nos desagrada — sem abrir mão do direito de recorrer, criticar e questionar dentro da lei.

NÃO PODEMOS PERMITIR QUE O BRASIL ENTRE NOVAMENTE NESSA ARMADILHA

O Brasil ainda está cicatrizando as feridas provocadas pelos ataques às instituições.
Ainda estamos tentando reconstruir pontes.
Ainda estamos tentando recuperar a confiança na democracia.

Não precisamos de uma nova guerra institucional.

Precisamos de investigação. Precisamos de transparência. Precisamos de responsabilidade. Precisamos de imprensa livre. Precisamos de oposição. Precisamos de governo. Precisamos de Congresso. Precisamos de Judiciário.

E precisamos que todos respeitem os limites constitucionais de suas funções.

Por isso, se existem fatos envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, que sejam esclarecidos.
Se existem provas, que sejam apresentadas.
Se existem irregularidades, que sejam responsabilizadas.

Mas, se não existem provas, não podemos aceitar que suspeitas sejam transformadas em sentença política.

A DEFESA DA DEMOCRACIA NÃO PODE SER SELETIVA

Eu não defendo Alexandre de Moraes porque considero que ele seja infalível.
Defendo a instituição.

Defendo o Supremo Tribunal Federal porque acredito que o Brasil precisa de uma Corte constitucional independente.
Defendo o Estado Democrático de Direito porque ele é maior do que qualquer governo, qualquer partido e qualquer ministro.

E justamente por isso também defendo que o Supremo seja transparente, responsável e submetido à Constituição.

Não quero ministros acima da lei.
Mas também não quero ministros ajoelhados diante da maioria política de ocasião.
Não quero impunidade.
Mas também não quero perseguição.
Não quero blindagem.
Mas também não quero linchamento político.
Quero instituições funcionando.

EIS A VERDADEIRA BATALHA

Talvez a batalha mais importante que o Brasil esteja travando não seja entre Alexandre de Moraes e seus adversários.

Seja entre a política institucional e a política da vingança.
Entre a investigação e a condenação antecipada.
Entre a crítica democrática e a deslegitimação das instituições.
Entre a Constituição e a vontade política de ocasião.

Por isso, faço novamente a pergunta:

A quem interessa desestabilizar Alexandre de Moraes?

Mas acrescento outra: a quem interessa fazer o brasileiro acreditar que o Supremo Tribunal Federal não merece mais confiança?

Essa segunda pergunta é ainda mais importante.

Porque ministros passam. Presidentes passam. Governos passam. Partidos passam. Deputados passam. Senadores passam.
As instituições permanecem.

E quando defendemos o Supremo, não estamos defendendo Alexandre de Moraes contra a sociedade.
Estamos defendendo a sociedade contra a possibilidade de que, amanhã, qualquer maioria política possa destruir uma instituição simplesmente porque não gostou das decisões que ela tomou.

Que Alexandre de Moraes seja investigado, se houver motivo.
Que todos os ministros sejam investigados quando houver motivo.
Que ninguém esteja acima da lei.
Mas que ninguém esteja abaixo dela também.

É esse equilíbrio que separa uma democracia de uma guerra política.
E é esse equilíbrio que o Brasil precisa preservar.

Não podemos permitir que aqueles que fracassaram em deslegitimar a democracia agora tentem deslegitimar as instituições que a sustentam.

A democracia brasileira não precisa de ministros-heróis.
Precisa de instituições fortes, independentes e submetidas à Constituição.

É por isso que precisamos defender o Supremo Tribunal Federal. Não porque seus ministros sejam perfeitos. Mas porque sem instituições independentes não existe Estado Democrático de Direito.

STF
Alexandre de Moraes
Democracia
Instituições
Caso Vorcaro

— Padre Carlos