
Existe algo de profundamente revelador — e ao mesmo tempo tragicômico — quando uma autoridade do Judiciário brasileiro compara a própria condição ao regime de escravidão. Não é apenas um deslize retórico. É um sintoma. Um sintoma grave de um sistema que há muito tempo perdeu a noção de proporção, realidade e, sobretudo, de pudor.
A fala da desembargadora Eva do Amaral Coelho, durante sessão no Tribunal de Justiça do Pará, poderia facilmente figurar em um roteiro de humor ácido — se não fosse real. Segundo ela, o corte dos chamados “penduricalhos” determinado pelo Supremo Tribunal Federal estaria empurrando magistrados para algo próximo da escravidão.
Sim, você leu corretamente: escravidão.
A mesma palavra que historicamente remete a dor, açoite, fome, desumanização e séculos de opressão agora é evocada para descrever a vida de quem recebe, com enorme sacrifício — imagina-se — cerca de R$ 91 mil líquidos mensais. Uma tragédia contemporânea, sem dúvida. Shakespeare talvez não tivesse ousado tanto.
É curioso observar como, nesse novo conceito de cativeiro, o açoite foi substituído pelo fim do auxílio-moradia, o tronco virou a perda do auxílio-alimentação e as correntes foram trocadas pela ausência do auxílio-combustível. Uma releitura moderna da senzala — com ar-condicionado, estabilidade vitalícia e férias de 60 dias.
Mas não sejamos insensíveis. Afinal, como sobreviver sem “penduricalhos”? Como pagar médicos? Como comprar remédios? Como sustentar uma vida digna com meros R$ 91 mil líquidos? É uma situação que beira o colapso humanitário. Talvez a Organização das Nações Unidas devesse ser acionada imediatamente.
O mais intrigante, porém, não é a declaração em si — mas o universo mental que a torna possível. O Judiciário brasileiro, ao longo dos anos, construiu para si uma redoma de privilégios que se distanciou brutalmente da realidade da população que deveria servir. Auxílios criados sem base legal, benefícios incorporados como se fossem direitos fundamentais e uma cultura interna que naturalizou o excepcional como regra.
A decisão do Supremo Tribunal Federal de extinguir esses benefícios não é um ataque à magistratura. É, na verdade, um tímido — e tardio — gesto de reconexão com a legalidade e com o princípio republicano. A pergunta que fica é: por que demorou tanto?
E aqui entramos no ponto central: a urgência de uma reforma do Judiciário. Não uma reforma cosmética, de discursos protocolares e mudanças superficiais. Mas uma reforma estrutural, profunda, que enfrente privilégios, reveja mecanismos de remuneração, aumente a transparência e, sobretudo, restabeleça a confiança pública.
Porque, convenhamos, quando uma autoridade afirma que está sendo “escravizada” por ganhar R$ 91 mil, o problema não está apenas na fala. Está no sistema que a legitima.
E há um detalhe que parece ter passado despercebido: ao contrário do trabalhador comum, o magistrado não está preso a correntes invisíveis. Não há capataz impedindo sua saída. Não há grilhões jurídicos que o obriguem a permanecer no cargo. A porta está aberta. Sempre esteve.
Se a realidade se tornou insuportável, se o sofrimento é tão profundo, há uma solução simples, rápida e eficaz: a demissão voluntária. O mercado jurídico está aí, vibrante, competitivo, implacável. Escritórios de advocacia aguardam — com contratos sem estabilidade, sem férias de dois meses, sem garantias, sem “penduricalhos”.
Ali, sim, a produtividade dita o salário. O cliente decide. O risco é real. O boleto vence.
Talvez seja um choque de realidade interessante.
O Brasil, um país marcado por desigualdades profundas, assiste a esse tipo de declaração com uma mistura de incredulidade e revolta. Enquanto milhões lutam para sobreviver com um salário mínimo, a elite do funcionalismo público debate o drama existencial de perder benefícios ilegais.
É nesse abismo que nasce o descrédito institucional.
Reformar o Judiciário não é apenas uma questão administrativa. É uma necessidade moral. É resgatar o sentido de justiça em um país que já não suporta mais ver privilégios sendo defendidos como se fossem direitos humanos.
Porque, no fim das contas, a verdadeira escravidão no Brasil não está nos tribunais. Está na vida de milhões que trabalham duro, sem estabilidade, sem garantias e, ironicamente, sustentando — com seus impostos — o luxo daqueles que agora se dizem oprimidos.
E essa, sim, é uma ironia que dispensa qualquer comentário.











