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A Tribuna da República — Coluna Opinião
26 de março de 2026 · Leitura: ~7 minutos
Era para ser um triunfo. Era para ser o último capítulo de uma novela de meses, em que um ministro escolhido a dedo — a dedo, gente, literalmente a dedo — por Jair Bolsonaro, ungido com a bênção das bancadas conservadoras e embalado na retórica do “terrível evangélico”, sairia vitorioso de mais uma batalha em favor de seu criador ideológico. Mas o Supremo disse não. E que não foi bonito.
O placar final foi 8 a 2. Oito ministros do Supremo Tribunal Federal votaram contra a prorrogação da CPMI do INSS, essa comissão que havia se transformado num espetáculo de prestidigitação política — onde o que importava não era investigar quem roubou os aposentados, mas sim montar o cenário perfeito para apontar o dedo para a esquerda antes das eleições.
“Num país sério, uma comissão de inquérito serve para encontrar culpados. Neste circo, ela servia para fabricá-los — de preferência com filiação petista.”
André Mendonça, o ministro do STF que carrega na lapela a cruz evangélica e no currículo a marca d’água da indicação bolsonarista, havia deferido, sozinho, uma medida cautelar para prorrogar o funcionamento da CPMI. Uma comissão cujo presidente e relator eram da direita. Uma comissão que votava só quem eles queriam. Uma comissão que havia se convertido, na prática, num palanque eleitoral disfarçado de investigação parlamentar.
📋 ENTENDA O CIRCO EM 4 ATOS
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A CPMI foi criada para investigar fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS — uma causa legítima que merecia seriedade.
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Presidente e relator eram de direita e agiam de forma seletiva, pautando apenas o que interessava politicamente.
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O objetivo real: criar a sensação de que a esquerda estava envolvida, sem provas, apenas pela narrativa.
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André Mendonça, indicado por Bolsonaro como “terrivelmente evangélico”, agiu como um soldado — e perdeu a batalha no próprio Plenário.
O “Terrível” que Não Apavorou Ninguém
Lembra quando Bolsonaro prometeu um ministro para o STF que fosse “terrivelmente evangélico”? Pois bem. A promessa foi cumprida. André Mendonça chegou ao tribunal com toda a pompa conservadora, com o peso simbólico de representar uma pauta religiosa numa corte secular, com o respaldo de bancadas que viam nele um escudo para as causas da direita radical brasileira.
Só que o Plenário do STF não é bancada parlamentar. Não é púlpito. É uma corte de lei. E nesta quinta-feira, 26 de março de 2026, essa corte lembrou ao ministro — com a frieza de um placar que não deixa margem para interpretação — que nenhum ministro é maior do que a Constituição. Nem os terrivelmente bolsonaristas, nem os terrivelmente solitários.
“Mendonça tentou prorrogar com uma caneta o que a maioria do Plenário entendeu ser inconstitucional. A maioria respondeu com oito votos — e nenhuma caneta resolve isso.”
A decisão monocrata de Mendonça que prorrogou a CPMI foi ao referendo do Plenário — e ali, na sala onde a democracia ainda respira, ela foi derrubada com autoridade. Oito votos contra dois. Uma derrota que não é apenas jurídica. É simbólica. É histórica. É o retrato de um ministro que, na ânsia de servir à causa que o colocou onde está, esqueceu onde estava.
Fux: A Sombra Que Ninguém Estranha
E então chegamos ao segundo voto dissidente: Luiz Fux. O eterno coadjuvante das causas que dão errado. O ministro que, como se a memória coletiva do país fosse curta, já protagonizou episódios que fariam corar qualquer guardião da Constituição. Este mesmo Fux que, em determinado momento da história recente, encontrou caminhos hermenêuticos sinuosos o suficiente para que quem comete golpe pudesse dormir tranquilo.
Não surpreende, portanto, que Fux tenha acompanhado Mendonça. O que surpreenderia seria o contrário. São duas estrelas de uma constelação que orbita ao redor de um sol que já se pôs — e que insistem em girar, mesmo na escuridão, como se o astro ainda existisse no céu da República.
A Alma Lavada da Derrota Merecida
Há uma ironia dolorosa nessa história toda. No centro dela, havia aposentados. Havia pensionistas. Havia trabalhadores que passaram a vida inteira contribuindo para uma seguridade social que foi saqueada por quadrilhas bem organizadas, com conexões políticas e impunidade garantida. Gente simples. Gente que merecia uma CPMI de verdade — não um teatro.
Mas o teatro foi exatamente o que receberam. Uma comissão controlada por presidentes e relatores que escolhiam a dedo quem entrava em votação. Que usavam o aparato investigativo do Estado como arma eleitoral. Que convocavam testemunhas convenientes e esqueciam das inconvenientes. Que transformaram a dor dos aposentados em pólvora para a guerra política.
“Os aposentados mereciam uma investigação. Receberam um espetáculo. E o espetáculo, ao menos, acabou — mesmo que a impunidade, essa, ainda dance em palco aberto.”
E sabe o mais trágico? Os culpados reais pelo roubo aos aposentados do INSS seguem impunes. O circo fechou, mas os ladrões ainda estão soltos. A CPMI não serviu para prendê-los — serviu para protegê-los, ao desviar o holofote para onde não havia nada, enquanto a escuridão cobria onde havia tudo.
Dará Freio? Ou Apenas Uma Pausa no Espetáculo?
A pergunta que fica — e que nenhum otimismo ingênuo consegue responder com facilidade — é: esta derrota dará freios ao comportamento de André Mendonça? Mudará o curso de um ministro que se vê, acima de tudo, como um representante de uma causa, e não de uma Constituição?
Talvez. Talvez não. A história dos últimos anos nos ensinou que derrotas não necessariamente produzem reflexão nos que habitam o universo paralelo do bolsonarismo jurídico. Eles perdem, lamentam, juram que vencerão, e logo aparecem com uma nova manobra — um novo mandado de segurança, uma nova cautelar, um novo argumento ornamentado de gramática constitucional mas com a alma de uma liminar de conveniência política.
Mas desta vez, ao menos, o Plenário mostrou que há limite. Que 8 ministros ainda olham para a Constituição sem filtro ideológico — ou pelo menos sem o mesmo filtro de Mendonça. E que, nesta República de muitas fissuras, ainda há, de vez em quando, um momento em que a maioria vence. E quando a maioria vence, o mínimo que se pode fazer é respirar — e registrar.
O Brasil é um país de ironias perpétuas. Um ministro escolhido por quem ameaçou demolir o STF foi derrotado dentro do próprio STF. Um circo montado para calar a esquerda foi fechado por uma corte que, desta vez, não deixou. Os aposentados ainda esperam por justiça real — mas hoje, ao menos, o espetáculo de sua dor foi encerrado. E isso, por mais pequeno que pareça diante da imensidão do que ainda precisa ser feito, não é pouca coisa.
Nota de contexto: O Plenário do STF analisou, na tarde de 26 de março de 2026, o referendo de medida cautelar deferida pelo ministro André Mendonça que determinou a prorrogação do funcionamento da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. O assunto é objeto de Mandado de Segurança. O Plenário derrubou a cautelar por 8 votos a 2, com apenas o ministro Luiz Fux acompanhando Mendonça.