Política e Resenha

O frade das quatro da manhã: Frei Gilson e a reconquista digital da fé

Religião & Sociedade

O frade das quatro da manhã: Frei Gilson e a reconquista digital da fé

Com 28 milhões de seguidores e missas transmitidas ao amanhecer, o carmelita tornou-se o símbolo mais visível de uma tentativa de renovar o catolicismo brasileiro — entre o fervor genuíno, o conservadorismo doutrinário e as contradições inevitáveis de um fenômeno de massa.

Por Padre Carlos  |  Política e Resenha  |  Vitória da Conquista, Bahia

Às quatro da manhã, quando o Brasil ainda dorme, Roseli Gomes liga a televisão. A comerciante de 40 anos, de Pernambuco, vence a escuridão e o cansaço por uma razão simples: Frei Gilson está rezando o terço. “É um sacrifício”, ela admite, “mas quando você ouve Frei Gilson, sente uma paz interior, sente-se acolhida.” No primeiro dia desta Quaresma digital, 1,5 milhão de fiéis acordaram com ela.

Não há como ignorar o fenômeno. Gilson da Silva Pupo Azevedo, 39 anos, frade da Ordem Carmelita Mensageiros do Espírito Santo, acumulou cerca de 28 milhões de seguidores nas redes sociais — um número que supera, e muito, o do próprio Papa Leão XIV, o católico mais influente do planeta. O brasileiro chegou a cumprimentar o Pontífice em uma visita recente ao Vaticano. A cena tem um sabor paradoxal que a própria Igreja ainda não sabe ao certo como digerir.

“Ele combina uma forte devoção mariana com disciplina espiritual e um estilo claro, didático e direto.”


— Tabata Tesser, socióloga, Instituto de Estudos da Religião (ISER)

O adolescente rebelde de Paraisópolis

Nascido em São Paulo em 1986, Frei Gilson não chegou à fé pelo caminho da serenidade. Por sua própria confissão, foi um adolescente rebelde, marcado pela separação dos pais. Criado em uma família de pouca prática religiosa, foram três elementos aparentemente díspares que reorientaram sua trajetória: a conversão da mãe, a descoberta do violão e a vida na favela de Paraisópolis. Quando a vocação sacerdotal emergiu, ele foi ao encontro da garota por quem era apaixonado desde os onze anos. “Eu não queria ser padre sem ter vivido o amor”, disse ele em um podcast. A frase revela um homem que entende a linguagem da experiência humana — e sabe como usá-la para falar às multidões.

Após fazer seus votos, percorreu o caminho já aberto pelos padres cantores brasileiros que, desde a década de 1990, lotavam estádios. Mas Frei Gilson foi mais longe: trocou a paróquia que liderava em São Paulo pela internet — sem estratégia declarada, sem grandes investimentos em marketing. O sucesso, ele mesmo atribui a uma força que nenhum algoritmo explica completamente.

A catequese básica como estratégia de massa

A socióloga Tabata Tesser, pesquisadora do ISER, oferece uma hipótese precisa: “Frei Gilson se tornou um fenômeno de massa porque se dedica à catequese básica, pregando sobre Jesus, sobre o pecado original… ele não se aprofunda em debates teológicos complexos.” É o elementar apresentado com calor humano. Não é a sofisticação que converte; é a clareza.

Essa catequese primária cria uma porta de entrada extraordinariamente larga. Ela permite ao frade dialogar simultaneamente com católicos não praticantes, com espíritas — que no Brasil somam 1,5 milhão de pessoas —, e com evangélicos que foram criados no catolicismo. No ano passado, ele foi o criador de conteúdo mais assistido do Brasil, à frente de comentaristas de videogames e pastores evangélicos. O dado diz mais sobre o vazio espiritual contemporâneo do que sobre qualquer mérito exclusivo do frade carmelita.

28 milhões

de seguidores nas redes sociais — mais do que o próprio Papa

O conservadorismo e seus limites

Seria ingênuo, porém, ler o fenômeno Frei Gilson apenas como espiritualidade desinteressada. O frade é declaradamente conservador. Em 2025, um sermão no qual pregou a submissão feminina com linguagem medieval gerou uma tempestade nacional: “A liderança foi dada ao homem, mas a mulher deseja o poder. […] Para curar a solidão do homem, Deus criou você [mulher]. Você nasceu para ajudar o homem.” As palavras são um retrocesso doutrinário que nenhuma boa vontade pastoral consegue disfarçar.

A repercussão foi imediata — e reveladora. Jair Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira, um evangélico, apressaram-se a manifestar solidariedade ao frade. O encontro entre o carmelita e a direita bolsonarista não é acidental: reflete uma disputa pelo imaginário conservador brasileiro em que a fé funciona como arena política. A Conferência Nacional dos Bispos Católicos do Brasil (CNBB), alarmada com o risco de sua imagem ser arrastada para a polarização, reagiu. Convocou um encontro de sacerdotes em missão digital e solicitou a remoção de 30 a 40 vídeos do frade. A hierarquia aceitava o conservadorismo; não aceitava a associação a candidatos.

“Ele evita comentar questões sociais relevantes para a Igreja no Brasil, como meio ambiente, habitação ou o recente estupro e feminicídio de uma freira de 82 anos em um convento.”


— Tabata Tesser, socióloga, ISER

O silêncio estratégico é, ele mesmo, uma posição. Frei Gilson não fala sobre moradores de rua, não comenta o feminicídio de uma freira idosa dentro de um convento, não entra no debate sobre habitação ou meio ambiente. A ausência não é inocência; é escolha. E é precisamente essa escolha que separa dois modelos de sacerdócio que coexistem, com tensão crescente, dentro da Igreja Católica brasileira.

Dois padres, dois evangelhos

O contraste torna-se mais nítido quando se evoca o padre Julio Lancellotti, 77 anos, incansável defensor dos cerca de 100 mil sem-teto que vagam pelas ruas de São Paulo. Lancellotti visitou Frei Gilson recentemente, chamou-o de “meu querido irmão” e tirou uma selfie. O gesto foi lido como reconciliação. Mas a fotografia não resolve a divergência teológica e pastoral que os separa: um prega a paz interior às quatro da manhã; o outro dorme pouco porque há pessoas dormindo nas calçadas.

A arquidiocese, aliás, impôs a Lancellotti um voto de silêncio que o privou do acesso às redes sociais e à transmissão de missas ao vivo. A mesma instituição que pede a Frei Gilson apenas que retire vídeos excessivamente ousados silenciou completamente o padre dos marginalizados. As hierarquias também falam por seus silêncios.

Quatro milhões de dólares e um megatemplo

Há uma última contradição que merece atenção. Frei Gilson fez voto de pobreza: não usa dinheiro, não possui conta bancária. No entanto, segundo a Folha de S. Paulo, o frade acaba de adquirir um terreno em São Paulo por quatro milhões de dólares — inteiramente financiado por doações — para a construção de um megatemplo católico. A piedade popular financiando a pedra e o cimento de um projeto monumental. A tensão entre o hábito marrom de sandálias e os milhões em doações não é, em si, desonestidade; é, porém, um símbolo que pede reflexão.

O Brasil tem hoje aproximadamente 100 milhões de católicos e cerca de 47 milhões de evangélicos. A população católica diminui, mas os evangélicos crescem em ritmo mais lento do que o esperado. É nesse equilíbrio precário que Frei Gilson se insere como um agente de retenção — alguém que oferece ao católico desencantado uma razão para não migrar. A hierarquia o acolhe exatamente por isso: ele é útil.

“Graças a ele, me aproximei de Deus e comecei a ir à igreja com mais frequência. Abandonei hábitos que não me faziam bem.”


— Roseli Gomes, comerciante, Pernambuco

A paz interior e a pergunta que fica

Não se trata de negar o bem que Frei Gilson faz. Os filhos de Roseli Gomes só dormem quando ele reza. Ela foi a um estádio em Recife com 45 mil pessoas para uma noite inteira de oração. Ela comprou ingresso para a partida de futebol beneficente de julho. Ela estará em agosto na vigília de São Miguel, às quatro da manhã. Tudo isso é vida comunitária, pertencimento, transformação pessoal — e essas coisas têm valor real e inegável.

Mas a pergunta que um articulista comprometido com o Evangelho não pode deixar de fazer é esta: a paz interior que o frade distribui às quatro da manhã é compatível com o silêncio sobre o feminicídio de freiras, sobre os sem-teto nas calçadas paulistanas, sobre a mulher que, segundo o mesmo frade, nasceu apenas para ajudar o homem? O terço rezado ao amanhecer tem o poder de transformar o mundo — ou apenas de tornar o mundo mais suportável sem tocá-lo?

A Teologia da Libertação — que nasceu exatamente no Brasil, exatamente no seio dessa Igreja — tinha uma resposta clara: a fé que não transforma estruturas injustas corre o risco de se tornar ópio. Dom Hélder Câmara dizia que quando dava comida aos pobres o chamavam de santo, mas quando perguntava por que eles eram pobres o chamavam de comunista. Frei Gilson, até agora, preferiu não fazer a segunda pergunta.

Talvez seja cedo para um veredicto. O frade tem 39 anos, uma audiência de dimensões históricas e uma Igreja que observa seus movimentos com a mistura de orgulho e cautela que sempre acompanha os fenômenos que escapam ao controle. O que se pode dizer com segurança é que o catolicismo brasileiro está em reconfiguração — e que Frei Gilson é, por enquanto, seu rosto mais visível, suas contradições incluídas.

Às quatro da manhã, o Brasil acorda e reza. É um sinal de que a sede espiritual é real e profunda. O que se faz com essa sede — se ela aponta apenas para o céu ou também para a terra onde os pobres vivem — é a questão que a Igreja, e cada um de nós, ainda precisamos responder.

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Padre Carlos

Teólogo, sacerdote e articulista. Editor do blog Política e Resenha. Escreve sobre religião, política e cultura a partir de Vitória da Conquista, Bahia.