Reportagem investigativa | 19 de agosto de 2026

Cidades em expansão:
Padre Carlos
Uma leitura dos 20 municípios com maior expansão de feições urbanizadas entre 2019 e 2022, a partir dos dados divulgados pelo IBGE.
A síntese da apuração
Vitória da Conquista acrescentou 27,51 km² de feições urbanizadas, alcançando a sexta posição nacional e o primeiro lugar entre os municípios baianos presentes no ranking.
A expansão que aparece no mapa
Vitória da Conquista entrou no grupo dos 20 municípios brasileiros com maior expansão horizontal de feições urbanizadas entre 2019 e 2022. Com 27,51 km² acrescentados no período, o município baiano ocupou a sexta posição do ranking reproduzido nos recortes enviados e tornou-se o melhor colocado da Bahia, à frente de Porto Seguro, Camaçari e Feira de Santana.
O dado faz parte da quarta edição da série Áreas Urbanizadas do Brasil, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 18 de agosto de 2026, com ano de referência de 2022 [1]. O levantamento foi elaborado por interpretação visual de imagens de satélite e busca medir a distribuição, a expansão e as transformações das formas urbanas no território nacional [1] [2].
“As Feições Urbanizadas se referem à agregação das subcategorias Áreas Urbanizadas, Vazios Intraurbanos e Outros Equipamentos Urbanos.”
— IBGE [1]
A expressão expansão horizontal não significa apenas aumento da população ou construção de edifícios dentro da mancha já existente. Ela indica a abertura ou incorporação de novas frentes de ocupação no território, distinguindo-se de processos como adensamento, densificação e transformação interna da área urbana. A leitura precisa ser feita como uma medição espacial da forma urbana, não como um ranking de habitantes ou de lançamentos imobiliários.
O resultado mais importante: Brasília dispara, e o Nordeste se espalha pelo ranking
Brasília liderou com 72,08 km² de expansão entre 2019 e 2022. O número é pouco mais de duas vezes o registrado por São Luís, que ficou em segundo lugar, com 35,76 km². Teresina, Ibiúna e Palmas completaram as cinco primeiras posições. Vitória da Conquista aparece logo depois, com 27,51 km².
Somados, os 20 municípios da lista acrescentaram 476,11 km² de feições urbanizadas. A média foi de 23,81 km², mas a mediana ficou em 19,48 km², evidenciando uma distribuição desigual: o resultado de Brasília sozinho equivale a 15,1% da soma do ranking, enquanto os cinco primeiros concentram 43,1%.
A concentração regional também chama atenção. O Nordeste reuniu oito municípios no Top 20 e respondeu por 181,86 km², ou 38,2% da expansão somada da lista. O Norte apareceu com cinco municípios e 95,72 km²; o Centro-Oeste, com dois municípios e 91,41 km²; o Sudeste, com três e 61,64 km²; e o Sul, com dois e 45,48 km².
A escala nacional confirma, mas também qualifica, essa leitura. Segundo o IBGE, o Nordeste teve o maior incremento absoluto de Feições Urbanizadas e Loteamentos Vazios entre as Grandes Regiões, com 1.961,44 km² e crescimento relativo de 16,52%. Considerando especificamente a expansão horizontal de Feições Urbanizadas, a região respondeu por 30,22% do avanço nacional, equivalente a 1.448,18 km², seguida pelo Sudeste, com 27,77%, e pelo Sul, com 25,86% [1].
A comparação evita um erro comum: somar o Top 20 e tratá-lo como se fosse o total do país. O ranking municipal é uma seleção dos maiores casos; os números regionais são o universo mais amplo do levantamento oficial.
O ranking completo
| Posição | Município | UF | Região | Expansão (km²) |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Brasília | DF | Centro-Oeste | 72,08 |
| 2 | São Luís | MA | Nordeste | 35,76 |
| 3 | Teresina | PI | Nordeste | 35,15 |
| 4 | Ibiúna | SP | Sudeste | 33,02 |
| 5 | Palmas | TO | Norte | 29,18 |
| 6 | Vitória da Conquista | BA | Nordeste | 27,51 |
| 7 | Venâncio Aires | RS | Sul | 25,85 |
| 8 | Macapá | AP | Norte | 22,42 |
| 9 | Porto Seguro | BA | Nordeste | 19,78 |
| 10 | Santa Cruz do Sul | RS | Sul | 19,63 |
| 11 | Sinop | MT | Centro-Oeste | 19,33 |
| 12 | Caruaru | PE | Nordeste | 17,36 |
| 13 | Camaçari | BA | Nordeste | 15,89 |
| 14 | Acará | PA | Norte | 15,46 |
| 15 | Feira de Santana | BA | Nordeste | 15,35 |
| 16 | Aquiraz | CE | Nordeste | 15,06 |
| 17 | Barcarena | PA | Norte | 14,47 |
| 18 | São Roque | SP | Sudeste | 14,32 |
| 19 | Mairinque | SP | Sudeste | 14,30 |
| 20 | Porto Nacional | TO | Norte | 14,19 |
Fonte: transcrição do recorte enviado e conferência com a publicação do IBGE [1]. A tabela preserva os valores apresentados com duas casas decimais.
O que o padrão revela — e o que ele não prova
O mapa não descreve um único tipo de cidade. A lista combina capitais, cidades médias, municípios de forte função regional, áreas turísticas, territórios atravessados por eixos logísticos e municípios inseridos em dinâmicas metropolitanas. São Luís, Teresina, Palmas, Brasília e Macapá aparecem como capitais; Vitória da Conquista, Caruaru, Sinop e Feira de Santana representam centros regionais; Porto Seguro e Aquiraz acrescentam a dimensão turística; Camaçari e Barcarena remetem a áreas de atividade industrial, portuária e logística.
Essa diversidade dá força à hipótese de que o avanço da urbanização brasileira não ocorre apenas pela verticalização de grandes metrópoles. O próprio IBGE relaciona o período a processos de expansão horizontal em regiões metropolitanas, polos turísticos, corredores e áreas de crescimento econômico acelerado [1].
A evidência cartográfica não permite, sozinha, afirmar a causa específica de cada expansão. O crescimento pode estar associado a novos loteamentos, habitação, indústria, equipamentos urbanos, infraestrutura viária, ocupação turística ou combinação desses fatores. Uma investigação causal município a município exigiria cruzar a base espacial do IBGE com licenças urbanísticas, registros imobiliários, imagens temporais, rede viária, dados populacionais e informações de uso do solo.
Há também uma cautela técnica decisiva. O IBGE informa que o produto passou por mudanças metodológicas entre as edições e que comparações históricas devem observar ressalvas e procedimentos específicos [2]. A edição de 2019 incorporou imagens Sentinel-2/MSI e novas classes, como loteamentos vazios; o produto de 2022 agrega na legenda de “Feições Urbanizadas” as subcategorias de Áreas Urbanizadas, Vazios Intraurbanos e Outros Equipamentos Urbanos [1] [2].
O caso baiano: Conquista no topo, mas dentro de uma rede de expansão
A Bahia aparece quatro vezes no ranking: Vitória da Conquista, Porto Seguro, Camaçari e Feira de Santana. Juntos, os quatro municípios somam 78,53 km², o maior total estadual entre os integrantes da lista, acima do Distrito Federal e de São Paulo considerados isoladamente no recorte.
Vitória da Conquista, com 27,51 km², supera em 7,73 km² o resultado de Porto Seguro e em 12,16 km² o de Camaçari. A posição não deve ser confundida com “maior cidade” ou “cidade mais populosa”: trata-se do sexto maior acréscimo absoluto de área identificada como feição urbanizada no intervalo analisado.
Evidências e limites da apuração
O levantamento é uma forte evidência de onde a urbanização avançou horizontalmente, mas não é, sozinho, uma explicação completa de por que avançou. Essa distinção evita transformar um dado cartográfico em conclusão imobiliária, demográfica ou ambiental sem investigação complementar.
- A lista identifica os maiores acréscimos absolutos, mas não mede crescimento populacional, densidade ou qualidade urbana.
- A metodologia por imagens de satélite dá escala nacional, mas mudanças metodológicas exigem cautela nas comparações históricas.
- A presença de capitais, polos regionais, áreas turísticas e logísticas indica vetores diversos, mas não prova causalidade individual.
- O resultado baiano coloca Vitória da Conquista no topo estadual do recorte, mas a explicação dos vetores locais exige dados municipais adicionais.
Conclusão
A lista divulgada pelo IBGE revela um Brasil urbano que continua se expandindo para fora das manchas consolidadas. Brasília se distancia dos demais casos pela dimensão absoluta do acréscimo; o Nordeste lidera a presença no ranking e também o crescimento regional; e Vitória da Conquista se destaca como o sexto município do país e o principal caso baiano entre os 20 maiores avanços.
A principal mensagem dos dados é espacial: a urbanização brasileira não está apenas ficando mais densa; em muitos territórios, ela também está ocupando novas áreas. O desafio de planejamento é acompanhar essa expansão antes que ela se converta em aumento de distâncias, pressão sobre infraestrutura, fragmentação urbana, ocupação de áreas ambientalmente sensíveis e custos maiores de transporte e prestação de serviços.
Nota de transparência
A tabela municipal foi transcrita dos recortes fornecidos pelo usuário e conferida quanto ao enquadramento, à metodologia e aos números destacados na notícia oficial do IBGE. Os cálculos de soma, média, mediana, participação regional e concentração do Top 5 e do Top 10 foram realizados a partir dessa lista.




