(Padre Carlos)
Há uma mudança importante na maneira de compreender o bolsonarismo. Durante muito tempo, ele foi tratado como uma liderança pessoal, um movimento de indignação, uma corrente ideológica ou simplesmente uma multidão mobilizada pelas redes sociais. Essas definições ajudam a explicar partes do fenômeno, mas talvez já não sejam suficientes.
Uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores ligados ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) propõe uma hipótese mais incômoda: o bolsonarismo constituiu uma nova forma de organização política, um “partido digital”. O conceito não pretende dizer que exista uma nova legenda registrada na Justiça Eleitoral, mas que existe uma estrutura política que desempenha funções semelhantes às de um partido, embora opere segundo outra lógica.
E é justamente aí que está a novidade.
Um partido tradicional precisa de estatuto, diretório, filiados, convenções, contabilidade, prestação de contas e registro eleitoral. O fenômeno estudado pelo Cebrap funciona de outra maneira. Sua arena principal é a internet; suas conexões atravessam redes sociais, influenciadores, políticos, produtores de conteúdo e grupos de apoiadores. O Partido Digital Bolsonarista, segundo os pesquisadores, não se confunde com o PL, embora utilize a legenda como importante veículo institucional.
Isso ajuda a explicar uma característica que durante anos pareceu inexplicável: como pessoas espalhadas pelo país, muitas delas sem qualquer contato pessoal, conseguem reagir quase simultaneamente aos mesmos acontecimentos, repetir argumentos semelhantes e transformar rapidamente determinado assunto em pauta política?
A resposta não está necessariamente em alguma conspiração centralizada, nem significa que cada eleitor bolsonarista seja manipulado por uma organização secreta. A questão é mais sofisticada. O que a pesquisa sugere é a existência de mecanismos de coordenação política próprios do ambiente digital, capazes de produzir identidade, lealdade, mobilização e circulação de mensagens sem depender da estrutura hierárquica de um partido convencional.
Essa distinção é fundamental.
A política tradicional funciona, em grande medida, de cima para baixo: direção partidária, parlamentares, diretórios estaduais e municipais, militância e eleitorado. No ambiente digital, a comunicação pode funcionar simultaneamente em várias direções. Um influenciador pode pautar um político. Um político pode alimentar uma comunidade digital. Um grupo pode pressionar seus próprios representantes. Um vídeo pode nascer de um pequeno perfil e, em poucas horas, alcançar milhões de pessoas.
É uma política sem sede.
É uma militância sem carteirinha.
É uma organização que pode existir sem que seus participantes tenham consciência de pertencer a uma organização.
E talvez essa seja justamente sua maior força.
O estudo do Cebrap não surgiu de uma observação ocasional. A pesquisa foi desenvolvida durante anos e resultou, em 2026, no livro O Partido Digital Bolsonarista, organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira. A obra possui 287 páginas e investiga temas como cadeias de lealdade, coordenação nas redes, liderança, financiamento, atuação eleitoral e relação com o PL.
Há, portanto, algo muito maior do que simplesmente o fenômeno dos grupos de WhatsApp da família.
O bolsonarismo conseguiu transformar a comunicação política em uma forma permanente de mobilização. Não é necessário esperar a eleição para fazer política. A eleição tornou-se apenas um dos momentos de uma atividade que acontece diariamente.
A disputa política começa no celular.
Continua no grupo de família.
Passa pelos vídeos curtos.
Entra nos canais de influenciadores.
Chega ao Congresso.
Volta para as redes.
E novamente alcança o eleitor.
Esse circuito produz algo que os partidos tradicionais têm dificuldade de reproduzir: presença permanente.
É por isso que talvez seja um erro imaginar que o bolsonarismo desaparecerá simplesmente porque Jair Bolsonaro perdeu uma eleição ou porque deixou de ocupar a Presidência da República. Uma coisa é a situação eleitoral de uma liderança. Outra, muito diferente, é a sobrevivência de uma estrutura política e cultural construída ao redor dela.
O líder pode perder espaço.
A máquina política pode continuar funcionando.
Essa é uma das conclusões mais importantes que podemos extrair da hipótese do partido digital.
Mas há uma questão ainda mais delicada: quem financia essa estrutura?
Aqui é preciso abandonar tanto a ingenuidade quanto a tentação das teorias conspiratórias. A própria pesquisa dedica um capítulo ao financiamento do PDB, justamente porque compreender dinheiro, infraestrutura e poder é indispensável para compreender qualquer organização política contemporânea. O estudo aponta para a mobilização de recursos públicos e privados, em uma estrutura que opera fora dos mecanismos tradicionais de controle partidário.
Isso não significa, por si só, que todo dinheiro utilizado por atores desse ecossistema seja ilícito. Essa distinção precisa ser preservada. Democracia exige investigação, evidências e responsabilidade. Acusações de ilegalidade precisam ser comprovadas, não simplesmente repetidas nas redes sociais.
Mas existe uma questão democrática legítima que não pode ser ignorada: quem paga a infraestrutura política de uma organização que não possui personalidade partidária?
Quem financia produtores de conteúdo?
Quem sustenta estruturas profissionais de comunicação?
Quem impulsiona determinadas narrativas?
Quem possui capacidade tecnológica para produzir e distribuir conteúdo em escala?
Quem transforma uma mensagem marginal em assunto nacional?
Essas perguntas são mais importantes do que simplesmente descobrir quem compartilhou determinado vídeo no grupo da família.
Porque a política do século XXI não se resume mais ao dinheiro gasto em uma campanha eleitoral oficial. Existe uma economia da atenção. E atenção também é poder.
Quem controla a circulação de informações pode influenciar a agenda pública.
Quem define a agenda pública pode influenciar o comportamento eleitoral.
E quem influencia o comportamento eleitoral possui uma parcela concreta do poder político.
É nesse ponto que o conceito de partido digital merece ser levado a sério, inclusive por aqueles que rejeitam o bolsonarismo. Não para demonizá-lo, mas para compreendê-lo.
Democracias maduras não enfrentam seus adversários políticos apenas com indignação. Elas precisam compreender como eles se organizam.
O maior erro da esquerda, da direita democrática, dos liberais e dos partidos tradicionais seria imaginar que o bolsonarismo é apenas uma anomalia passageira ou uma coleção de pessoas furiosas nas redes sociais.
Não é tão simples.
A pesquisa do Cebrap aponta precisamente para uma nova forma de organização política. O fenômeno pode ser desconfortável, controverso e ainda estar em fase de consolidação teórica, mas merece ser estudado porque ajuda a compreender uma transformação mais ampla: o partido político deixou de ser necessariamente uma organização que existe apenas dentro das instituições formais.
Isso muda o próprio conceito de militância.
Antigamente, militante era quem participava de reunião, distribuía panfleto, carregava bandeira, frequentava comício ou integrava uma estrutura partidária.
Hoje, militância pode significar produzir vídeo, administrar comunidade, criar memes, interpretar acontecimentos, atacar adversários, mobilizar seguidores e definir quais assuntos devem dominar a conversa pública.
A fronteira entre eleitor, militante, influenciador e produtor de informação tornou-se cada vez mais tênue.
E essa transformação não pertence exclusivamente à direita. A tecnologia digital está alterando a política em todo o mundo. O que chama atenção no caso brasileiro é a intensidade com que o bolsonarismo construiu seu ecossistema político a partir desse ambiente.
Por isso, talvez seja inadequado falar simplesmente em “milhões de pessoas enganadas”.
Essa explicação é confortável, mas intelectualmente pobre.
Pessoas não aderem a movimentos políticos apenas porque receberam uma mensagem falsa. Elas também procuram identidade, pertencimento, explicações para suas angústias, inimigos para suas frustrações e comunidades nas quais se sintam reconhecidas.
A força do bolsonarismo está justamente na combinação dessas dimensões: identidade política, comunicação permanente, redes sociais, liderança, comunidades digitais e capacidade de mobilização.
O celular transformou-se em comitê eleitoral.
O grupo de WhatsApp transformou-se em diretório.
O influenciador transformou-se em cabo eleitoral.
O algoritmo transformou-se em distribuidor de propaganda.
E o eleitor transformou-se, muitas vezes, em produtor voluntário de conteúdo político.
Eis a verdadeira revolução.
Não estamos diante apenas de uma direita que aprendeu a usar melhor as redes sociais. Estamos diante de uma experiência que pode estar antecipando uma transformação mais profunda da própria forma partidária.
Se essa hipótese estiver correta, o futuro da política não será simplesmente uma disputa entre PT, PL, MDB, União Brasil, PSD ou qualquer outra legenda registrada.
Será também uma disputa entre ecossistemas políticos digitais.
E isso vale para todos os lados.
A democracia brasileira terá de aprender a conviver com essa realidade sem cair em dois erros igualmente perigosos: acreditar que a internet é apenas um instrumento neutro de comunicação ou imaginar que toda organização digital é automaticamente uma conspiração.
Entre a ingenuidade e a paranoia existe a investigação.
É dela que precisamos.
O bolsonarismo pode ser derrotado eleitoralmente em determinado momento. Pode sofrer divisões internas. Pode mudar de liderança. Pode até perder parte de sua influência. Mas uma estrutura política que aprendeu a existir fora dos limites convencionais dos partidos não desaparece simplesmente porque uma eleição terminou.
Talvez essa seja a grande advertência escondida por trás da expressão “partido digital bolsonarista”.
O adversário político do futuro não necessariamente terá uma sede.
Talvez não tenha bandeira.
Talvez não tenha diretório.
Talvez nem sequer tenha um CNPJ.
Mas poderá ter milhões de participantes, enorme capacidade de mobilização, recursos financeiros, profissionais de comunicação, redes de influência e uma presença cotidiana na vida de seus seguidores.
Será um partido sem registro, mas com poder.
E compreender isso talvez seja mais importante do que continuar discutindo apenas aquilo que aparece na tela.
Porque, na política contemporânea, o que aparece é apenas a superfície.
Padre Carlos
Observação editorial: a formulação acima preserva a ideia central do texto apresentado, mas a reescreve de forma original e incorpora dados verificados sobre o estudo do Cebrap. O próprio estudo caracteriza sua proposta como uma nova forma de organização política, distinta dos partidos convencionais, e há debate acadêmico sobre os limites e implicações desse conceito.





