Análise Política • Política e Resenha

O Silêncio Também Vence
Quando o excesso de fala dos aliados devolve à Bahia o fantasma do segundo turno
Há uma lição antiga na política baiana que muitos candidatos e, sobretudo, muitos aliados de candidatos, insistem em esquecer: nem tudo o que se sabe precisa ser dito, e nem todo aliado fiel precisa de microfone. A disciplina do silêncio, tão desprezada em tempos de redes sociais e de lives improvisadas, foi historicamente uma das ferramentas mais eficazes de construção de maiorias eleitorais esmagadoras. E a Bahia, por 28 anos, foi o maior laboratório do país para essa tese.
Entre 1994 e 2018, a política baiana pareceu obedecer a um roteiro previsível, quase entediante em sua repetição: enquanto outros estados decidiam seus governos em disputas de dois turnos, tensas e incertas, a Bahia resolvia tudo em uma única votação. Foram seis eleições consecutivas — a rigor, um recorde de estabilidade política pouco discutido fora dos círculos de cientistas políticos — decididas já na primeira rodada.
Vinte e oito anos de primeiro turno
César Borges venceu em 1998. Paulo Souto repetiu o feito em 2002. Jaques Wagner inaugurou o ciclo petista vitorioso já na primeira rodada em 2006, e o confirmou em 2010. Rui Costa deu sequência à hegemonia em 2014 e, em 2018, alcançou o que ainda é a maior votação para governador na Bahia desde a redemocratização: mais de 75% dos votos válidos. Um placar de arrasar, dessas vitórias que fecham qualquer discussão antes mesmo de ela começar.
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Vitórias em primeiro turno • Governo da Bahia • 1998–2018
Valores aproximados de votos válidos em primeiro turno, conforme dados eleitorais consolidados do TSE. |
2022: o ciclo se rompe
E então, em 2022, o padrão se quebrou. Jerônimo Rodrigues terminou o primeiro turno com 49,45% dos votos válidos — a poucos passos de repetir a história, mas sem alcançá-la. ACM Neto, seu principal adversário, obteve 40,80%. Pela primeira vez em 28 anos, a Bahia foi ao segundo turno para escolher governador. Jerônimo venceu a disputa final com 52,79% contra 47,21% de ACM Neto: uma vitória real, mas de margem estreita, construída sob pressão, no fio da navalha, ao contrário da folga generosa a que o eleitorado baiano havia se acostumado.
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Eleição de 2022 • Primeiro turno x Segundo turno
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Há muitas explicações possíveis para o fim de um ciclo de três décadas — desgaste natural de poder, polarização nacional, fadiga do eleitorado com um único campo político. Mas há também uma explicação menos confortável, e por isso mesmo mais interessante para quem observa a engenharia fina das campanhas: o excesso de fala descontrolada de aliados corrói margens que a disciplina discursiva do candidato principal levou anos para construir.
“Uma campanha não perde apenas pelo que o adversário diz. Perde, com frequência, pelo que o próprio aliado insiste em dizer sem necessidade, sem cálculo e sem autorização.”
A disciplina do silêncio como estratégia
Todo governista maduro sabe que microfone é recurso escasso e perigoso. Cada vereador que promete o que não pode cumprir, cada deputado que ataca um adversário com argumento frágil, cada prefeito aliado que expõe uma rusga interna em entrevista mal calculada — tudo isso soma-se, silenciosamente, contra o candidato que está na ponta da chapa. Não é o discurso do centro que costuma naufragar as campanhas vitoriosas; é o ruído da periferia da coligação, os aliados de segunda e terceira linha que confundem visibilidade pessoal com serviço à causa coletiva.
É por isso que os ciclos políticos mais duradouros da história recente da Bahia coincidiram, não por acaso, com lideranças capazes de calar aliados barulhentos, de organizar a fala pública em torno de poucas vozes autorizadas e de transformar o excesso de opinião em silêncio tático. Falar menos, e falar apenas quando estritamente necessário, não é fraqueza política. É, ao contrário, uma das formas mais sofisticadas de exercício do poder.
A tese central
Manter aliados longe dos microfones não é autoritarismo interno, é gestão de risco eleitoral. Quando a coalizão fala pouco e fala coordenada, o adversário perde munição. Quando a coalizão fala demais e fala de forma irresponsável, o adversário ganha, de graça, o material de campanha que jamais conseguiria produzir sozinho. A Bahia que decidia tudo em primeiro turno era, também, a Bahia dos aliados disciplinados. A Bahia que foi ao segundo turno em 2022 já não era mais assim.
O que vem em 2026?
A pergunta que se impõe agora é inevitável: a Bahia terá, novamente, uma eleição decidida em segundo turno? A resposta não está apenas nas pesquisas de intenção de voto, nem somente na força relativa dos dois principais projetos políticos em disputa. Está, em boa parte, em algo menos mensurável e mais decisivo: a capacidade de cada campo de disciplinar seus próprios aliados, de esvaziar microfones desnecessários e de transformar apoio político em silêncio estratégico quando o silêncio é o que a conjuntura exige.
A história recente ensina que vencer em primeiro turno na Bahia nunca foi apenas questão de popularidade do nome principal da chapa. Foi, sempre, questão de controle de fala coletiva. Quem entender essa lição primeiro, em 2026, larga na frente. Quem insistir em deixar cada aliado falar por si, correndo o risco de falar mais do que deveria, corre o risco de devolver ao estado uma segunda rodada que, por 28 anos, os baianos simplesmente não precisaram viver.
Você acredita que a Bahia terá, mais uma vez, segundo turno em 2026? Deixe sua opinião nos comentários.
Eleições 2026
Segundo Turno
Análise Política
Jerônimo x ACM Neto
Padre Carlos Josaphat — Teólogo, sacerdote e colunista político — Política e Resenha




