Padre Carlos
Há palavras que atravessam os séculos sem perder o peso da dor que carregam. Elas sobrevivem ao tempo porque foram moldadas no sofrimento de milhões de pessoas e transformadas em símbolos de uma história que jamais deve ser esquecida. A palavra “alforria” é uma delas.
Na política, cada palavra pronunciada possui um significado que ultrapassa a intenção de quem a profere. Um líder que aspira governar um país continental como o Brasil não fala apenas para seus apoiadores; fala para uma nação formada por diferentes povos, culturas e memórias. Por isso, mais do que escolher boas propostas, precisa escolher cuidadosamente as palavras.
Ao afirmar que, com sua eleição e a de ACM, “o povo baiano vai se sentir alforriado”, o presidenciável Ronaldo Caiado certamente buscava transmitir a ideia de mudança política. Entretanto, acabou recorrendo a um vocabulário profundamente marcado pela história da escravidão brasileira.
Não se trata de uma questão meramente semântica.
Alforria não significa liberdade conquistada. Significa liberdade concedida. É um ato unilateral do senhor em relação ao escravizado. O próprio conceito pressupõe uma relação de poder em que um homem detém o direito de decidir se outro continuará ou não privado de sua liberdade.
Essa não é uma palavra qualquer.
Ela nasceu dentro da estrutura escravista que sustentou o Brasil durante mais de três séculos. Foi utilizada em cartórios, documentos oficiais e registros que tratavam seres humanos como propriedade. Representava, muitas vezes, um privilégio concedido após anos de exploração, ou mediante pagamento, ou ainda por decisão daquele que exercia domínio absoluto sobre outra vida.
Por isso, quando essa expressão é empregada para falar da Bahia, seu significado histórico inevitavelmente ressurge.
A Bahia ocupa um lugar singular na formação do Brasil. Salvador, reconhecida internacionalmente como a Roma Negra, tornou-se um dos maiores centros da diáspora africana fora do continente africano. Ali desembarcaram milhares de homens, mulheres e crianças arrancados de suas terras para viverem sob o regime da escravidão.
Mas a história baiana não é apenas a história do sofrimento.
É, sobretudo, a história da resistência.
Foi na Bahia que surgiram irmandades negras, revoltas populares, quilombos, manifestações culturais e religiosas que desafiaram o sistema escravista. Foi ali que o povo africano e seus descendentes reconstruíram identidades, preservaram tradições e deram origem a uma das culturas mais ricas do mundo.
Por isso, dizer que a Bahia precisa ser “alforriada” pode soar inadequado para muitos baianos, especialmente porque a palavra remete justamente à lógica segundo a qual alguém depende da vontade de outro para ser livre.
Os baianos não precisam de um senhor.
Precisam apenas do respeito à sua capacidade de decidir, por meio do voto, os rumos de seu próprio destino.
Existe ainda outro aspecto que merece reflexão.
A declaração foi dirigida a um estado governado por Jerônimo Rodrigues, um homem cuja trajetória simboliza a própria formação social da Bahia. Descendente de indígenas e negros, oriundo do interior do estado e eleito democraticamente, Jerônimo representa uma parcela significativa da diversidade étnica e cultural baiana. Divergir de seu governo é legítimo e faz parte da democracia. Contudo, utilizar uma expressão historicamente associada à concessão de liberdade aos escravizados pode ser interpretado por muitos cidadãos como um desrespeito não apenas ao governador, mas também à memória coletiva de um povo cuja identidade foi construída na luta contra a opressão.
Vivemos um tempo em que se discute, com razão, a importância das palavras na construção da vida pública. Linguagem não é mero detalhe retórico. Ela molda percepções, fortalece valores e revela sensibilidades.
Palavras podem aproximar.
Palavras também podem reabrir feridas.
Ninguém precisa ser condenado por um equívoco de linguagem quando não há intenção discriminatória demonstrada. Entretanto, reconhecer que determinadas expressões carregam uma carga histórica dolorosa é um exercício de maturidade democrática e de respeito à memória nacional.
A política brasileira precisa elevar o nível do debate.
O Brasil enfrenta desafios enormes na economia, na segurança, na educação e na saúde. Não faltam temas concretos para mobilizar a sociedade. Por isso mesmo, espera-se que seus líderes escolham metáforas capazes de unir, e não expressões que evoquem um passado marcado pela submissão e pela desumanização.
A Bahia nunca esperou que alguém lhe concedesse liberdade.
Sua história foi escrita por homens e mulheres que resistiram, lutaram e construíram, com coragem e dignidade, uma identidade que hoje orgulha o Brasil.
A liberdade do povo baiano não nasceu da benevolência de um senhor.
Nasceu da resistência de um povo.
E é justamente por isso que a Bahia não precisa de alforria.
Precisa apenas de respeito.
Porque existem palavras que pertencem à História para nos lembrar do sofrimento que jamais deve ser romantizado, banalizado ou reutilizado sem a consciência do peso que carregam. A democracia exige liberdade de expressão, mas também exige responsabilidade com aquilo que se diz.
Quem deseja conduzir o Brasil deve compreender que, em uma nação marcada por profundas desigualdades históricas, as palavras nunca são apenas palavras. Elas também são memória, identidade e compromisso com um futuro que não repita as correntes do passado.





