Política e Resenha

O valor do contraditório fortalece a democracia conquistense

Por Padre Carlos

Há uma máxima que atravessa a boa política e o bom jornalismo: os grandes debates nunca nascem da unanimidade, mas da convivência respeitosa entre interpretações diferentes da mesma realidade. Foi exatamente essa impressão que tive ao ler o artigo “As Forças Políticas de Vitória da Conquista rumo à Assembleia Legislativa da Bahia”, assinado por Gilberto Ferreira Luna, fruto das reflexões compartilhadas com o experiente advogado, ex-vereador e histórico fundador do MDB conquistense, Edvaldo Ferreira.

Antes de qualquer contraponto, considero um dever reconhecer a qualidade intelectual dos autores.

Gilberto Luna consolidou-se como um dos observadores mais atentos da política regional. Empresário bem-sucedido, profundo estudioso da dinâmica eleitoral do sudoeste baiano e analista de reconhecida capacidade, construiu ao longo dos anos uma reputação baseada na leitura estratégica dos acontecimentos, sem abrir mão da análise histórica que caracteriza seus textos.

Ao seu lado está Edvaldo Ferreira, personagem cuja trajetória se confunde com importantes capítulos da história política de Vitória da Conquista. Advogado respeitado, ex-vereador e um dos fundadores do antigo MDB no município, Edvaldo pertence à geração de homens públicos que viveram a política como instrumento de construção democrática. Sua experiência confere densidade às reflexões apresentadas no artigo.

Justamente por reconhecer a autoridade intelectual de ambos é que me sinto absolutamente à vontade para divergir de alguns pontos de sua análise. Afinal, o debate democrático não se fortalece pela ausência de discordâncias, mas pela capacidade de expô-las com respeito, serenidade e compromisso com os fatos.

O protagonismo de José Raimundo na esquerda conquistense

Não há dúvida de que José Raimundo possui uma trajetória respeitável. Foi prefeito, deputado estadual e continua sendo uma das principais lideranças do Partido dos Trabalhadores na região. Entretanto, a política é dinâmica e não vive apenas de biografias; vive, sobretudo, da leitura dos movimentos do eleitorado.

Na última eleição municipal, seu companheiro de partido e de projeto político, Waldenor Pereira, disputou a Prefeitura contando praticamente com toda a estrutura política da esquerda local e do centro. Recebeu o apoio de diferentes forças partidárias, teve ao seu lado Lúcia Rocha e dividiu a chapa com esses campos. Ainda assim, foi derrotado pela prefeita Sheila Lemos por uma margem significativa.

Esse resultado não pode ser ignorado quando se analisa o cenário atual. Ele sugere que o grupo político que, durante décadas, exerceu hegemonia sob a liderança de Guilherme Menezes já não desfruta automaticamente do mesmo protagonismo eleitoral.

Isso não significa o desaparecimento da influência de José Raimundo, mas recomenda cautela antes de afirmar que ele concentrará, de forma natural, praticamente todo o eleitorado da esquerda nas próximas eleições estaduais.

Wagner Alves e o alcance de sua candidatura

O artigo o coloca como um dos competidores do campo da direita, mas talvez subestime o alcance eleitoral que sua candidatura pode adquirir.

Wagner Alves representa hoje muito mais do que um candidato apoiado pelo governo municipal. Ele simboliza o principal projeto político da prefeita Sheila Lemos para a Assembleia Legislativa. Em um município onde a prefeita demonstra capacidade de mobilização política e administrativa, esse apoio possui enorme relevância eleitoral.

Além disso, Wagner vem construindo uma identidade própria no debate público. Sua atuação recente demonstra disposição para ocupar espaços políticos com autonomia, ampliando sua visibilidade para além da condição de candidato apoiado pelo Executivo municipal.

Por essas razões, parece perfeitamente plausível considerar que Wagner Alves reúna condições de disputar não apenas a liderança do eleitorado identificado com a direita, mas também a condição de candidato mais votado de Vitória da Conquista, independentemente do campo ideológico.

Fabrício Falcão: estratégia eleitoral não é identidade política

Aqui me parece existir uma distinção importante entre estratégia eleitoral e identidade política.

Fabrício Falcão pertence ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), uma das mais tradicionais organizações da esquerda brasileira. Sua atuação política sempre esteve vinculada às bandeiras históricas do partido, que integra a Federação Brasil da Esperança ao lado do PT e do PV, sustentando politicamente os governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governador Jerônimo Rodrigues.

Independentemente da forma como organize sua campanha ou dialogue com diferentes segmentos do eleitorado, sua identidade ideológica permanece claramente inserida no campo da esquerda. Classificá-lo como integrante do campo da direita ou do chamado voto pragmático pode simplificar excessivamente uma trajetória construída ao longo de décadas de militância política.

Quinho Tigre e o campo do centro

Reflexão semelhante pode ser feita em relação ao ex-prefeito de Belo Campo, Quinho Tigre. Sua trajetória política também não parece se enquadrar naturalmente na classificação de candidato da direita.

Ao longo de sua vida pública, Quinho manteve alinhamento com projetos políticos vinculados ao presidente Lula e ao governador Jerônimo Rodrigues, posicionando-se de forma mais compatível com o centro ou com a centro-esquerda. Ainda que dialogue com diferentes setores da sociedade, sua atuação política não autoriza, em minha leitura, uma identificação automática com a direita conquistense.

Essas divergências, entretanto, não diminuem em absolutamente nada a qualidade da reflexão apresentada por Gilberto Luna e Edvaldo Ferreira. Ao contrário.

Seu artigo oferece um dos mais interessantes exercícios de interpretação do atual cenário eleitoral de Vitória da Conquista. Pode-se concordar ou discordar de suas conclusões, mas é impossível negar que provoca um debate necessário sobre a reorganização das forças políticas locais.

A palavra final é do eleitor

A política nunca foi uma ciência exata. Ela se move ao ritmo da sociedade, das lideranças, das circunstâncias e, sobretudo, da vontade soberana do eleitor.

Talvez seja exatamente por isso que análises diferentes possam coexistir sem que uma anule a outra.

O verdadeiro mérito de Gilberto Luna e Edvaldo Ferreira está justamente em estimular esse ambiente de reflexão qualificada. E o verdadeiro papel daqueles que pensam a política é contribuir para esse diálogo, oferecendo argumentos, contrapontos e novas perspectivas.

No fim, quem terá a palavra definitiva não serão os analistas, os articulistas ou os dirigentes partidários. Será, como sempre, o povo de Vitória da Conquista, por meio do voto livre, consciente e soberano.

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Padre Carlos  — Teólogo, Filósofo e colunista político — Política e Resenha

As Forças Políticas de Vitória da Conquista rumo à Assembleia Legislativa da Bahia

Por Gilberto Ferreira Luna

O cenário eleitoral em Vitória da Conquista para a disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) apresenta um desenho intrigante. A partir do diálogo com o experiente político Edvaldo Ferreira, ex-vereador e histórico fundador do antigo MDB local, estruturei uma leitura analítica baseada em dois pilares fundamentais: a polarização ideológica e o potencial de transferência de votos para cada um dos sete postulantes da nossa cidade: Dra. Lara Fernandes, Fabrício Falcão, José Raimundo, Thiago Correia, Wagner Alves, Victor Azevedo e Quinho. Para compreender a dinâmica das urnas que se avizinha, dividir os candidatos sob o prisma do comportamento real de seus eleitorados, indo além das siglas partidárias.

Embora os partidos políticos formalmente sejam definidos de uma maneira teórica por seus estatutos e doutrinas, o pragmatismo local nos impõe uma separação baseada na origem real e no comportamento prático do voto. Sob este critério, identificamos um claro afunilamento de opções onde o Campo da Esquerda Autêntica é representado exclusivamente pelo deputado José Raimundo. Já o Campo da Direita e do Voto Pragmático é composto por Dra. Lara Fernandes, Wagner Alves, Thiago Correia, Victor Azevedo, Fabrício Falcão e Quinho.

A inclusão de Fabrício Falcão (PCdoB) e Quinho (PSD) neste segundo bloco justifica-se por essa linha divisória entre a teoria e a prática. Apesar de filiados a partidos historicamente alinhados à esquerda ou ao centro-esquerda no plano estadual, ambos buscam votos de apoiadores e eleitores sem qualquer vinculação ideológica a essas siglas. Suas votações derivam de arranjos locais, lideranças regionais e do pragmatismo político, competindo diretamente pelo mesmo eleitorado no entorno do centro e da direita tradicional.

A matemática eleitoral conquistense confere a José Raimundo uma posição de nítida vantagem na disputa por votos. Sendo o único postulante legítimo e consolidado da esquerda autêntica no município, ele canaliza de forma integral os votos desse segmento. A histórias das urnas de Vitória da Conquista demonstram que o eleitorado de esquerda garante votações consistentemente superiores a 35% no município. Sem precisar dividir esse espólio com concorrentes locais diretos, José Raimundo surge com a maior probabilidade e potencial de se consolidar como o candidato mais votado da cidade nesta eleição.

Se a esquerda joga unida em torno de um nome, o bloco oposto enfrenta o desafio da pulverização. Seis candidaturas disputam a preferência de um universo estimado em 50% do eleitorado local. Dentro deste contexto a disputa interna se desenha em diferentes níveis de intensidade, a disputa pela liderança de votos se dará entre Fabrício Falcão versus Wagner Alves. Esse embate pelo topo opõe a experiência de mandatos sucessivos de um deputado à força do projeto do governo do município com seu candidato.

O deputado Fabrício Falcão carrega o peso de vários mandatos e um histórico de serviços prestados, concentrando sua estratégia na eficácia da busca pelo voto direto e no pragmatismo das bases. Do outro lado, o estreante em processos eleitorais, o advogado Wagner Alves, possui uma candidatura que é, essencialmente, um projeto prioritário do núcleo do governo municipal, impulsionado por uma ação pessoal de sua esposa, a prefeita Sheila Lemos. Cabe destacar que Wagner foi escolhido candidato pelo núcleo do governo à revelia do grupo político da base governista. Inicialmente, o movimento não foi visto com bons olhos pelos aliados tradicionais, gerando ruídos internos; contudo, o mal-estar foi superado à medida que a campanha avançou. Profissionalmente, ele possui um histórico de advogado competente, e passagens rápidas por gestões anteriores no governo do município. A influência do apoio direto da prefeita é o grande peso da sua campanha. Soma-se a isto a construção de uma identidade própria, visto que o maior desafio de Wagner consiste em deixar de ser visto apenas como “o candidato da prefeita”. A virada de chave nessa percepção ocorreu à medida que o candidato passou a assumir um tom mais combativo na arena pública. O divisor de águas foi o vídeo gravado por Wagner rebatendo diretamente o candidato Quinho, que fez acusações à administração municipal. Na gravação, Wagner reagiu de forma contundente. O posicionamento corajoso demonstrou autonomia, mostrando que ele busca construir uma liderança com luz própria.

Paralelamente, ocorre a ascensão do bolsonarismo raiz com a Dra. Lara Fernandes. A vereadora Dra. Lara, esposa do vice-prefeito Dr. Alan, consolidou-se como a principal face do bolsonarismo em Vitória da Conquista. Ao alinhar um discurso ideológico firme à direita com um histórico e robusto trabalho social nas periferias e bairros populares, ela preenche um vácuo político importante. Sua capacidade de fundir a pauta de costumes com a ação comunitária garante que ela sairá das urnas com uma votação expressiva.

No mesmo bloco correm os deputados de fora com raízes locais: Thiago Correia e Victor Azevedo. Ambos buscam a reeleição respaldados por fortes alianças com o legislativo municipal, embora tendam a registrar números mais modestos na comparação com os candidatos majoritariamente locais. Thiago Correia conta com apoios pontuais na Câmara e mantém sua base de voto de opinião e de nichos específicos. Já Victor Azevedo deve registrar o crescimento mais nítido em relação ao pleito anterior. Na eleição passada, sua votação no município não teve grande destaque; contudo, o cenário atual mudou drasticamente: ele agora conta com o apoio estratégico do vereador Ivan Cordeiro, atual presidente da Câmara Municipal e puxador de votos influente na ala conservadora. Essa aliança garante a Victor um teto eleitoral significativamente maior nesta rodada.

Em suma, a eleição para deputado estadual em Vitória da Conquista desenha-se como um clássico estudo de caso sobre concentração versus fragmentação. De um lado, a esquerda colhe os frutos da unidade institucionalizada em torno de José Raimundo. Do outro, a direita e o centro pragmático travam uma guerra pelo voto. O desfecho dessa disputa medirá não apenas a força das lideranças atuais, mas ditará o peso e a influência que cada grupo político carregará para os próximos ciclos de poder no município.