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O PT ENTRA EM EBULIÇÃO: O FANTASMA DO PÓS-LULA ASSOMBRA O PARTIDO

POLÍTICA E RESENHA
ANÁLISE POLÍTICA • BRASIL

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Por Padre Carlos

A
vitória eleitoral de Lula não conseguiu apagar um incêndio que ameaça consumir os bastidores do Partido dos Trabalhadores. Enquanto o presidente comemora mais uma conquista nas urnas, uma disputa silenciosa, mas cada vez mais explícita, começa a dividir a cúpula petista. O que parecia ser apenas uma insatisfação com os erros da campanha presidencial está se transformando em uma batalha pelo comando, pelo dinheiro, pelo espaço político e, sobretudo, pelo futuro de um partido que durante décadas se acostumou a gravitar em torno de uma única liderança: Luiz Inácio Lula da Silva.

O sinal mais evidente de que a temperatura subiu foi o boicote de uma ala petista à reunião da Executiva Nacional, na quinta-feira, 29 de outubro. O gesto não foi uma simples divergência de agenda. Foi um recado político dirigido à presidência do partido. Os insatisfeitos querem uma reunião presencial do Diretório Nacional, instância máxima da legenda, para discutir aquilo que muitos já não conseguem esconder: a insatisfação com a condução da campanha e a necessidade de redefinir o funcionamento interno do PT.

Pressionado, o presidente nacional da sigla, Edinho Silva, convocou o encontro para 13 de novembro. A reunião promete ser muito mais do que uma avaliação eleitoral. Será um teste de força entre grupos que disputam influência dentro de uma organização que precisa decidir se continuará funcionando sob a centralização de suas principais lideranças ou se abrirá espaço para uma nova distribuição de poder.

E há um detalhe que torna essa crise ainda mais delicada: as críticas não vêm apenas de adversários internos. O próprio Lula fez uma avaliação contundente da campanha coordenada por Edinho.

“E normalmente a gente colhe aquilo que a gente planta”.

Em uma declaração divulgada acidentalmente no canal do partido, o presidente não economizou nas palavras: classificou aquela como a campanha menos organizada de todas as que participou desde 1989. E acrescentou uma frase que certamente deixou marcas nos corredores do PT: “E normalmente a gente colhe aquilo que a gente planta”.

A declaração tem um peso político extraordinário. Quando Lula critica publicamente a organização de uma campanha conduzida pelo próprio presidente nacional do partido, a discussão deixa de ser um problema administrativo e passa a representar uma questão de autoridade e confiança política.

As reclamações se acumulam. Dirigentes estaduais denunciam a concentração das decisões, parlamentares reivindicam maior participação na distribuição dos recursos eleitorais e candidatos relatam dificuldades provocadas por mudanças nos valores repassados durante a campanha. Há também questionamentos sobre a decisão de Edinho de disputar uma vaga na Câmara dos Deputados enquanto exercia a responsabilidade de coordenar a campanha presidencial.

Quem controla o PT?

Mas a disputa pelo dinheiro revela uma questão ainda mais profunda: quem controla o PT?

Os diretórios estaduais argumentam que conhecem melhor suas realidades políticas e, portanto, deveriam ter maior autonomia para decidir quais candidaturas merecem investimentos. A direção nacional, por sua vez, historicamente concentra decisões estratégicas e financeiras que influenciam diretamente o equilíbrio de forças dentro da legenda.

O caso do Rio Grande do Norte é emblemático. Cadu de Lula, candidato eleito ao governo estadual, recebeu apenas R$ 1,5 milhão do Diretório Nacional para disputar os dois turnos. Segundo os relatos apresentados na discussão interna, diversos candidatos a deputado federal receberam mais recursos do que ele.

A pergunta é inevitável: como um partido que pretende ampliar sua presença nacional pode administrar seus recursos sem considerar as particularidades políticas de cada estado?

“O PT está começando a discutir sua existência política depois de Lula.”

O fantasma do pós-Lula

Entretanto, por trás da disputa administrativa existe uma questão muito maior, que talvez seja a mais importante de toda essa movimentação: o PT está começando a discutir sua existência política depois de Lula.

O presidente reeleito terá 85 anos ao final do mandato que começa em janeiro de 2027. A perspectiva de que não volte a disputar uma eleição presidencial coloca o partido diante de um desafio histórico. Lula foi candidato em sete das dez eleições presidenciais disputadas pelo PT e participou das articulações que definiram as demais candidaturas. Sua presença não representa apenas uma liderança eleitoral: é o principal elemento de identidade, unidade e articulação política da legenda.

E quando uma organização política depende durante tanto tempo de uma única liderança, a sucessão deixa de ser uma questão de calendário e se transforma em um problema de sobrevivência institucional.

Quem será capaz de ocupar esse espaço?

Nos bastidores, três nomes aparecem com frequência: Camilo Santana, senador pelo Ceará; Rafael Fonteles, governador do Piauí; e Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda. São lideranças com trajetórias distintas, experiências administrativas e diferentes relações com os grupos que compõem o universo petista.

Camilo e Fonteles representam uma possibilidade de fortalecimento da influência nordestina. Haddad, por sua vez, mantém sua trajetória política vinculada a São Paulo e ocupa um espaço importante na história recente do partido.

Mas nenhum deles pode ser considerado herdeiro natural de Lula. O próprio presidente sabe que anunciar antecipadamente um sucessor significaria começar a transferir para outra liderança uma parcela da autoridade que ainda exerce sobre o partido e sobre o governo.

A história do PT oferece um exemplo revelador. Em 2010, José Dirceu e Antonio Palocci eram apontados como possíveis sucessores de Lula. O cenário político mudou, os dois perderam espaço e o presidente acabou lançando Dilma Rousseff, que se tornou a candidata escolhida para disputar sua sucessão.

A política tem dessas ironias: os nomes considerados inevitáveis hoje podem desaparecer amanhã.

A força do Nordeste e a disputa regional

Outro elemento que promete alimentar a disputa é o equilíbrio regional. Há anos, dirigentes nordestinos reclamam da concentração de poder dos grupos paulistas na estrutura partidária. Bahia, Ceará e Piauí possuem importância eleitoral expressiva para o PT, mas o número de filiados em São Paulo influencia diretamente as votações internas e o controle dos espaços de direção.

A questão não é apenas geográfica. Trata-se de representatividade, distribuição de influência e capacidade de decidir os rumos de um partido que se apresenta como nacional.

O Nordeste, que historicamente forneceu ao PT uma parcela fundamental de sua força eleitoral, começa a reivindicar maior participação na definição dos destinos da legenda.

Renovação ou disputa pelo poder?

Edinho Silva, por sua vez, já reconhece a necessidade de mudanças. Defende renovação dos quadros, ampliação da participação dos jovens, reformulação da comunicação e novas formas de organização política. São propostas importantes, mas que precisarão ultrapassar o discurso para produzir transformações concretas.

O desafio é enorme. O PT precisa conversar com uma geração que não viveu suas grandes mobilizações históricas, que consome informação de maneira diferente e que já não estabelece necessariamente com os partidos a mesma relação de pertencimento de décadas anteriores.

Não basta convocar jovens para a filiação. É necessário oferecer participação real, espaço de decisão e condições para que novas lideranças apareçam.

O congresso partidário previsto para o próximo ano poderá ser o palco dessa discussão. Mas dificilmente haverá renovação verdadeira sem enfrentar os interesses daqueles que atualmente controlam os mecanismos de poder da organização.

Uma nova campanha já começou

A reunião de 13 de novembro, portanto, terá um significado que ultrapassa as críticas à campanha presidencial. Será uma oportunidade para medir a força dos grupos internos, discutir a distribuição dos recursos, avaliar a liderança de Edinho Silva e, principalmente, perceber como o PT pretende se preparar para um futuro sem Lula nas urnas.

A vitória eleitoral deu ao presidente ainda mais autoridade para conduzir o processo de sucessão. Mas também tornou mais urgente uma pergunta que durante muito tempo foi adiada: o que será do PT quando Lula não estiver mais no centro da disputa política nacional?

O partido que nasceu das greves operárias, das comunidades de base, dos movimentos sociais e da redemocratização brasileira enfrenta agora uma encruzilhada histórica. Precisa preservar sua identidade, renovar suas lideranças e demonstrar que sua existência não depende exclusivamente da trajetória de um único homem.

A grande disputa do PT talvez não seja contra seus adversários externos. Está dentro de suas próprias estruturas, entre aqueles que desejam preservar o modelo atual e os que reivindicam uma nova configuração de poder.

Lula venceu mais uma eleição. Mas, nos corredores do partido, outra campanha já começou.

E desta vez não será disputada nas urnas contra a oposição: será disputada pelo controle do próprio PT e pelo direito de escrever o capítulo seguinte de sua história.

POLÍTICA
PARTIDO DOS TRABALHADORES
LULA
SUCESSÃO POLÍTICA
BRASIL

ASSINATURA DO AUTOR

Padre Carlos

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