Política e Resenha · Análise
Em uma democracia madura, reconhecer a vitória do adversário não é um gesto de fraqueza, tampouco significa renunciar às próprias convicções políticas. É uma demonstração de respeito às regras do jogo democrático e à soberania popular. Foi justamente essa compreensão que a prefeita de Vitória da Conquista, Sheila Lemos (União Brasil), demonstrou ao reconhecer a vitória de Lula (PT) e declarar seu respeito à decisão das urnas.
A atitude merece ser destacada, sobretudo diante da reação de Flávio Bolsonaro (PL) à derrota eleitoral e das iniciativas de contestação do resultado. Sheila apoiou o candidato derrotado, participou de sua campanha em Vitória da Conquista e, naturalmente, tinha suas preferências políticas. Ainda assim, não permitiu que a derrota de seu candidato se transformasse em motivo para deslegitimar a vontade expressa pelos eleitores brasileiros.
Sua declaração, divulgada nesta segunda-feira (26), foi clara:
| “As eleições terminaram, e a democracia falou por meio do voto do povo brasileiro. Quero afirmar o meu respeito à decisão das urnas”. — Sheila Lemos, prefeita de Vitória da Conquista |
Uma lição que ultrapassa as fronteiras partidárias
Há, nessa manifestação, uma lição que ultrapassa as fronteiras partidárias e merece ser compreendida por toda a direita brasileira: não é preciso ser bolsonarista para ser de direita, assim como não é necessário concordar com Lula para respeitar a democracia. Uma direita verdadeiramente democrática não precisa abrir mão de seus princípios, de suas críticas ao governo ou de seu projeto de sociedade. Precisa, isso sim, compreender que a disputa pelo poder tem regras, limites e, sobretudo, um resultado que deve ser respeitado quando legitimamente proclamado.
O problema começa quando a fidelidade a uma liderança política se sobrepõe à fidelidade às instituições. Quando o resultado eleitoral só é considerado legítimo se favorece o próprio grupo, a democracia deixa de ser um princípio e passa a ser apenas um instrumento de conveniência. É nesse ponto que o debate político se degrada e a divergência democrática cede espaço à intolerância.
| Não é preciso ser bolsonarista para ser de direita, assim como não é necessário concordar com Lula para respeitar a democracia. |
Oposição democrática e alternância no poder
Sheila Lemos fez uma escolha diferente. Reconheceu o resultado sem precisar renunciar às suas posições políticas. Poderá continuar fazendo oposição ao governo Lula, criticando suas decisões e defendendo propostas distintas daquelas apresentadas pelo PT. Nada disso é incompatível com a democracia. Ao contrário, a existência de uma oposição firme, organizada e capaz de apresentar alternativas é indispensável ao funcionamento de qualquer regime democrático.
O que distingue uma oposição democrática de uma força política autoritária não é a intensidade de suas críticas, mas sua disposição de respeitar as regras que tornam possível a alternância no poder. Perder uma eleição faz parte da democracia. Tentar transformar toda derrota em suspeita de fraude, sem provas que a sustentem, é outra coisa.
Responsabilidade de quem governa
Também merece atenção a expectativa manifestada pela prefeita de que o novo governo invista em saúde, educação, emprego e desenvolvimento. Como gestora municipal, Sheila sabe que os interesses de Vitória da Conquista não podem ficar subordinados às disputas partidárias. A cidade precisa de investimentos, obras, programas sociais e parcerias institucionais. Para atender à população, uma prefeita não pode tratar o governo federal como inimigo apenas porque pertence a outro campo político.
Governar exige responsabilidade. E responsabilidade significa compreender que os interesses coletivos devem estar acima das paixões eleitorais. A relação entre os diferentes níveis de governo precisa ser orientada pelo interesse público, sem que as diferenças ideológicas impeçam o diálogo e a cooperação administrativa.
É por isso que parabenizo Sheila Lemos por sua postura democrática. Não se trata de um elogio irrestrito à sua administração, nem de uma adesão às suas escolhas partidárias. Trata-se de reconhecer uma atitude que considero correta e necessária em qualquer liderança política comprometida com o Estado Democrático de Direito.
A direita que o Brasil precisa
A democracia brasileira precisa de uma direita que saiba disputar eleições, conquistar votos, governar, fiscalizar o poder e apresentar alternativas. Uma direita que não tenha medo de reconhecer a vitória do adversário porque confia na força de suas próprias ideias e na possibilidade de convencer a sociedade em uma próxima eleição. Uma direita que não confunda lealdade partidária com submissão a um líder e que não transforme divergências políticas em ameaças permanentes às instituições.
O Brasil não precisa de uma direita que renuncie às suas convicções. Precisa de uma direita que compreenda os limites do poder e reconheça que nenhum partido, candidato ou liderança está acima da vontade popular legitimamente expressa nas urnas.
Sheila Lemos, ao reconhecer a vitória de Lula, oferece um exemplo dessa distinção. Sua atitude demonstra que é possível ser adversária política do presidente eleito e, ao mesmo tempo, respeitar a legitimidade de seu mandato. É possível defender posições conservadoras ou de centro-direita sem aderir ao bolsonarismo e sem alimentar a desconfiança permanente em relação ao processo eleitoral.
Em tempos de radicalização, gestos como esse têm valor político e institucional. Eles ajudam a demonstrar que a democracia não pertence à esquerda nem à direita. Pertence a todos os cidadãos que aceitam conviver com as diferenças, respeitam as regras comuns e compreendem que o poder não é propriedade de quem governa, mas uma responsabilidade temporária confiada pelo povo.
Parabenizo, portanto, a prefeita Sheila Lemos, porque, mesmo estando em outro campo político, reconheceu um princípio que deve nos unir: a democracia exige que saibamos vencer com responsabilidade e perder com dignidade.
Essa é uma lição que a política brasileira precisa aprender. E é uma lição que a direita democrática tem o dever de afirmar, inclusive para demonstrar que seu futuro não precisa estar condicionado ao bolsonarismo.
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Padre Carlos — Colunista político — Política e Resenha





