
QUANDO A POLÍTICA DEIXA DE SER IDEIA E VIRA MACHADO
Padre Carlos
Há imagens que deveriam nos fazer parar por alguns segundos antes de compartilhar, comentar ou transformar em munição para a nossa própria torcida política. A imagem que circula nas redes sociais, mostrando dois homens e a frase de que uma discussão sobre Lula e Bolsonaro terminou com um deles morto após cerca de 70 golpes de faca e machado, é uma dessas imagens.
Mas há uma primeira correção importante: o caso não aconteceu agora. Trata-se de um crime ocorrido em setembro de 2022, em Confresa, no Mato Grosso, durante a campanha eleitoral daquele ano. Benedito Cardoso dos Santos foi assassinado pelo colega de trabalho Rafael Silva de Oliveira depois de uma discussão política. O laudo necroscópico apontou 70 golpes de faca e machado. Rafael confessou o crime e, em 2023, foi condenado pelo Tribunal do Júri a 14 anos de prisão.
A história, portanto, não é nova. Mas a pergunta que ela provoca continua assustadoramente atual.
Quando a preferência política vira identidade de guerra
Como foi que chegamos ao ponto de transformar uma preferência eleitoral em uma espécie de identidade de guerra?
Eu posso discordar de Lula. Posso discordar de Bolsonaro. Posso defender a esquerda, a direita, o centro ou simplesmente não me identificar com nenhum deles. Posso votar em quem quiser. Posso mudar de opinião. Posso até passar uma noite inteira discutindo política com um amigo.
O que não posso é transformar o adversário político em inimigo pessoal.
Porque, quando isso acontece, alguma coisa profundamente errada começa a acontecer dentro de nós.
Lula não é minha família. Bolsonaro não é minha família. Nenhum político deveria ocupar dentro da nossa cabeça um espaço maior do que nossos filhos, nossos pais, nossos amigos, nossos princípios e nossa própria consciência.
Político passa.
A vida fica.
E talvez essa seja uma das maiores tragédias da polarização brasileira: há pessoas brigando por políticos que sequer sabem que elas existem.
Das palavras à violência
O caso de Benedito é particularmente brutal porque a discussão começou no território das palavras e terminou no território da morte. A investigação apontou que Rafael perseguiu Benedito e o atacou com uma faca; depois utilizou um machado. A perícia registrou dezenas de lesões, e a Justiça posteriormente o condenou.
Não há ideologia que justifique isso.
Não há candidato que mereça uma vida humana destruída em seu nome.
Não há eleição que valha uma amizade perdida.
Não há partido que valha uma família chorando diante de um caixão.
E aqui está o ponto que considero fundamental: não devemos utilizar esse episódio para dizer que todo eleitor de Lula é violento ou que todo eleitor de Bolsonaro é violento. Isso seria repetir exatamente a lógica que precisamos combater: transformar indivíduos em caricaturas de grupos.
O assassino responde pelo próprio crime.
Sua escolha política pode ajudar a explicar o contexto da discussão, mas não transforma milhões de pessoas que compartilham uma preferência eleitoral em responsáveis pela conduta de um indivíduo.
Democracia é confronto de ideias, não guerra entre pessoas
A política precisa voltar a ser aquilo que deveria ser: confronto de ideias, disputa de projetos e escolha democrática.
O adversário não precisa ser convertido em inimigo.
E talvez seja justamente aí que esteja a grande batalha civilizatória do nosso tempo.
Existe uma diferença gigantesca entre dizer:
“Eu discordo de você.”
e dizer:
“Você não deveria existir.”
A primeira frase pertence à democracia.
A segunda abre a porta para a barbárie.
Quando começamos a acreditar que o outro é menos humano porque vota diferente, a democracia começa a morrer muito antes das instituições. Ela morre dentro das pessoas.
Primeiro vem a desumanização.
Depois vêm os insultos.
Depois as ameaças.
Depois a violência.
E, quando percebemos, alguém está segurando uma faca ou um machado enquanto acredita estar defendendo uma causa.
Nenhuma causa merece sangue
Mas nenhuma causa política merece sangue.
Nenhuma eleição merece sangue.
Nenhum presidente merece sangue.
Nenhum ex-presidente merece sangue.
Nem Lula, nem Bolsonaro, nem qualquer outro político brasileiro merece que alguém mate ou morra em seu nome.
Isso deveria ser uma obviedade.
Infelizmente, acontecimentos como o assassinato de Benedito mostram que precisamos repetir o óbvio.
A política continuou. Benedito, não.
E há uma ironia terrível nessa história: enquanto dois homens discutiam sobre os donos do poder em Brasília, um deles perdeu a própria vida.
Lula continuou vivo.
Bolsonaro continuou vivo.
A eleição continuou.
A política continuou.
Quem não continuou foi Benedito.
É essa conta que precisamos colocar diante da sociedade.
Porque, no final das contas, nenhum político estará dentro do nosso caixão quando chegar a nossa hora.
Quem estará ao nosso lado serão aqueles que amamos.
Discordar sem destruir
Por isso, talvez seja hora de baixar o tom.
Não precisamos concordar.
Não precisamos abandonar nossas convicções.
Não precisamos fingir que todas as posições políticas são iguais.
Precisamos apenas compreender uma coisa elementar: o adversário político continua sendo um ser humano.
E uma democracia madura não é aquela em que todos pensam da mesma maneira.
É aquela em que pessoas que pensam de maneiras completamente diferentes conseguem sentar na mesma mesa, discutir, discordar, votar e depois voltar para casa.
Sem faca.
Sem machado.
Sem ódio.
Porque quando a política exige sangue para ser defendida, ela já deixou de ser política.
Virou barbárie.
E nenhuma democracia sobrevive quando a divergência deixa de produzir argumentos e começa a produzir cadáveres.
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