Política e Resenha

Quando Francisco de Assis tocou o coração de um pastor protestante

Reflexão · Padre Carlos

Por Padre Carlos

Há encontros que acontecem sem que duas pessoas jamais tenham se sentado à mesma mesa. Há encontros que desafiam o tempo.

Um homem pode morrer há oitocentos anos e, ainda assim, tocar o coração de alguém que vive em outro século, outra cultura e outra Igreja.

Foi isso que aconteceu entre Francisco de Assis e Paul Sabatier.

Francisco morreu em 1226. Sabatier nasceu em 1858. Mais de seiscentos anos os separavam. Havia também uma fronteira religiosa: Francisco era católico; Sabatier, pastor protestante de tradição calvinista.

E, apesar de tudo isso, Francisco encontrou Sabatier.

Não pessoalmente, evidentemente. Encontrou-o através dos livros, dos documentos antigos, das histórias de sua vida e, sobretudo, através do testemunho extraordinário de um homem que decidiu levar o Evangelho às últimas consequências.

O pastor que se apaixonou

Sabatier se apaixonou por Francisco.

E talvez essa palavra não seja exagerada.

Porque existe uma diferença entre estudar alguém e ser tocado por alguém. Podemos estudar uma pessoa durante anos sem que ela mude absolutamente nada dentro de nós. Mas há pessoas que entram em nossa vida — mesmo depois de mortas — e começam a fazer perguntas que já não conseguimos evitar.

Francisco parece ter sido uma dessas pessoas para Sabatier.

O pastor mergulhou profundamente na história do santo de Assis. Estudou suas fontes, seus escritos, seus primeiros biógrafos, o contexto medieval e a história da Igreja. Em 1894, publicou sua célebre Vie de Saint François d’Assise, obra que ajudaria a apresentar Francisco ao mundo moderno.

Mas talvez a história mais bonita não esteja apenas no livro.

Está no homem que resolveu escrevê-lo.

Sabatier poderia ter escolhido grandes teólogos, reformadores ou as disputas entre católicos e protestantes. Mas escolheu Francisco.

E aqui está o mistério:

O que havia naquele pequeno homem de Assis capaz de tocar profundamente o coração de um pastor protestante do século XIX?

Talvez Francisco tivesse descoberto algo que frequentemente esquecemos.

Antes de sermos católicos, protestantes, evangélicos, ortodoxos ou homens sem religião, somos seres humanos diante do mistério da existência.

Temos medo. Esperança. Perdemos pessoas que amamos. Sentimos saudade. Erramos. Envelhecemos. Procuramos sentido.

E, em algum momento, todos fazemos a pergunta silenciosa que ninguém consegue responder por nós:

Para que estou vivendo?

Uma resposta feita de vida

Francisco parece ter encontrado sua resposta.

E não foi uma resposta feita de palavras. Foi uma resposta feita de vida.

Ele nasceu em uma família rica. Conheceu o luxo, os sonhos de glória, a juventude, a vaidade e o desejo de reconhecimento.

Mas um dia alguma coisa mudou.

Francisco começou a enxergar aquilo que antes não queria enxergar: o pobre, o leproso, o abandonado, aquele que não tinha beleza, poder ou nada para oferecer em troca.

E talvez tenha sido justamente aí que começou o verdadeiro Francisco.

Porque existe uma diferença enorme entre olhar para o pobre e enxergar o pobre. Entre passar diante de alguém que sofre e permitir que o sofrimento daquela pessoa entre dentro de nós.

Francisco permitiu. E sua vida nunca mais foi a mesma.

Ele abraçou aquilo que o mundo normalmente tenta evitar: a pobreza, a fragilidade, a simplicidade, a fraternidade e a proximidade com aqueles que não tinham voz.

Não apenas um santo: um homem

Talvez tenha sido isso que Sabatier encontrou. Não apenas um santo. Encontrou um homem.

Um homem que chorava, tinha dúvidas, lutava consigo mesmo e precisou romper com aquilo que esperavam dele para descobrir aquilo que acreditava que Deus esperava dele.

Isso é profundamente humano. Talvez seja justamente por isso que Francisco ainda nos comova.

Porque ele não nasceu pronto. Ele se tornou Francisco.

E essa talvez seja uma de suas mensagens mais bonitas:

Ninguém está condenado a permanecer para sempre aquilo que foi ontem.

O jovem rico pode tornar-se irmão dos pobres. O homem preocupado com prestígio pode tornar-se servo. Aquele que desejava conquistar o mundo pode descobrir que a verdadeira grandeza está em aprender a amar.

Coerência: o poder de viver o Evangelho

Francisco não precisou de tronos, exércitos, dinheiro ou palácios. Sua força estava em uma coisa muito mais rara: coerência.

Ele acreditava no Evangelho e tentou vivê-lo. Talvez essa seja a forma mais poderosa de convencer alguém.

Não dizer. Viver.
Não proclamar. Testemunhar.
Não exigir que os outros mudem. Mudar a si mesmo.

Paul Sabatier percebeu isso.

Um pastor protestante escreveu uma das mais importantes biografias modernas de um santo católico. Seu livro alcançou o mundo e ajudou Francisco de Assis a reaparecer diante do homem moderno como uma figura universal.

Sabatier tinha suas próprias interpretações. Era um historiador crítico e não enxergava Francisco exatamente como a tradição católica o fazia. Sua leitura provocou debates e enfrentou reações da própria Igreja.

Mas isso torna sua história ainda mais bonita. Ele não precisou concordar com tudo para se deixar tocar.

Uma lição urgente para o nosso tempo

E talvez essa seja uma lição urgente para o nosso tempo.

Vivemos em uma época em que as pessoas frequentemente se aproximam umas das outras perguntando primeiro: “Você está do meu lado?”

Francisco talvez fizesse outra pergunta: “Você é capaz de amar?”

Nós queremos saber a religião, a ideologia, o partido, a posição política, a origem, a classe social e a opinião. Francisco parece olhar para outra coisa. Para a pessoa.

Ele não diminuiu sua fé para alcançar o outro. Mas também não precisou transformar o outro em inimigo para preservá-la.

Foi profundamente católico. E, justamente por ser tão profundamente Francisco, conseguiu ser universal.

É por isso que um pastor protestante pôde amá-lo.
É por isso que homens e mulheres sem religião continuam se emocionando com sua história.
É por isso que o Cântico das Criaturas ainda inspira pessoas preocupadas com a natureza.
É por isso que os pobres reconhecem nele alguém que escolheu viver próximo deles.

E é por isso que, em uma sociedade dominada pelo dinheiro, muitos ainda encontram alguma coisa profundamente atual naquele homem que descobriu que possuir menos podia significar ser mais livre.

As perguntas que Francisco nos deixa

Francisco morreu pobre. Mas não morreu vazio.

De que adianta possuir tanto, se dentro de nós falta aquilo que realmente importa?

De que adianta uma casa enorme se não existe fraternidade dentro dela?

De que adianta dinheiro se não conseguimos comprar paz?

De que adianta reconhecimento se precisamos da aprovação de todos para acreditar que temos algum valor?

De que adianta vencer todas as disputas se perdemos a capacidade de amar?

Francisco continua fazendo essas perguntas. E talvez Sabatier tenha escrito sua biografia porque também ouviu algumas delas.

Dois homens, um encontro

Gosto de imaginar aquele pastor diante dos documentos antigos, página após página, tentando compreender aquele homem.

Século XIII diante do século XIX.
Assis diante de Paris.
Catolicismo diante do protestantismo.
O medieval diante do moderno.

E, no meio de tudo isso, dois homens se encontram. Um escreve. O outro é escrito. Um procura compreender. O outro continua provocando perguntas.

Talvez, depois de tantos anos de pesquisa, Sabatier tenha descoberto aquilo que todos nós descobrimos quando nos aproximamos verdadeiramente de Francisco: Francisco não é apenas alguém sobre quem se pode escrever. Francisco é alguém que nos obriga a olhar para dentro de nós mesmos.

Talvez seja por isso que ele continua vivo. Não apenas porque sua imagem esteja nas igrejas, porque existam estátuas nas praças ou porque milhões pronunciem seu nome.

Francisco continua vivo porque ainda existem pessoas procurando uma maneira diferente de viver. Pessoas cansadas da competição, da aparência, do excesso, da violência e de um mundo que mede o valor de alguém pelo que possui.

E talvez essas pessoas encontrem Francisco. Ou talvez seja Francisco quem as encontre. Como encontrou Paul Sabatier.

E aqui está, para mim, a parte mais bonita dessa história. Sabatier era protestante. Francisco era católico. Mas, diante de Francisco, a primeira pergunta deixou de ser: “A que Igreja você pertence?” E passou a ser:

Que espécie de homem você está tentando ser?

Talvez essa seja a pergunta que Francisco faria hoje. A mim. A você. A todos nós.

Oito séculos depois de sua morte, um homem nascido em Assis ainda consegue atravessar fronteiras, religiões, ideologias e séculos para tocar o coração de alguém que nunca conheceu.

Francisco não conheceu Paul Sabatier. Mas Sabatier conheceu Francisco.

E talvez tenha acontecido aquilo que só acontece com os grandes testemunhos humanos: Francisco morreu há oito séculos. Mas continuou encontrando pessoas. Uma delas foi um pastor protestante que, ao procurar compreender o santo de Assis, acabou nos deixando uma das mais belas provas de que existem vidas tão luminosas que não cabem dentro das fronteiras construídas pelos homens.

Talvez Francisco tenha tocado Sabatier porque, antes de ser um santo admirado, foi simplesmente um homem que levou a sério o amor.

E quando alguém leva o amor a sério… até um homem que pertence a outra Igreja pode reconhecer a beleza.

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Padre Carlos
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