Política e Resenha

QUARESMA: A MONTANHA, A CRUZ E A CORAGEM DE RECOMEÇAR

 

Por Padre Carlos

 

Há tempos na vida que não são apenas datas no calendário. São portais.

A Quaresma é um deles.

Não se trata apenas de quarenta dias marcados por jejuns discretos, abstinências protocolares ou compromissos litúrgicos. Trata-se de uma travessia. Uma estrada interior que corta desertos pessoais, escala montanhas silenciosas e termina, inevitavelmente, diante de uma cruz.

E aqui começa a pergunta que não quer calar: onde está o seu Deus?

O deserto e a montanha: dois movimentos da alma

No domingo passado, contemplamos Jesus no deserto — cenário de tentações, silêncio e combate espiritual. Agora, a liturgia nos conduz à montanha da Transfiguração. Dois episódios que parecem opostos, mas que, na verdade, são faces da mesma moeda espiritual.

O deserto é o lugar da aridez.
A montanha é o lugar da luz.

No deserto, o suor da resistência.
Na montanha, o brilho da esperança.

Ambos antecipam o Mistério Pascal: a passagem da morte para a vida. A pedagogia divina nunca é acidental. Primeiro o enfrentamento. Depois a revelação. Primeiro a luta. Depois a glória.

E não é assim também em nossa vida?

Quantos de nós atravessamos desertos silenciosos — crises familiares, esgotamentos emocionais, dúvidas espirituais — esperando que alguma luz rompa o horizonte?

A Transfiguração de Jesus não é um espetáculo místico para poucos privilegiados. É um anúncio. Um vislumbre da Ressurreição antes da Cruz. Um sussurro de Deus dizendo: “A dor não será o último capítulo.”

Subir é necessário

Jesus sobe a montanha para rezar. Leva consigo Pedro, Tiago e João. Não os leva para discutir estratégias políticas, nem para organizar movimentos sociais. Leva-os para rezar.

Aqui reside uma verdade que nosso tempo resiste em aceitar: sem oração, a ação perde a alma.

Vivemos na era do ativismo permanente. Opiniões são publicadas em segundos, indignações viralizam, mobilizações nascem e morrem no espaço de um clique. Mas quantos de nós sobem a montanha?

A tradição bíblica é clara: a montanha é lugar de encontro com Deus. Moisés recebeu a Lei no Sinai. Elias ouviu o sussurro suave no Horeb. Cristo revelou sua glória no Tabor.

A montanha exige esforço. Não se chega ao alto distraído. É preciso fôlego, decisão, silêncio.

Talvez por isso muitos prefiram a planície do barulho.

“Onde está o seu Deus?”

A provocação ecoa através dos séculos. Diante das guerras, das injustiças sociais, das crises morais, das polarizações políticas, a pergunta retorna: onde está Deus?

A resposta cristã não é abstrata. Não é uma tese acadêmica. Não é um slogan religioso.

Ela aponta para dois lugares concretos:
– a montanha da Transfiguração
– e o caminho que desce rumo a Jerusalém

O Deus que se deixa contemplar na glória é o mesmo que aceita morrer na cruz. Não há Ressurreição sem Sexta-Feira Santa. Não há luz que não tenha atravessado a sombra.

Aqui está o cerne da espiritualidade quaresmal: a ressurreição passa pela cruz.

E isso nos inquieta.

Porque todos queremos a montanha iluminada, mas poucos desejam o Calvário.

Conversão: o verbo mais urgente

Fala-se muito em transformação social — e com razão. O mundo precisa de justiça, ética pública, responsabilidade política, compromisso com os pobres.

Mas toda transformação estrutural começa no território invisível do coração.

A conversão não é humilhação. É libertação.
Reconhecer o pecado não é paralisar-se nas cinzas, mas levantar-se para reconstruir.

Quando um homem ou uma mulher decide mudar de vida, algo do acontecimento pascal já está acontecendo ali. É um pequeno milagre cotidiano. Uma ressurreição silenciosa.

Pergunto com franqueza:
quanto tempo dedicamos à oração?
Compensa o esforço de rezar com perseverança?

Quem experimenta a oração verdadeira sabe: ela reorganiza o olhar. O mundo continua o mesmo, mas nós já não somos os mesmos.

A oração não nos aliena da realidade. Ao contrário: dá-nos força para enfrentá-la. Ela não anestesia a dor, mas nos ensina a atravessá-la.

A cruz: escândalo ou trono?

O Evangelho não romantiza o sofrimento. Mas também não o idolatra. A cruz de Cristo não é símbolo de derrota. É o trono paradoxal do amor que se entrega até o fim.

Na lógica humana, perder é fracassar.
Na lógica do Evangelho, doar-se é vencer.

Quem contempla o Crucificado com o coração orante descobre uma verdade desconcertante: o sofrimento não tem a última palavra. O amor tem.

Essa é a revolução silenciosa da fé cristã.

Num mundo que valoriza performance, produtividade e imagem, a Quaresma nos convida ao essencial: Deus em primeiro lugar. Sem essa raiz, toda ação social corre o risco de virar ativismo vazio.

Oração e caridade não competem. Exigem-se mutuamente. A solidão fecunda diante de Deus gera compromisso concreto com os irmãos.

Descer da montanha

A experiência da Transfiguração não termina no alto. É preciso descer.

Mas descer diferente.

Não como espectadores de um momento místico, mas como testemunhas de esperança. Homens e mulheres que carregam nos olhos a luz que viram. Pessoas que, fortalecidas pela oração, enfrentam as cruzes cotidianas com serenidade e coragem.

A Quaresma é esse treinamento da alma.
É disciplina espiritual.
É confronto interior.
É esperança que amadurece.

Não podemos atravessar mais um tempo penitencial de forma distraída. Deus não repete convites em vão. Cada Quaresma é única. Cada chamada à conversão é pessoal.

A história pergunta: “Onde está o seu Deus?”
A consciência responde: Ele está na montanha que preciso subir.
Está na cruz que preciso abraçar.
Está na mudança que preciso iniciar.

E talvez, no fim, descubramos que a pergunta mais importante nunca foi “onde está Deus?”, mas sim:

onde estou eu diante d’Ele?

Se subirmos com coragem,
se rezarmos com perseverança,
se reconhecermos nossos pecados e decidirmos recomeçar,

então desceremos da montanha como testemunhas vivas de que a morte foi vencida pelo amor.

E isso — num mundo cansado de sombras — é uma notícia revolucionária.