Política e Resenha

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Só o riso, o amor e o prazer merecem revanche

Artigo de opinião

Reflexão sobre a vida, o tempo e a sabedoria de Chico Xavier

Certa vez, ouvi de um amigo uma frase atribuída a Chico Xavier que nunca mais saiu da minha cabeça. Naquele momento, ele a pronunciou em tom de brincadeira, com a descontração de quem não pretendia fazer uma grande reflexão sobre a existência humana. Eu, porém, levei aquelas palavras a sério. E confesso aos senhores e às senhoras: se aprendêssemos a viver de acordo com essa pequena lição, muitos males seriam poupados, muitas lágrimas deixariam de cair e inúmeras relações não terminariam pelo caminho.

A frase é simples, mas carrega uma profundidade que talvez só compreendamos quando começamos a perceber que a vida é curta demais para desperdiçá-la com aquilo que não merece o nosso coração.

“Só o riso, o amor e o prazer merecem revanche. O resto é mais que perda de tempo… é perda de vida.”
Frase atribuída a Chico Xavier

O preço de guardar mágoas

Pensem bem no que essas palavras nos dizem. Quantas horas de nossos dias são consumidas por ressentimentos? Quantas noites perdemos tentando encontrar respostas para ofensas que já deveriam ter sido esquecidas? Quantas amizades são destruídas pelo orgulho, quantas famílias se afastam por discussões insignificantes e quantos amores acabam porque alguém preferiu ter razão a preservar aquilo que realmente importava?

Vivemos numa sociedade em que, muitas vezes, as pessoas parecem ter transformado a mágoa em companhia e o ressentimento em combustível. Há quem passe anos esperando uma oportunidade para revidar uma ofensa, devolver uma humilhação ou provar que o outro estava errado. Como se a felicidade dependesse da derrota de alguém. Como se vencer uma discussão fosse mais importante do que conservar a paz de espírito.

E é justamente aí que mora uma das grandes armadilhas da existência: acreditamos que estamos castigando o outro, quando, na verdade, somos nós mesmos que continuamos presos àquilo que nos feriu.

A pessoa que nos magoou pode ter seguido a vida, dormido tranquilamente e até esquecido o episódio. Enquanto isso, nós continuamos alimentando a lembrança, reconstruindo mentalmente a conversa, imaginando o que deveríamos ter dito e planejando o que faremos quando surgir a próxima oportunidade.

Que ironia! Entregamos a alguém que talvez nem se lembre de nós o poder de determinar o nosso humor, perturbar o nosso sono e roubar a nossa alegria.

É como se permitíssemos que uma pessoa entrasse em nossa casa, deixasse uma sujeira no chão e fosse embora, enquanto nós passássemos anos nos recusando a limpar o lugar porque esperamos que ela volte para fazê-lo.

O tempo não espera

Mas a vida não pode ser vivida dessa maneira.

O tempo não espera que resolvamos todas as nossas desavenças. Os anos passam, os cabelos embranquecem, os rostos que amamos envelhecem e algumas pessoas partem sem que tenhamos a oportunidade de dizer aquilo que ficou guardado na garganta. E, quando finalmente percebemos, talvez já não exista tempo para o abraço que adiamos, o pedido de desculpas que o orgulho impediu ou a conversa que julgávamos poder deixar para amanhã.

Há discussões que vencemos e, ainda assim, saímos derrotados. Há pessoas que afastamos para provar um ponto e que, depois, descobrimos serem muito mais importantes do que o ponto que queríamos provar.

A revanche que vale a pena

Por isso, a reflexão atribuída a Chico Xavier nos convida a inverter a lógica de nossas batalhas. Se existe alguma revanche que vale a pena, que seja aquela capaz de devolver beleza à nossa existência.

Se alguém nos ofereceu amargura, que a nossa resposta seja recuperar a alegria. Se a vida nos impôs uma decepção, que a nossa resposta seja encontrar novos motivos para acreditar. Se alguém tentou nos diminuir, que não percamos os nossos dias tentando humilhar essa pessoa, mas cuidando de nos tornar melhores.

Não se trata de aceitar injustiças, tolerar abusos ou permanecer em relações que nos fazem mal. Perdoar não significa abrir mão dos limites, e seguir em frente não significa fingir que nada aconteceu. Há situações em que precisamos nos afastar, buscar justiça e proteger a nossa dignidade.

A questão é outra: não permitir que a dor se transforme na dona de nossa vida.

Podemos estabelecer limites sem cultivar ódio. Podemos discordar sem destruir. Podemos nos afastar sem desejar a desgraça de quem ficou para trás. E podemos reconhecer que alguém nos fez mal sem entregar a essa pessoa o direito de continuar nos fazendo mal todos os dias, por meio das lembranças que alimentamos.

A verdadeira liberdade começa quando compreendemos que nem toda provocação merece resposta, nem toda ofensa merece uma batalha e nem toda disputa precisa terminar com um vencedor.

Às vezes, a atitude mais inteligente é silenciar. Em outras ocasiões, é conversar. Há momentos em que precisamos pedir perdão e outros em que precisamos aceitar que não receberemos o pedido que esperávamos. Mas, em todos eles, existe uma escolha que nos pertence: decidir o que faremos com o tempo que ainda temos.

O riso, o amor e o prazer

E o que dizer do riso, do amor e do prazer?

O riso é uma forma de resistência contra as durezas da vida. Não porque ignore os problemas, mas porque nos lembra que eles não são tudo o que existe. Uma gargalhada compartilhada com um amigo, uma conversa sem pressa, uma lembrança que nos faz sorrir ou a alegria de reencontrar alguém querido podem valer mais do que inúmeras vitórias conquistadas à custa da tranquilidade.

O amor, por sua vez, é aquilo que dá sentido a tantas coisas que fazemos. Está no cuidado com os pais, na paciência com os filhos, na amizade sincera, no companheirismo de quem permanece ao nosso lado e até nos pequenos gestos de gentileza oferecidos a desconhecidos. Amar não é apenas sentir; é escolher cuidar, respeitar e reconhecer a humanidade que existe no outro.

E o prazer? Não falo apenas dos grandes acontecimentos, das viagens extraordinárias ou das conquistas que exibimos aos olhos do mundo. Falo também do prazer simples de tomar um café em boa companhia, contemplar o pôr do sol, ouvir uma música que toca a alma, caminhar sem pressa ou sentar-se à mesa com a família.

A vida, afinal, não é feita somente de grandes acontecimentos. Ela acontece nesses pequenos instantes que, enquanto estamos ocupados demais com as nossas guerras, corremos o risco de não perceber.

Talvez seja esse o grande ensinamento escondido naquela frase que ouvi de meu amigo. Naquele instante de descontração, ele me ofereceu, sem talvez perceber, uma pergunta que merece acompanhar cada um de nós: vale mesmo a pena perder um pedaço da vida por algo que, daqui a alguns anos, talvez nem sequer tenha importância?

Quantas vezes trocamos uma tarde feliz por uma discussão inútil? Quantas vezes deixamos de procurar alguém porque esperamos que a iniciativa venha primeiro do outro lado? Quantas vezes nos recusamos a sorrir porque ainda estamos presos a uma tristeza antiga?

E quantas oportunidades de felicidade já passaram diante de nossos olhos enquanto estávamos ocupados demais tentando acertar as contas com o passado?

A vida não é um tribunal

Meus senhores e minhas senhoras, a vida não é um tribunal no qual precisamos apresentar provas de que sempre tivemos razão. Não precisamos transformar cada divergência em julgamento, cada crítica em ofensa e cada decepção em uma guerra sem fim.

Há coisas que precisam ser enfrentadas, problemas que exigem coragem e injustiças que não podem ser ignoradas. Mas também há batalhas que só sobrevivem porque insistimos em alimentá-las.

Aprender a distinguir umas das outras é sinal de maturidade.

Com o passar dos anos, descobrimos que a paz vale mais do que muitas discussões, que a companhia de quem amamos é um privilégio e que o tempo, uma vez perdido, não aceita devolução. Descobrimos, sobretudo, que não precisamos esperar o fim da vida para compreender o que realmente importa.

Podemos começar hoje

Podemos começar hoje.

Hoje podemos telefonar para alguém de quem sentimos saudade. Podemos pedir desculpas por uma palavra pronunciada no calor da raiva. Podemos abandonar uma disputa que já não produz nada além de sofrimento. Podemos escolher não responder à provocação, não alimentar a intriga e não permitir que a amargura encontre morada permanente em nosso coração.

E, se não for possível reconstruir uma relação, ainda será possível reconstruir a nossa paz.

Porque a grande revanche não é ver o outro sofrer. É voltar a sorrir sem culpa, amar sem medo, desfrutar dos pequenos prazeres e perceber que, apesar das decepções, ainda existe beleza no mundo.

No fim das contas, talvez a vida nos cobre menos pelas coisas que deixamos de conquistar e mais pelas oportunidades de amar que desperdiçamos. Talvez nos lembremos menos das discussões que vencemos e muito mais dos abraços que oferecemos, das mãos que seguramos e das pessoas com quem fomos verdadeiramente felizes.

Que a nossa revanche seja viver bem. Que a nossa resposta às tristezas seja encontrar motivos para sorrir. Que o nosso orgulho não seja maior do que o nosso amor, e que a nossa necessidade de vencer uma discussão nunca seja mais importante do que a oportunidade de viver em paz.

Afinal, o relógio continua andando enquanto discutimos. Os dias continuam passando enquanto guardamos mágoas. E a vida, silenciosa e preciosa, vai seguindo o seu caminho, sem nos pedir licença e sem prometer que teremos outra oportunidade.

Por isso, quando surgir a tentação de devolver uma ofensa, alimentar um ressentimento ou prolongar uma guerra inútil, lembremo-nos daquela frase.

Talvez a pergunta mais importante não seja quem tem razão, quem venceu ou quem perdeu.

Talvez a pergunta seja simplesmente esta:

O que estou fazendo com o tempo que me resta?

Porque perder uma discussão pode ser apenas um contratempo. Perder o orgulho pode ser um gesto de grandeza. Perder uma disputa pode até nos ensinar alguma coisa.

Mas perder a vida — os seus afetos, os seus sorrisos, os seus encontros e a sua capacidade de amar — por causa daquilo que não merece tanto de nós é um preço alto demais.

E, quando finalmente compreendermos isso, talvez descubramos que a melhor revanche de todas sempre esteve ao nosso alcance: viver com mais amor, mais leveza e menos ressentimento.

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Padre Carlos — colunista político — Política e Resenha