Política e Resenha

Francisco e Dulce, dois corações, uma mesma luz

Reflexão · Fé · Caridade

Por Edvaldo Paulo de Araújo

Os dois com o mesmo coração. Francisco se despojou de tudo por amor aos pobres, e irmã Dulce fez exatamente o mesmo aqui no Brasil. Dois anjos da caridade separados por séculos, mas unidos pela mesma luz. Quando penso em um lembro sempre do outro: um deixou uma oração das mais lindas e o outro deixou sua marca de amor por onde viveu.

O banco de Assis

Todo ano vou à Itália. Nunca deixo de ir a Spoleto e, de lá, passo um dia ou dois em Assis, terra de Francisco. Quando estou lá, vou imediatamente à casa em que ele viveu. O que mais gosto é de um lugar: uma pequenina praça anexa à sua antiga casa, onde há um banco. Ali me deito e fico um bom tempo a pensar e a sentir a energia do lugar, para mim sagrado.

A energia daquele banco simboliza a bondade de Francisco, o seu despojamento da riqueza. E, apesar dos séculos que nos separam dele, aquele silêncio me leva imediatamente o pensamento a Dulce.

Dois tempos, duas terras, um mesmo coração. Francisco deixou tudo em Assis por amor. Dulce deixou tudo na Bahia pelo mesmo amor. E eu, deitado naquele banco em Assis, senti que os dois estavam lá comigo. No meu pensamento, recheado de admiração e respeito, há o desejo de tentar, pela vida, ser um discípulo deles nas minhas pequenas obras. Discípulo absoluto no coração.

A santa da Bahia

Irmã Dulce, Maria Rita de Souza Brito, nasceu na Bahia e fez da sua vida uma entrega total aos pobres. Com poucos recursos e muita fé, transformou um galinheiro em abrigo, e esse abrigo nas Obras Sociais Irmã Dulce, que acolhem até hoje milhares de pessoas.

Canonizada como segunda santa do Brasil — e fiz questão de estar presente no ato com minha esposa Rita, onde encontrei meu amigo Bispo Zanone, da nossa Igreja Católica —, ela provou que a santidade mora nas pequenas obras feitas com amor absoluto.

O mundo de hoje não precisa de mais muros, precisa de mais bancos como aquele: lugares simples onde o coração desarma e aprende a amar.

Como Francisco, ela se despojou de tudo. Não de riquezas herdadas, mas de si mesma. Separados por oito séculos, eles escolheram o mesmo caminho: o dos pequenos, dos pobres, dos esquecidos. Francisco desceu do seu berço em Assis para abraçar a simplicidade. Dulce fez de sua vida um abraço para os que sofriam na Bahia.

Francisco saiu do conforto da riqueza, do ter tudo, para encontrar a paz na pobreza e no servir sempre aos que nada tinham. Dulce saiu do conforto do convento para encontrar Cristo no pobre doente. Os dois dizem que a cura para a angústia não está em se fechar, mas em se abrir.

Sair de si

O convite dos dois santos

Vivemos um tempo atribulado, barulhento por fora e vazio por dentro. Cada vez mais nos refugiamos dentro de nós mesmos, com medo do outro, cansados de tudo, descrentes de tudo e de todos. Francisco e Dulce nos gritam o contrário: abram-se! Saiam! Olhem para o lado e, mais, eles nos ensinam o caminho inverso: abrir o coração. Ser disponível àqueles que precisam de apoio.

A paz que sinto sempre naquele banco em Assis não era fuga do mundo: era convite ao encontro, com mais humanidade e disponibilidade aos irmãos mais carentes.

Ao me sentir tão pequeno naquele banco em Assis, onde Francisco brincava, não é pequenez de mesmo valor. É a humildade que ele mesmo viveu e ensinou. Diante de tanta luz, a gente se sente pequeno justamente porque está percebendo algo maior. Deitar ali é como descansar um pouco no colo da história dele. Ele, que escolheu a simplicidade, com certeza ficaria feliz em saber que encontrei paz exatamente ali, no simples banco onde ele brincou criança.

No dia a dia, quando vejo pessoas em estado deplorável e lastimável pelas ruas de minha cidade, lembro sempre do que irmã Dulce faria. E como é triste não ter aquela capacidade de resgatar essa pessoa para um mundo mais humano.

No mundo de hoje, tão atribulado, onde cada um se refugia dentro de si, Francisco e Dulce nos passam a mensagem contrária: SAIR DE SI. A paz que senti em Assis não era fuga do mundo, era convocação. Não precisamos fazer grandes obras. Basta um gesto, uma escuta, um prato, uma visita.

Discípulos em Vitória da Conquista

Na nossa cidade de Vitória da Conquista, Bahia, especificamente no Hospital São Vicente, há o Dr. Ricardo Alexandre, que trabalhou com Dulce no Hospital do Largo de Roma, em Salvador. Sempre que recorro a ele, vejo ali um discípulo dela: sempre disponível, sempre servindo, e com o imenso carinho e admiração que sente por ela.

É a prova de que Francisco e Dulce não ficaram no passado. Eles seguem vivos nos corações que escolheram servir.

Francisco de Assis
Irmã Dulce
Caridade
Santidade
Assis
Bahia

Edvaldo Paulo de Araújo — Autor convidado — Política e Resenha