Opinião | Política e Resenha
H
á momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser omissão. Diante dos ataques e das manifestações de preconceito que o jovem ator João Victor Gonçalves vem sofrendo, não consigo simplesmente assistir e seguir adiante como se nada estivesse acontecendo.
É revoltante. É triste. É profundamente desumano.
Podemos discordar de uma pessoa. Podemos não gostar de suas escolhas, de sua maneira de se expressar, de seus posicionamentos ou até mesmo de seu trabalho. Isso faz parte da liberdade de cada um. Mas nada disso autoriza alguém a transformar a diferença em motivo para humilhação, perseguição, insulto ou discriminação.
Você só precisa ser humano
É exatamente aqui que quero fazer uma reflexão.
Você não precisa ser gay para ser contra a homofobia. Não precisa ter um filho gay, um irmão gay, um amigo gay. Não precisa conhecer pessoalmente alguém que tenha sofrido preconceito. Você só precisa ser humano.
É isso que me incomoda profundamente quando vejo determinados ataques nas redes sociais. Algumas pessoas parecem ter perdido completamente a noção de que, por trás de uma fotografia, de um vídeo, de um nome ou de um perfil, existe uma pessoa.
Existe alguém que sente. Que sofre. Que chora. Que possui família. Que tem sonhos. Que carrega suas próprias inseguranças. E ninguém deveria ser transformado em alvo de ódio simplesmente por ser diferente.
Liberdade não é licença para destruir
A liberdade de expressão é um direito fundamental. Mas liberdade de expressão não significa liberdade para destruir a dignidade do outro. Discordar é legítimo. Criticar é legítimo. Debater é necessário.
O que não podemos normalizar é a crueldade.
Não podemos chamar de opinião aquilo que, na prática, é apenas preconceito. Não podemos chamar de brincadeira aquilo que tem como objetivo humilhar. Não podemos aceitar que a homofobia seja tratada como algo engraçado, corriqueiro ou socialmente aceitável.
E digo isso sem precisar vestir nenhuma camisa ideológica. Digo como homem. Como cidadão. Como alguém que acredita que a dignidade humana deveria estar acima das nossas diferenças.
A dor do outro
Talvez esse seja o grande problema do nosso tempo: estamos ficando especialistas em defender os nossos e indiferentes ao sofrimento dos outros. Quando a vítima é alguém do nosso grupo, protestamos. Quando é alguém de quem gostamos, nos indignamos. Mas quando é alguém que pensa diferente, vive diferente ou simplesmente não pertence ao nosso círculo, muitas vezes fechamos os olhos.
Isso precisa nos incomodar.
A dor do outro não deixa de ser dor porque não é a nossa. E o preconceito não deixa de ser preconceito porque a vítima não é alguém da nossa família.
Por isso, presto minha solidariedade ao jovem João Victor Gonçalves e a todos aqueles que sofrem qualquer forma de discriminação por causa de sua orientação sexual.
A fronteira que não deveríamos ultrapassar
Não estou aqui para dizer que todos precisam pensar da mesma maneira. Não precisamos. A diversidade de pensamentos é parte da democracia. Mas existe uma fronteira que não deveríamos ultrapassar: a fronteira que separa a divergência do desrespeito, a crítica da agressão e a liberdade da violência.
Eu me revolto quando vejo alguém sendo atacado simplesmente por ser quem é. E me revolto ainda mais quando a sociedade começa a considerar isso normal.
Não, não é normal. Não é aceitável. Não é engraçado. Não é liberdade. É preconceito. E contra o preconceito não podemos ficar em silêncio.
Solidariedade
A todos aqueles que já foram vítimas de homofobia, discriminação ou qualquer outra forma de violência por serem diferentes, deixo aqui minha solidariedade.
Talvez eu não conheça a história de vocês. Talvez não compartilhe das mesmas experiências. Talvez não compreenda todas as suas escolhas. Mas compreendo uma coisa fundamental: vocês são seres humanos e, por isso, merecem respeito.
No final de tudo, é muito simples. Para combater a homofobia, você não precisa ser gay. Não precisa ter um parente gay. Não precisa ser militante de coisa alguma. Você só precisa ser humano.
E talvez seja justamente isso que esteja faltando a uma parte da nossa sociedade. Humanidade.
#DireitosHumanos
#Solidariedade
#JoãoVictorGonçalves
Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha




