Política e Resenha

Dois Homicídios em um Fim de Semana Rompem a Calmaria em Vitória da Conquista

Após um período de relativa tranquilidade, Vitória da Conquista registrou dois homicídios ao longo do fim de semana, em ocorrências distintas que chamaram a atenção dos moradores e das autoridades de segurança.

Um dos crimes aconteceu no bairro Conjunto da Vitória. O outro homicídio foi registrado no bairro Vila Elisa. Em ambos os casos, guarnições da Polícia Militar foram acionadas para atender às ocorrências, realizar o isolamento das áreas e preservar o local até a chegada do Departamento de Polícia Técnica, responsável pela perícia e remoção dos corpos.

As circunstâncias dos crimes ainda não foram esclarecidas. Os casos estão sendo investigados pela Polícia Civil, que dará continuidade aos trabalhos para identificar a autoria e a motivação dos homicídios.

Os registros interrompem um período de menor incidência de crimes graves no município e reforçam a atenção das forças de segurança para o monitoramento das áreas onde ocorreram os fatos.

Seguimos acompanhando o andamento das investigações e novas informações serão divulgadas assim que confirmadas pelas autoridades.

(Maria Clara)

Dois Homicídios em um Fim de Semana Rompem a Calmaria em Vitória da Conquista

Após um período de relativa tranquilidade, Vitória da Conquista registrou dois homicídios ao longo do fim de semana, em ocorrências distintas que chamaram a atenção dos moradores e das autoridades de segurança.

Um dos crimes aconteceu no bairro Conjunto da Vitória. O outro homicídio foi registrado no bairro Vila Elisa. Em ambos os casos, guarnições da Polícia Militar foram acionadas para atender às ocorrências, realizar o isolamento das áreas e preservar o local até a chegada do Departamento de Polícia Técnica, responsável pela perícia e remoção dos corpos.

As circunstâncias dos crimes ainda não foram esclarecidas. Os casos estão sendo investigados pela Polícia Civil, que dará continuidade aos trabalhos para identificar a autoria e a motivação dos homicídios.

Os registros interrompem um período de menor incidência de crimes graves no município e reforçam a atenção das forças de segurança para o monitoramento das áreas onde ocorreram os fatos.

Seguimos acompanhando o andamento das investigações e novas informações serão divulgadas assim que confirmadas pelas autoridades.

(Maria Clara)

Quando uma Rodovia Cala um Futuro: A História que Interrompeu uma Vida aos 24 Anos

A morte de Rafael Oliveira Rosa, aos 24 anos, lança novamente luz sobre a vulnerabilidade de ciclistas nas rodovias baianas e sobre os riscos cotidianos enfrentados por quem divide o asfalto com veículos de grande porte. O jovem perdeu a vida após ser atropelado na manhã deste domingo (25), na BA-262, rodovia que liga Vitória da Conquista ao município de Anagé.

Rafael foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e encaminhado ao Hospital Geral de Vitória da Conquista. Apesar do atendimento médico imediato, a gravidade dos ferimentos resultou em seu falecimento na manhã desta segunda-feira (26). Morador do distrito do Pradoso, sua morte precoce provocou forte comoção entre familiares, amigos e moradores da comunidade, que ainda buscam compreender a dimensão da perda.

Casos como este reforçam dados recorrentes sobre acidentes envolvendo ciclistas em rodovias estaduais, onde a infraestrutura nem sempre oferece condições adequadas de segurança, como acostamentos contínuos, sinalização eficiente e fiscalização constante. A BA-262, em especial, é uma via de intenso fluxo, utilizada diariamente por trabalhadores, estudantes e moradores da região.

Até o momento, não foram divulgadas informações oficiais sobre as circunstâncias detalhadas do atropelamento nem sobre os horários e locais do funeral. O que permanece evidente é o impacto humano de uma tragédia que interrompeu uma vida jovem e deixou uma comunidade em luto.

Em situações como esta, o registro dos fatos não é apenas um comunicado de perda, mas também um convite à reflexão coletiva sobre mobilidade, segurança viária e responsabilidade compartilhada entre poder público, condutores e usuários mais vulneráveis das estradas. A morte de Rafael Oliveira Rosa soma-se a outras que não podem ser tratadas apenas como números estatísticos, mas como histórias interrompidas no caminho.

(Maria Clara)

Quando uma Rodovia Cala um Futuro: A História que Interrompeu uma Vida aos 24 Anos

A morte de Rafael Oliveira Rosa, aos 24 anos, lança novamente luz sobre a vulnerabilidade de ciclistas nas rodovias baianas e sobre os riscos cotidianos enfrentados por quem divide o asfalto com veículos de grande porte. O jovem perdeu a vida após ser atropelado na manhã deste domingo (25), na BA-262, rodovia que liga Vitória da Conquista ao município de Anagé.

Rafael foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e encaminhado ao Hospital Geral de Vitória da Conquista. Apesar do atendimento médico imediato, a gravidade dos ferimentos resultou em seu falecimento na manhã desta segunda-feira (26). Morador do distrito do Pradoso, sua morte precoce provocou forte comoção entre familiares, amigos e moradores da comunidade, que ainda buscam compreender a dimensão da perda.

Casos como este reforçam dados recorrentes sobre acidentes envolvendo ciclistas em rodovias estaduais, onde a infraestrutura nem sempre oferece condições adequadas de segurança, como acostamentos contínuos, sinalização eficiente e fiscalização constante. A BA-262, em especial, é uma via de intenso fluxo, utilizada diariamente por trabalhadores, estudantes e moradores da região.

Até o momento, não foram divulgadas informações oficiais sobre as circunstâncias detalhadas do atropelamento nem sobre os horários e locais do funeral. O que permanece evidente é o impacto humano de uma tragédia que interrompeu uma vida jovem e deixou uma comunidade em luto.

Em situações como esta, o registro dos fatos não é apenas um comunicado de perda, mas também um convite à reflexão coletiva sobre mobilidade, segurança viária e responsabilidade compartilhada entre poder público, condutores e usuários mais vulneráveis das estradas. A morte de Rafael Oliveira Rosa soma-se a outras que não podem ser tratadas apenas como números estatísticos, mas como histórias interrompidas no caminho.

(Maria Clara)

ARTIGO – Democracia se Constrói com Convivência, Informação e Liberdade de Expressão

 

 

Padre Carlos

A democracia não se sustenta na unanimidade, mas na convivência. Ela existe precisamente porque diferentes ideias, projetos políticos e visões de mundo ocupam o mesmo espaço público, disputam narrativas e se expressam de forma pacífica. Nesse contexto, o papel de um blog que se propõe a informar não é escolher quais vozes merecem ser ouvidas, mas registrar os fatos que compõem a vida política da sociedade.

Foi a partir desse princípio que este espaço decidiu dar publicidade à marcha realizada em Vitória da Conquista, que partiu do Tiro de Guerra em direção ao Cristo, reunindo um grupo identificado com a ultradireita sob a liderança da vereadora Dra. Lara. A manifestação teve como objetivo demonstrar solidariedade ao movimento nacional Acorda Brasil, iniciativa do deputado federal Nikolas Ferreira, e integrou uma mobilização política que vem ocorrendo em diversas cidades do país.

Registrar esse acontecimento é um exercício de compromisso democrático. A liberdade de expressão, garantida em uma sociedade plural, assegura a todos os grupos políticos o direito de se manifestar, desde que respeitados os limites legais e a convivência civilizada. Gostar ou não do conteúdo da manifestação é uma questão individual; reconhecer o direito de ela existir é um dever coletivo.

A democracia se enfraquece quando apenas algumas manifestações são legitimadas como dignas de visibilidade, enquanto outras são silenciadas por critérios ideológicos. Um ambiente democrático saudável pressupõe a coexistência de correntes políticas distintas — esquerda, direita, centro, movimentos conservadores, progressistas ou independentes — todas submetidas ao mesmo princípio: o respeito às regras do jogo democrático.

A marcha liderada pela vereadora Dra. Lara insere Vitória da Conquista no cenário nacional de mobilizações políticas contemporâneas e revela como diferentes setores da sociedade buscam ocupar o espaço público para expressar suas pautas. Ignorar esse fato seria negar ao leitor uma parte relevante da realidade política local e nacional.

O jornalismo responsável não tem como missão validar discursos, mas garantir que os acontecimentos sejam conhecidos, contextualizados e apresentados com honestidade. Informar sobre uma manifestação da ultradireita não significa apoiá-la, assim como informar sobre atos da esquerda não implica endosso. Significa reconhecer que a democracia se expressa também nas ruas, nas praças e nas caminhadas políticas.

Em tempos de polarização intensa, reafirmar o valor da convivência democrática torna-se essencial. A liberdade de expressão não é um privilégio de alguns, mas um direito de todos. E a informação, quando exercida com equilíbrio e respeito ao leitor, contribui para uma sociedade mais madura, consciente e capaz de lidar com suas diferenças sem recorrer ao silenciamento.

É assim que a democracia se preserva: com pluralidade, transparência e o compromisso permanente de informar, mesmo quando os fatos desagradam, incomodam ou desafiam nossas próprias convicções.

ARTIGO – Democracia se Constrói com Convivência, Informação e Liberdade de Expressão

 

 

Padre Carlos

A democracia não se sustenta na unanimidade, mas na convivência. Ela existe precisamente porque diferentes ideias, projetos políticos e visões de mundo ocupam o mesmo espaço público, disputam narrativas e se expressam de forma pacífica. Nesse contexto, o papel de um blog que se propõe a informar não é escolher quais vozes merecem ser ouvidas, mas registrar os fatos que compõem a vida política da sociedade.

Foi a partir desse princípio que este espaço decidiu dar publicidade à marcha realizada em Vitória da Conquista, que partiu do Tiro de Guerra em direção ao Cristo, reunindo um grupo identificado com a ultradireita sob a liderança da vereadora Dra. Lara. A manifestação teve como objetivo demonstrar solidariedade ao movimento nacional Acorda Brasil, iniciativa do deputado federal Nikolas Ferreira, e integrou uma mobilização política que vem ocorrendo em diversas cidades do país.

Registrar esse acontecimento é um exercício de compromisso democrático. A liberdade de expressão, garantida em uma sociedade plural, assegura a todos os grupos políticos o direito de se manifestar, desde que respeitados os limites legais e a convivência civilizada. Gostar ou não do conteúdo da manifestação é uma questão individual; reconhecer o direito de ela existir é um dever coletivo.

A democracia se enfraquece quando apenas algumas manifestações são legitimadas como dignas de visibilidade, enquanto outras são silenciadas por critérios ideológicos. Um ambiente democrático saudável pressupõe a coexistência de correntes políticas distintas — esquerda, direita, centro, movimentos conservadores, progressistas ou independentes — todas submetidas ao mesmo princípio: o respeito às regras do jogo democrático.

A marcha liderada pela vereadora Dra. Lara insere Vitória da Conquista no cenário nacional de mobilizações políticas contemporâneas e revela como diferentes setores da sociedade buscam ocupar o espaço público para expressar suas pautas. Ignorar esse fato seria negar ao leitor uma parte relevante da realidade política local e nacional.

O jornalismo responsável não tem como missão validar discursos, mas garantir que os acontecimentos sejam conhecidos, contextualizados e apresentados com honestidade. Informar sobre uma manifestação da ultradireita não significa apoiá-la, assim como informar sobre atos da esquerda não implica endosso. Significa reconhecer que a democracia se expressa também nas ruas, nas praças e nas caminhadas políticas.

Em tempos de polarização intensa, reafirmar o valor da convivência democrática torna-se essencial. A liberdade de expressão não é um privilégio de alguns, mas um direito de todos. E a informação, quando exercida com equilíbrio e respeito ao leitor, contribui para uma sociedade mais madura, consciente e capaz de lidar com suas diferenças sem recorrer ao silenciamento.

É assim que a democracia se preserva: com pluralidade, transparência e o compromisso permanente de informar, mesmo quando os fatos desagradam, incomodam ou desafiam nossas próprias convicções.

ARTIGO – A Política da Consciência, a Força da Verdade e a Coragem de Concordar

 

 

 

Há textos que não pedem apenas leitura; exigem posicionamento. O artigo assinado por Gilberto Ferreira Luna é um desses. Pela densidade ética, pela elegância intelectual e, sobretudo, pela coragem moral, trata-se de um exercício legítimo de análise política em um tempo marcado por ruídos, ressentimentos e distorções deliberadas. Por isso, registro publicamente meus cumprimentos ao autor e afirmo, sem ambiguidades: concordo integralmente com suas teses e com o espírito que as sustenta.

O texto de Gilberto Luna recoloca a política em seu lugar correto: não como arena de ódios pessoais, mas como espaço de reflexão, responsabilidade e compromisso com a verdade. Ao analisar a atuação da vereadora Gabriela Garrido, o autor faz o que muitos evitam — separa quantidade de qualidade, número de consciência, máquina de caráter. E aqui reside um ponto central com o qual me alinho plenamente: votos de opinião têm um valor político e moral incomparavelmente superior aos votos fabricados por estruturas clientelistas e currais eleitorais. Eles não nascem do favor, mas da confiança; não do medo, mas da adesão livre.

A legitimidade de um mandato não se mede apenas pela contagem fria das urnas, mas pelo lastro ético que o sustenta. Gabriela Garrido representa uma política que não se ancora em engrenagens partidárias nem em esquemas de reprodução de poder. Sua votação expressa reconhecimento público, respeito à sua trajetória e identificação com suas causas. Isso incomoda porque rompe com a lógica viciada da política tradicional.

Também compartilho integralmente da leitura filosófica apresentada no artigo, ao recorrer ao pensamento de Aristóteles. O bem comum deve prevalecer sobre as facções. Quando a fidelidade a grupos, siglas ou federações se sobrepõe à justiça e às necessidades da cidade, a política se corrompe. A verdadeira lealdade, ensinava o filósofo, é à pólis — à comunidade — e se expressa naquilo que ele chamou de amizade política, uma concórdia construída a partir do compromisso coletivo e não da submissão cega. Defender Vitória da Conquista acima de interesses partidários não é traição; é virtude cívica.

Nesse mesmo sentido, é preciso afirmar com clareza: votar projetos que beneficiam a população não é insubordinação, é fidelidade ao mandato popular. A política não pode ser reduzida a uma guerra de torcidas onde se vota contra o bem da cidade apenas para marcar posição ideológica. Essa lógica do “quanto pior, melhor” é eticamente indefensável. A independência responsável de uma parlamentar que apoia o que é bom para o povo revela compromisso com resultados concretos, não com ressentimentos estéreis.

O artigo também acerta ao estabelecer uma distinção fundamental entre o ativismo da verdade e o ativismo da mentira. Um se ancora em fatos, coerência e serviço público real; o outro vive da distorção, da fabricação de narrativas e do ataque sistemático a quem não se deixa enquadrar. Não se trata aqui de agressões pessoais, mas de um confronto conceitual necessário. A política só se regenera quando a verdade volta a ser seu eixo estruturante.

Por tudo isso, afirmo publicamente minha concordância integral com o conteúdo e com o espírito do artigo de Gilberto Ferreira Luna. Somo-me à defesa de uma política mais humana, mais honesta e mais comprometida com Vitória da Conquista — uma política que não seja refém do ódio, da mentira ou do faccionalismo, mas orientada pela consciência, pela coragem moral e pelo bem comum.

Padre Carlos

ARTIGO – A Política da Consciência, a Força da Verdade e a Coragem de Concordar

 

 

 

Há textos que não pedem apenas leitura; exigem posicionamento. O artigo assinado por Gilberto Ferreira Luna é um desses. Pela densidade ética, pela elegância intelectual e, sobretudo, pela coragem moral, trata-se de um exercício legítimo de análise política em um tempo marcado por ruídos, ressentimentos e distorções deliberadas. Por isso, registro publicamente meus cumprimentos ao autor e afirmo, sem ambiguidades: concordo integralmente com suas teses e com o espírito que as sustenta.

O texto de Gilberto Luna recoloca a política em seu lugar correto: não como arena de ódios pessoais, mas como espaço de reflexão, responsabilidade e compromisso com a verdade. Ao analisar a atuação da vereadora Gabriela Garrido, o autor faz o que muitos evitam — separa quantidade de qualidade, número de consciência, máquina de caráter. E aqui reside um ponto central com o qual me alinho plenamente: votos de opinião têm um valor político e moral incomparavelmente superior aos votos fabricados por estruturas clientelistas e currais eleitorais. Eles não nascem do favor, mas da confiança; não do medo, mas da adesão livre.

A legitimidade de um mandato não se mede apenas pela contagem fria das urnas, mas pelo lastro ético que o sustenta. Gabriela Garrido representa uma política que não se ancora em engrenagens partidárias nem em esquemas de reprodução de poder. Sua votação expressa reconhecimento público, respeito à sua trajetória e identificação com suas causas. Isso incomoda porque rompe com a lógica viciada da política tradicional.

Também compartilho integralmente da leitura filosófica apresentada no artigo, ao recorrer ao pensamento de Aristóteles. O bem comum deve prevalecer sobre as facções. Quando a fidelidade a grupos, siglas ou federações se sobrepõe à justiça e às necessidades da cidade, a política se corrompe. A verdadeira lealdade, ensinava o filósofo, é à pólis — à comunidade — e se expressa naquilo que ele chamou de amizade política, uma concórdia construída a partir do compromisso coletivo e não da submissão cega. Defender Vitória da Conquista acima de interesses partidários não é traição; é virtude cívica.

Nesse mesmo sentido, é preciso afirmar com clareza: votar projetos que beneficiam a população não é insubordinação, é fidelidade ao mandato popular. A política não pode ser reduzida a uma guerra de torcidas onde se vota contra o bem da cidade apenas para marcar posição ideológica. Essa lógica do “quanto pior, melhor” é eticamente indefensável. A independência responsável de uma parlamentar que apoia o que é bom para o povo revela compromisso com resultados concretos, não com ressentimentos estéreis.

O artigo também acerta ao estabelecer uma distinção fundamental entre o ativismo da verdade e o ativismo da mentira. Um se ancora em fatos, coerência e serviço público real; o outro vive da distorção, da fabricação de narrativas e do ataque sistemático a quem não se deixa enquadrar. Não se trata aqui de agressões pessoais, mas de um confronto conceitual necessário. A política só se regenera quando a verdade volta a ser seu eixo estruturante.

Por tudo isso, afirmo publicamente minha concordância integral com o conteúdo e com o espírito do artigo de Gilberto Ferreira Luna. Somo-me à defesa de uma política mais humana, mais honesta e mais comprometida com Vitória da Conquista — uma política que não seja refém do ódio, da mentira ou do faccionalismo, mas orientada pela consciência, pela coragem moral e pelo bem comum.

Padre Carlos

ARTIGO – O Vento que Guarda o que Fomos

 

 

Padre Carlos

 

O vento sempre soube mais de nós do que imaginávamos.
E talvez seja por isso que, quando ele passa, não pede licença: entra direto na memória, desalinha o presente e nos obriga a sentir.

Em Itapuã — ou quem sabe na Pituba dos anos cinquenta e sessenta, quando ainda era colônia de pescadores, jangadas alinhadas na areia como velas do Mucuripe — o vento não era apenas um fenômeno climático da Bahia. Era linguagem. Era mensageiro antigo. Corria pelas “paia” do coqueiro como quem folheia um álbum de fotografias invisíveis, arrancando das folhas um estalo seco, som de lembrança viva. Cada ruído era um aviso: o tempo ainda cabia numa tarde inteira.

Ali, o mar não fazia pose. Não era paisagem para cartão-postal nem fundo para selfie. O mar era testemunha. Encrespado de leve pelo vento, sem violência, como quem só quer lembrar que também sente. Na beira do Chega Nego, ele guardava silêncios, risos contidos, promessas ditas quase em segredo. Guardava aquele canto simples, despretensioso, que não buscava sucesso, nem aplauso, nem gravação — queria apenas existir no ouvido de quem amava. E isso bastava.

Quando o vento assobiava no telhado, não era ruído incômodo. Era convite. Chamado discreto para espiar a lua. A lua, cúmplice antiga, via tudo. Sempre viu. Mas nunca delatou ninguém. Limitava-se a iluminar corpos jovens, mãos que se encontravam sem pressa, como se alguém tivesse suspendido o relógio por decreto afetivo. Naquele tempo, amar não competia com notificações, nem com urgências fabricadas. Amar era suficiente.

Hoje, o vento ainda passa. Passa pelos prédios altos, pelas avenidas asfaltadas, pelas janelas seladas por ar-condicionado e pressa. Mas já não encontra o mesmo cenário. Nem o mesmo amor. Ele passa por mim — e aqui falo baixo, quase num sussurro ao leitor — e percebe o que eu já sei: estou sozinho. E, de um modo estranho e dolorosamente lúcido, sei que tu também estás. Tristes, talvez. Mas lembrando.

Porque há lembranças que não envelhecem. Elas apenas se escondem. Ficam à espera de um vento específico para reaparecer.

Essa Bahia — Itapuã ou Pituba, pouco importa — não existe mais no mapa urbano. Foi engolida pelo progresso, pela especulação imobiliária, pelos novos nomes, pelas novas urgências e pela lógica de um desenvolvimento que quase sempre esquece as pessoas. Mas ela segue intacta dentro de nós. Vive na memória afetiva, no cheiro de maresia, no som distante de uma canção antiga, no vento que, de repente, encrespa o pensamento, bagunça a alma e assanha uma saudade que jurávamos ter domesticado.

Há um ponto em que o texto muda de direção, como muda a vida quando percebemos que não perdemos apenas lugares, mas tempos inteiros. Perdemos o direito à lentidão, à contemplação, à escuta. Perdemos a inocência de achar que o amor seria eterno só porque era verdadeiro. E talvez seja por isso que dói: não foi mentira o que passou. Foi real. E exatamente por isso, irrepetível.

Então pergunto ao vento, com a mesma ingenuidade de antes — sabendo que ele talvez não responda, mas entendendo que perguntar já é uma forma de resistência, de memória, de verdade:

— Vento, diga por favor… aonde se escondeu o meu amor?

Ele não responde com palavras. O vento nunca precisou delas. Responde passando. E, ao passar, me devolve tudo: a Bahia que fui, o amor que houve, a saudade que ainda sou.

ARTIGO – O Vento que Guarda o que Fomos

 

 

Padre Carlos

 

O vento sempre soube mais de nós do que imaginávamos.
E talvez seja por isso que, quando ele passa, não pede licença: entra direto na memória, desalinha o presente e nos obriga a sentir.

Em Itapuã — ou quem sabe na Pituba dos anos cinquenta e sessenta, quando ainda era colônia de pescadores, jangadas alinhadas na areia como velas do Mucuripe — o vento não era apenas um fenômeno climático da Bahia. Era linguagem. Era mensageiro antigo. Corria pelas “paia” do coqueiro como quem folheia um álbum de fotografias invisíveis, arrancando das folhas um estalo seco, som de lembrança viva. Cada ruído era um aviso: o tempo ainda cabia numa tarde inteira.

Ali, o mar não fazia pose. Não era paisagem para cartão-postal nem fundo para selfie. O mar era testemunha. Encrespado de leve pelo vento, sem violência, como quem só quer lembrar que também sente. Na beira do Chega Nego, ele guardava silêncios, risos contidos, promessas ditas quase em segredo. Guardava aquele canto simples, despretensioso, que não buscava sucesso, nem aplauso, nem gravação — queria apenas existir no ouvido de quem amava. E isso bastava.

Quando o vento assobiava no telhado, não era ruído incômodo. Era convite. Chamado discreto para espiar a lua. A lua, cúmplice antiga, via tudo. Sempre viu. Mas nunca delatou ninguém. Limitava-se a iluminar corpos jovens, mãos que se encontravam sem pressa, como se alguém tivesse suspendido o relógio por decreto afetivo. Naquele tempo, amar não competia com notificações, nem com urgências fabricadas. Amar era suficiente.

Hoje, o vento ainda passa. Passa pelos prédios altos, pelas avenidas asfaltadas, pelas janelas seladas por ar-condicionado e pressa. Mas já não encontra o mesmo cenário. Nem o mesmo amor. Ele passa por mim — e aqui falo baixo, quase num sussurro ao leitor — e percebe o que eu já sei: estou sozinho. E, de um modo estranho e dolorosamente lúcido, sei que tu também estás. Tristes, talvez. Mas lembrando.

Porque há lembranças que não envelhecem. Elas apenas se escondem. Ficam à espera de um vento específico para reaparecer.

Essa Bahia — Itapuã ou Pituba, pouco importa — não existe mais no mapa urbano. Foi engolida pelo progresso, pela especulação imobiliária, pelos novos nomes, pelas novas urgências e pela lógica de um desenvolvimento que quase sempre esquece as pessoas. Mas ela segue intacta dentro de nós. Vive na memória afetiva, no cheiro de maresia, no som distante de uma canção antiga, no vento que, de repente, encrespa o pensamento, bagunça a alma e assanha uma saudade que jurávamos ter domesticado.

Há um ponto em que o texto muda de direção, como muda a vida quando percebemos que não perdemos apenas lugares, mas tempos inteiros. Perdemos o direito à lentidão, à contemplação, à escuta. Perdemos a inocência de achar que o amor seria eterno só porque era verdadeiro. E talvez seja por isso que dói: não foi mentira o que passou. Foi real. E exatamente por isso, irrepetível.

Então pergunto ao vento, com a mesma ingenuidade de antes — sabendo que ele talvez não responda, mas entendendo que perguntar já é uma forma de resistência, de memória, de verdade:

— Vento, diga por favor… aonde se escondeu o meu amor?

Ele não responde com palavras. O vento nunca precisou delas. Responde passando. E, ao passar, me devolve tudo: a Bahia que fui, o amor que houve, a saudade que ainda sou.

ARTIGO – O banqueiro que nada sabia, nada viu e nada lembra

 

 

(Padre Carlos)

Há momentos em que a realidade brasileira abandona qualquer pudor e decide flertar com o teatro do absurdo. O depoimento de Daniel Vorcaro à Polícia Federal é um desses episódios em que o país, cansado, se pergunta se deve rir, chorar ou simplesmente pedir um uísque importado — de preferência o mesmo servido à beira da piscina da mansão onde a memória parece evaporar mais rápido que o gelo no copo.

O dono do Banco Master, acusado de operar carteiras de crédito que somam módicos R$ 12,2 bilhões, diz não saber quais créditos eram bons, quais eram ruins, quais existiam e quais talvez tenham brotado por geração espontânea. Não sabia. Não lembra. Não dominava. Não aprofundou. É o banqueiro da ignorância seletiva, um novo personagem do capitalismo tropical: administra bilhões, mas não entende os detalhes; comanda instituições financeiras, mas não distingue crédito podre de crédito saudável; circula entre políticos, mas não recorda quem frequentava sua casa.

A pergunta feita a Vorcaro, convenhamos, é quase infantil. Esperar que alguém produza prova contra si mesmo é desconhecer o básico do direito e da natureza humana. Ninguém facilita a própria condenação. Ninguém confessa crimes com a mesma naturalidade com que escolhe o rótulo do uísque. A ingenuidade não está na resposta do banqueiro — esta é previsível —, mas no ritual que finge surpresa diante dela.

O que realmente importa não é o que Vorcaro diz não saber, mas o que o Estado precisa descobrir. Cabe ao Banco Central, ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e aos técnicos do governo separar ficção de contabilidade, narrativa de balanço, encenação de fraude. Cabe às instituições proteger o sistema financeiro nacional, os correntistas, o Fundo Garantidor, os brasileiros que não têm mansão, nem piscina, nem tempo para esquecer seletivamente.

Porque há algo profundamente indecente na imagem que se forma: enquanto investigações apontam CPFs espalhados pelo país, associações de servidores do Rio de Janeiro sem lastro financeiro e créditos que não encontram movimentação compatível, o protagonista dessa história desfruta do conforto absoluto. O luxo, nesse caso, não é apenas material; é também moral. O luxo de tratar a justiça com desdém educado, de responder com frases polidas e vazias, de ironizar o país com a serenidade de quem sabe que o tempo, muitas vezes, trabalha a favor dos poderosos.

Vorcaro diz que a operação “não existiu”. Não houve pagamento. Não houve venda. Não houve crime. Curioso: não existiu, mas inflou balanço; não existiu, mas virou carteira bilionária; não existiu, mas mobilizou Banco Central, STF, PF e MPF. É o milagre financeiro da inexistência produtiva — nada aconteceu, mas aconteceu em escala suficiente para ameaçar a estabilidade do sistema.

O mais irônico é que, nesse roteiro requentado, todos parecem saber exatamente o que dizer. O banqueiro não sabia. O parceiro não entregou documentos. A consultoria atrasou. A transação foi desfeita. Tudo muito limpo, tudo muito técnico, tudo muito elegante. Sujo mesmo é apenas o impacto social, a desconfiança pública, o sentimento de que existe um Brasil para quem presta contas e outro para quem apenas presta depoimentos.

Enquanto isso, o cidadão comum assiste. Assiste ao sarcasmo involuntário de um sistema onde bilhões evaporam em “contas escrow”, onde títulos podres circulam como se fossem ativos respeitáveis, onde a memória falha sempre no ponto exato em que começa a responsabilidade.

O problema não é Vorcaro dizer que não sabe. Isso era esperado. O problema é o país se acostumar a aceitar que quem não sabe, não lembra e não domina continue gozando da impunidade com vista para a piscina. A justiça brasileira não pode ser apenas um cenário distante observado da varanda. Ou ela atravessa o portão das mansões, ou continuará sendo motivo de ironia amarga — fina, elegante e requentada — para um povo que já perdeu a paciência com esse teatro de esquecimentos convenientes.

ARTIGO – O banqueiro que nada sabia, nada viu e nada lembra

 

 

(Padre Carlos)

Há momentos em que a realidade brasileira abandona qualquer pudor e decide flertar com o teatro do absurdo. O depoimento de Daniel Vorcaro à Polícia Federal é um desses episódios em que o país, cansado, se pergunta se deve rir, chorar ou simplesmente pedir um uísque importado — de preferência o mesmo servido à beira da piscina da mansão onde a memória parece evaporar mais rápido que o gelo no copo.

O dono do Banco Master, acusado de operar carteiras de crédito que somam módicos R$ 12,2 bilhões, diz não saber quais créditos eram bons, quais eram ruins, quais existiam e quais talvez tenham brotado por geração espontânea. Não sabia. Não lembra. Não dominava. Não aprofundou. É o banqueiro da ignorância seletiva, um novo personagem do capitalismo tropical: administra bilhões, mas não entende os detalhes; comanda instituições financeiras, mas não distingue crédito podre de crédito saudável; circula entre políticos, mas não recorda quem frequentava sua casa.

A pergunta feita a Vorcaro, convenhamos, é quase infantil. Esperar que alguém produza prova contra si mesmo é desconhecer o básico do direito e da natureza humana. Ninguém facilita a própria condenação. Ninguém confessa crimes com a mesma naturalidade com que escolhe o rótulo do uísque. A ingenuidade não está na resposta do banqueiro — esta é previsível —, mas no ritual que finge surpresa diante dela.

O que realmente importa não é o que Vorcaro diz não saber, mas o que o Estado precisa descobrir. Cabe ao Banco Central, ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e aos técnicos do governo separar ficção de contabilidade, narrativa de balanço, encenação de fraude. Cabe às instituições proteger o sistema financeiro nacional, os correntistas, o Fundo Garantidor, os brasileiros que não têm mansão, nem piscina, nem tempo para esquecer seletivamente.

Porque há algo profundamente indecente na imagem que se forma: enquanto investigações apontam CPFs espalhados pelo país, associações de servidores do Rio de Janeiro sem lastro financeiro e créditos que não encontram movimentação compatível, o protagonista dessa história desfruta do conforto absoluto. O luxo, nesse caso, não é apenas material; é também moral. O luxo de tratar a justiça com desdém educado, de responder com frases polidas e vazias, de ironizar o país com a serenidade de quem sabe que o tempo, muitas vezes, trabalha a favor dos poderosos.

Vorcaro diz que a operação “não existiu”. Não houve pagamento. Não houve venda. Não houve crime. Curioso: não existiu, mas inflou balanço; não existiu, mas virou carteira bilionária; não existiu, mas mobilizou Banco Central, STF, PF e MPF. É o milagre financeiro da inexistência produtiva — nada aconteceu, mas aconteceu em escala suficiente para ameaçar a estabilidade do sistema.

O mais irônico é que, nesse roteiro requentado, todos parecem saber exatamente o que dizer. O banqueiro não sabia. O parceiro não entregou documentos. A consultoria atrasou. A transação foi desfeita. Tudo muito limpo, tudo muito técnico, tudo muito elegante. Sujo mesmo é apenas o impacto social, a desconfiança pública, o sentimento de que existe um Brasil para quem presta contas e outro para quem apenas presta depoimentos.

Enquanto isso, o cidadão comum assiste. Assiste ao sarcasmo involuntário de um sistema onde bilhões evaporam em “contas escrow”, onde títulos podres circulam como se fossem ativos respeitáveis, onde a memória falha sempre no ponto exato em que começa a responsabilidade.

O problema não é Vorcaro dizer que não sabe. Isso era esperado. O problema é o país se acostumar a aceitar que quem não sabe, não lembra e não domina continue gozando da impunidade com vista para a piscina. A justiça brasileira não pode ser apenas um cenário distante observado da varanda. Ou ela atravessa o portão das mansões, ou continuará sendo motivo de ironia amarga — fina, elegante e requentada — para um povo que já perdeu a paciência com esse teatro de esquecimentos convenientes.

ARTIGO – (Aniversário de Jonas Paulo: quando a memória se recusa a envelhecer)

 

 

(Padre Carlos)

Há aniversários que pedem bolo. Outros pedem silêncio. Alguns, raros, exigem memória. O de hoje é desses. Porque celebrar o aniversário de Jonas Paulo não é apenas somar anos à vida de um amigo — é confrontar o tempo com a pergunta que ele prefere evitar: o que fizemos com os nossos sonhos?

Permita-me falar baixo, quase num sussurro. Porque há nomes que não se dizem em voz alta sem antes ajeitar o coração. Conheci Jonas nos anos de chumbo, quando a ditadura militar transformava sonhos em pesadelos e a esperança cobrava sangue como taxa de sobrevivência. Era um tempo em que cada palavra precisava ser medida, cada gesto calculado, cada olhar carregava o risco da denúncia. E mesmo assim — ou talvez por isso — Jonas já era referência. Não pela retórica inflamada, mas pela coerência silenciosa. Ele já havia entendido que a história não perdoa os que se omitem.

Há algo profundamente comovente — e pedagogicamente essencial — em testemunhar uma vida inteira que não precisou ser corrigida em capítulos posteriores. Jonas Paulo não é uma biografia fragmentada, remendada por conveniências eleitorais ou revisões oportunistas. Sua trajetória é uma linha contínua de compromisso radical com o povo brasileiro. Da luta armada contra a ditadura aos campos de Angola, onde internacionalizou sua solidariedade revolucionária; da fundação da CUT, que devolveu dignidade política ao trabalhador brasileiro, à construção do PT, aquele partido que um dia sonhamos como instrumento de emancipação popular — Jonas esteve presente em cada trincheira onde a história exigiu coragem.

Esse percurso não é apenas político. É ético. E aqui reside sua força simbólica. Jonas nos ensina, com a própria vida, que política sem memória histórica vira mera administração do cotidiano. Gestão sem horizonte. Poder sem projeto. Seu aniversário, portanto, não é apenas uma celebração pessoal. É um lembrete coletivo: sem memória, a democracia apodrece por dentro.

Hoje, quando os calendários avançam e os aniversários se acumulam, somos obrigados a reconhecer um dado incômodo — e factual. A geração da utopia está partindo. Aquela juventude forjada no enfrentamento direto ao regime militar, que aprendeu da forma mais cruel que a democracia não é um dado natural, mas uma conquista histórica, começa a se despedir do picadeiro da vida. E a pergunta que fica ecoando é dura: quem está assumindo o bastão?

Somos, cada vez mais, prisioneiros do presente. Um presente acelerado, imediato, governado por algoritmos, métricas e urgências materiais. A nova geração — sufocada por demandas reais e concretas — parece incapaz de produzir novas narrativas utópicas. O futuro encolheu. O horizonte ficou curto. A política virou gestão do possível mínimo, não construção do necessário.

Talvez a música de um compositor cearense — daquelas que atravessam o tempo com melancolia e lucidez — sirva como pano de fundo para essa travessia. Ela nos ajuda a viajar do passado ao presente e perceber que a memória coletiva não é nostalgia: é ferramenta de análise. Uma abordagem quase junguiana da nossa história revela que os arquétipos da luta, do sacrifício e da esperança continuam vivos, mas reprimidos.

A geração da utopia era composta, em grande parte, por estudantes da elite e da classe média urbana. Jovens que habitavam residências estudantis nas grandes cidades, muitos sem romper totalmente com sua origem de classe, mas dispostos a lutar por democracia, liberdade e justiça social. Eram promessas profissionais que acreditavam poder fazer da própria formação um instrumento de transformação social. Parte deles ousou ir além — mergulhou em experiências políticas não democráticas e aprendeu, à custa de dor, prisão e morte, que a democracia era, paradoxalmente, o caminho mais revolucionário.

Daí nasceram a esquerda organizada, o novo sindicalismo, os movimentos populares, a luta pelas Diretas Já e, finalmente, o fim da ditadura militar. Esse lastro utópico sustentou a ideia de um Brasil mais justo, soberano e solidário. Jonas Paulo é um dos rostos mais nítidos dessa construção.

O drama atual não é apenas político. É existencial. A maior tragédia da geração presente talvez seja herdar uma realidade sem espaço para utopias. Um mundo onde o discurso utópico é taxado de ingênuo, irrealista, fora da “realidade concreta”. Como se a realidade fosse um destino imutável, e não um campo de disputa histórica.

Neste aniversário, Jonas nos lembra — sem discursos inflamados, apenas com sua presença — que a memória não espera pela morte para se tornar legado. Ela precisa ser transmitida em vida. Celebrar Jonas Paulo hoje é reafirmar que ainda vale a pena lutar por futuros possíveis. Que a utopia não é fuga, mas método. E que a história só avança quando alguém, em algum momento, ousa sonhar contra o seu tempo.

Que este aniversário não seja apenas comemoração. Seja convocação. Porque os que se despedem esperam — silenciosamente — que tenhamos força, lucidez e coragem para continuar as suas lutas.

ARTIGO – (Aniversário de Jonas Paulo: quando a memória se recusa a envelhecer)

 

 

(Padre Carlos)

Há aniversários que pedem bolo. Outros pedem silêncio. Alguns, raros, exigem memória. O de hoje é desses. Porque celebrar o aniversário de Jonas Paulo não é apenas somar anos à vida de um amigo — é confrontar o tempo com a pergunta que ele prefere evitar: o que fizemos com os nossos sonhos?

Permita-me falar baixo, quase num sussurro. Porque há nomes que não se dizem em voz alta sem antes ajeitar o coração. Conheci Jonas nos anos de chumbo, quando a ditadura militar transformava sonhos em pesadelos e a esperança cobrava sangue como taxa de sobrevivência. Era um tempo em que cada palavra precisava ser medida, cada gesto calculado, cada olhar carregava o risco da denúncia. E mesmo assim — ou talvez por isso — Jonas já era referência. Não pela retórica inflamada, mas pela coerência silenciosa. Ele já havia entendido que a história não perdoa os que se omitem.

Há algo profundamente comovente — e pedagogicamente essencial — em testemunhar uma vida inteira que não precisou ser corrigida em capítulos posteriores. Jonas Paulo não é uma biografia fragmentada, remendada por conveniências eleitorais ou revisões oportunistas. Sua trajetória é uma linha contínua de compromisso radical com o povo brasileiro. Da luta armada contra a ditadura aos campos de Angola, onde internacionalizou sua solidariedade revolucionária; da fundação da CUT, que devolveu dignidade política ao trabalhador brasileiro, à construção do PT, aquele partido que um dia sonhamos como instrumento de emancipação popular — Jonas esteve presente em cada trincheira onde a história exigiu coragem.

Esse percurso não é apenas político. É ético. E aqui reside sua força simbólica. Jonas nos ensina, com a própria vida, que política sem memória histórica vira mera administração do cotidiano. Gestão sem horizonte. Poder sem projeto. Seu aniversário, portanto, não é apenas uma celebração pessoal. É um lembrete coletivo: sem memória, a democracia apodrece por dentro.

Hoje, quando os calendários avançam e os aniversários se acumulam, somos obrigados a reconhecer um dado incômodo — e factual. A geração da utopia está partindo. Aquela juventude forjada no enfrentamento direto ao regime militar, que aprendeu da forma mais cruel que a democracia não é um dado natural, mas uma conquista histórica, começa a se despedir do picadeiro da vida. E a pergunta que fica ecoando é dura: quem está assumindo o bastão?

Somos, cada vez mais, prisioneiros do presente. Um presente acelerado, imediato, governado por algoritmos, métricas e urgências materiais. A nova geração — sufocada por demandas reais e concretas — parece incapaz de produzir novas narrativas utópicas. O futuro encolheu. O horizonte ficou curto. A política virou gestão do possível mínimo, não construção do necessário.

Talvez a música de um compositor cearense — daquelas que atravessam o tempo com melancolia e lucidez — sirva como pano de fundo para essa travessia. Ela nos ajuda a viajar do passado ao presente e perceber que a memória coletiva não é nostalgia: é ferramenta de análise. Uma abordagem quase junguiana da nossa história revela que os arquétipos da luta, do sacrifício e da esperança continuam vivos, mas reprimidos.

A geração da utopia era composta, em grande parte, por estudantes da elite e da classe média urbana. Jovens que habitavam residências estudantis nas grandes cidades, muitos sem romper totalmente com sua origem de classe, mas dispostos a lutar por democracia, liberdade e justiça social. Eram promessas profissionais que acreditavam poder fazer da própria formação um instrumento de transformação social. Parte deles ousou ir além — mergulhou em experiências políticas não democráticas e aprendeu, à custa de dor, prisão e morte, que a democracia era, paradoxalmente, o caminho mais revolucionário.

Daí nasceram a esquerda organizada, o novo sindicalismo, os movimentos populares, a luta pelas Diretas Já e, finalmente, o fim da ditadura militar. Esse lastro utópico sustentou a ideia de um Brasil mais justo, soberano e solidário. Jonas Paulo é um dos rostos mais nítidos dessa construção.

O drama atual não é apenas político. É existencial. A maior tragédia da geração presente talvez seja herdar uma realidade sem espaço para utopias. Um mundo onde o discurso utópico é taxado de ingênuo, irrealista, fora da “realidade concreta”. Como se a realidade fosse um destino imutável, e não um campo de disputa histórica.

Neste aniversário, Jonas nos lembra — sem discursos inflamados, apenas com sua presença — que a memória não espera pela morte para se tornar legado. Ela precisa ser transmitida em vida. Celebrar Jonas Paulo hoje é reafirmar que ainda vale a pena lutar por futuros possíveis. Que a utopia não é fuga, mas método. E que a história só avança quando alguém, em algum momento, ousa sonhar contra o seu tempo.

Que este aniversário não seja apenas comemoração. Seja convocação. Porque os que se despedem esperam — silenciosamente — que tenhamos força, lucidez e coragem para continuar as suas lutas.

Sashira Camilly e o tribunal distante: feminicídio, indignação e o desafio de fazer justiça

 

Por Padre Carlos

 

Há crimes que não terminam quando cessam os batimentos do coração da vítima. Eles continuam pulsando na memória coletiva, como uma ferida aberta que se recusa a cicatrizar. O assassinato de Sashira Camilly Cunha Silva é um desses crimes. Um caso que não pede apenas justiça — exige consciência, coragem institucional e respeito à dor humana.

Sashira tinha 19 anos. Era estudante de Engenharia Civil. Tinha projetos, rotina, sonhos ainda em construção. Sua vida foi interrompida de forma brutal em setembro de 2021, em um crime que, segundo a investigação, foi premeditado, marcado por ciúmes, controle e violência de gênero. Nada disso é abstrato. Nada disso é distante. Tudo isso tem nome, rosto, história — e consequências que ainda ecoam em Vitória da Conquista.

O julgamento de Rafael de Souza Lima, acusado pelo assassinato, está marcado para o dia 10 de fevereiro, em Feira de Santana, após decisão de desaforamento. A lei permite. O Código de Processo Penal prevê. A técnica jurídica encontra justificativa formal. Mas a pergunta que ecoa — incômoda, necessária, moral — é outra: e a justiça, onde fica quando se afasta do lugar da dor?

Transferir o júri pode ser um ato legal. Mas não é neutro. Não é indiferente. Não é inofensivo. Para a família de Sashira, a decisão impõe uma nova violência: percorrer mais de 400 quilômetros para acompanhar o julgamento da filha que viveram, criaram e perderam em Vitória da Conquista. A justiça, que deveria acolher, distancia. A instituição, que deveria proteger, impõe obstáculos.

O corpo de Sashira foi encontrado, em um terreno afastado, já em condições que dispensam descrição — porque a dignidade da vítima exige silêncio respeitoso. O que importa não é o detalhe cruel, mas o contexto estrutural: mais um caso de feminicídio, mais um crime atravessado por relações de poder, posse e violência contra a mulher. Mais um nome que se soma a uma estatística que insiste em crescer no Brasil.

A retirada do julgamento da cidade onde o crime ocorreu pode até buscar imparcialidade. Mas também produz apagamento simbólico. Afasta o crime da comunidade que o sentiu. Dilui a responsabilidade social. Reduz o impacto pedagógico da justiça pública. Porque julgar também é dizer, em voz alta: isso não será tolerado aqui.

Há algo profundamente errado quando a técnica jurídica se afasta da sensibilidade humana. Quando o formalismo supera a empatia. Quando o medo de tumulto pesa mais que o direito das famílias à presença, à memória e ao reconhecimento público da violência sofrida.

Este não é um texto contra a lei. É um texto em defesa da justiça com rosto humano. Justiça que não se limita ao rito, mas considera o contexto. Justiça que entende que crimes de grande repercussão exigem não apenas segurança institucional, mas também coragem moral.

O julgamento de Sashira Camilly não pode ser apenas mais um processo na pauta do tribunal do júri. Ele precisa ser um marco. Um lembrete de que feminicídio não é um crime privado, não é um drama doméstico, não é um excesso passional. É uma violação extrema dos direitos humanos. É um ataque à sociedade inteira.

Que o dia 10 de fevereiro não seja apenas uma data no calendário jurídico. Que seja um dia de afirmação da vida, da memória e da dignidade. Que a distância física imposta à família não se transforme em distância moral da sociedade.

Porque quando a justiça anda longe do lugar do crime, quem corre o risco de se perder não é o processo — é o sentido mais profundo de justiça.

(Padre Carlos)

Sashira Camilly e o tribunal distante: feminicídio, indignação e o desafio de fazer justiça

 

Por Padre Carlos

 

Há crimes que não terminam quando cessam os batimentos do coração da vítima. Eles continuam pulsando na memória coletiva, como uma ferida aberta que se recusa a cicatrizar. O assassinato de Sashira Camilly Cunha Silva é um desses crimes. Um caso que não pede apenas justiça — exige consciência, coragem institucional e respeito à dor humana.

Sashira tinha 19 anos. Era estudante de Engenharia Civil. Tinha projetos, rotina, sonhos ainda em construção. Sua vida foi interrompida de forma brutal em setembro de 2021, em um crime que, segundo a investigação, foi premeditado, marcado por ciúmes, controle e violência de gênero. Nada disso é abstrato. Nada disso é distante. Tudo isso tem nome, rosto, história — e consequências que ainda ecoam em Vitória da Conquista.

O julgamento de Rafael de Souza Lima, acusado pelo assassinato, está marcado para o dia 10 de fevereiro, em Feira de Santana, após decisão de desaforamento. A lei permite. O Código de Processo Penal prevê. A técnica jurídica encontra justificativa formal. Mas a pergunta que ecoa — incômoda, necessária, moral — é outra: e a justiça, onde fica quando se afasta do lugar da dor?

Transferir o júri pode ser um ato legal. Mas não é neutro. Não é indiferente. Não é inofensivo. Para a família de Sashira, a decisão impõe uma nova violência: percorrer mais de 400 quilômetros para acompanhar o julgamento da filha que viveram, criaram e perderam em Vitória da Conquista. A justiça, que deveria acolher, distancia. A instituição, que deveria proteger, impõe obstáculos.

O corpo de Sashira foi encontrado, em um terreno afastado, já em condições que dispensam descrição — porque a dignidade da vítima exige silêncio respeitoso. O que importa não é o detalhe cruel, mas o contexto estrutural: mais um caso de feminicídio, mais um crime atravessado por relações de poder, posse e violência contra a mulher. Mais um nome que se soma a uma estatística que insiste em crescer no Brasil.

A retirada do julgamento da cidade onde o crime ocorreu pode até buscar imparcialidade. Mas também produz apagamento simbólico. Afasta o crime da comunidade que o sentiu. Dilui a responsabilidade social. Reduz o impacto pedagógico da justiça pública. Porque julgar também é dizer, em voz alta: isso não será tolerado aqui.

Há algo profundamente errado quando a técnica jurídica se afasta da sensibilidade humana. Quando o formalismo supera a empatia. Quando o medo de tumulto pesa mais que o direito das famílias à presença, à memória e ao reconhecimento público da violência sofrida.

Este não é um texto contra a lei. É um texto em defesa da justiça com rosto humano. Justiça que não se limita ao rito, mas considera o contexto. Justiça que entende que crimes de grande repercussão exigem não apenas segurança institucional, mas também coragem moral.

O julgamento de Sashira Camilly não pode ser apenas mais um processo na pauta do tribunal do júri. Ele precisa ser um marco. Um lembrete de que feminicídio não é um crime privado, não é um drama doméstico, não é um excesso passional. É uma violação extrema dos direitos humanos. É um ataque à sociedade inteira.

Que o dia 10 de fevereiro não seja apenas uma data no calendário jurídico. Que seja um dia de afirmação da vida, da memória e da dignidade. Que a distância física imposta à família não se transforme em distância moral da sociedade.

Porque quando a justiça anda longe do lugar do crime, quem corre o risco de se perder não é o processo — é o sentido mais profundo de justiça.

(Padre Carlos)

ARTIGO – Quando a política nos surpreende: uma nova postura do PSDB diante da crise na Venezuela

 

 

Por Padre Carlos

Jamais pensei que um dia estaria a elogiar Aécio Neves e, mais ainda, o próprio PSDB — este partido que por décadas se encantou com a ultra-direita e que se afastou tanto da verdadeira social-democracia que virou sinônimo de direita liberal e centro-direita conservadora. Durante muitos anos, a legenda, em vez de defender um projeto social-democrático robusto, abraçou o mercado acima dos direitos sociais e, em muitos momentos, pareceu perder o norte em meio à polarização furiosa que tomou conta da política brasileira.

A polarização e o ódio pelo PT e seus adversários empurraram o debate político para extremos, onde qualquer posicionamento de equilíbrio era tachado de fraco ou traidor. Mas, confesso, senhores, que hoje eles me surpreenderam — e com razão.

O presidente nacional do PSDB e deputado federal Aécio Neves divulgou, em nota oficial assinada pelo partido, uma posição pública firme contra a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que incluiu a captura de Nicolás Maduro. Na nota, o PSDB afirma que “repudia a invasão” e que a violação da soberania de um país e o uso da força como instrumento político são inaceitáveis sob nenhuma circunstância”. Reforça ainda que “o respeito à autodeterminação dos povos é um valor essencial para todas as nações que defendem a democracia, a paz e o direito internacional”.

O que faz essa postura ser relevante — e até surpreendente — é que ela emana de um partido historicamente visto como mais alinhado ao Atlântico Norte e às visões liberais da política externa, e não necessariamente crítico de intervenções militares. O PSDB, que por vezes aderiu a lógicas mais pragmáticas ou até ideológicas de política externa, desta vez cho­cou parte do espectro político brasileiro ao se posicionar claramente contra o uso da força como ferramenta de política internacional.

Importante também é o fato de a nota deixar claro que essa posição não significa qualquer apoio ao regime autoritário de Maduro, que de fato foi responsável por graves violações de direitos humanos, destruição de instituições democráticas e empobrecimento do povo venezuelano. Essa distinção é essencial, porque demonstra que o PSDB consegue separar, nesta conjuntura, o repúdio legítimo a um regime de abuso interno da crítica à intervenção externa que também ameaça o princípio da soberania nacional.

Esse gesto — por mais tardio que seja — me leva a reconhecer que o PSDB, ainda que tardio em rever suas convicções, pode estar redescobrindo a importância de princípios democráticos universais como soberania, autodeterminação e respeito ao direito internacional. Não se trata de concordar com Maduro — que jamais deveria ser romantizado ou desculpado por seus crimes — mas de afirmar que a resposta a ditaduras ou crises humanitárias não deve vir de fora com armas, mas sim de um caminho político interno, legitimado por negociadores e instituições democráticas.

Ao PSDB, hoje, cabe um crédito por essa palavra firme — mesmo que tardia — contra a intervenção estrangeira. E a todos nós, um lembrete: na política contemporânea, onde extremos tentam sempre ditar a agenda, defender princípios democráticos básicos é um ato de coragem e coerência.

Minha mensagem ao Aécio e ao PSDB: continuem firmes na defesa da soberania dos povos, da democracia como baluarte universal e da solução política negociada para crises complexas como a da Venezuela. A política responsável honra os princípios antes de abraçar interesses imediatistas.

ARTIGO – Quando a política nos surpreende: uma nova postura do PSDB diante da crise na Venezuela

 

 

Por Padre Carlos

Jamais pensei que um dia estaria a elogiar Aécio Neves e, mais ainda, o próprio PSDB — este partido que por décadas se encantou com a ultra-direita e que se afastou tanto da verdadeira social-democracia que virou sinônimo de direita liberal e centro-direita conservadora. Durante muitos anos, a legenda, em vez de defender um projeto social-democrático robusto, abraçou o mercado acima dos direitos sociais e, em muitos momentos, pareceu perder o norte em meio à polarização furiosa que tomou conta da política brasileira.

A polarização e o ódio pelo PT e seus adversários empurraram o debate político para extremos, onde qualquer posicionamento de equilíbrio era tachado de fraco ou traidor. Mas, confesso, senhores, que hoje eles me surpreenderam — e com razão.

O presidente nacional do PSDB e deputado federal Aécio Neves divulgou, em nota oficial assinada pelo partido, uma posição pública firme contra a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que incluiu a captura de Nicolás Maduro. Na nota, o PSDB afirma que “repudia a invasão” e que a violação da soberania de um país e o uso da força como instrumento político são inaceitáveis sob nenhuma circunstância”. Reforça ainda que “o respeito à autodeterminação dos povos é um valor essencial para todas as nações que defendem a democracia, a paz e o direito internacional”.

O que faz essa postura ser relevante — e até surpreendente — é que ela emana de um partido historicamente visto como mais alinhado ao Atlântico Norte e às visões liberais da política externa, e não necessariamente crítico de intervenções militares. O PSDB, que por vezes aderiu a lógicas mais pragmáticas ou até ideológicas de política externa, desta vez cho­cou parte do espectro político brasileiro ao se posicionar claramente contra o uso da força como ferramenta de política internacional.

Importante também é o fato de a nota deixar claro que essa posição não significa qualquer apoio ao regime autoritário de Maduro, que de fato foi responsável por graves violações de direitos humanos, destruição de instituições democráticas e empobrecimento do povo venezuelano. Essa distinção é essencial, porque demonstra que o PSDB consegue separar, nesta conjuntura, o repúdio legítimo a um regime de abuso interno da crítica à intervenção externa que também ameaça o princípio da soberania nacional.

Esse gesto — por mais tardio que seja — me leva a reconhecer que o PSDB, ainda que tardio em rever suas convicções, pode estar redescobrindo a importância de princípios democráticos universais como soberania, autodeterminação e respeito ao direito internacional. Não se trata de concordar com Maduro — que jamais deveria ser romantizado ou desculpado por seus crimes — mas de afirmar que a resposta a ditaduras ou crises humanitárias não deve vir de fora com armas, mas sim de um caminho político interno, legitimado por negociadores e instituições democráticas.

Ao PSDB, hoje, cabe um crédito por essa palavra firme — mesmo que tardia — contra a intervenção estrangeira. E a todos nós, um lembrete: na política contemporânea, onde extremos tentam sempre ditar a agenda, defender princípios democráticos básicos é um ato de coragem e coerência.

Minha mensagem ao Aécio e ao PSDB: continuem firmes na defesa da soberania dos povos, da democracia como baluarte universal e da solução política negociada para crises complexas como a da Venezuela. A política responsável honra os princípios antes de abraçar interesses imediatistas.

ARTIGO – O preço invisível de amar demais: quando o amor vira memória e resistência

 

 

Padre Carlos

“O custo de amar alguém demais é nunca mais poder amar.” A frase de Dostoiévski não pede licença. Ela entra no leitor como um sussurro incômodo, quase uma confidência dita à meia-luz, dessas que não se pode desouvir. Porque, no fundo, todos nós sabemos: há amores que não passam. Eles ficam. E o que fica nem sempre é leve.

Quando se ama profundamente, algo em nós atravessa um ponto sem retorno. Não é apenas afeto, é identidade. O amor deixa de ser sentimento e passa a ser arquitetura interna. Molda hábitos, expectativas, silêncios. Quem ama demais não ama com partes — ama inteiro. E quando o outro vai embora, não leva só sua presença: leva um pedaço do que fomos enquanto amávamos.

Aqui está a verdade dura, quase impopular: o amor não morre quando acaba. Ele se transforma em cicatriz emocional. E cicatriz não dói o tempo todo, mas muda para sempre a sensibilidade da pele. Quem passou por um amor absoluto não volta a tocar o mundo da mesma forma. Há mais cuidado, mais cálculo, mais medo. Perde-se a inocência do amar.

Costuma-se dizer que o tempo cura tudo. Não é verdade. O tempo não apaga grandes amores; ele apenas os organiza na memória. E memória é território perigoso. Ali convivem a doçura e a dor, o riso e a ausência, o que foi e o que nunca mais será. O coração, para sobreviver, cria defesas. Onde antes havia entrega espontânea, surge prudência. Onde havia fé no outro, nasce a desconfiança elegante, silenciosa, racional.

Há quem chame isso de maturidade emocional. Em parte, é. Mas também é perda. Porque o amor verdadeiro — aquele que consome, que arrisca, que não negocia — não se repete com facilidade. Ele cobra um preço alto: depois dele, amar novamente exige coragem redobrada. O sujeito ama, sim, mas ama com freio de mão puxado. Ama sem se jogar. Ama sem se perder. E talvez aí resida a maior contradição da experiência humana: para continuar vivo, o coração precisa se proteger; para amar de verdade, ele precisaria se expor.

Conheci pessoas brilhantes, generosas, intensas, que depois de um grande amor passaram a viver relações mornas. Não por falta de sentimento, mas por excesso de memória. O passado virou régua. O antigo amor tornou-se parâmetro inalcançável. E tudo o que vem depois parece menor, insuficiente, incompleto. Não porque seja, mas porque não ocupa o mesmo lugar sagrado.

Do ponto de vista psicológico, isso é compreensível. O cérebro associa amor profundo a risco emocional extremo. O mecanismo de defesa entra em ação. A alma aprende. Mas aprender, às vezes, significa endurecer. Do ponto de vista existencial, porém, é trágico. Porque o ser humano nasce para o encontro, não para o isolamento afetivo.

Dostoiévski não romantiza esse processo. Ele denuncia. Amar demais pode ser uma forma de grandeza — mas também de exílio interior. O amor que foi tudo passa a ser a mais doce e a mais cruel das prisões. Doce porque nos lembra que fomos capazes de amar profundamente. Cruel porque nos faz duvidar se seremos capazes de repetir tal entrega.

Ainda assim, há uma última verdade que precisa ser dita, quase em voz baixa: quem amou demais não desaprendeu o amor. Apenas aprendeu o custo dele. E talvez amar novamente, mesmo com medo, mesmo sem pureza, mesmo com cicatrizes, seja o gesto mais radical de esperança que um ser humano pode oferecer ao mundo.

Porque, no fim, não é o amor que nos impede de amar outra vez. É o medo de sofrer com a mesma intensidade. E viver com medo nunca foi, nem nunca será, uma forma plena de viver.

ARTIGO – O preço invisível de amar demais: quando o amor vira memória e resistência

 

 

Padre Carlos

“O custo de amar alguém demais é nunca mais poder amar.” A frase de Dostoiévski não pede licença. Ela entra no leitor como um sussurro incômodo, quase uma confidência dita à meia-luz, dessas que não se pode desouvir. Porque, no fundo, todos nós sabemos: há amores que não passam. Eles ficam. E o que fica nem sempre é leve.

Quando se ama profundamente, algo em nós atravessa um ponto sem retorno. Não é apenas afeto, é identidade. O amor deixa de ser sentimento e passa a ser arquitetura interna. Molda hábitos, expectativas, silêncios. Quem ama demais não ama com partes — ama inteiro. E quando o outro vai embora, não leva só sua presença: leva um pedaço do que fomos enquanto amávamos.

Aqui está a verdade dura, quase impopular: o amor não morre quando acaba. Ele se transforma em cicatriz emocional. E cicatriz não dói o tempo todo, mas muda para sempre a sensibilidade da pele. Quem passou por um amor absoluto não volta a tocar o mundo da mesma forma. Há mais cuidado, mais cálculo, mais medo. Perde-se a inocência do amar.

Costuma-se dizer que o tempo cura tudo. Não é verdade. O tempo não apaga grandes amores; ele apenas os organiza na memória. E memória é território perigoso. Ali convivem a doçura e a dor, o riso e a ausência, o que foi e o que nunca mais será. O coração, para sobreviver, cria defesas. Onde antes havia entrega espontânea, surge prudência. Onde havia fé no outro, nasce a desconfiança elegante, silenciosa, racional.

Há quem chame isso de maturidade emocional. Em parte, é. Mas também é perda. Porque o amor verdadeiro — aquele que consome, que arrisca, que não negocia — não se repete com facilidade. Ele cobra um preço alto: depois dele, amar novamente exige coragem redobrada. O sujeito ama, sim, mas ama com freio de mão puxado. Ama sem se jogar. Ama sem se perder. E talvez aí resida a maior contradição da experiência humana: para continuar vivo, o coração precisa se proteger; para amar de verdade, ele precisaria se expor.

Conheci pessoas brilhantes, generosas, intensas, que depois de um grande amor passaram a viver relações mornas. Não por falta de sentimento, mas por excesso de memória. O passado virou régua. O antigo amor tornou-se parâmetro inalcançável. E tudo o que vem depois parece menor, insuficiente, incompleto. Não porque seja, mas porque não ocupa o mesmo lugar sagrado.

Do ponto de vista psicológico, isso é compreensível. O cérebro associa amor profundo a risco emocional extremo. O mecanismo de defesa entra em ação. A alma aprende. Mas aprender, às vezes, significa endurecer. Do ponto de vista existencial, porém, é trágico. Porque o ser humano nasce para o encontro, não para o isolamento afetivo.

Dostoiévski não romantiza esse processo. Ele denuncia. Amar demais pode ser uma forma de grandeza — mas também de exílio interior. O amor que foi tudo passa a ser a mais doce e a mais cruel das prisões. Doce porque nos lembra que fomos capazes de amar profundamente. Cruel porque nos faz duvidar se seremos capazes de repetir tal entrega.

Ainda assim, há uma última verdade que precisa ser dita, quase em voz baixa: quem amou demais não desaprendeu o amor. Apenas aprendeu o custo dele. E talvez amar novamente, mesmo com medo, mesmo sem pureza, mesmo com cicatrizes, seja o gesto mais radical de esperança que um ser humano pode oferecer ao mundo.

Porque, no fim, não é o amor que nos impede de amar outra vez. É o medo de sofrer com a mesma intensidade. E viver com medo nunca foi, nem nunca será, uma forma plena de viver.