
Por que continuamos alimentando vampiros com o sangue da nossa dignidade?
Há algo profundamente dilacerante na imagem que se desenha neste momento no Brasil. Imaginem por um instante: vocês estão ali, na Praça dos Três Poderes, esse altar da democracia brasileira, e sentem o vento cortante que varre a esplanada. Não é apenas brisa – é o sopro gelado da indiferença que emana dos palácios de vidro e concreto, onde homens de terno sussurram sobre números enquanto o país sangra pelos poros.
Flávio Dino, em um momento de rara clarividência institucional, nos ofereceu uma lição de geografia simbólica que deveria estar tatuada na alma de cada brasileiro: o povo está no centro da Praça dos Três Poderes. Não por acaso. Não por capricho arquitetônico. Mas porque é dele – e só dele – que emana toda a legitimidade desta República.
E no entanto, paradoxalmente cruel, é esse mesmo povo que vive crucificado entre a indiferença do Executivo, os caprichos do Judiciário e a canalhice deslavada de um Congresso que se comporta como um cassino onde a casa sempre ganha.
A Aritmética da Crueldade
Deixem-me contar uma história que talvez vocês reconheçam – porque é a história de todos nós. É a história de Maria, que acorda às 4h30 da manhã para pegar três conduções até chegar ao trabalho. É a história de João, que conta as moedas no final do mês para decidir se compra o remédio da pressão ou o gás de cozinha. É a história de milhões de brasileiros que vivem essa angústia cotidiana enquanto, nos salões refrigerados de Brasília, políticos debatem friamente se é ou não conveniente congelar o salário mínimo por seis anos.
Seis anos! Imaginem a perversidade dessa proposta. Significa dizer a Maria que ela deve se conformar com o que tem. Significa dizer a João que sua dignidade pode esperar. Significa institucionalizar a resignação como política de Estado.
E enquanto isso, esses mesmos legisladores protegem com unhas e dentes os dividendos e lucros dos super-ricos, blindando-os do Imposto de Renda com o mesmo zelo com que negam um cafezinho decente aos aposentados deste país.
A Democracia dos Parasitas
Há uma palavra que deveria nos envergonhar profundamente quando observamos o espetáculo grotesco que se desenrola no Congresso Nacional: parasitismo. Sim, parasitismo político. Porque é exatamente isso que presenciamos quando vemos parlamentares criando orçamentos secretos, liberando emendas sem rastreabilidade, transformando o erário público em moeda de troca para seus interesses mesquinhos.
O povo brasileiro não é burro – por mais que a elite política insista em tratá-lo como se fosse. O povo sabe que está sendo roubado. Sabe que está sendo enganado. Sabe que está sendo desrespeitado. E a cada dia que passa, essa consciência se aprofunda, se espalha, se organiza.
Porque vocês acham que existe tanta resistência à tributação dos super-ricos? Porque vocês acham que há tanto esforço para manter intocados os privilégios da elite financeira? A resposta é simples e amarga: porque o sistema foi desenhado para funcionar assim. Foi desenhado para sugar a energia vital dos trabalhadores e injetar nas veias dos rentistas.
O Despertar da Consciência
Mas algo está mudando. Há um rumor no ar, uma inquietação que cresce nos lares, nas ruas, nas redes sociais. É o despertar de uma consciência que não se deixa mais adormecer pelas cantigas de ninar do poder.
O povo está cansado de ser figurante na própria democracia. Está cansado de pagar a conta e não ter direito nem ao cardápio. Está cansado de sustentar monumentos enquanto vive em barracos. Está cansado de financiar a festa dos poderosos enquanto amarga o pão seco da resignação.
E quando o povo desperta, quando deixa de ser massa de manobra para se tornar força consciente, os palácios tremem. Porque sabem que toda a sua legitimidade, todo o seu poder, toda a sua soberba dependem exatamente do silêncio e da submissão daqueles que eles tanto desprezam.
A Pedagogia da Resistência
É por isso que cada curtida, cada compartilhamento, cada conversa de botequim sobre política é um ato de resistência. É por isso que informar é um ato revolucionário. É por isso que despertar consciências é o trabalho mais urgente e necessário do nosso tempo.
Porque a democracia não é um presente que nos foi dado. É uma conquista que precisamos reconquistar a cada dia. E essa reconquista passa pela compreensão de que nós, o povo, somos o centro da Praça dos Três Poderes. Não os palácios que nos cercam. Não os homens que se escondem atrás de suas fachadas imponentes. Nós.
E quando compreendermos isso plenamente, quando internalizarmos essa verdade no mais profundo da nossa alma, então – e só então – deixaremos de ser vítimas para nos tornarmos senhores do nosso próprio destino.
O povo não precisa pedir licença para ser protagonista da própria história. Precisa apenas lembrar que sempre foi.