Política e Resenha

Amigo Não é Coisa: O Que o Tempo Não Apaga, Mas o Mundo Insiste em Esquecer

 

Padre Carlos

 

Há verdades que não cabem em teorias. Elas se revelam no silêncio dos dias difíceis.

Foi assim que entendi — não nos livros, nem nos discursos, mas na carne da vida — que amigo não é coisa. Não é número, não é lista, não é estatística digital. Amigo é presença que permanece, mesmo quando tudo mais se desfaz.

Quantos amigos eu tenho? A pergunta parece simples, mas carrega um peso quase existencial. Durante muito tempo, confundi convivência com vínculo, proximidade com profundidade. Hoje sei: amigos de verdade cabem nos dedos de uma mão — e, ainda assim, sobram espaços.

A vida tem um método curioso de revelação. Ela não explica — ela seleciona.

As crises que atravessei não afastaram meus amigos. Elas fizeram algo mais profundo e mais honesto: separaram o essencial do acessório. Como o ouro no fogo, a amizade verdadeira não se perde — se revela.

E então comecei a revisitar minha própria história como quem abre um velho álbum de fotografias amareladas pelo tempo.

Vieram os amigos da infância, correndo soltos pelas ruas da Pituba, quando o bairro ainda tinha cheiro de férias e liberdade. Vieram os da adolescência, intensos, cheios de sonhos e urgências. Vieram os da militância, da Pastoral Operária, das reuniões carregadas de esperança e utopia. Vieram os do seminário, onde a fé e a filosofia disputavam espaço dentro de nós.

E então veio a pergunta inevitável:

Por onde andam?

Onde estão aqueles que um dia foram quase extensão da minha própria vida?

A resposta não veio em forma de localização — mas de ausência.

A vida seguiu. Os caminhos se abriram em direções diferentes. Mudaram-se cidades, rotinas, crenças, prioridades. E, com isso, algo inevitável aconteceu: a distância deixou de ser apenas geográfica e passou a ser existencial.

Naquele tempo, não havia redes sociais, nem internet, nem facilidade de comunicação. O silêncio era real, concreto, definitivo. Hoje, paradoxalmente, temos tudo isso — e ainda assim, continuamos distantes.

A tecnologia encurtou caminhos, mas não recriou vínculos.

Reencontrei alguns nomes no Facebook. Fotos, curtidas, breves mensagens. Mas algo estava diferente. Ou talvez estivesse igual demais — congelado no tempo. A amizade permanecia como memória, mas não como experiência viva.

E foi aí que compreendi uma das maiores ilusões do nosso tempo: a ideia de que conexão digital substitui conexão humana.

Não substitui.

Podemos ter milhares de “amigos” nas redes sociais, mas isso não elimina a solidão contemporânea. Pelo contrário — muitas vezes a aprofunda. Porque quantidade nunca foi sinônimo de vínculo, e visibilidade jamais significou intimidade.

A amizade verdadeira exige tempo, presença, escuta, silêncio compartilhado. Exige atravessar crises, suportar diferenças, permanecer quando seria mais fácil desaparecer.

Amizade não se constrói com cliques.

Constrói-se com vida.

E talvez por isso ela seja tão rara.

Hoje, olho para o presente com mais lucidez. As amizades que construí em Vitória da Conquista, nos últimos anos, carregam esse aprendizado. Já não busco quantidade — busco verdade. Já não me impressiono com proximidade aparente — valorizo presença real.

Porque, no fim, a vida nos ensina algo simples e duro:

Triste não é ter poucos amigos. Triste é nunca ter conhecido uma amizade verdadeira.

Amigos não desaparecem — eles se transformam em memória, em marca, em parte de quem nos tornamos. Alguns ficam no passado, outros resistem no presente, poucos caminham conosco até o futuro.

Mas todos, de alguma forma, nos constituem.

E é por isso que amigo não é coisa.

Coisas se guardam em prateleiras. Amigos se guardam no coração — onde o tempo não apaga, apenas transforma em eternidade silenciosa.

E talvez essa seja a medida mais honesta da vida:

Não quantos amigos tivemos.
Mas quantos, de fato, permaneceram quando o mundo inteiro foi embora.

Amigo Não é Coisa: O Que o Tempo Não Apaga, Mas o Mundo Insiste em Esquecer

 

Padre Carlos

 

Há verdades que não cabem em teorias. Elas se revelam no silêncio dos dias difíceis.

Foi assim que entendi — não nos livros, nem nos discursos, mas na carne da vida — que amigo não é coisa. Não é número, não é lista, não é estatística digital. Amigo é presença que permanece, mesmo quando tudo mais se desfaz.

Quantos amigos eu tenho? A pergunta parece simples, mas carrega um peso quase existencial. Durante muito tempo, confundi convivência com vínculo, proximidade com profundidade. Hoje sei: amigos de verdade cabem nos dedos de uma mão — e, ainda assim, sobram espaços.

A vida tem um método curioso de revelação. Ela não explica — ela seleciona.

As crises que atravessei não afastaram meus amigos. Elas fizeram algo mais profundo e mais honesto: separaram o essencial do acessório. Como o ouro no fogo, a amizade verdadeira não se perde — se revela.

E então comecei a revisitar minha própria história como quem abre um velho álbum de fotografias amareladas pelo tempo.

Vieram os amigos da infância, correndo soltos pelas ruas da Pituba, quando o bairro ainda tinha cheiro de férias e liberdade. Vieram os da adolescência, intensos, cheios de sonhos e urgências. Vieram os da militância, da Pastoral Operária, das reuniões carregadas de esperança e utopia. Vieram os do seminário, onde a fé e a filosofia disputavam espaço dentro de nós.

E então veio a pergunta inevitável:

Por onde andam?

Onde estão aqueles que um dia foram quase extensão da minha própria vida?

A resposta não veio em forma de localização — mas de ausência.

A vida seguiu. Os caminhos se abriram em direções diferentes. Mudaram-se cidades, rotinas, crenças, prioridades. E, com isso, algo inevitável aconteceu: a distância deixou de ser apenas geográfica e passou a ser existencial.

Naquele tempo, não havia redes sociais, nem internet, nem facilidade de comunicação. O silêncio era real, concreto, definitivo. Hoje, paradoxalmente, temos tudo isso — e ainda assim, continuamos distantes.

A tecnologia encurtou caminhos, mas não recriou vínculos.

Reencontrei alguns nomes no Facebook. Fotos, curtidas, breves mensagens. Mas algo estava diferente. Ou talvez estivesse igual demais — congelado no tempo. A amizade permanecia como memória, mas não como experiência viva.

E foi aí que compreendi uma das maiores ilusões do nosso tempo: a ideia de que conexão digital substitui conexão humana.

Não substitui.

Podemos ter milhares de “amigos” nas redes sociais, mas isso não elimina a solidão contemporânea. Pelo contrário — muitas vezes a aprofunda. Porque quantidade nunca foi sinônimo de vínculo, e visibilidade jamais significou intimidade.

A amizade verdadeira exige tempo, presença, escuta, silêncio compartilhado. Exige atravessar crises, suportar diferenças, permanecer quando seria mais fácil desaparecer.

Amizade não se constrói com cliques.

Constrói-se com vida.

E talvez por isso ela seja tão rara.

Hoje, olho para o presente com mais lucidez. As amizades que construí em Vitória da Conquista, nos últimos anos, carregam esse aprendizado. Já não busco quantidade — busco verdade. Já não me impressiono com proximidade aparente — valorizo presença real.

Porque, no fim, a vida nos ensina algo simples e duro:

Triste não é ter poucos amigos. Triste é nunca ter conhecido uma amizade verdadeira.

Amigos não desaparecem — eles se transformam em memória, em marca, em parte de quem nos tornamos. Alguns ficam no passado, outros resistem no presente, poucos caminham conosco até o futuro.

Mas todos, de alguma forma, nos constituem.

E é por isso que amigo não é coisa.

Coisas se guardam em prateleiras. Amigos se guardam no coração — onde o tempo não apaga, apenas transforma em eternidade silenciosa.

E talvez essa seja a medida mais honesta da vida:

Não quantos amigos tivemos.
Mas quantos, de fato, permaneceram quando o mundo inteiro foi embora.

O TOM DA ALMA: QUANDO ORAR É FAZER POESIA (Padre Carlos)

 

 

 Padre Carlos

 

Há frases que não chegam — pousam.

Não entram pela razão, mas pela alma. E, quando chegam assim, silenciosas e profundas, tornam-se mais que palavras: tornam-se caminho. Foi assim com a frase que recebi de uma amiga, dessas que a vida nos oferece como quem entrega uma chave sem dizer qual porta ela abre.

“É bom termos sempre cuidado ao falarmos. É que o significado real do que falamos está muito mais no tom da nossa voz do que no sentido gramatical de cada palavra.”

Confesso: não foi uma leitura. Foi uma revelação.

Vivemos numa época em que as palavras se multiplicam, mas os sentidos se perdem. Falamos demais — e escutamos de menos. Argumentamos com perfeição gramatical, mas, muitas vezes, ferimos com a entonação. Dizemos “eu te amo” com pressa. Dizemos “me perdoe” sem presença. E, assim, a palavra, que deveria ser ponte, vira muro.

É nesse ponto que a oração e a poesia se encontram.

Porque quem ora não está preocupado com a gramática — está preocupado com a verdade. E a verdade não mora na sintaxe, mora no tom. Mora na respiração entre uma palavra e outra. Mora no silêncio que sustenta a frase.

Orar, no fundo, é falar com o invisível usando a voz da alma.

E o poeta faz exatamente o mesmo.

Quando alguém escreve um poema, está tentando dizer o indizível. Está buscando, nas palavras, aquilo que transborda delas. E quando declama — ah, quando declama! — é o tom que revela o que o papel não consegue conter. É o tremor da voz, é a pausa, é a intensidade que transforma palavras comuns em experiência viva.

Por isso, talvez, toda oração seja um poema — e todo poema, uma oração disfarçada.

Ambos nascem do mesmo lugar: a necessidade humana de significar a dor e a beleza.

Ambos tentam organizar o caos interior em forma de som.

Ambos são tentativas de tocar o outro — seja Deus, seja o próximo.

E foi aí que me lembrei da sabedoria simples e cortante do poeta nordestino Mão Branca:

“Na verdade
Quem ama perdoa
Quem não perdoa
Não sabe amar
Às vezes uma palavra à toa
Magoa, magoa, magoa.”

Veja: não é apenas o que se diz — é como se diz. Uma palavra “à toa” pode carregar descuido, desprezo, ausência. E isso, dito com o tom errado, fere mais do que longos discursos.

A repetição do “magoa” não é estética apenas — é sonora, é emocional, é quase uma martelada na consciência. Isso é poesia. Mas também é oração. Porque é um clamor. Um alerta. Uma súplica para que sejamos mais cuidadosos, mais humanos, mais presentes.

Talvez o grande drama do nosso tempo não seja a falta de palavras — mas a falta de alma nelas.

Falamos como quem cumpre tarefa. Amamos como quem preenche protocolo. Pedimos perdão como quem resolve um problema burocrático.

E esquecemos que o tom é a assinatura da alma.

Na oração, isso se torna ainda mais evidente. Não é a quantidade de palavras que move o coração de Deus — é a verdade com que elas são ditas. Uma oração simples, dita com autenticidade, pode ter mais força do que longas fórmulas decoradas.

Porque Deus — se me permite dizer — não escuta palavras. Ele escuta intenções.

Assim como nós.

No fundo, todos nós sabemos quando alguém está sendo verdadeiro. O corpo percebe, o coração identifica. Há uma espécie de sintonia invisível que nos faz distinguir o discurso da entrega.

E é exatamente aí que mora o milagre da poesia e da oração: ambas nos devolvem à autenticidade.

Elas nos obrigam a sentir antes de falar.

A viver antes de expressar.

A silenciar antes de dizer.

Talvez seja por isso que a frase da minha amiga não apenas me ajudou na oração — ela me ensinou a rezar de novo. Não com palavras mais bonitas, mas com um tom mais verdadeiro. Não com frases perfeitas, mas com sentimentos inteiros.

E, no fim das contas, é isso que fica:

Quem ora, escreve poesia com a voz.
Quem escreve poesia, ora com as palavras.

E quem aprende a cuidar do tom…
começa, finalmente, a cuidar da alma.

O TOM DA ALMA: QUANDO ORAR É FAZER POESIA (Padre Carlos)

 

 

 Padre Carlos

 

Há frases que não chegam — pousam.

Não entram pela razão, mas pela alma. E, quando chegam assim, silenciosas e profundas, tornam-se mais que palavras: tornam-se caminho. Foi assim com a frase que recebi de uma amiga, dessas que a vida nos oferece como quem entrega uma chave sem dizer qual porta ela abre.

“É bom termos sempre cuidado ao falarmos. É que o significado real do que falamos está muito mais no tom da nossa voz do que no sentido gramatical de cada palavra.”

Confesso: não foi uma leitura. Foi uma revelação.

Vivemos numa época em que as palavras se multiplicam, mas os sentidos se perdem. Falamos demais — e escutamos de menos. Argumentamos com perfeição gramatical, mas, muitas vezes, ferimos com a entonação. Dizemos “eu te amo” com pressa. Dizemos “me perdoe” sem presença. E, assim, a palavra, que deveria ser ponte, vira muro.

É nesse ponto que a oração e a poesia se encontram.

Porque quem ora não está preocupado com a gramática — está preocupado com a verdade. E a verdade não mora na sintaxe, mora no tom. Mora na respiração entre uma palavra e outra. Mora no silêncio que sustenta a frase.

Orar, no fundo, é falar com o invisível usando a voz da alma.

E o poeta faz exatamente o mesmo.

Quando alguém escreve um poema, está tentando dizer o indizível. Está buscando, nas palavras, aquilo que transborda delas. E quando declama — ah, quando declama! — é o tom que revela o que o papel não consegue conter. É o tremor da voz, é a pausa, é a intensidade que transforma palavras comuns em experiência viva.

Por isso, talvez, toda oração seja um poema — e todo poema, uma oração disfarçada.

Ambos nascem do mesmo lugar: a necessidade humana de significar a dor e a beleza.

Ambos tentam organizar o caos interior em forma de som.

Ambos são tentativas de tocar o outro — seja Deus, seja o próximo.

E foi aí que me lembrei da sabedoria simples e cortante do poeta nordestino Mão Branca:

“Na verdade
Quem ama perdoa
Quem não perdoa
Não sabe amar
Às vezes uma palavra à toa
Magoa, magoa, magoa.”

Veja: não é apenas o que se diz — é como se diz. Uma palavra “à toa” pode carregar descuido, desprezo, ausência. E isso, dito com o tom errado, fere mais do que longos discursos.

A repetição do “magoa” não é estética apenas — é sonora, é emocional, é quase uma martelada na consciência. Isso é poesia. Mas também é oração. Porque é um clamor. Um alerta. Uma súplica para que sejamos mais cuidadosos, mais humanos, mais presentes.

Talvez o grande drama do nosso tempo não seja a falta de palavras — mas a falta de alma nelas.

Falamos como quem cumpre tarefa. Amamos como quem preenche protocolo. Pedimos perdão como quem resolve um problema burocrático.

E esquecemos que o tom é a assinatura da alma.

Na oração, isso se torna ainda mais evidente. Não é a quantidade de palavras que move o coração de Deus — é a verdade com que elas são ditas. Uma oração simples, dita com autenticidade, pode ter mais força do que longas fórmulas decoradas.

Porque Deus — se me permite dizer — não escuta palavras. Ele escuta intenções.

Assim como nós.

No fundo, todos nós sabemos quando alguém está sendo verdadeiro. O corpo percebe, o coração identifica. Há uma espécie de sintonia invisível que nos faz distinguir o discurso da entrega.

E é exatamente aí que mora o milagre da poesia e da oração: ambas nos devolvem à autenticidade.

Elas nos obrigam a sentir antes de falar.

A viver antes de expressar.

A silenciar antes de dizer.

Talvez seja por isso que a frase da minha amiga não apenas me ajudou na oração — ela me ensinou a rezar de novo. Não com palavras mais bonitas, mas com um tom mais verdadeiro. Não com frases perfeitas, mas com sentimentos inteiros.

E, no fim das contas, é isso que fica:

Quem ora, escreve poesia com a voz.
Quem escreve poesia, ora com as palavras.

E quem aprende a cuidar do tom…
começa, finalmente, a cuidar da alma.

ARTIGO – O Evangelho da Conveniência: Como a Política da Bahia Redescobriu Judas Sob Medida

 

(Padre Carlos)

Na política da Bahia, a teologia muda conforme a liturgia do poder. Há dias em que certos personagens são ungidos como promessa de redenção eleitoral; em outros, sem que tenham mudado uma vírgula de suas práticas, são lançados ao fogo como hereges. O caso de Zé Cocá é exemplar — não por sua singularidade, mas justamente por sua banalidade nos bastidores do poder.

Até ontem, era o “vice dos sonhos”. Hoje, com a mesma biografia, os mesmos gestos e a mesma trajetória, virou Judas. Não consta que tenha traído ninguém no sentido clássico do termo; apenas parece ter cometido o pecado capital da política contemporânea: escolher o lado “errado” na hora “errada”.

Convém reconstituir os fatos, porque a memória, em tempos de conveniência, costuma ser seletiva. Zé Cocá não surgiu como um corpo estranho ao sistema. Ao contrário, foi parte orgânica de uma engrenagem que sempre soube acomodar divergências quando elas serviam à governabilidade. Em um momento, foi adversário; em outro, parceiro útil. Recebeu investimentos, foi cortejado, teve sua gestão celebrada — tudo dentro da mais perfeita normalidade republicana, ao menos naquela versão do republicanismo que funciona quando convém.

E aqui entra o detalhe que merece atenção: o mesmo grupo político que hoje o acusa de traição não hesitou, no passado, em operar movimentos semelhantes quando isso favorecia sua própria articulação política. Mas, como se sabe, há uma diferença fundamental entre o gesto e o narrador do gesto. Quando o movimento parte do centro do poder, chama-se estratégia. Quando vem da periferia do jogo, vira deslealdade.

A transformação de Cocá em símbolo negativo diz menos sobre ele e mais sobre quem o acusa. Afinal, o que mudou? Não foi sua história, tampouco sua forma de fazer política. O que mudou foi sua utilidade. E, na política da Bahia — como em qualquer outro ambiente onde a governabilidade se constrói à base de alianças voláteis — utilidade é virtude. A perda dela, por outro lado, costuma ser rebatizada de falha moral.

É curioso observar como o discurso do republicanismo emerge com força justamente quando alguém decide não seguir o roteiro previamente escrito. Fala-se em princípios, em lealdade, em compromisso com projetos coletivos. Tudo muito nobre — ao menos no plano retórico. Porque, na prática, o que está em jogo é a clássica disputa por espaço, influência e sobrevivência nas eleições de 2026.

Nos bastidores do poder, ninguém ignora que Zé Cocá se tornou peça estratégica. Sua força regional, consolidada por uma votação expressiva, transformou-o em ativo político valioso. E ativos, como no mercado financeiro, não têm amigos — têm interessados. Quando valorizam, são disputados. Quando mudam de carteira, passam a ser vistos como risco.

Daí a rapidez com que o “gestor exemplar” se converteu em figura suspeita. A mesma trajetória que antes servia como argumento de legitimidade agora é reinterpretada como evidência de oportunismo. Não há, evidentemente, qualquer contradição nisso — ao menos não para quem entende que, na política, coerência é um bem altamente superestimado.

A ironia maior talvez resida no fato de que o rótulo de traidor costuma ser aplicado com especial vigor por aqueles cuja biografia política é marcada por alianças circunstanciais, rearranjos estratégicos e reconciliações improváveis. Mas, como ensina a experiência, a memória é um instrumento maleável — sobretudo quando o objetivo é preservar a narrativa conveniente.

Zé Cocá, nesse enredo, cumpre o papel clássico do personagem que ousa sair do script. Não é o primeiro, nem será o último. A política da Bahia já viu esse filme antes, com outros nomes e em outros contextos. A diferença é que, a cada nova edição, os protagonistas fingem surpresa, como se a dinâmica do poder fosse regida por códigos morais estáveis e não por interesses em permanente negociação.

No fim das contas, o episódio revela mais sobre a crise de alianças do que sobre qualquer suposta quebra de lealdade. Mostra um sistema que ainda se pretende moralmente superior, mas que reage com irritação quando suas próprias regras informais são usadas contra ele. E expõe, com certa elegância involuntária, o abismo entre o discurso público e a prática política.

Talvez Zé Cocá saia maior desse processo. Não necessariamente pelas urnas, mas pela simples condição de ter se tornado relevante o suficiente para incomodar. Na política, isso costuma ser um sinal inequívoco de sucesso.

Porque, no jogo do poder, a lealdade raramente é um valor absoluto. É, antes, uma variável dependente — ajustada conforme a conveniência de quem a reivindica. E, nesse sentido, Judas não é quem trai. É, quase sempre, quem deixa de ser útil.

ARTIGO – O Evangelho da Conveniência: Como a Política da Bahia Redescobriu Judas Sob Medida

 

(Padre Carlos)

Na política da Bahia, a teologia muda conforme a liturgia do poder. Há dias em que certos personagens são ungidos como promessa de redenção eleitoral; em outros, sem que tenham mudado uma vírgula de suas práticas, são lançados ao fogo como hereges. O caso de Zé Cocá é exemplar — não por sua singularidade, mas justamente por sua banalidade nos bastidores do poder.

Até ontem, era o “vice dos sonhos”. Hoje, com a mesma biografia, os mesmos gestos e a mesma trajetória, virou Judas. Não consta que tenha traído ninguém no sentido clássico do termo; apenas parece ter cometido o pecado capital da política contemporânea: escolher o lado “errado” na hora “errada”.

Convém reconstituir os fatos, porque a memória, em tempos de conveniência, costuma ser seletiva. Zé Cocá não surgiu como um corpo estranho ao sistema. Ao contrário, foi parte orgânica de uma engrenagem que sempre soube acomodar divergências quando elas serviam à governabilidade. Em um momento, foi adversário; em outro, parceiro útil. Recebeu investimentos, foi cortejado, teve sua gestão celebrada — tudo dentro da mais perfeita normalidade republicana, ao menos naquela versão do republicanismo que funciona quando convém.

E aqui entra o detalhe que merece atenção: o mesmo grupo político que hoje o acusa de traição não hesitou, no passado, em operar movimentos semelhantes quando isso favorecia sua própria articulação política. Mas, como se sabe, há uma diferença fundamental entre o gesto e o narrador do gesto. Quando o movimento parte do centro do poder, chama-se estratégia. Quando vem da periferia do jogo, vira deslealdade.

A transformação de Cocá em símbolo negativo diz menos sobre ele e mais sobre quem o acusa. Afinal, o que mudou? Não foi sua história, tampouco sua forma de fazer política. O que mudou foi sua utilidade. E, na política da Bahia — como em qualquer outro ambiente onde a governabilidade se constrói à base de alianças voláteis — utilidade é virtude. A perda dela, por outro lado, costuma ser rebatizada de falha moral.

É curioso observar como o discurso do republicanismo emerge com força justamente quando alguém decide não seguir o roteiro previamente escrito. Fala-se em princípios, em lealdade, em compromisso com projetos coletivos. Tudo muito nobre — ao menos no plano retórico. Porque, na prática, o que está em jogo é a clássica disputa por espaço, influência e sobrevivência nas eleições de 2026.

Nos bastidores do poder, ninguém ignora que Zé Cocá se tornou peça estratégica. Sua força regional, consolidada por uma votação expressiva, transformou-o em ativo político valioso. E ativos, como no mercado financeiro, não têm amigos — têm interessados. Quando valorizam, são disputados. Quando mudam de carteira, passam a ser vistos como risco.

Daí a rapidez com que o “gestor exemplar” se converteu em figura suspeita. A mesma trajetória que antes servia como argumento de legitimidade agora é reinterpretada como evidência de oportunismo. Não há, evidentemente, qualquer contradição nisso — ao menos não para quem entende que, na política, coerência é um bem altamente superestimado.

A ironia maior talvez resida no fato de que o rótulo de traidor costuma ser aplicado com especial vigor por aqueles cuja biografia política é marcada por alianças circunstanciais, rearranjos estratégicos e reconciliações improváveis. Mas, como ensina a experiência, a memória é um instrumento maleável — sobretudo quando o objetivo é preservar a narrativa conveniente.

Zé Cocá, nesse enredo, cumpre o papel clássico do personagem que ousa sair do script. Não é o primeiro, nem será o último. A política da Bahia já viu esse filme antes, com outros nomes e em outros contextos. A diferença é que, a cada nova edição, os protagonistas fingem surpresa, como se a dinâmica do poder fosse regida por códigos morais estáveis e não por interesses em permanente negociação.

No fim das contas, o episódio revela mais sobre a crise de alianças do que sobre qualquer suposta quebra de lealdade. Mostra um sistema que ainda se pretende moralmente superior, mas que reage com irritação quando suas próprias regras informais são usadas contra ele. E expõe, com certa elegância involuntária, o abismo entre o discurso público e a prática política.

Talvez Zé Cocá saia maior desse processo. Não necessariamente pelas urnas, mas pela simples condição de ter se tornado relevante o suficiente para incomodar. Na política, isso costuma ser um sinal inequívoco de sucesso.

Porque, no jogo do poder, a lealdade raramente é um valor absoluto. É, antes, uma variável dependente — ajustada conforme a conveniência de quem a reivindica. E, nesse sentido, Judas não é quem trai. É, quase sempre, quem deixa de ser útil.

 Uma bancada velha  que destruiu o PT por dentro

 

Por que Lula tem razão, e por que a bancada de deputado federal baiana é o espelho mais fiel desse problema

Há momentos em que a lucidez política surge de onde menos se espera: não de um manifesto programático, não de uma convenção partidária, mas de um presidente de oitenta anos olhando para o espelho e dizendo, em voz alta, o que muitos preferem sussurrar nos corredores. Quando Lula instruiu a direção do PT a buscar candidatos jovens e declarou publicamente que o partido está “ficando velho”, ele não apenas enunciou um diagnóstico óbvio — ele fez algo politicamente custoso. Apontou o problema de dentro, correndo o risco de desagradar justamente aqueles que sustentam sua base parlamentar.

E ele tem razão. Razão plena.

O PT carrega hoje a terceira média de idade mais alta da Câmara dos Deputados — 59,2 anos. Isso não é apenas um número. É a tradução estatística de um partido que, ao longo de décadas, foi construindo muros invisíveis contra a renovação, protegendo mandatos, garantindo redutos e confundindo experiência com ossificação. A fala do próprio Lula entrega o mecanismo interno: “No PT, a gente fala muito em igualdade, mas está cheio de companheiro deputado que não quer que saia outro deputado para não concorrer com ele.” Não há retórica mais honesta que essa.

Mas se o problema nacional já é grave, o problema baiano é estrutural.

A bancada do PT na Bahia, forjada ao longo de décadas de hegemonia estadual, carrega uma característica que vai além da média de idade: ela foi construída sobre fidelidades, não sobre projetos. Nomes que entraram na política quando o PT ainda era jovem e rebelde foram se acomodando nos gabinetes, nos fundos partidários e nas listas de coligação, tornando-se parte da própria estrutura que um dia prometeram transformar. O resultado é uma representação que, em muitos casos, conhece mais as pautas do passado do que os desafios do presente.

A Bahia, vale lembrar, é um estado de contrastes brutais e de uma juventude que pulsa com força própria — nas periferias de Salvador, nos movimentos culturais do interior, nas universidades públicas que formam uma geração politicamente ativa e sem padrinho. Essa juventude, frequentemente, não se vê nas listas eleitorais do partido que historicamente foi seu lar natural. E quando não se vê representada, ela migra — para outras legendas, para o abstencionismo, para o vazio que os extremos adoram preencher.

Não é coincidência que Lula perca hoje para Flávio Bolsonaro entre eleitores de 16 a 24 anos em levantamentos recentes. Essa não é uma derrota ideológica — é uma derrota geracional. E ela começa exatamente onde o PT falhou em se renovar: nas bancadas estaduais, nas câmaras municipais, nas listas que chegam a cada eleição com os mesmos rostos de sempre.

Rejuvenescer uma bancada não significa abandonar a memória. Significa ter a coragem de perceber que a memória, sozinha, não governa. Os filhos e netos daqueles que foram à passeata das Diretas Já precisam encontrar no PT um espaço que seja deles — não uma herança administrada por quem não quer largar o inventário.

Lula abriu a porta. Agora cabe à Bahia — ao seu diretório estadual, às suas lideranças municipais, às suas figuras mais influentes — decidir se vão atravessá-la ou apenas admirá-la de longe, esperando que o problema se resolva sozinho.

O problema não se resolve sozinho. Nunca se resolveu.

A renovação não é traição à história. É o único jeito de não ser devorado por ela.

 

Hegemonia e Estagnação: Uma Análise Estrutural da Bancada Federal do PT na Bahia e o Fenômeno da Não-Renovação

A paisagem política da Bahia, ao longo das últimas duas décadas, foi marcada por uma estabilidade institucional sem precedentes sob a égide do Partido dos Trabalhadores (PT). Desde a vitória de Jaques Wagner em 2006, o partido logrou êxito em estabelecer um ciclo de poder que já se estende por cinco mandatos consecutivos no Poder Executivo estadual. Contudo, ao observar a bancada federal petista na Câmara dos Deputados, nota-se um fenômeno distinto da alternância observada no governo do estado. Enquanto o Executivo promoveu transições de liderança entre Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, a representação legislativa em Brasília consolidou-se em torno de um núcleo de veteranos cujas carreiras se entrelaçam com a própria história da redemocratização e da fundação da legenda no estado. Esta análise busca desvelar a métrica da permanência desses parlamentares, os mecanismos que asseguram sua longevidade e as implicações da escassa renovação geracional para o ecossistema político baiano.

A Métrica da Longevidade: O Tempo como Ativo Político

Para compreender a extensão da permanência da bancada federal do PT da Bahia no poder, é necessário expandir a análise para além do exercício estrito do mandato de deputado federal. A política baiana opera em um sistema de “carreira ascendente” ou “porta giratória”, onde lideranças alternam-se entre mandatos eletivos e cargos de alto escalão no Poder Executivo estadual e federal. Dessa forma, um parlamentar pode estar “no poder” há décadas, mesmo que tenha trocado de cargo ou esfera de atuação ao longo do período.

Ao calcular a média de tempo em cargos de relevância (sejam eles eletivos ou por nomeação política de alto nível), observa-se que o núcleo duro da bancada petista baiana possui uma trajetória que, em média, supera os vinte anos de presença contínua nos centros de decisão.

Tabela 1: Cronologia de Permanência e Ciclos de Poder (Bancada PT-BA)

Parlamentar Início em Cargo de Relevância Cargos Ocupados (Resumo) Anos de Atuação Contínua (aprox.)
Jorge Solla 1999 Sec. Municipal (Conquista), Sec. Estadual (BA), Dep. Federal 27 anos
Zé Neto 2001 Vereador (Feira), Dep. Estadual (4 mandatos), Dep. Federal 25 anos
Joseildo Ramos 2001 Prefeito (Alagoinhas), Dep. Estadual, Dep. Federal 25 anos
Waldenor Pereira 2003 Dep. Estadual (2 mandatos), Dep. Federal (4 mandatos) 23 anos
Josias Gomes 2003 Dep. Federal (vários), Sec. Estadual (Relações Inst., Des. Rural) 23 anos
Valmir Assunção 2005 Dep. Estadual, Sec. Estadual (Combate à Pobreza), Dep. Federal 21 anos
Afonso Florence 2007 Sec. Estadual (Casa Civil, SEDUR), Ministro (MDA), Dep. Federal 19 anos
Ivoneide Caetano 2023 Deputada Federal (Primeiro mandato eletivo) 3 anos

 

A aplicação de um modelo estatístico para determinar a média de permanência revela a calcificação da representação. Definindo Tp​ como o tempo total de permanência de cada indivíduo em postos de comando e n como o número de parlamentares analisados, a média aritmética Aˉ é expressa pela fórmula:

Aˉ=n1​i=1∑nTp,i

Utilizando os dados da Tabela 1 para os oito nomes que orbitam a bancada titular e a suplência imediata em exercício:

Aˉ=827+25+25+23+23+21+19+3​=20,75 anos

Este valor de 20,75 anos de permanência média indica que a renovação no PT da Bahia não é um processo de substituição de elites, mas sim de acréscimo pontual ou sucessão familiar, como no caso de Ivoneide Caetano, cujo ingresso ocorre em uma base política já consolidada por seu cônjuge, Luiz Caetano, veterano com décadas de atuação.

Anatomia da Imobilidade: Por que os “Caciques” Permanecem?

A manutenção desses nomes na Câmara dos Deputados por múltiplos mandatos não é um evento fortuito; ela deriva de uma arquitetura política que privilegia a consolidação de bases territoriais e setoriais quase impenetráveis por novos atores. O PT baiano especializou-se na criação de representações “orgânicas”, onde cada deputado federal atua como o embaixador de um segmento social ou de uma região geográfica específica.

O Segmento Sanitarista: A Hegemonia de Jorge Solla

Jorge Solla exemplifica a permanência baseada na especialização técnica e política. Sua trajetória iniciada na militância estudantil em 1979 e consolidada na fundação do PT na Bahia evoluiu para uma carreira de gestor que lhe conferiu controle sobre as redes de saúde. Ao ocupar a Secretaria de Saúde da Bahia (SESAB) entre 2007 e 2014, Solla estruturou uma rede de influência que abrange desde a alta gestão hospitalar até os agentes comunitários de saúde.

Essa base é resiliente porque se fundamenta na prestação de serviços e na pauta corporativa do setor de saúde. Nas eleições de 2018 e 2022, Solla manteve votações expressivas (135 mil e 128 mil votos, respectivamente), demonstrando que seu eleitorado não busca “renovação”, mas sim a manutenção de um interlocutor direto com o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais. A longevidade de Solla impede a ascensão de novas lideranças na área da saúde coletiva que desejem pleitear representação federal, uma vez que o espaço político já está totalmente ocupado por sua estrutura de campanha permanente.

A Questão Agrária e o MST: A Cadeira de Valmir Assunção

Outro pilar da imobilidade é a representação de movimentos sociais de massa. Valmir Assunção, vinculado à direção nacional do MST desde 1990, ocupa espaços legislativos desde 2005. Sua permanência na Câmara Federal (desde 2011) é vista como estratégica para o movimento, que prefere manter um quadro experiente e com trânsito em Brasília a arriscar-se em uma renovação que poderia fragilizar a articulação política da reforma agrária.

O mandato de Valmir funciona como uma embaixada do MST no Parlamento. Projetos como a remissão de dívidas de agricultores (Lei 13.001/2014) e a defesa de políticas para comunidades tradicionais cimentam sua base eleitoral. A ausência de renovação neste caso é uma decisão deliberada do movimento, que prioriza a “acumulação de força” através da senioridade parlamentar. Contudo, o efeito colateral é o bloqueio para que novas lideranças jovens do campo ascendam à política institucional, criando um vácuo geracional nas frentes de luta.

As Bases Regionais: Waldenor Pereira, Zé Neto e Joseildo Ramos

A permanência de Waldenor Pereira, Zé Neto e Joseildo Ramos está atrelada ao domínio de polos regionais: Vitória da Conquista, Feira de Santana e Alagoinhas, respectivamente.

Waldenor Pereira, com 23 anos de poder, utiliza sua origem acadêmica e o prestígio como ex-reitor da UESB para monopolizar a representação do PT no Sudoeste baiano. Zé Neto, com 25 anos de atuação entre a vereança e a Câmara Federal, tornou-se a face onipresente do partido em Feira de Santana, acumulando mandatos estaduais e federais de forma ininterrupta. Joseildo Ramos segue lógica similar em Alagoinhas, onde foi prefeito por dois mandatos antes de migrar para a esfera legislativa.

Esses parlamentares tornaram-se “instituições regionais”. Suas estruturas de gabinete funcionam como verdadeiras prefeituras paralelas, distribuindo emendas e mediando conflitos locais. Essa eficácia administrativa gera um ciclo de reeleição automática que desencoraja candidaturas de jovens vereadores ou lideranças locais do próprio PT, que sabem ser impossível competir com o volume de recursos e a visibilidade dos detentores de mandato.

O Mecanismo da “Suplência Eterna” e a Blindagem dos Veteranos

Um dos aspectos mais sofisticados da falta de renovação na bancada federal do PT da Bahia é o uso estratégico das suplências. O partido opera um sistema onde nenhum “quadro histórico” fica desamparado, mesmo quando não obtém votos suficientes para a eleição direta ou quando é derrotado em pleitos majoritários.

Josias Gomes é o caso paradigmático deste fenômeno. Com uma carreira iniciada em 1980 na fundação do partido e mandatos federais que remontam a 2003, Josias frequentemente alterna entre o exercício do mandato e cargos de secretário estadual. Em legislaturas onde figurou como suplente, sua ascensão ao cargo de titular foi rapidamente articulada através do licenciamento de outros nomes para compor o secretariado do governo estadual. Em 2023, ele assumiu a vaga de Afonso Florence, que se licenciou para a Casa Civil.

Este sistema de “cadeiras musicais” garante que o núcleo de poder permaneça o mesmo há duas décadas. Quando um veterano sai para o Executivo, outro veterano assume a vaga no Legislativo. A renovação real — ou seja, a entrada de um suplente que represente uma nova geração ou uma nova frente de luta — é sistematicamente barrada por este arranjo de conveniência entre o governo estadual e a bancada federal.

Tabela 2: Movimentações na Bancada e Uso de Suplências (Legislatura 57)

Titular Eleito Destino / Motivo Suplente em Exercício Perfil do Suplente
Afonso Florence Licenciado (Sec. Casa Civil-BA) Josias Gomes Veterano (desde 2003)
Zé Neto Licença Temporária (Eleições 2024) Elisângela Araújo Liderança Sindical / Agricultura Familiar
Afonso Florence Licença (Manutenção) Elisângela Araújo Retorno em 2026 como suplente

 

A entrada de Elisângela Araújo é uma das raras exceções que conferem um ar de renovação à bancada, mas seu mandato é precário e dependente da generosidade política dos titulares. A estrutura de poder do PT baiano não cria novos titulares; ela permite, ocasionalmente, que novos nomes “visitem” o Congresso Nacional, enquanto os veteranos mantêm o controle real sobre as bases eleitorais e os recursos partidários.

A Federação como Barreira à Oxigenação

A criação das federações partidárias (no caso, a Federação Brasil da Esperança: PT, PCdoB e PV) introduziu uma nova camada de proteção para os detentores de mandato. Ao unir os votos das três legendas para o cálculo do quociente eleitoral, a federação diminui o risco de perda de cadeiras para os partidos aliados, mas endurece a competição interna.

Nas eleições de 2022, a federação na Bahia elegeu uma bancada robusta, mas o resultado foi a consagração quase absoluta da continuidade. Além dos nomes do PT, figuras como Alice Portugal e Daniel Almeida (ambos do PCdoB) também possuem décadas de mandatos ininterruptos, reforçando a percepção de uma bancada “congelada” no tempo.

Tabela 3: Renovação na Bancada Federal da Bahia (Recorte 2022)

Indicador Valor para a Bahia (Geral) Valor Estimado para o PT-BA
Taxa de Renovação 31% ~12,5% (1 em 8)
Deputados Reeleitos 27 de 39 7 de 8 (incluindo suplentes de longa data)
Novos Nomes 12 de 39 1 (Ivoneide Caetano)

 

A discrepância entre a renovação geral da bancada baiana (31%) e a do PT (aproximadamente 12%) é reveladora. Enquanto outros partidos, por pressões de mercado eleitoral ou crises internas, promovem alguma oxigenação, o PT baiano utiliza sua posição de hegemonia governamental para abafar dissidências e manter o status quo. A renovação de 31% na Bahia foi a segunda menor do Nordeste, o que indica que o estado como um todo vive um processo de estabilização de elites, com o PT liderando este movimento de resistência à mudança.

Implicações Sociais e Políticas da Falta de Renovação

A permanência prolongada de um mesmo grupo no poder federal tem consequências profundas para a representatividade democrática. Embora o PT baiano argumente que a continuidade garante experiência e capacidade de articulação, críticos e analistas apontam para o surgimento de vícios estruturais e o distanciamento de novas realidades sociais.

O Teto de Vidro da Juventude e da Diversidade

A direção do PT na Bahia afirma que a renovação ocorre “nas bases” e em cargos do governo estadual. No entanto, há um claro “teto de vidro” para a representação legislativa. Lideranças jovens que surgem no movimento estudantil ou em frentes periféricas não encontram caminho para a Câmara Federal porque as vagas estão “reservadas” aos veteranos.

A ausência de renovação também afeta a diversidade de gênero e raça na bancada. Ivoneide Caetano foi a única mulher eleita pelo PT da Bahia em 2022, uma marca pífia para um partido que defende a paridade em seus discursos. A permanência de homens brancos veteranos (como Solla, Waldenor, Zé Neto e Florence) bloqueia a ascensão de mulheres negras e jovens que são a base militante da legenda no estado.

O Risco da Esclerose Programática

Um parlamentar que ocupa o mesmo cargo por 20 anos tende a cristalizar suas pautas. A bancada petista baiana é reconhecida por sua atuação em áreas tradicionais: educação superior, saúde pública e agricultura familiar. No entanto, temas emergentes como a economia digital, a reforma do estado, as novas dinâmicas urbanas e as questões ambientais de nova geração sofrem com a falta de “sangue novo” no debate parlamentar.

A dependência de um “núcleo histórico envelhecido” torna o partido vulnerável às mudanças de humor do eleitorado jovem, que não se vê representado em figuras que já estavam no poder antes mesmo de esses eleitores nascerem. O PT corre o risco de se tornar um partido de “gestores e veteranos”, perdendo a capacidade de conexão emocional e discursiva com as novas classes trabalhadoras.

O Suicídio Político em Câmera Lenta: Quando o Deputado Destrói o Deputado

Há derrotas que ensinam. Há derrotas que apenas confirmam o que já se sabia. E há um terceiro tipo — mais raro e mais grave — que não apenas registra um fracasso pontual, mas corrói ativamente o capital político que o derrotado ainda possuía. As candidaturas de Zé Neto e Waldenor Pereira em 2024 pertencem, com distinção, a essa terceira categoria.

A responsabilidade pelo que ocorreu não está no adversário que venceu, nem no eleitorado que escolheu mal, nem no contexto político desfavorável. Está na decisão — pessoal, calculada e reiterada — de cada um desses parlamentares de colocar seu próprio nome onde ele não cabia mais.

Zé Neto: a sexta vez como epitáfio

Zé Neto não perdeu uma eleição em 2024. Zé Neto perdeu a mesma eleição pela sexta vez consecutiva. Há nesse número algo que transcende o azar e desafia a própria noção de autocrítica. Cada derrota anterior deveria ter funcionado como sinal. Funcionou, ao contrário, como combustível para a seguinte candidatura — e cada tentativa fracassada foi retirando, camada por camada, a aura de liderança que seu mandato federal ainda sustentava.

O problema não é ter perdido para José Ronaldo. O problema é que, ao insistir numa disputa que o eleitorado feirense já havia encerrado, Zé Neto transformou sua imagem de parlamentar experiente e influente na imagem de alguém que o próprio município rejeita com regularidade. Há uma diferença abissal entre ser um deputado federal respeitado que optou por não disputar a prefeitura e ser um deputado federal que tentou seis vezes e perdeu seis vezes. O eleitorado — inclusive o seu, o federal — enxerga essa diferença com uma clareza que os assessores parecem incapazes de transmitir.

Cada nova derrota municipal não é um capítulo isolado: ela reescreve retroativamente todos os anteriores. E o mandato que vem depois carrega o peso acumulado de todas as tentativas frustradas.

Waldenor Pereira: eliminado antes do intervalo

Se Zé Neto acumulou derrotas ao longo dos anos, Waldenor Pereira optou pela eficiência: foi derrotado em primeiro turno, em Vitória da Conquista, por Sheila Lemos. Não houve segundo ato. O eleitorado não considerou necessário.

A gravidade aqui é de outra natureza. Waldenor construiu sua trajetória política tendo Vitória da Conquista como base eleitoral, como território, como identidade política. Ao sair derrotado ainda no primeiro turno — sem capacidade de mobilização suficiente sequer para forçar um segundo round — ele não apenas perdeu a eleição. Ele expôs publicamente os limites reais de sua influência na cidade que deveria ser seu reduto.

E isso tem consequências que vão muito além de 2024. Um parlamentar federal tem seu poder de negociação, de articulação e de atração de recursos intimamente ligado à percepção de que ele representa alguém, que ele move votos, que ele tem território. Quando essa percepção é desmontada às urnas — no seu próprio quintal — o mandato seguinte começa enfraquecido, independentemente do número de emendas distribuídas.

O perigo real: não é a derrota, é o que ela deixa para trás

A leitura superficial diz que ambos perderam eleições municipais e seguirão como deputados federais. Essa leitura é confortável e equivocada.

O que 2024 produziu foi algo mais corrosivo: a prova documentada, registrada em votos, de que esses nomes não convertem mais. E num sistema político em que força eleitoral é moeda de troca — para alianças, para composições, para influência dentro do próprio partido —, perder essa moeda é perder poder real, independentemente do cargo que se ocupa.

O deputado que vai a Brasília depois de uma derrota dessas vai diminuído. Os aliados calculam. Os adversários anotam. Os prefeitos que precisam decidir com quem se alinham fazem a conta. A pergunta que passa a circular nos bastidores não é mais “o que esse parlamentar pode fazer por mim?” — é “esse parlamentar ainda tem força para fazer algo por alguém?”

A ironia cruel é que, ao tentarem crescer, Zé Neto e Waldenor encolheram. Ao buscarem um cargo a mais, fragilizaram o cargo que já tinham. Apostaram o capital político acumulado em anos de mandato numa disputa que o eleitorado já havia, silenciosamente, encerrado antes mesmo do primeiro debate.

Em política, há momentos em que a maior demonstração de inteligência é saber o que não disputar. Esse momento, para ambos, passou — e a conta chegou antes do que esperavam.

 

Perspectivas e o Horizonte de 2026

O cenário para as eleições de 2026 indica que o PT da Bahia enfrentará um dilema existencial. A estratégia de manter os veteranos para garantir a base de apoio a Lula no Congresso é eficaz no curto prazo, mas acelera o envelhecimento da legenda no estado.

Há uma pressão interna silenciosa por parte de secretários de estado jovens e deputados estaduais em ascensão que desejam migrar para a esfera federal. Contudo, enquanto o sistema de suplências e a influência das correntes internas (como a Articulação e a Democracia Socialista) continuarem privilegiando a senioridade, a renovação será meramente cosmética.

A média de 20,75 anos de poder para os deputados petistas baianos é um dado que confronta o discurso de “partido das transformações”. A Bahia, que foi o motor das vitórias nacionais do PT, hoje apresenta a bancada federal mais estável e, consequentemente, menos oxigenada do partido. O desafio de 2026 será promover uma transição que não desmonte as bases eleitorais construídas, mas que permita que o PT baiano volte a ser uma incubadora de lideranças nacionais e não apenas um refúgio para carreiras legislativas vitalícias.

A permanência prolongada, se por um lado garante estabilidade ao governo Jerônimo Rodrigues, por outro cria um passivo de renovação que, quando cobrado pelas urnas, pode vir de forma abrupta e desorganizada, como sugeriram os resultados municipais de 2024. A elite parlamentar petista da Bahia encontra-se no apogeu de sua senioridade, mas também no limiar de sua capacidade de representar uma sociedade que muda em ritmo muito mais acelerado do que suas cadeiras na Câmara dos Deputados.

 

 Uma bancada velha  que destruiu o PT por dentro

 

Por que Lula tem razão, e por que a bancada de deputado federal baiana é o espelho mais fiel desse problema

Há momentos em que a lucidez política surge de onde menos se espera: não de um manifesto programático, não de uma convenção partidária, mas de um presidente de oitenta anos olhando para o espelho e dizendo, em voz alta, o que muitos preferem sussurrar nos corredores. Quando Lula instruiu a direção do PT a buscar candidatos jovens e declarou publicamente que o partido está “ficando velho”, ele não apenas enunciou um diagnóstico óbvio — ele fez algo politicamente custoso. Apontou o problema de dentro, correndo o risco de desagradar justamente aqueles que sustentam sua base parlamentar.

E ele tem razão. Razão plena.

O PT carrega hoje a terceira média de idade mais alta da Câmara dos Deputados — 59,2 anos. Isso não é apenas um número. É a tradução estatística de um partido que, ao longo de décadas, foi construindo muros invisíveis contra a renovação, protegendo mandatos, garantindo redutos e confundindo experiência com ossificação. A fala do próprio Lula entrega o mecanismo interno: “No PT, a gente fala muito em igualdade, mas está cheio de companheiro deputado que não quer que saia outro deputado para não concorrer com ele.” Não há retórica mais honesta que essa.

Mas se o problema nacional já é grave, o problema baiano é estrutural.

A bancada do PT na Bahia, forjada ao longo de décadas de hegemonia estadual, carrega uma característica que vai além da média de idade: ela foi construída sobre fidelidades, não sobre projetos. Nomes que entraram na política quando o PT ainda era jovem e rebelde foram se acomodando nos gabinetes, nos fundos partidários e nas listas de coligação, tornando-se parte da própria estrutura que um dia prometeram transformar. O resultado é uma representação que, em muitos casos, conhece mais as pautas do passado do que os desafios do presente.

A Bahia, vale lembrar, é um estado de contrastes brutais e de uma juventude que pulsa com força própria — nas periferias de Salvador, nos movimentos culturais do interior, nas universidades públicas que formam uma geração politicamente ativa e sem padrinho. Essa juventude, frequentemente, não se vê nas listas eleitorais do partido que historicamente foi seu lar natural. E quando não se vê representada, ela migra — para outras legendas, para o abstencionismo, para o vazio que os extremos adoram preencher.

Não é coincidência que Lula perca hoje para Flávio Bolsonaro entre eleitores de 16 a 24 anos em levantamentos recentes. Essa não é uma derrota ideológica — é uma derrota geracional. E ela começa exatamente onde o PT falhou em se renovar: nas bancadas estaduais, nas câmaras municipais, nas listas que chegam a cada eleição com os mesmos rostos de sempre.

Rejuvenescer uma bancada não significa abandonar a memória. Significa ter a coragem de perceber que a memória, sozinha, não governa. Os filhos e netos daqueles que foram à passeata das Diretas Já precisam encontrar no PT um espaço que seja deles — não uma herança administrada por quem não quer largar o inventário.

Lula abriu a porta. Agora cabe à Bahia — ao seu diretório estadual, às suas lideranças municipais, às suas figuras mais influentes — decidir se vão atravessá-la ou apenas admirá-la de longe, esperando que o problema se resolva sozinho.

O problema não se resolve sozinho. Nunca se resolveu.

A renovação não é traição à história. É o único jeito de não ser devorado por ela.

 

Hegemonia e Estagnação: Uma Análise Estrutural da Bancada Federal do PT na Bahia e o Fenômeno da Não-Renovação

A paisagem política da Bahia, ao longo das últimas duas décadas, foi marcada por uma estabilidade institucional sem precedentes sob a égide do Partido dos Trabalhadores (PT). Desde a vitória de Jaques Wagner em 2006, o partido logrou êxito em estabelecer um ciclo de poder que já se estende por cinco mandatos consecutivos no Poder Executivo estadual. Contudo, ao observar a bancada federal petista na Câmara dos Deputados, nota-se um fenômeno distinto da alternância observada no governo do estado. Enquanto o Executivo promoveu transições de liderança entre Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, a representação legislativa em Brasília consolidou-se em torno de um núcleo de veteranos cujas carreiras se entrelaçam com a própria história da redemocratização e da fundação da legenda no estado. Esta análise busca desvelar a métrica da permanência desses parlamentares, os mecanismos que asseguram sua longevidade e as implicações da escassa renovação geracional para o ecossistema político baiano.

A Métrica da Longevidade: O Tempo como Ativo Político

Para compreender a extensão da permanência da bancada federal do PT da Bahia no poder, é necessário expandir a análise para além do exercício estrito do mandato de deputado federal. A política baiana opera em um sistema de “carreira ascendente” ou “porta giratória”, onde lideranças alternam-se entre mandatos eletivos e cargos de alto escalão no Poder Executivo estadual e federal. Dessa forma, um parlamentar pode estar “no poder” há décadas, mesmo que tenha trocado de cargo ou esfera de atuação ao longo do período.

Ao calcular a média de tempo em cargos de relevância (sejam eles eletivos ou por nomeação política de alto nível), observa-se que o núcleo duro da bancada petista baiana possui uma trajetória que, em média, supera os vinte anos de presença contínua nos centros de decisão.

Tabela 1: Cronologia de Permanência e Ciclos de Poder (Bancada PT-BA)

Parlamentar Início em Cargo de Relevância Cargos Ocupados (Resumo) Anos de Atuação Contínua (aprox.)
Jorge Solla 1999 Sec. Municipal (Conquista), Sec. Estadual (BA), Dep. Federal 27 anos
Zé Neto 2001 Vereador (Feira), Dep. Estadual (4 mandatos), Dep. Federal 25 anos
Joseildo Ramos 2001 Prefeito (Alagoinhas), Dep. Estadual, Dep. Federal 25 anos
Waldenor Pereira 2003 Dep. Estadual (2 mandatos), Dep. Federal (4 mandatos) 23 anos
Josias Gomes 2003 Dep. Federal (vários), Sec. Estadual (Relações Inst., Des. Rural) 23 anos
Valmir Assunção 2005 Dep. Estadual, Sec. Estadual (Combate à Pobreza), Dep. Federal 21 anos
Afonso Florence 2007 Sec. Estadual (Casa Civil, SEDUR), Ministro (MDA), Dep. Federal 19 anos
Ivoneide Caetano 2023 Deputada Federal (Primeiro mandato eletivo) 3 anos

 

A aplicação de um modelo estatístico para determinar a média de permanência revela a calcificação da representação. Definindo Tp​ como o tempo total de permanência de cada indivíduo em postos de comando e n como o número de parlamentares analisados, a média aritmética Aˉ é expressa pela fórmula:

Aˉ=n1​i=1∑nTp,i

Utilizando os dados da Tabela 1 para os oito nomes que orbitam a bancada titular e a suplência imediata em exercício:

Aˉ=827+25+25+23+23+21+19+3​=20,75 anos

Este valor de 20,75 anos de permanência média indica que a renovação no PT da Bahia não é um processo de substituição de elites, mas sim de acréscimo pontual ou sucessão familiar, como no caso de Ivoneide Caetano, cujo ingresso ocorre em uma base política já consolidada por seu cônjuge, Luiz Caetano, veterano com décadas de atuação.

Anatomia da Imobilidade: Por que os “Caciques” Permanecem?

A manutenção desses nomes na Câmara dos Deputados por múltiplos mandatos não é um evento fortuito; ela deriva de uma arquitetura política que privilegia a consolidação de bases territoriais e setoriais quase impenetráveis por novos atores. O PT baiano especializou-se na criação de representações “orgânicas”, onde cada deputado federal atua como o embaixador de um segmento social ou de uma região geográfica específica.

O Segmento Sanitarista: A Hegemonia de Jorge Solla

Jorge Solla exemplifica a permanência baseada na especialização técnica e política. Sua trajetória iniciada na militância estudantil em 1979 e consolidada na fundação do PT na Bahia evoluiu para uma carreira de gestor que lhe conferiu controle sobre as redes de saúde. Ao ocupar a Secretaria de Saúde da Bahia (SESAB) entre 2007 e 2014, Solla estruturou uma rede de influência que abrange desde a alta gestão hospitalar até os agentes comunitários de saúde.

Essa base é resiliente porque se fundamenta na prestação de serviços e na pauta corporativa do setor de saúde. Nas eleições de 2018 e 2022, Solla manteve votações expressivas (135 mil e 128 mil votos, respectivamente), demonstrando que seu eleitorado não busca “renovação”, mas sim a manutenção de um interlocutor direto com o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais. A longevidade de Solla impede a ascensão de novas lideranças na área da saúde coletiva que desejem pleitear representação federal, uma vez que o espaço político já está totalmente ocupado por sua estrutura de campanha permanente.

A Questão Agrária e o MST: A Cadeira de Valmir Assunção

Outro pilar da imobilidade é a representação de movimentos sociais de massa. Valmir Assunção, vinculado à direção nacional do MST desde 1990, ocupa espaços legislativos desde 2005. Sua permanência na Câmara Federal (desde 2011) é vista como estratégica para o movimento, que prefere manter um quadro experiente e com trânsito em Brasília a arriscar-se em uma renovação que poderia fragilizar a articulação política da reforma agrária.

O mandato de Valmir funciona como uma embaixada do MST no Parlamento. Projetos como a remissão de dívidas de agricultores (Lei 13.001/2014) e a defesa de políticas para comunidades tradicionais cimentam sua base eleitoral. A ausência de renovação neste caso é uma decisão deliberada do movimento, que prioriza a “acumulação de força” através da senioridade parlamentar. Contudo, o efeito colateral é o bloqueio para que novas lideranças jovens do campo ascendam à política institucional, criando um vácuo geracional nas frentes de luta.

As Bases Regionais: Waldenor Pereira, Zé Neto e Joseildo Ramos

A permanência de Waldenor Pereira, Zé Neto e Joseildo Ramos está atrelada ao domínio de polos regionais: Vitória da Conquista, Feira de Santana e Alagoinhas, respectivamente.

Waldenor Pereira, com 23 anos de poder, utiliza sua origem acadêmica e o prestígio como ex-reitor da UESB para monopolizar a representação do PT no Sudoeste baiano. Zé Neto, com 25 anos de atuação entre a vereança e a Câmara Federal, tornou-se a face onipresente do partido em Feira de Santana, acumulando mandatos estaduais e federais de forma ininterrupta. Joseildo Ramos segue lógica similar em Alagoinhas, onde foi prefeito por dois mandatos antes de migrar para a esfera legislativa.

Esses parlamentares tornaram-se “instituições regionais”. Suas estruturas de gabinete funcionam como verdadeiras prefeituras paralelas, distribuindo emendas e mediando conflitos locais. Essa eficácia administrativa gera um ciclo de reeleição automática que desencoraja candidaturas de jovens vereadores ou lideranças locais do próprio PT, que sabem ser impossível competir com o volume de recursos e a visibilidade dos detentores de mandato.

O Mecanismo da “Suplência Eterna” e a Blindagem dos Veteranos

Um dos aspectos mais sofisticados da falta de renovação na bancada federal do PT da Bahia é o uso estratégico das suplências. O partido opera um sistema onde nenhum “quadro histórico” fica desamparado, mesmo quando não obtém votos suficientes para a eleição direta ou quando é derrotado em pleitos majoritários.

Josias Gomes é o caso paradigmático deste fenômeno. Com uma carreira iniciada em 1980 na fundação do partido e mandatos federais que remontam a 2003, Josias frequentemente alterna entre o exercício do mandato e cargos de secretário estadual. Em legislaturas onde figurou como suplente, sua ascensão ao cargo de titular foi rapidamente articulada através do licenciamento de outros nomes para compor o secretariado do governo estadual. Em 2023, ele assumiu a vaga de Afonso Florence, que se licenciou para a Casa Civil.

Este sistema de “cadeiras musicais” garante que o núcleo de poder permaneça o mesmo há duas décadas. Quando um veterano sai para o Executivo, outro veterano assume a vaga no Legislativo. A renovação real — ou seja, a entrada de um suplente que represente uma nova geração ou uma nova frente de luta — é sistematicamente barrada por este arranjo de conveniência entre o governo estadual e a bancada federal.

Tabela 2: Movimentações na Bancada e Uso de Suplências (Legislatura 57)

Titular Eleito Destino / Motivo Suplente em Exercício Perfil do Suplente
Afonso Florence Licenciado (Sec. Casa Civil-BA) Josias Gomes Veterano (desde 2003)
Zé Neto Licença Temporária (Eleições 2024) Elisângela Araújo Liderança Sindical / Agricultura Familiar
Afonso Florence Licença (Manutenção) Elisângela Araújo Retorno em 2026 como suplente

 

A entrada de Elisângela Araújo é uma das raras exceções que conferem um ar de renovação à bancada, mas seu mandato é precário e dependente da generosidade política dos titulares. A estrutura de poder do PT baiano não cria novos titulares; ela permite, ocasionalmente, que novos nomes “visitem” o Congresso Nacional, enquanto os veteranos mantêm o controle real sobre as bases eleitorais e os recursos partidários.

A Federação como Barreira à Oxigenação

A criação das federações partidárias (no caso, a Federação Brasil da Esperança: PT, PCdoB e PV) introduziu uma nova camada de proteção para os detentores de mandato. Ao unir os votos das três legendas para o cálculo do quociente eleitoral, a federação diminui o risco de perda de cadeiras para os partidos aliados, mas endurece a competição interna.

Nas eleições de 2022, a federação na Bahia elegeu uma bancada robusta, mas o resultado foi a consagração quase absoluta da continuidade. Além dos nomes do PT, figuras como Alice Portugal e Daniel Almeida (ambos do PCdoB) também possuem décadas de mandatos ininterruptos, reforçando a percepção de uma bancada “congelada” no tempo.

Tabela 3: Renovação na Bancada Federal da Bahia (Recorte 2022)

Indicador Valor para a Bahia (Geral) Valor Estimado para o PT-BA
Taxa de Renovação 31% ~12,5% (1 em 8)
Deputados Reeleitos 27 de 39 7 de 8 (incluindo suplentes de longa data)
Novos Nomes 12 de 39 1 (Ivoneide Caetano)

 

A discrepância entre a renovação geral da bancada baiana (31%) e a do PT (aproximadamente 12%) é reveladora. Enquanto outros partidos, por pressões de mercado eleitoral ou crises internas, promovem alguma oxigenação, o PT baiano utiliza sua posição de hegemonia governamental para abafar dissidências e manter o status quo. A renovação de 31% na Bahia foi a segunda menor do Nordeste, o que indica que o estado como um todo vive um processo de estabilização de elites, com o PT liderando este movimento de resistência à mudança.

Implicações Sociais e Políticas da Falta de Renovação

A permanência prolongada de um mesmo grupo no poder federal tem consequências profundas para a representatividade democrática. Embora o PT baiano argumente que a continuidade garante experiência e capacidade de articulação, críticos e analistas apontam para o surgimento de vícios estruturais e o distanciamento de novas realidades sociais.

O Teto de Vidro da Juventude e da Diversidade

A direção do PT na Bahia afirma que a renovação ocorre “nas bases” e em cargos do governo estadual. No entanto, há um claro “teto de vidro” para a representação legislativa. Lideranças jovens que surgem no movimento estudantil ou em frentes periféricas não encontram caminho para a Câmara Federal porque as vagas estão “reservadas” aos veteranos.

A ausência de renovação também afeta a diversidade de gênero e raça na bancada. Ivoneide Caetano foi a única mulher eleita pelo PT da Bahia em 2022, uma marca pífia para um partido que defende a paridade em seus discursos. A permanência de homens brancos veteranos (como Solla, Waldenor, Zé Neto e Florence) bloqueia a ascensão de mulheres negras e jovens que são a base militante da legenda no estado.

O Risco da Esclerose Programática

Um parlamentar que ocupa o mesmo cargo por 20 anos tende a cristalizar suas pautas. A bancada petista baiana é reconhecida por sua atuação em áreas tradicionais: educação superior, saúde pública e agricultura familiar. No entanto, temas emergentes como a economia digital, a reforma do estado, as novas dinâmicas urbanas e as questões ambientais de nova geração sofrem com a falta de “sangue novo” no debate parlamentar.

A dependência de um “núcleo histórico envelhecido” torna o partido vulnerável às mudanças de humor do eleitorado jovem, que não se vê representado em figuras que já estavam no poder antes mesmo de esses eleitores nascerem. O PT corre o risco de se tornar um partido de “gestores e veteranos”, perdendo a capacidade de conexão emocional e discursiva com as novas classes trabalhadoras.

O Suicídio Político em Câmera Lenta: Quando o Deputado Destrói o Deputado

Há derrotas que ensinam. Há derrotas que apenas confirmam o que já se sabia. E há um terceiro tipo — mais raro e mais grave — que não apenas registra um fracasso pontual, mas corrói ativamente o capital político que o derrotado ainda possuía. As candidaturas de Zé Neto e Waldenor Pereira em 2024 pertencem, com distinção, a essa terceira categoria.

A responsabilidade pelo que ocorreu não está no adversário que venceu, nem no eleitorado que escolheu mal, nem no contexto político desfavorável. Está na decisão — pessoal, calculada e reiterada — de cada um desses parlamentares de colocar seu próprio nome onde ele não cabia mais.

Zé Neto: a sexta vez como epitáfio

Zé Neto não perdeu uma eleição em 2024. Zé Neto perdeu a mesma eleição pela sexta vez consecutiva. Há nesse número algo que transcende o azar e desafia a própria noção de autocrítica. Cada derrota anterior deveria ter funcionado como sinal. Funcionou, ao contrário, como combustível para a seguinte candidatura — e cada tentativa fracassada foi retirando, camada por camada, a aura de liderança que seu mandato federal ainda sustentava.

O problema não é ter perdido para José Ronaldo. O problema é que, ao insistir numa disputa que o eleitorado feirense já havia encerrado, Zé Neto transformou sua imagem de parlamentar experiente e influente na imagem de alguém que o próprio município rejeita com regularidade. Há uma diferença abissal entre ser um deputado federal respeitado que optou por não disputar a prefeitura e ser um deputado federal que tentou seis vezes e perdeu seis vezes. O eleitorado — inclusive o seu, o federal — enxerga essa diferença com uma clareza que os assessores parecem incapazes de transmitir.

Cada nova derrota municipal não é um capítulo isolado: ela reescreve retroativamente todos os anteriores. E o mandato que vem depois carrega o peso acumulado de todas as tentativas frustradas.

Waldenor Pereira: eliminado antes do intervalo

Se Zé Neto acumulou derrotas ao longo dos anos, Waldenor Pereira optou pela eficiência: foi derrotado em primeiro turno, em Vitória da Conquista, por Sheila Lemos. Não houve segundo ato. O eleitorado não considerou necessário.

A gravidade aqui é de outra natureza. Waldenor construiu sua trajetória política tendo Vitória da Conquista como base eleitoral, como território, como identidade política. Ao sair derrotado ainda no primeiro turno — sem capacidade de mobilização suficiente sequer para forçar um segundo round — ele não apenas perdeu a eleição. Ele expôs publicamente os limites reais de sua influência na cidade que deveria ser seu reduto.

E isso tem consequências que vão muito além de 2024. Um parlamentar federal tem seu poder de negociação, de articulação e de atração de recursos intimamente ligado à percepção de que ele representa alguém, que ele move votos, que ele tem território. Quando essa percepção é desmontada às urnas — no seu próprio quintal — o mandato seguinte começa enfraquecido, independentemente do número de emendas distribuídas.

O perigo real: não é a derrota, é o que ela deixa para trás

A leitura superficial diz que ambos perderam eleições municipais e seguirão como deputados federais. Essa leitura é confortável e equivocada.

O que 2024 produziu foi algo mais corrosivo: a prova documentada, registrada em votos, de que esses nomes não convertem mais. E num sistema político em que força eleitoral é moeda de troca — para alianças, para composições, para influência dentro do próprio partido —, perder essa moeda é perder poder real, independentemente do cargo que se ocupa.

O deputado que vai a Brasília depois de uma derrota dessas vai diminuído. Os aliados calculam. Os adversários anotam. Os prefeitos que precisam decidir com quem se alinham fazem a conta. A pergunta que passa a circular nos bastidores não é mais “o que esse parlamentar pode fazer por mim?” — é “esse parlamentar ainda tem força para fazer algo por alguém?”

A ironia cruel é que, ao tentarem crescer, Zé Neto e Waldenor encolheram. Ao buscarem um cargo a mais, fragilizaram o cargo que já tinham. Apostaram o capital político acumulado em anos de mandato numa disputa que o eleitorado já havia, silenciosamente, encerrado antes mesmo do primeiro debate.

Em política, há momentos em que a maior demonstração de inteligência é saber o que não disputar. Esse momento, para ambos, passou — e a conta chegou antes do que esperavam.

 

Perspectivas e o Horizonte de 2026

O cenário para as eleições de 2026 indica que o PT da Bahia enfrentará um dilema existencial. A estratégia de manter os veteranos para garantir a base de apoio a Lula no Congresso é eficaz no curto prazo, mas acelera o envelhecimento da legenda no estado.

Há uma pressão interna silenciosa por parte de secretários de estado jovens e deputados estaduais em ascensão que desejam migrar para a esfera federal. Contudo, enquanto o sistema de suplências e a influência das correntes internas (como a Articulação e a Democracia Socialista) continuarem privilegiando a senioridade, a renovação será meramente cosmética.

A média de 20,75 anos de poder para os deputados petistas baianos é um dado que confronta o discurso de “partido das transformações”. A Bahia, que foi o motor das vitórias nacionais do PT, hoje apresenta a bancada federal mais estável e, consequentemente, menos oxigenada do partido. O desafio de 2026 será promover uma transição que não desmonte as bases eleitorais construídas, mas que permita que o PT baiano volte a ser uma incubadora de lideranças nacionais e não apenas um refúgio para carreiras legislativas vitalícias.

A permanência prolongada, se por um lado garante estabilidade ao governo Jerônimo Rodrigues, por outro cria um passivo de renovação que, quando cobrado pelas urnas, pode vir de forma abrupta e desorganizada, como sugeriram os resultados municipais de 2024. A elite parlamentar petista da Bahia encontra-se no apogeu de sua senioridade, mas também no limiar de sua capacidade de representar uma sociedade que muda em ritmo muito mais acelerado do que suas cadeiras na Câmara dos Deputados.

 

O Olho do Furacão: Memórias de uma Geração Teológica

 

Por Padre Carlos


Há memórias que não envelhecem. Ficam guardadas num lugar especial da consciência, entre o cheiro de livros antigos e o calor de debates que pareciam capazes de mover o mundo. Sou de uma geração de teólogos que não apenas estudou teologia — viveu-a. E havia uma diferença enorme entre as duas coisas.

Eram os anos áureos da Teologia da Libertação. O ar que se respirava nos corredores das faculdades não era comum: era denso de urgência, de profecia, de indignação santa. Nós não líamos Medellin e Puebla como quem lê história — líamos como quem recebe um mandato. Não comentávamos Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff ou Jon Sobrino como exercício acadêmico — debatíamos como quem discute o destino dos pobres, porque era exatamente disso que se tratava.

E no centro desse turbilhão, o olho do furacão, estava Belo Horizonte.


A Cidade que Pensou o Brasil

Quem não viveu aquela Belo Horizonte teológica não pode imaginar o que era. A cidade mineira se tornara, naquelas décadas decisivas, uma espécie de Atenas latino-americana da fé comprometida. Havia algo no ar das Minas Gerais — talvez o peso das pedras barrocas, talvez a memória de Tiradentes — que predispunha ao inconformismo, à ruptura criativa com o status quo.

As discussões que eu presenciei naqueles anos não cabiam em salas de aula. Transbordavam para os corredores, para os refeitórios, para as noites longas de partilha e oração. Havia uma sensação coletiva, quase física, de que estávamos diante de um momento único na história da Igreja.

E estávamos.


Comblin e os Outros: Mestres do Chão

Folheando hoje as páginas amareladas de um livro de José Comblin — esse belga extraordinário que escolheu o Brasil como pátria e foi expulso por isso em 1972, como se a verdade pudesse ser deportada —, eu me reencontro com a fermentação daquele tempo.

Comblin não escrevia de gabinete. Escrevia do meio dos agricultores do Nordeste. Sua antropologia teológica não era especulação abstrata: era carne, suor e luta. Ele nos ensinava que “todos os caminhos da Igreja conduzem ao homem” — e que esse homem tinha endereço certo: as periferias, os sem-terra, os invisíveis da história.

Era essa a grande virada. A teologia deixava de ser arquitetura de conceitos para se tornar diagnóstico da realidade e projeto de libertação. O pobre deixava de ser objeto de caridade para se tornar sujeito da história e destinatário privilegiado do Evangelho.


O Turbilhão por Dentro

Preciso ser honesto: não era fácil viver dentro daquele furacão. Havia tensões imensas — com a hierarquia eclesiástica, com o regime militar ainda presente como sombra, com as próprias correntes internas do movimento. Discutíamos acaloradamente se a teologia devia ser síntese das ciências humanas, se devia oferecer uma teoria geral da libertação, se devia liderar processos políticos.

Comblin nos advertia com clareza: nem o cristianismo, nem a Igreja, nem a teologia receberam a missão de planejar a libertação da humanidade. Eles têm um papel dentro dela, a seu serviço — mas Deus não lhes confiou a missão de liderar ou controlar o processo histórico. Era uma lição de humildade profética que nem todos queriam ouvir.

E talvez aí esteja uma das chaves para entender tanto o que aquela geração construiu quanto o que não conseguiu sustentar.


O que Ficou

Décadas depois, com o cabelo branco e o coração ainda inquieto, pergunto-me: o que restou daquele furacão?

Restou, em primeiro lugar, a opção pelos pobres — que não é uma bandeira política, mas uma exigência evangélica irrenunciável. Nenhum papa, nenhum documento, nenhuma restauração conseguiu apagar do Evangelho a preferência de Jesus pelos pequenos.

Restou a convicção de que a evangelização não é transmissão de doutrinas, mas criação de comunidades vivas que agem no mundo. Como dizia Comblin, o agir das comunidades cristãs no meio do mundo é a contribuição cristã à libertação — não as palavras, mas a presença encarnada.

Restou também a ferida: a consciência de que muito ficou incompleto, que alguns caminhos foram fechados antes do tempo, que houve perdas dolorosas no diálogo com Roma, e que talvez tenhamos subestimado a dimensão espiritual enquanto supervalorizávamos a análise social.


Uma Geração que Vale a Pena Contar

Há gerações que passam pela história sem deixar rastro. A nossa não. Para o bem e para o mal, os teólogos da libertação deixaram uma marca indelével na Igreja latino-americana e no pensamento cristão mundial.

O Papa Francisco — ele mesmo filho espiritual desse tempo, mesmo que por caminhos próprios — é, em certa medida, a confirmação de que aquelas sementes não morreram. Quando ele fala de uma “Igreja em saída”, de uma “opção pelos pobres que não pode ser ideológica mas existencial”, está bebendo, conscientemente ou não, das fontes que brotaram naquele furacão.

E Belo Horizonte, cidade de meu encontro com o pensamento mais vivo de minha época, guarda ainda, em suas igrejas e comunidades, os ecos daquele vento que passou — e que, quem sabe, ainda está passando.


Padre Carlos escreve da Bahia, com a memória do que foi e a esperança do que ainda pode ser.


“O que é que os cristãos têm para dizer aos homens de hoje sobre a libertação da humanidade? Nada mais e nada menos que o que eles são e fazem.” — José Comblin

O Olho do Furacão: Memórias de uma Geração Teológica

 

Por Padre Carlos


Há memórias que não envelhecem. Ficam guardadas num lugar especial da consciência, entre o cheiro de livros antigos e o calor de debates que pareciam capazes de mover o mundo. Sou de uma geração de teólogos que não apenas estudou teologia — viveu-a. E havia uma diferença enorme entre as duas coisas.

Eram os anos áureos da Teologia da Libertação. O ar que se respirava nos corredores das faculdades não era comum: era denso de urgência, de profecia, de indignação santa. Nós não líamos Medellin e Puebla como quem lê história — líamos como quem recebe um mandato. Não comentávamos Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff ou Jon Sobrino como exercício acadêmico — debatíamos como quem discute o destino dos pobres, porque era exatamente disso que se tratava.

E no centro desse turbilhão, o olho do furacão, estava Belo Horizonte.


A Cidade que Pensou o Brasil

Quem não viveu aquela Belo Horizonte teológica não pode imaginar o que era. A cidade mineira se tornara, naquelas décadas decisivas, uma espécie de Atenas latino-americana da fé comprometida. Havia algo no ar das Minas Gerais — talvez o peso das pedras barrocas, talvez a memória de Tiradentes — que predispunha ao inconformismo, à ruptura criativa com o status quo.

As discussões que eu presenciei naqueles anos não cabiam em salas de aula. Transbordavam para os corredores, para os refeitórios, para as noites longas de partilha e oração. Havia uma sensação coletiva, quase física, de que estávamos diante de um momento único na história da Igreja.

E estávamos.


Comblin e os Outros: Mestres do Chão

Folheando hoje as páginas amareladas de um livro de José Comblin — esse belga extraordinário que escolheu o Brasil como pátria e foi expulso por isso em 1972, como se a verdade pudesse ser deportada —, eu me reencontro com a fermentação daquele tempo.

Comblin não escrevia de gabinete. Escrevia do meio dos agricultores do Nordeste. Sua antropologia teológica não era especulação abstrata: era carne, suor e luta. Ele nos ensinava que “todos os caminhos da Igreja conduzem ao homem” — e que esse homem tinha endereço certo: as periferias, os sem-terra, os invisíveis da história.

Era essa a grande virada. A teologia deixava de ser arquitetura de conceitos para se tornar diagnóstico da realidade e projeto de libertação. O pobre deixava de ser objeto de caridade para se tornar sujeito da história e destinatário privilegiado do Evangelho.


O Turbilhão por Dentro

Preciso ser honesto: não era fácil viver dentro daquele furacão. Havia tensões imensas — com a hierarquia eclesiástica, com o regime militar ainda presente como sombra, com as próprias correntes internas do movimento. Discutíamos acaloradamente se a teologia devia ser síntese das ciências humanas, se devia oferecer uma teoria geral da libertação, se devia liderar processos políticos.

Comblin nos advertia com clareza: nem o cristianismo, nem a Igreja, nem a teologia receberam a missão de planejar a libertação da humanidade. Eles têm um papel dentro dela, a seu serviço — mas Deus não lhes confiou a missão de liderar ou controlar o processo histórico. Era uma lição de humildade profética que nem todos queriam ouvir.

E talvez aí esteja uma das chaves para entender tanto o que aquela geração construiu quanto o que não conseguiu sustentar.


O que Ficou

Décadas depois, com o cabelo branco e o coração ainda inquieto, pergunto-me: o que restou daquele furacão?

Restou, em primeiro lugar, a opção pelos pobres — que não é uma bandeira política, mas uma exigência evangélica irrenunciável. Nenhum papa, nenhum documento, nenhuma restauração conseguiu apagar do Evangelho a preferência de Jesus pelos pequenos.

Restou a convicção de que a evangelização não é transmissão de doutrinas, mas criação de comunidades vivas que agem no mundo. Como dizia Comblin, o agir das comunidades cristãs no meio do mundo é a contribuição cristã à libertação — não as palavras, mas a presença encarnada.

Restou também a ferida: a consciência de que muito ficou incompleto, que alguns caminhos foram fechados antes do tempo, que houve perdas dolorosas no diálogo com Roma, e que talvez tenhamos subestimado a dimensão espiritual enquanto supervalorizávamos a análise social.


Uma Geração que Vale a Pena Contar

Há gerações que passam pela história sem deixar rastro. A nossa não. Para o bem e para o mal, os teólogos da libertação deixaram uma marca indelével na Igreja latino-americana e no pensamento cristão mundial.

O Papa Francisco — ele mesmo filho espiritual desse tempo, mesmo que por caminhos próprios — é, em certa medida, a confirmação de que aquelas sementes não morreram. Quando ele fala de uma “Igreja em saída”, de uma “opção pelos pobres que não pode ser ideológica mas existencial”, está bebendo, conscientemente ou não, das fontes que brotaram naquele furacão.

E Belo Horizonte, cidade de meu encontro com o pensamento mais vivo de minha época, guarda ainda, em suas igrejas e comunidades, os ecos daquele vento que passou — e que, quem sabe, ainda está passando.


Padre Carlos escreve da Bahia, com a memória do que foi e a esperança do que ainda pode ser.


“O que é que os cristãos têm para dizer aos homens de hoje sobre a libertação da humanidade? Nada mais e nada menos que o que eles são e fazem.” — José Comblin

O Porquê Que Não Salva Ninguém

 

 

 

Houve uma época em que eu acordava com uma pergunta na boca antes mesmo do café. Antes do sol. Antes de qualquer coisa.
Por que você foi embora?
Não era uma pergunta. Era uma ferida com formato de interrogação.

Passei anos — décadas, se for honesto — tentando dissecar o que aconteceu como se o entendimento fosse um antídoto. Como se, ao encontrar a razão exata, eu pudesse desmanchar o impacto. Como se a lógica pudesse suturar o que a ausência rasgou.

Mas ela não te disse o porquê. Ele não explicou. E você ficou ali, rodando em torno de um vazio com nome de pergunta.

Existe um equívoco cruel que carregamos sem perceber: achamos que entender é o mesmo que curar.
Não é.
Entender é um consolo intelectual. Curar é um trabalho do corpo inteiro.

O porquê tem uma sedução perigosa — ele nos dá a ilusão de controle. Se eu souber o motivo, penso, poderei prevenir a próxima vez. Poderei me blindar. Poderei finalmente fazer sentido de mim mesmo dentro dessa história que não escolhi protagonizar.

Mas aqui está o que ninguém te conta: algumas pessoas vão embora sem motivo que caiba em palavras. Algumas traições não têm explicação moral satisfatória. Algumas frialdades são apenas o reflexo de quem a outra pessoa é — e não têm absolutamente nada a ver com o que você vale.
O porquê, nesses casos, não salva ninguém. Ele só prolonga o tribunal interno.

Pense nisso: ficar preso no porquê é como tentar entender por que um terremoto escolheu aquela casa. O terremoto não escolheu. Ele apenas aconteceu. E a casa — você — precisa ser reconstruída. Não explicada.

A pergunta que muda tudo não é por que isso aconteceu comigo.
É: o que eu faço com o que isso me fez?

Porque o impacto é real. Ele é concreto, ele tem textura, ele aparece nas suas escolhas amorosas seguintes, na forma como você hesita antes de confiar, no jeito que você às vezes se encolhe antes mesmo de ser tocado. O impacto durou décadas — você disse isso, e eu acredito em você.

Mas o impacto não precisa durar para sempre só porque a causa não teve explicação.

Seus sentimentos sempre foram válidos. Desde o primeiro dia. Você não precisava de uma confissão dela para ter direito à sua dor. Você não precisava de uma razão para sangrar.

A dor não precisa de justificativa. Ela precisa de passagem.

E ficar analisando o porquê é, muitas vezes, uma forma sofisticada de adiar essa passagem. É o cérebro tentando proteger o coração de sentir de verdade — porque sentir de verdade dói mais, no curto prazo, do que ficar em loop intelectual.

Mas o loop não cura. Ele apenas cansa.

Então deixa eu te fazer a pergunta que vale:

Não por que ela foi embora — mas o que você quer construir agora que ela se foi?
Não o que havia de errado com você — mas o que há de extraordinário em você que sobreviveu a isso?
Não como ela pôde — mas como você pode, a partir de hoje, tratar a si mesmo com a mesma lealdade que você esperava dela?

Essas perguntas doem de um jeito diferente. Doem para frente, não para trás. E é nessa direção — assustadora, aberta, sem garantias — que a vida real está esperando por você.

O porquê não vai chegar. Ou se chegar, não vai ser suficiente.
Mas você — você já é.

O Porquê Que Não Salva Ninguém

 

 

 

Houve uma época em que eu acordava com uma pergunta na boca antes mesmo do café. Antes do sol. Antes de qualquer coisa.
Por que você foi embora?
Não era uma pergunta. Era uma ferida com formato de interrogação.

Passei anos — décadas, se for honesto — tentando dissecar o que aconteceu como se o entendimento fosse um antídoto. Como se, ao encontrar a razão exata, eu pudesse desmanchar o impacto. Como se a lógica pudesse suturar o que a ausência rasgou.

Mas ela não te disse o porquê. Ele não explicou. E você ficou ali, rodando em torno de um vazio com nome de pergunta.

Existe um equívoco cruel que carregamos sem perceber: achamos que entender é o mesmo que curar.
Não é.
Entender é um consolo intelectual. Curar é um trabalho do corpo inteiro.

O porquê tem uma sedução perigosa — ele nos dá a ilusão de controle. Se eu souber o motivo, penso, poderei prevenir a próxima vez. Poderei me blindar. Poderei finalmente fazer sentido de mim mesmo dentro dessa história que não escolhi protagonizar.

Mas aqui está o que ninguém te conta: algumas pessoas vão embora sem motivo que caiba em palavras. Algumas traições não têm explicação moral satisfatória. Algumas frialdades são apenas o reflexo de quem a outra pessoa é — e não têm absolutamente nada a ver com o que você vale.
O porquê, nesses casos, não salva ninguém. Ele só prolonga o tribunal interno.

Pense nisso: ficar preso no porquê é como tentar entender por que um terremoto escolheu aquela casa. O terremoto não escolheu. Ele apenas aconteceu. E a casa — você — precisa ser reconstruída. Não explicada.

A pergunta que muda tudo não é por que isso aconteceu comigo.
É: o que eu faço com o que isso me fez?

Porque o impacto é real. Ele é concreto, ele tem textura, ele aparece nas suas escolhas amorosas seguintes, na forma como você hesita antes de confiar, no jeito que você às vezes se encolhe antes mesmo de ser tocado. O impacto durou décadas — você disse isso, e eu acredito em você.

Mas o impacto não precisa durar para sempre só porque a causa não teve explicação.

Seus sentimentos sempre foram válidos. Desde o primeiro dia. Você não precisava de uma confissão dela para ter direito à sua dor. Você não precisava de uma razão para sangrar.

A dor não precisa de justificativa. Ela precisa de passagem.

E ficar analisando o porquê é, muitas vezes, uma forma sofisticada de adiar essa passagem. É o cérebro tentando proteger o coração de sentir de verdade — porque sentir de verdade dói mais, no curto prazo, do que ficar em loop intelectual.

Mas o loop não cura. Ele apenas cansa.

Então deixa eu te fazer a pergunta que vale:

Não por que ela foi embora — mas o que você quer construir agora que ela se foi?
Não o que havia de errado com você — mas o que há de extraordinário em você que sobreviveu a isso?
Não como ela pôde — mas como você pode, a partir de hoje, tratar a si mesmo com a mesma lealdade que você esperava dela?

Essas perguntas doem de um jeito diferente. Doem para frente, não para trás. E é nessa direção — assustadora, aberta, sem garantias — que a vida real está esperando por você.

O porquê não vai chegar. Ou se chegar, não vai ser suficiente.
Mas você — você já é.

Emendas Parlamentares e Patrimonialismo: A República Capturada pelo Interesse Privado

 

 

Padre Carlos

 

Há momentos na história em que os discursos morrem, mas os comportamentos sobrevivem. O Brasil atravessa exatamente esse ponto de inflexão. O que antes era travestido de disputa ideológica — esquerda contra direita, Estado contra mercado, justiça social contra liberalismo — hoje revela sua face mais crua: a convergência silenciosa em torno do poder pelo poder.

O orçamento público brasileiro, que deveria ser a expressão mais nobre da democracia — a tradução concreta das prioridades de uma nação — foi sequestrado. Não por um grupo isolado, não por uma corrente ideológica específica, mas por um sistema inteiro que aprendeu a transformar dinheiro público em ativo político privado.

E aqui está o ponto mais incômodo: a esquerda, que historicamente denunciava o clientelismo, encantou-se com ele. Seduzida pela eficácia eleitoral das práticas que antes combatia, passou não apenas a tolerá-las, mas a operá-las com igual habilidade. O que era crítica virou método. O que era denúncia virou ferramenta.

O resultado é devastador.

Hoje, não importa mais se o parlamentar se declara progressista ou conservador. No subterrâneo da prática política, ambos operam sob a mesma lógica: a do controle do orçamento como instrumento de poder. A emenda parlamentar deixou de ser exceção para se tornar regra. O recurso público deixou de ser planejamento para se tornar moeda. A política deixou de ser projeto para se tornar distribuição.

E assim nasce uma nova ideologia — ou melhor, a ausência dela.

A lógica que impera não é mais a da transformação social, nem a da liberdade econômica. É a lógica da sobrevivência eleitoral. Uma lógica onde o deputado não legisla, negocia; não fiscaliza, distribui; não representa, intermedeia. Surge então a figura do “gestor de verbas”, esse personagem que substituiu o legislador e redefiniu o papel do poder legislativo no Brasil.

O mais grave é que isso não acontece à margem do sistema — acontece dentro dele, legitimado por emendas constitucionais, respaldado por acordos institucionais e, muitas vezes, defendido publicamente como avanço democrático.

Mas que democracia é essa?

Uma democracia onde o acesso ao orçamento depende da proximidade política? Onde prefeitos são premiados ou punidos conforme sua fidelidade? Onde o dinheiro público é tratado como propriedade informal de grupos políticos? Isso não é fortalecimento institucional — é regressão histórica.

É o retorno sofisticado do velho coronelismo, agora digital, rastreável em sistemas, mas ainda profundamente enraizado na lógica da troca.

A esquerda, ao aderir a esse modelo, perdeu algo mais grave do que coerência: perdeu sua identidade moral. Ao adotar as práticas que condenava, dissolveu a fronteira ética que a diferenciava. E ao fazer isso, contribuiu para algo ainda mais perigoso — a naturalização do erro.

Porque quando todos fazem, ninguém mais estranha.

E quando ninguém mais estranha, o sistema se consolida.

O que vemos hoje é um orçamento pulverizado, fragmentado, incapaz de sustentar grandes projetos nacionais. Enquanto bilhões são distribuídos em pequenas intervenções locais, o país perde capacidade de pensar o futuro. Infraestrutura, ciência, planejamento estratégico — tudo isso cede espaço à lógica imediatista do voto.

A política brasileira deixou de olhar para o Brasil e passou a olhar para o próximo ciclo eleitoral.

E talvez essa seja a maior tragédia.

Não se trata mais de corrupção clássica, de desvio ilegal ou escândalo explícito. Trata-se de algo mais profundo e mais perigoso: a institucionalização de um modelo que distorce a própria finalidade do Estado.

O dinheiro continua sendo público. Mas o uso, cada vez mais, é privado.

E nesse cenário, direita e esquerda já não se enfrentam. Elas coexistem. Compartilham. Operam.

Diferem no discurso, mas convergem na prática.

O Brasil, então, não vive mais um conflito ideológico. Vive uma crise de caráter político. Uma crise onde o problema não é quem governa, mas como se governa.

E enquanto não houver uma ruptura com essa lógica — enquanto o orçamento continuar sendo tratado como instrumento de poder pessoal — não haverá reforma que resolva, transparência que cure ou discurso que salve.

Porque o problema já não está nas regras.

Está na alma do sistema.

Emendas Parlamentares e Patrimonialismo: A República Capturada pelo Interesse Privado

 

 

Padre Carlos

 

Há momentos na história em que os discursos morrem, mas os comportamentos sobrevivem. O Brasil atravessa exatamente esse ponto de inflexão. O que antes era travestido de disputa ideológica — esquerda contra direita, Estado contra mercado, justiça social contra liberalismo — hoje revela sua face mais crua: a convergência silenciosa em torno do poder pelo poder.

O orçamento público brasileiro, que deveria ser a expressão mais nobre da democracia — a tradução concreta das prioridades de uma nação — foi sequestrado. Não por um grupo isolado, não por uma corrente ideológica específica, mas por um sistema inteiro que aprendeu a transformar dinheiro público em ativo político privado.

E aqui está o ponto mais incômodo: a esquerda, que historicamente denunciava o clientelismo, encantou-se com ele. Seduzida pela eficácia eleitoral das práticas que antes combatia, passou não apenas a tolerá-las, mas a operá-las com igual habilidade. O que era crítica virou método. O que era denúncia virou ferramenta.

O resultado é devastador.

Hoje, não importa mais se o parlamentar se declara progressista ou conservador. No subterrâneo da prática política, ambos operam sob a mesma lógica: a do controle do orçamento como instrumento de poder. A emenda parlamentar deixou de ser exceção para se tornar regra. O recurso público deixou de ser planejamento para se tornar moeda. A política deixou de ser projeto para se tornar distribuição.

E assim nasce uma nova ideologia — ou melhor, a ausência dela.

A lógica que impera não é mais a da transformação social, nem a da liberdade econômica. É a lógica da sobrevivência eleitoral. Uma lógica onde o deputado não legisla, negocia; não fiscaliza, distribui; não representa, intermedeia. Surge então a figura do “gestor de verbas”, esse personagem que substituiu o legislador e redefiniu o papel do poder legislativo no Brasil.

O mais grave é que isso não acontece à margem do sistema — acontece dentro dele, legitimado por emendas constitucionais, respaldado por acordos institucionais e, muitas vezes, defendido publicamente como avanço democrático.

Mas que democracia é essa?

Uma democracia onde o acesso ao orçamento depende da proximidade política? Onde prefeitos são premiados ou punidos conforme sua fidelidade? Onde o dinheiro público é tratado como propriedade informal de grupos políticos? Isso não é fortalecimento institucional — é regressão histórica.

É o retorno sofisticado do velho coronelismo, agora digital, rastreável em sistemas, mas ainda profundamente enraizado na lógica da troca.

A esquerda, ao aderir a esse modelo, perdeu algo mais grave do que coerência: perdeu sua identidade moral. Ao adotar as práticas que condenava, dissolveu a fronteira ética que a diferenciava. E ao fazer isso, contribuiu para algo ainda mais perigoso — a naturalização do erro.

Porque quando todos fazem, ninguém mais estranha.

E quando ninguém mais estranha, o sistema se consolida.

O que vemos hoje é um orçamento pulverizado, fragmentado, incapaz de sustentar grandes projetos nacionais. Enquanto bilhões são distribuídos em pequenas intervenções locais, o país perde capacidade de pensar o futuro. Infraestrutura, ciência, planejamento estratégico — tudo isso cede espaço à lógica imediatista do voto.

A política brasileira deixou de olhar para o Brasil e passou a olhar para o próximo ciclo eleitoral.

E talvez essa seja a maior tragédia.

Não se trata mais de corrupção clássica, de desvio ilegal ou escândalo explícito. Trata-se de algo mais profundo e mais perigoso: a institucionalização de um modelo que distorce a própria finalidade do Estado.

O dinheiro continua sendo público. Mas o uso, cada vez mais, é privado.

E nesse cenário, direita e esquerda já não se enfrentam. Elas coexistem. Compartilham. Operam.

Diferem no discurso, mas convergem na prática.

O Brasil, então, não vive mais um conflito ideológico. Vive uma crise de caráter político. Uma crise onde o problema não é quem governa, mas como se governa.

E enquanto não houver uma ruptura com essa lógica — enquanto o orçamento continuar sendo tratado como instrumento de poder pessoal — não haverá reforma que resolva, transparência que cure ou discurso que salve.

Porque o problema já não está nas regras.

Está na alma do sistema.

ARTIGO — O Milagre do Barril: Quando o Vinho Ensina Sobre a Vida (Padre Carlos)

 

 

 

Diga-me, com sinceridade: quando foi a última vez que você provou algo — e não estou falando apenas de sabor — mas de sentido?

Outro dia, um amigo me enviou um vídeo sobre a importância do vinho na história e na sociedade. Nada extraordinário à primeira vista. Mas bastou dar o play… e algo dentro de mim foi destrancado. Não era mais um vídeo. Era uma porta.

E eu atravessei.

Voltei ao início da década de 80, ao silêncio denso e quase sagrado do Mosteiro de São Bento da Bahia. Ali, onde o tempo não corria — repousava. Onde o canto gregoriano não era música, mas atmosfera. Onde cada gesto tinha um peso espiritual, e cada dia parecia talhado à mão por Deus.

Foram anos intensos da minha vida. Trabalhei ali por muito tempo como copeiro. Conhecia bem a comunidade, seus hábitos, seus silêncios e até seus pequenos segredos. Era parte daquela engrenagem invisível que sustenta o cotidiano de um mosteiro.

Foi nesse cenário que vivi um dos episódios mais curiosos — e, ouso dizer, mais reveladores — da minha vida.

Certo dia, Dom Paulo, o abade, homem respeitável e de autoridade incontestável, deu uma ordem direta: um barril de vinho da adega deveria ser descartado. Motivo? “Gosto de barata”, disse ele.

Confesso: aquilo me incomodou.

Não pelo vinho. Pelo desperdício.

Talvez fosse juventude. Talvez fosse teimosia. Ou talvez — como aprendi depois — fosse intuição. Resolvi provar.

Mas antes disso, há um detalhe curioso que nunca esqueço: o sacristão, responsável pela sacristia, também se chamava Carlos — meu chará. Foi ele quem me chamou para retirar do depósito o tal barril. Um chamado simples, quase burocrático… mas que, sem que soubéssemos, carregava algo maior.

E ali aconteceu o inesperado.

O vinho estava perfeito. Mais que isso: estava delicioso.

Naquele instante, percebi algo que levaria anos para compreender plenamente — nem tudo que é condenado à primeira vista está, de fato, perdido. Às vezes, falta apenas alguém disposto a experimentar antes de julgar.

O barril, que seria descartado, tornou-se celebração.

Entre risos discretos e cumplicidade silenciosa, eu e alguns companheiros começamos a dividir aquele vinho em garrafas de cinco litros. E então veio o inexplicável — quanto mais bebíamos, mais parecia haver. O vinho não acabava.

Durou mais de um mês.

Hoje, olhando para trás, não sei dizer se foi milagre no sentido teológico. Mas foi, sem dúvida, um milagre humano. Um milagre da percepção. Da partilha. Da recusa em aceitar o descarte automático das coisas — e, por que não dizer, das pessoas.

O vinho, ao longo da história, sempre foi mais que bebida. Está nas raízes da civilização. Na tradição judaico-cristã, é símbolo de aliança, de sangue, de transcendência. Nas mesas simples, representa encontro. Nas grandes ocasiões, celebração.

Mas talvez sua maior lição seja outra.

O vinho ensina sobre o tempo.

Ele amadurece. Ele espera. Ele melhora quando respeitado.

E aqui está o ponto de virada — nós desaprendemos a esperar.

Vivemos hoje sob o peso de uma crise econômica que não é apenas financeira, mas existencial. Tudo precisa ser imediato. Rápido. Substituível. Se não agrada na primeira impressão, descarta-se.

Como aquele barril.

Quantas coisas boas estamos jogando fora sem sequer provar? Quantas histórias, quantas relações, quantas oportunidades?

Naquela adega do mosteiro, sem saber, aprendi uma lição que carrego até hoje: o valor não está apenas no que se vê, mas no que se experimenta com atenção.

Hoje, confesso, continuo apreciando um bom vinho. Os do Alentejo ainda me encantam pela profundidade e tradição. Mas a realidade mudou. A crise nos ensina novos limites. E, com simplicidade, me contento mesmo com os nacionais.

E sabe de uma coisa?

Talvez o sabor não esteja apenas na taça.

Mas na memória.

Porque há vinhos que passam pela boca…

e há vinhos que permanecem na alma.

E esses, meu amigo,

esses nunca acabam.

ARTIGO — O Milagre do Barril: Quando o Vinho Ensina Sobre a Vida (Padre Carlos)

 

 

 

Diga-me, com sinceridade: quando foi a última vez que você provou algo — e não estou falando apenas de sabor — mas de sentido?

Outro dia, um amigo me enviou um vídeo sobre a importância do vinho na história e na sociedade. Nada extraordinário à primeira vista. Mas bastou dar o play… e algo dentro de mim foi destrancado. Não era mais um vídeo. Era uma porta.

E eu atravessei.

Voltei ao início da década de 80, ao silêncio denso e quase sagrado do Mosteiro de São Bento da Bahia. Ali, onde o tempo não corria — repousava. Onde o canto gregoriano não era música, mas atmosfera. Onde cada gesto tinha um peso espiritual, e cada dia parecia talhado à mão por Deus.

Foram anos intensos da minha vida. Trabalhei ali por muito tempo como copeiro. Conhecia bem a comunidade, seus hábitos, seus silêncios e até seus pequenos segredos. Era parte daquela engrenagem invisível que sustenta o cotidiano de um mosteiro.

Foi nesse cenário que vivi um dos episódios mais curiosos — e, ouso dizer, mais reveladores — da minha vida.

Certo dia, Dom Paulo, o abade, homem respeitável e de autoridade incontestável, deu uma ordem direta: um barril de vinho da adega deveria ser descartado. Motivo? “Gosto de barata”, disse ele.

Confesso: aquilo me incomodou.

Não pelo vinho. Pelo desperdício.

Talvez fosse juventude. Talvez fosse teimosia. Ou talvez — como aprendi depois — fosse intuição. Resolvi provar.

Mas antes disso, há um detalhe curioso que nunca esqueço: o sacristão, responsável pela sacristia, também se chamava Carlos — meu chará. Foi ele quem me chamou para retirar do depósito o tal barril. Um chamado simples, quase burocrático… mas que, sem que soubéssemos, carregava algo maior.

E ali aconteceu o inesperado.

O vinho estava perfeito. Mais que isso: estava delicioso.

Naquele instante, percebi algo que levaria anos para compreender plenamente — nem tudo que é condenado à primeira vista está, de fato, perdido. Às vezes, falta apenas alguém disposto a experimentar antes de julgar.

O barril, que seria descartado, tornou-se celebração.

Entre risos discretos e cumplicidade silenciosa, eu e alguns companheiros começamos a dividir aquele vinho em garrafas de cinco litros. E então veio o inexplicável — quanto mais bebíamos, mais parecia haver. O vinho não acabava.

Durou mais de um mês.

Hoje, olhando para trás, não sei dizer se foi milagre no sentido teológico. Mas foi, sem dúvida, um milagre humano. Um milagre da percepção. Da partilha. Da recusa em aceitar o descarte automático das coisas — e, por que não dizer, das pessoas.

O vinho, ao longo da história, sempre foi mais que bebida. Está nas raízes da civilização. Na tradição judaico-cristã, é símbolo de aliança, de sangue, de transcendência. Nas mesas simples, representa encontro. Nas grandes ocasiões, celebração.

Mas talvez sua maior lição seja outra.

O vinho ensina sobre o tempo.

Ele amadurece. Ele espera. Ele melhora quando respeitado.

E aqui está o ponto de virada — nós desaprendemos a esperar.

Vivemos hoje sob o peso de uma crise econômica que não é apenas financeira, mas existencial. Tudo precisa ser imediato. Rápido. Substituível. Se não agrada na primeira impressão, descarta-se.

Como aquele barril.

Quantas coisas boas estamos jogando fora sem sequer provar? Quantas histórias, quantas relações, quantas oportunidades?

Naquela adega do mosteiro, sem saber, aprendi uma lição que carrego até hoje: o valor não está apenas no que se vê, mas no que se experimenta com atenção.

Hoje, confesso, continuo apreciando um bom vinho. Os do Alentejo ainda me encantam pela profundidade e tradição. Mas a realidade mudou. A crise nos ensina novos limites. E, com simplicidade, me contento mesmo com os nacionais.

E sabe de uma coisa?

Talvez o sabor não esteja apenas na taça.

Mas na memória.

Porque há vinhos que passam pela boca…

e há vinhos que permanecem na alma.

E esses, meu amigo,

esses nunca acabam.

A BR-116 Sul e a Arte Baiana de Esperar na Fila que Nunca Anda

 

Artigo de Opinião · Bahia · Março de 2026

 

Por Padre Carlos

 

Há uma habilidade que o interior da Bahia domina como poucos lugares no Brasil: a arte — nobre, refinada e quase mística — de esperar.

Esperar a chuva.
Esperar o governo.
Esperar a promessa virar obra.

E, sobretudo, esperar que alguém em Brasília se lembre de que existimos.

A BR-116 Sul — esse corredor vital de 502 quilômetros que liga Feira de Santana à divisa com Minas Gerais — não é apenas uma rodovia. É uma ferida aberta. Há mais de uma década, ela sangra em buracos, acidentes e promessas não cumpridas.

Em maio de 2025, encerrou-se uma concessão que só pode ser descrita como traumática. Traumática, sim — como um paciente submetido a um tratamento de choque e abandonado na maca antes da recuperação.

E agora?

Agora nos dizem que o novo edital sairá em novembro de 2026.

Novembro de 2026.

Repita em voz alta: dezoito meses.

Dezoito meses para uma estrada que já esperou dez anos.

Não é um prazo. É um deboche institucionalizado.

Porque novembro de 2026 não é uma data qualquer. É depois das eleições. Depois dos votos contados. Depois dos palanques desmontados. Uma coincidência tão precisa que deixa de ser coincidência e passa a ser método.

Enquanto isso, no lado Norte, a chamada “Rota dos Sertões” avança. Edital publicado. Leilão marcado. Prioridade definida.

Bonita escolha.

E a pergunta que ecoa, sem resposta, é simples:

Quem decidiu que a Bahia do Sul deve ficar na fila?

A resposta não está em documento oficial algum. Está no silêncio. No vazio. Na ausência.

Está na falta de representação efetiva em Brasília.

Porque, no Brasil real, obras não andam por necessidade — andam por pressão. Trechos com bancadas mobilizadas, com deputados que ligam, cobram, aparecem, conseguem. Os outros ficam com discursos, notas e promessas de reuniões que nunca acontecem.

Aliás, a reunião com o ministro.

Sempre ela.

Marcada para “em breve”.
Confirmada para “qualquer dia desses”.
Agendada no calendário invisível da política brasileira.

E seguimos esperando.

Mas é preciso dizer com todas as letras: isso não é descaso acidental.

Descaso acidental acontece uma vez.

O que vemos aqui é descaso estrutural — repetido com a precisão de quem sabe exatamente o que está fazendo.

Dezoito meses para iniciar uma nova licitação em uma rodovia que colapsa há dez anos não é burocracia. É escolha.

E toda escolha tem responsável.

2026 é ano eleitoral.

E, pela primeira vez em muito tempo, talvez a espera precise acabar.

Não com mais paciência.
Mas com memória.
Com cobrança.
Com voto.

Pergunte ao seu candidato:
Qual é o plano para a BR-116 Sul?
Quando acontece a reunião com o ministro?
O que foi feito — não prometido?

Quem não souber responder, não merece representar.

Simples assim.

Porque político esquece promessas.

Mas não esquece derrota.

 

A BR-116 Sul e a Arte Baiana de Esperar na Fila que Nunca Anda

 

Artigo de Opinião · Bahia · Março de 2026

 

Por Padre Carlos

 

Há uma habilidade que o interior da Bahia domina como poucos lugares no Brasil: a arte — nobre, refinada e quase mística — de esperar.

Esperar a chuva.
Esperar o governo.
Esperar a promessa virar obra.

E, sobretudo, esperar que alguém em Brasília se lembre de que existimos.

A BR-116 Sul — esse corredor vital de 502 quilômetros que liga Feira de Santana à divisa com Minas Gerais — não é apenas uma rodovia. É uma ferida aberta. Há mais de uma década, ela sangra em buracos, acidentes e promessas não cumpridas.

Em maio de 2025, encerrou-se uma concessão que só pode ser descrita como traumática. Traumática, sim — como um paciente submetido a um tratamento de choque e abandonado na maca antes da recuperação.

E agora?

Agora nos dizem que o novo edital sairá em novembro de 2026.

Novembro de 2026.

Repita em voz alta: dezoito meses.

Dezoito meses para uma estrada que já esperou dez anos.

Não é um prazo. É um deboche institucionalizado.

Porque novembro de 2026 não é uma data qualquer. É depois das eleições. Depois dos votos contados. Depois dos palanques desmontados. Uma coincidência tão precisa que deixa de ser coincidência e passa a ser método.

Enquanto isso, no lado Norte, a chamada “Rota dos Sertões” avança. Edital publicado. Leilão marcado. Prioridade definida.

Bonita escolha.

E a pergunta que ecoa, sem resposta, é simples:

Quem decidiu que a Bahia do Sul deve ficar na fila?

A resposta não está em documento oficial algum. Está no silêncio. No vazio. Na ausência.

Está na falta de representação efetiva em Brasília.

Porque, no Brasil real, obras não andam por necessidade — andam por pressão. Trechos com bancadas mobilizadas, com deputados que ligam, cobram, aparecem, conseguem. Os outros ficam com discursos, notas e promessas de reuniões que nunca acontecem.

Aliás, a reunião com o ministro.

Sempre ela.

Marcada para “em breve”.
Confirmada para “qualquer dia desses”.
Agendada no calendário invisível da política brasileira.

E seguimos esperando.

Mas é preciso dizer com todas as letras: isso não é descaso acidental.

Descaso acidental acontece uma vez.

O que vemos aqui é descaso estrutural — repetido com a precisão de quem sabe exatamente o que está fazendo.

Dezoito meses para iniciar uma nova licitação em uma rodovia que colapsa há dez anos não é burocracia. É escolha.

E toda escolha tem responsável.

2026 é ano eleitoral.

E, pela primeira vez em muito tempo, talvez a espera precise acabar.

Não com mais paciência.
Mas com memória.
Com cobrança.
Com voto.

Pergunte ao seu candidato:
Qual é o plano para a BR-116 Sul?
Quando acontece a reunião com o ministro?
O que foi feito — não prometido?

Quem não souber responder, não merece representar.

Simples assim.

Porque político esquece promessas.

Mas não esquece derrota.

 

A Tragédia de Permanecer Morto: O Chamado Que Ainda Ecoa

 

Por Padre Carlos

Eu estava lá.

Não como protagonista — porque ninguém ali ousaria ocupar esse lugar —, mas como testemunha de um tempo que parecia ter parado, como se o próprio ar de Betânia tivesse aprendido a respirar mais devagar para não ferir ainda mais a dor daquela casa.

Betânia não chorava apenas um homem. Chorava uma ausência que já começava a se tornar definitiva. Chorava um nome que ainda ecoava pelas paredes: Lázaro.

Quatro dias.

Quatro dias não são apenas uma medida de tempo; são uma sentença. Na tradição do nosso povo, é o limite onde até a esperança mais teimosa começa a ceder lugar à resignação. O corpo já não é mais presença — é memória em decomposição. E a memória, quando começa a cheirar, dói de um jeito quase insuportável.

Eu vi Marta primeiro.

Ela não caminhava — ela avançava, como quem ainda luta contra uma realidade que já venceu. Quando soube que Jesus estava chegando, não esperou. Foi ao encontro Dele com uma frase que não era apenas uma frase — era um grito contido há quatro dias:

“Se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.”

Não havia acusação pura ali. Havia fé ferida. Havia amor frustrado. Havia aquela estranha mistura que todos nós conhecemos, mas raramente admitimos: acreditar em Deus… e, ao mesmo tempo, não entender absolutamente nada do que Ele faz.

Jesus não recua.

Ele não oferece consolo fácil, desses que tentam cobrir o abismo com palavras leves. Ele faz algo mais desconcertante — Ele desloca o chão sob os pés de Marta:

“Teu irmão ressuscitará.”

Marta responde como muitos de nós responderíamos — com teologia correta e coração cansado:

“Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição do último dia.”

É a fé organizada. A fé que cabe nos livros. A fé que não resolve o agora.

Então Jesus diz — e naquele momento o tempo pareceu se contrair, como se passado, presente e futuro tivessem sido puxados para dentro de uma única frase:

“Eu sou a ressurreição e a vida.”

Não “eu trago”. Não “eu farei”.
Eu sou.

Ali, eu entendi — ou talvez apenas comecei a entender — que não se tratava de um milagre a caminho. Tratava-se de uma presença que redefine o impossível.

Mas foi com Maria que tudo mudou.

Ela não argumentou. Não teologizou. Não tentou entender. Quando viu Jesus, caiu aos pés Dele.

Caiu.

E há quedas que são mais verdadeiras que qualquer discurso.

“Senhor, se estivesses aqui…”

Ela nem termina direito a frase. Porque a dor não precisa de sintaxe perfeita. A dor se comunica no colapso.

E então acontece algo que, até hoje, me desarma completamente.

Jesus chora.

Não é um choro simbólico. Não é uma lágrima pedagógica. É um choro que nasce do encontro entre o amor e a perda. É Deus permitindo-se ser afetado pela nossa condição. É o infinito tremendo diante da finitude.

Eu vi.

E naquele momento, se alguém ainda duvidava do amor, não podia mais duvidar.

Mas o amor ali não termina em lágrimas. Ele avança.

Nós caminhamos até o túmulo.

A pedra.

O peso.

O silêncio.

Havia um tipo de silêncio ali que não é ausência de som — é excesso de fim. Um silêncio que diz: “aqui não há mais o que fazer”.

Então Jesus diz:

“Retirai a pedra.”

É curioso — e profundamente perturbador — que Ele, que poderia remover a pedra com um gesto, nos convide a fazê-lo. Como se dissesse, sem dizer: há coisas que Deus não fará sem a nossa participação.

Marta hesita. E quem não hesitaria?

“Senhor, já cheira mal. É o quarto dia.”

Essa frase… essa frase atravessa os séculos porque ela é brutalmente honesta. É a voz daquilo que em nós já desistiu. É o diagnóstico final da esperança: “acabou”.

Mas Jesus não negocia com o desespero.

A pedra é removida.

E ali está — não o corpo que foi, mas o que resta dele. O limite absoluto da condição humana.

Então Ele ergue os olhos.

E não é um gesto qualquer. É como se Ele estivesse conectando o céu àquele chão saturado de morte. Como se estivesse afirmando que o que está prestes a acontecer não é uma violação da realidade — é a revelação mais profunda dela.

E então vem a voz.

“Lázaro, vem para fora!”

Não foi um grito descontrolado. Foi uma ordem carregada de autoridade serena. Uma palavra que não pede permissão à morte.

E, por um segundo que pareceu eterno, nada aconteceu.

Até que aconteceu.

Eu vi o impossível se reorganizando.

Eu vi o movimento onde só havia imobilidade.

Eu vi a vida atravessando aquilo que todos nós chamamos de definitivo.

Lázaro saiu.

Não como alguém plenamente livre — ainda envolto em faixas, ainda marcado pela morte —, mas vivo.

Vivo.

E então Jesus diz algo que, para mim, é tão poderoso quanto o próprio milagre:

“Desatai-o e deixai-o andar.”

Porque a vida que Deus devolve, a comunidade precisa ajudar a libertar.

Ali, tudo fez sentido de um jeito que não cabe em explicações rápidas.

O milagre não era apenas sobre um homem que voltou a respirar. Era sobre todos nós — sobre as áreas da nossa vida onde já aceitamos o cheiro do fim, onde já nos acostumamos com a pedra fechando possibilidades, onde já fizemos as pazes com pequenas mortes diárias.

E é aqui que a narrativa deixa de ser memória… e se torna espelho.

Onde você está sepultado?

Em que parte da sua vida o “quarto dia” já chegou?

Qual pedra ainda está intacta — não porque não possa ser removida, mas porque você tem medo do que pode acontecer depois?

Porque, veja… o mais desconcertante nessa história não é que Lázaro tenha saído do túmulo.

É que ele saiu quando foi chamado.

E isso muda tudo.

Porque talvez — só talvez — o mesmo chamado esteja ecoando agora, em lugares seus que você já declarou perdidos.

E, se estiver… a questão já não é se a vida é possível.

A questão é:

você vai sair?

A Tragédia de Permanecer Morto: O Chamado Que Ainda Ecoa

 

Por Padre Carlos

Eu estava lá.

Não como protagonista — porque ninguém ali ousaria ocupar esse lugar —, mas como testemunha de um tempo que parecia ter parado, como se o próprio ar de Betânia tivesse aprendido a respirar mais devagar para não ferir ainda mais a dor daquela casa.

Betânia não chorava apenas um homem. Chorava uma ausência que já começava a se tornar definitiva. Chorava um nome que ainda ecoava pelas paredes: Lázaro.

Quatro dias.

Quatro dias não são apenas uma medida de tempo; são uma sentença. Na tradição do nosso povo, é o limite onde até a esperança mais teimosa começa a ceder lugar à resignação. O corpo já não é mais presença — é memória em decomposição. E a memória, quando começa a cheirar, dói de um jeito quase insuportável.

Eu vi Marta primeiro.

Ela não caminhava — ela avançava, como quem ainda luta contra uma realidade que já venceu. Quando soube que Jesus estava chegando, não esperou. Foi ao encontro Dele com uma frase que não era apenas uma frase — era um grito contido há quatro dias:

“Se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.”

Não havia acusação pura ali. Havia fé ferida. Havia amor frustrado. Havia aquela estranha mistura que todos nós conhecemos, mas raramente admitimos: acreditar em Deus… e, ao mesmo tempo, não entender absolutamente nada do que Ele faz.

Jesus não recua.

Ele não oferece consolo fácil, desses que tentam cobrir o abismo com palavras leves. Ele faz algo mais desconcertante — Ele desloca o chão sob os pés de Marta:

“Teu irmão ressuscitará.”

Marta responde como muitos de nós responderíamos — com teologia correta e coração cansado:

“Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição do último dia.”

É a fé organizada. A fé que cabe nos livros. A fé que não resolve o agora.

Então Jesus diz — e naquele momento o tempo pareceu se contrair, como se passado, presente e futuro tivessem sido puxados para dentro de uma única frase:

“Eu sou a ressurreição e a vida.”

Não “eu trago”. Não “eu farei”.
Eu sou.

Ali, eu entendi — ou talvez apenas comecei a entender — que não se tratava de um milagre a caminho. Tratava-se de uma presença que redefine o impossível.

Mas foi com Maria que tudo mudou.

Ela não argumentou. Não teologizou. Não tentou entender. Quando viu Jesus, caiu aos pés Dele.

Caiu.

E há quedas que são mais verdadeiras que qualquer discurso.

“Senhor, se estivesses aqui…”

Ela nem termina direito a frase. Porque a dor não precisa de sintaxe perfeita. A dor se comunica no colapso.

E então acontece algo que, até hoje, me desarma completamente.

Jesus chora.

Não é um choro simbólico. Não é uma lágrima pedagógica. É um choro que nasce do encontro entre o amor e a perda. É Deus permitindo-se ser afetado pela nossa condição. É o infinito tremendo diante da finitude.

Eu vi.

E naquele momento, se alguém ainda duvidava do amor, não podia mais duvidar.

Mas o amor ali não termina em lágrimas. Ele avança.

Nós caminhamos até o túmulo.

A pedra.

O peso.

O silêncio.

Havia um tipo de silêncio ali que não é ausência de som — é excesso de fim. Um silêncio que diz: “aqui não há mais o que fazer”.

Então Jesus diz:

“Retirai a pedra.”

É curioso — e profundamente perturbador — que Ele, que poderia remover a pedra com um gesto, nos convide a fazê-lo. Como se dissesse, sem dizer: há coisas que Deus não fará sem a nossa participação.

Marta hesita. E quem não hesitaria?

“Senhor, já cheira mal. É o quarto dia.”

Essa frase… essa frase atravessa os séculos porque ela é brutalmente honesta. É a voz daquilo que em nós já desistiu. É o diagnóstico final da esperança: “acabou”.

Mas Jesus não negocia com o desespero.

A pedra é removida.

E ali está — não o corpo que foi, mas o que resta dele. O limite absoluto da condição humana.

Então Ele ergue os olhos.

E não é um gesto qualquer. É como se Ele estivesse conectando o céu àquele chão saturado de morte. Como se estivesse afirmando que o que está prestes a acontecer não é uma violação da realidade — é a revelação mais profunda dela.

E então vem a voz.

“Lázaro, vem para fora!”

Não foi um grito descontrolado. Foi uma ordem carregada de autoridade serena. Uma palavra que não pede permissão à morte.

E, por um segundo que pareceu eterno, nada aconteceu.

Até que aconteceu.

Eu vi o impossível se reorganizando.

Eu vi o movimento onde só havia imobilidade.

Eu vi a vida atravessando aquilo que todos nós chamamos de definitivo.

Lázaro saiu.

Não como alguém plenamente livre — ainda envolto em faixas, ainda marcado pela morte —, mas vivo.

Vivo.

E então Jesus diz algo que, para mim, é tão poderoso quanto o próprio milagre:

“Desatai-o e deixai-o andar.”

Porque a vida que Deus devolve, a comunidade precisa ajudar a libertar.

Ali, tudo fez sentido de um jeito que não cabe em explicações rápidas.

O milagre não era apenas sobre um homem que voltou a respirar. Era sobre todos nós — sobre as áreas da nossa vida onde já aceitamos o cheiro do fim, onde já nos acostumamos com a pedra fechando possibilidades, onde já fizemos as pazes com pequenas mortes diárias.

E é aqui que a narrativa deixa de ser memória… e se torna espelho.

Onde você está sepultado?

Em que parte da sua vida o “quarto dia” já chegou?

Qual pedra ainda está intacta — não porque não possa ser removida, mas porque você tem medo do que pode acontecer depois?

Porque, veja… o mais desconcertante nessa história não é que Lázaro tenha saído do túmulo.

É que ele saiu quando foi chamado.

E isso muda tudo.

Porque talvez — só talvez — o mesmo chamado esteja ecoando agora, em lugares seus que você já declarou perdidos.

E, se estiver… a questão já não é se a vida é possível.

A questão é:

você vai sair?