Política e Resenha

Vitória da Conquista precisa separar disputa política de gestão pública

Opinião & Análise Política

Acusação não é prova

 

Acusação não é prova

Por Padre Carlos

A
política de Vitória da Conquista entrou novamente no terreno das disputas, das interpretações e das acusações. A pré-candidata a deputada estadual Lara Fernandes decidiu tornar públicas suas insatisfações com a prefeita Sheila Lemos e com a Administração Municipal, apresentando sua versão sobre o rompimento político e falando em suposta perseguição. É uma manifestação que merece ser ouvida, como qualquer manifestação política. Mas ouvir não significa transformar automaticamente uma acusação em verdade.

E aqui está o primeiro ponto que precisa ser colocado com clareza para a comunidade conquistense: acusação é acusação; prova é prova.

Perguntar não é perseguir quem pergunta

Quando alguém afirma que existe perseguição política, é legítimo perguntar onde estão os documentos, os atos administrativos e os elementos objetivos capazes de demonstrar que determinadas decisões foram tomadas exclusivamente por motivação política. Não se trata de proteger a prefeita Sheila Lemos de questionamentos. Trata-se justamente de respeitar a inteligência da população de Vitória da Conquista.

Uma demissão, um encerramento de contrato ou uma mudança dentro da estrutura administrativa não pode ser automaticamente transformado em prova de perseguição. Administração pública não funciona a partir de relações pessoais. Existem contratos, cargos, funções, critérios administrativos, necessidades dos serviços, reorganizações internas e responsabilidades legais que precisam ser considerados.

Todas as pessoas que tiveram seus vínculos encerrados estavam necessariamente nessa situação por causa de Lara Fernandes? Ou estamos diante de decisões administrativas que estão sendo reinterpretadas politicamente dentro de uma disputa eleitoral? Essa diferença é fundamental.

Lara Fernandes tem todo o direito de disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia. Tem também o direito de criticar Sheila Lemos, discordar da prefeita e apresentar sua versão dos acontecimentos. O que não pode acontecer é a opinião de uma das partes transformar-se, por força da repetição, em uma sentença definitiva contra a Administração Municipal.

Da mesma forma, a prefeita Sheila Lemos tem o direito de administrar a Prefeitura de Vitória da Conquista segundo suas convicções políticas e administrativas, respeitando a legislação e os critérios que regem o serviço público. A divergência política entre antigos aliados não pode ser confundida automaticamente com perseguição.

O contexto eleitoral de 2026

Estamos em 2026. É ano de eleições. Pessoas que ontem estavam no mesmo grupo podem hoje estar construindo projetos eleitorais diferentes. Alianças podem mudar, candidaturas podem surgir e interesses políticos podem se reorganizar. Isso faz parte da democracia.

Mas existe algo muito maior do que a disputa entre grupos políticos: Vitória da Conquista. E talvez seja exatamente nesse ponto que a discussão esteja sendo desviada.

Enquanto a cidade precisa discutir saúde, educação, infraestrutura, mobilidade, assistência social, desenvolvimento econômico, geração de oportunidades, obras e qualidade dos serviços públicos, corremos o risco de transformar o debate político municipal em uma disputa de versões sobre relações pessoais e bastidores.

A pergunta que deveria ocupar o centro da discussão é outra: qual é o resultado concreto da Administração Sheila Lemos para a população? É por esse conjunto que uma prefeita deve ser julgada.

Se a gestão acertou, que se reconheçam os acertos. Se errou, que se apontem os erros. Se existem problemas, que sejam debatidos. Se existem obras e investimentos, que sejam apresentados. Se existem deficiências nos serviços públicos, que sejam cobradas soluções. Esse é o debate que interessa ao cidadão.

O papel da imprensa e da responsabilidade pública

Não estou dizendo que denúncias políticas devem ser ignoradas. Muito pelo contrário. Toda denúncia séria precisa ser investigada quando houver elementos objetivos que justifiquem investigação. Mas existe uma diferença enorme entre questionar uma administração e condená-la antecipadamente por uma narrativa política.

A imprensa e a sociedade conquistense precisam ter responsabilidade nesse processo. O jornalismo não pode funcionar como simples caixa de ressonância de uma declaração. Deve perguntar, confrontar versões, procurar documentos e ouvir os envolvidos.

Se Lara Fernandes afirma que houve perseguição, que apresente os elementos que sustentam sua acusação. Se a Prefeitura possui explicações administrativas para os casos mencionados, que essas explicações sejam conhecidas. E que o cidadão tire suas próprias conclusões. É assim que funciona uma democracia madura.

Também é preciso observar o contexto político. Uma pré-candidata a deputada estadual está construindo sua presença pública e apresentando ao eleitorado suas razões e posições. Isso não invalida suas palavras, mas exige que elas sejam analisadas também dentro do ambiente político em que foram produzidas.

Da mesma maneira, quem defende Sheila Lemos não deve cair no erro de responder com ataques pessoais. A melhor defesa da prefeita não é dizer simplesmente que seus adversários estão errados. A melhor defesa é colocar fatos sobre a mesa.

Acusação contra acusação não produz verdade. Fato contra fato, documento contra documento e resultado contra resultado produzem debate democrático.

Vitória da Conquista é maior do que a disputa

É justamente por isso que a prefeita Sheila Lemos precisa estar no centro da avaliação, não como personagem de uma briga política, mas como chefe do Executivo Municipal e responsável por uma administração que deve ser avaliada pelo conjunto de suas decisões.

A população de Vitória da Conquista não pode ser convocada apenas para escolher de que lado está em uma disputa entre políticos. Precisa ser convocada para responder perguntas muito mais importantes: quem trabalha pela cidade? Quem apresenta resultados? Quem tem propostas? Quem possui experiência administrativa? Quais projetos estão produzindo mudanças concretas? E, sobretudo, quais acusações possuem provas?

A política não pode transformar cada divergência em perseguição, assim como não pode transformar cada decisão administrativa em retaliação. Se existe prova, que ela apareça. Se existe erro, que seja corrigido. Se existe irregularidade, que seja investigada. Mas se existem apenas versões políticas conflitantes, cabe à sociedade manter a serenidade e não aceitar que a narrativa substitua os fatos.

Sheila Lemos deve ser julgada por sua administração. Deve ser cobrada pelos problemas que existem e reconhecida pelos resultados que eventualmente tenha produzido. Esse é o caminho mais justo. Porque Vitória da Conquista é maior do que qualquer grupo político, maior do que qualquer candidatura e maior do que qualquer disputa pessoal.

No final das contas, a pergunta que permanece é simples — e incômoda para todos os lados:

Onde estão as provas da acusação e quais são, concretamente, os resultados da gestão que o povo pode enxergar? É entre essas duas perguntas que a verdade política de Vitória da Conquista precisa ser procurada.

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Assinado por Padre Carlos — artigo de opinião.