Política e Resenha

Zuenir Ventura: morre um jornalista, permanece uma testemunha do Brasil

Memória • Jornalismo • Brasil

Por Padre Carlos

Há mortes que nos chegam como notícia. E há mortes que nos chegam como uma espécie de silêncio dentro de nós. A notícia da morte de Zuenir Ventura, aos 95 anos, nesta terça-feira, 22 de setembro, pertence a essa segunda categoria. Morre um jornalista. Morre um escritor. Morre um intelectual. Mas, sobretudo, desaparece fisicamente um homem que durante mais de seis décadas ajudou o Brasil a olhar para si mesmo.

Zuenir não foi apenas alguém que escreveu sobre o Brasil. Ele foi um dos homens que interpretaram o Brasil através do jornalismo. Sua grandeza estava justamente nessa capacidade rara de transformar a reportagem em documento histórico, sem abandonar a sensibilidade humana diante dos personagens e dos acontecimentos.

E talvez seja por isso que sua morte me atinja de maneira particularmente pessoal.

“Encontrar pessoalmente alguém que já admirávamos através dos livros e das páginas dos jornais produz uma sensação difícil de explicar. A pessoa deixa de ser apenas um nome conhecido e passa a ter rosto, voz, presença.”

Uma lembrança em Copacabana

Tive a oportunidade de ser apresentado a Zuenir Ventura no Rio de Janeiro, em Copacabana, por uma amiga que morava na Rua Barão de Ipanema. Guardo daquele encontro uma lembrança especial. Encontrar pessoalmente alguém que já admirávamos através dos livros e das páginas dos jornais produz uma sensação difícil de explicar. A pessoa deixa de ser apenas um nome conhecido e passa a ter rosto, voz, presença.

Hoje, ao saber de sua morte, essa memória voltou.

Voltou também a lembrança de quanto Zuenir significou para uma geração que acreditava no jornalismo como instrumento de compreensão da realidade. Ele pertencia a uma tradição de jornalistas que não se contentavam em reproduzir declarações, registrar acontecimentos ou correr atrás da notícia mais rápida. Era preciso entender o que estava por trás da notícia.

1968 e o Brasil que não terminou

Foi assim em “1968: O Ano que Não Terminou”, talvez sua obra mais conhecida. Publicado em 1988, o livro transformou a memória daquele ano — marcado pela repressão da ditadura militar, pelo AI-5, pelas manifestações estudantis e por profundas transformações culturais — em uma grande narrativa jornalística. A obra tornou-se referência e posteriormente inspirou a minissérie Anos Rebeldes.

Mas reduzir Zuenir a 1968 seria uma injustiça com uma obra muito maior.

A cidade partida

Em “Cidade Partida”, ele mergulhou na realidade da violência urbana do Rio de Janeiro. Depois da chacina de Vigário Geral, em 1993, passou meses acompanhando a comunidade, ouvindo moradores e procurando compreender as fraturas sociais que separavam diferentes partes da cidade. O resultado foi um dos mais importantes livros-reportagem sobre violência, desigualdade e sociedade brasileira, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem.

E houve ainda “Chico Mendes — Crime e Castigo”.

Ao investigar o assassinato do líder seringueiro no Acre, Zuenir demonstrou que o jornalismo pode atravessar fronteiras geográficas e sociais para encontrar aquilo que muitas vezes permanece invisível. A série de reportagens publicada originalmente pelo Jornal do Brasil recebeu o Prêmio Esso e o Prêmio Vladimir Herzog. Anos depois, aquele trabalho seria transformado em livro.

Ele tinha o talento de contar histórias sem perder de vista a História.

Sabia que atrás de uma estatística existe uma pessoa. Que atrás de uma tragédia existem famílias. Que atrás de uma disputa política existem vidas. Que atrás de uma cidade dividida existem seres humanos tentando sobreviver.

A lição de um jornalismo que sabia escutar

É justamente aí que encontro a dimensão mais profunda de Zuenir Ventura.

Ele tinha o talento de contar histórias sem perder de vista a História.

Sabia que atrás de uma estatística existe uma pessoa. Que atrás de uma tragédia existem famílias. Que atrás de uma disputa política existem vidas. Que atrás de uma cidade dividida existem seres humanos tentando sobreviver.

Talvez essa seja uma das maiores lições que sua geração deixa para o jornalismo contemporâneo.

Vivemos um tempo em que a velocidade muitas vezes derrotou a profundidade. A notícia chega antes da compreensão. O comentário aparece antes da apuração. A opinião frequentemente ocupa o espaço que deveria pertencer à informação. E, nesse ambiente, a obra de Zuenir Ventura nos lembra que jornalismo é também paciência, investigação, escuta, memória e responsabilidade.

Não significa que o jornalista deva ser neutro diante da injustiça. Significa que deve ser rigoroso diante dos fatos.

Zuenir sabia fazer isso.

Uma trajetória que atravessou a imprensa brasileira

Sua trajetória passou por importantes veículos da imprensa brasileira, entre eles Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo. Foi professor, jornalista, escritor e, desde 2015, ocupava a Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, para a qual havia sido eleito em 2014, sucedendo Ariano Suassuna.

A própria Academia Brasileira de Letras, ao anunciar sua morte, resumiu o tamanho do personagem ao recordar Zuenir como jornalista, escritor, professor, orientador e intelectual.

Mas há algo que nenhuma biografia consegue registrar completamente: aquilo que um grande jornalista deixa na cabeça e no coração de quem o lê.

Eu fui um desses leitores.

Quando a memória se transforma em permanência

Por isso, quando penso em Zuenir Ventura, não penso apenas no acadêmico, no premiado, no autor de livros que se tornaram clássicos. Penso também naquele encontro em Copacabana. Penso na amiga que me apresentou a ele. Penso na simplicidade daquele momento e em como certas pessoas atravessam nossa vida talvez sem imaginar que, anos depois, uma lembrança aparentemente pequena ganharia uma dimensão enorme.

Hoje, Zuenir pertence definitivamente à memória brasileira.

Mas não à memória como lugar de esquecimento.

À memória como permanência.

Seus livros continuarão sendo lidos porque o Brasil que ele investigou continua, de muitas maneiras, diante de nós: o Brasil da política, da desigualdade, da violência, dos conflitos sociais, da cultura, da juventude, da democracia e das feridas ainda abertas de nossa história.

É por isso que a morte de Zuenir Ventura é uma perda para o jornalismo brasileiro, para a literatura brasileira e para todos aqueles que acreditam que contar a história do país é também uma forma de ajudar o país a compreender a si mesmo.

O jornalista parte. A obra permanece.

Aos 95 anos, ele encerra sua presença física. Mas um jornalista verdadeiramente grande não desaparece quando deixa de escrever.

Ele continua escrevendo através daqueles que aprenderam com suas palavras.

E Zuenir Ventura escreveu muito.

Escreveu sobre 1968. Escreveu sobre a cidade partida. Escreveu sobre Chico Mendes. Escreveu sobre a violência, a política, a cultura e, principalmente, sobre o ser humano escondido dentro dos grandes acontecimentos.

Hoje, diante da notícia de sua morte, lembro daquele encontro em Copacabana e penso que algumas apresentações da vida são, sem que saibamos naquele instante, verdadeiros presentes.

Aquela foi uma delas.

Descanse em paz, Zuenir.

O Brasil perdeu um de seus grandes jornalistas.

Nós, leitores, ganhamos o privilégio de continuar conversando com ele através dos livros.

“O tempo pode levar o jornalista, mas não consegue levar aquilo que ele escreveu.”

Artigo de opinião
Padre Carlos
Uma homenagem à trajetória, à memória e ao legado de Zuenir Ventura para o jornalismo e para a cultura brasileira.


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