
Padre Carlos
Quando falamos de vocação sacerdotal, quase sempre somos tentados a reduzi-la a um chamado íntimo, silencioso, encerrado nos limites do templo. Mas a verdadeira vocação cristã — e aqui eu falo em tom de confidência, quase num sussurro ao leitor — nasce do batismo e deságua inevitavelmente na história concreta, ferida e real. O seguimento radical de Jesus não é um adorno espiritual: é ruptura, é risco, é escolha. “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27). Essas palavras não envelhecem. Elas queimam.
No ministério sacerdotal, a renúncia nunca foi — nem pode ser — anulação de si. Renuncia quem é livre. Renuncia quem ama. Renuncia quem encontrou algo maior do que a própria vontade. Esse foi o ensinamento decisivo do Padre Benedito, formador de uma geração inteira de jovens que, décadas depois, assumiriam responsabilidades centrais na Igreja do nosso estado. Ali se forjou uma espiritualidade que não separava oração e compromisso social, fé e justiça, altar e rua.
Tudo começa quando a Diocese decide olhar nos olhos do povo e assumir suas dores como parte do Evangelho. A Igreja Católica, em nossa cidade, escolheu apoiar as lutas sociais, a vida dura do homem e da mulher do campo, dos catadores de café, dos trabalhadores urbanos empurrados para a Serra do Periperi. O maior problema da Igreja não era dogmático; era ético. Era pastoral. Era como anunciar Deus num contexto de opressão, exploração e violência estrutural. Foi nesse chão áspero que brotaram muitas vocações. Entre elas, a de Dom Zanoni.
No dia 23 de janeiro, Dom Zanoni completa 64 anos. Para os amigos, essa data se tornou mais do que um aniversário: é um Memorial. E memória, na tradição bíblica, não é nostalgia. É compromisso. Lembrar é atualizar. É não permitir que a história seja apagada. Entre celebrações em Feira de Santana, Vitória da Conquista e tantos outros lugares onde ele apascentou suas ovelhas.
As elites locais sempre desejaram uma Igreja que anunciasse um Deus-Poder, cúmplice da ordem estabelecida, legitimador da dominação e da desigualdade. Mas o Deus de Jesus — e o Deus vivido por Dom Zanoni — não se confunde com esse ídolo travestido de divindade. Ele é onipotente não porque domina, mas porque cria, sustenta e liberta. Por isso, ao abrir a Catedral para a missa de sétimo dia de Etelvino (Teté), assassinado na Fazenda Paixão, e ao denunciar publicamente os crimes cometidos contra os mais fracos, Dom Zanoni atraiu para si o ódio do conservadorismo burguês. A cruz, mais uma vez, deixou de ser símbolo e virou ameaça real.
A vocação profética não se escolhe sem consequências. Ao denunciar a chacina da Fazenda Mucambo, sua vida foi colocada em risco. Em uma reunião de grandes proprietários, decidiu-se que o “padre da Catedral” estava incomodando demais e deveria ser eliminado. A notícia chegou ao Bispo Dom Celso José. Coube ao Padre João Cardoso, em um gesto de coragem cívica, denunciar o plano no programa Resenha Geral, do saudoso Herzem Gusmão, impedindo que o martírio se consumasse. Mesmo sob ameaça de morte, Dom Zanoni não recuou. Foi a Brasília lutar pela desapropriação das terras. Hoje, o MST conta com 23 assentamentos na região. Isso não é ideologia: é fato histórico. É Evangelho encarnado.
Olhando para trás, para os caminhos percorridos por Dom Zanoni nesses mais de sessenta anos de vida, a conclusão se impõe com força serena: quem busca a paz precisa trabalhar pela justiça; e quem luta por justiça precisa colocar, como primícia inegociável, a defesa da vida. Vida ameaçada, vida esquecida, vida violentada. A fé que não passa por aí torna-se discurso vazio, liturgia sem alma, religião sem Deus.
Este artigo não é apenas homenagem. É testemunho. É memória ativa. É chamado. Em tempos de silêncio cúmplice e neutralidade confortável, a história de Dom Zanoni nos lembra que a vocação sacerdotal — quando fiel ao Evangelho — continua sendo um escândalo para os poderosos e uma boa notícia para os pobres.
Parabéns, companheiro.
Que a sua vida continue sendo sinal de que a justiça é o nome histórico do amor.











