Política e Resenha

ARTIGO – Dom Zanoni: Vocação, Profecia e a Coragem de Escolher a Justiça

 

 

 

Padre Carlos

Quando falamos de vocação sacerdotal, quase sempre somos tentados a reduzi-la a um chamado íntimo, silencioso, encerrado nos limites do templo. Mas a verdadeira vocação cristã — e aqui eu falo em tom de confidência, quase num sussurro ao leitor — nasce do batismo e deságua inevitavelmente na história concreta, ferida e real. O seguimento radical de Jesus não é um adorno espiritual: é ruptura, é risco, é escolha. “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27). Essas palavras não envelhecem. Elas queimam.

No ministério sacerdotal, a renúncia nunca foi — nem pode ser — anulação de si. Renuncia quem é livre. Renuncia quem ama. Renuncia quem encontrou algo maior do que a própria vontade. Esse foi o ensinamento decisivo do Padre Benedito, formador de uma geração inteira de jovens que, décadas depois, assumiriam responsabilidades centrais na Igreja do nosso estado. Ali se forjou uma espiritualidade que não separava oração e compromisso social, fé e justiça, altar e rua.

Tudo começa quando a Diocese decide olhar nos olhos do povo e assumir suas dores como parte do Evangelho. A Igreja Católica, em nossa cidade, escolheu apoiar as lutas sociais, a vida dura do homem e da mulher do campo, dos catadores de café, dos trabalhadores urbanos empurrados para a Serra do Periperi. O maior problema da Igreja não era dogmático; era ético. Era pastoral. Era como anunciar Deus num contexto de opressão, exploração e violência estrutural. Foi nesse chão áspero que brotaram muitas vocações. Entre elas, a de Dom Zanoni.

No dia 23 de janeiro, Dom Zanoni completa 64 anos. Para os amigos, essa data se tornou mais do que um aniversário: é um Memorial. E memória, na tradição bíblica, não é nostalgia. É compromisso. Lembrar é atualizar. É não permitir que a história seja apagada. Entre celebrações em Feira de Santana, Vitória da Conquista e tantos outros lugares onde ele apascentou suas ovelhas.

As elites locais sempre desejaram uma Igreja que anunciasse um Deus-Poder, cúmplice da ordem estabelecida, legitimador da dominação e da desigualdade. Mas o Deus de Jesus — e o Deus vivido por Dom Zanoni — não se confunde com esse ídolo travestido de divindade. Ele é onipotente não porque domina, mas porque cria, sustenta e liberta. Por isso, ao abrir a Catedral para a missa de sétimo dia de Etelvino (Teté), assassinado na Fazenda Paixão, e ao denunciar publicamente os crimes cometidos contra os mais fracos, Dom Zanoni atraiu para si o ódio do conservadorismo burguês. A cruz, mais uma vez, deixou de ser símbolo e virou ameaça real.

A vocação profética não se escolhe sem consequências. Ao denunciar a chacina da Fazenda Mucambo, sua vida foi colocada em risco. Em uma reunião de grandes proprietários, decidiu-se que o “padre da Catedral” estava incomodando demais e deveria ser eliminado. A notícia chegou ao Bispo Dom Celso José. Coube ao Padre João Cardoso, em um gesto de coragem cívica, denunciar o plano no programa Resenha Geral, do saudoso Herzem Gusmão, impedindo que o martírio se consumasse. Mesmo sob ameaça de morte, Dom Zanoni não recuou. Foi a Brasília lutar pela desapropriação das terras. Hoje, o MST conta com 23 assentamentos na região. Isso não é ideologia: é fato histórico. É Evangelho encarnado.

Olhando para trás, para os caminhos percorridos por Dom Zanoni nesses mais de sessenta anos de vida, a conclusão se impõe com força serena: quem busca a paz precisa trabalhar pela justiça; e quem luta por justiça precisa colocar, como primícia inegociável, a defesa da vida. Vida ameaçada, vida esquecida, vida violentada. A fé que não passa por aí torna-se discurso vazio, liturgia sem alma, religião sem Deus.

Este artigo não é apenas homenagem. É testemunho. É memória ativa. É chamado. Em tempos de silêncio cúmplice e neutralidade confortável, a história de Dom Zanoni nos lembra que a vocação sacerdotal — quando fiel ao Evangelho — continua sendo um escândalo para os poderosos e uma boa notícia para os pobres.

Parabéns, companheiro.
Que a sua vida continue sendo sinal de que a justiça é o nome histórico do amor.

ARTIGO – Dom Zanoni: Vocação, Profecia e a Coragem de Escolher a Justiça

 

 

 

Padre Carlos

Quando falamos de vocação sacerdotal, quase sempre somos tentados a reduzi-la a um chamado íntimo, silencioso, encerrado nos limites do templo. Mas a verdadeira vocação cristã — e aqui eu falo em tom de confidência, quase num sussurro ao leitor — nasce do batismo e deságua inevitavelmente na história concreta, ferida e real. O seguimento radical de Jesus não é um adorno espiritual: é ruptura, é risco, é escolha. “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27). Essas palavras não envelhecem. Elas queimam.

No ministério sacerdotal, a renúncia nunca foi — nem pode ser — anulação de si. Renuncia quem é livre. Renuncia quem ama. Renuncia quem encontrou algo maior do que a própria vontade. Esse foi o ensinamento decisivo do Padre Benedito, formador de uma geração inteira de jovens que, décadas depois, assumiriam responsabilidades centrais na Igreja do nosso estado. Ali se forjou uma espiritualidade que não separava oração e compromisso social, fé e justiça, altar e rua.

Tudo começa quando a Diocese decide olhar nos olhos do povo e assumir suas dores como parte do Evangelho. A Igreja Católica, em nossa cidade, escolheu apoiar as lutas sociais, a vida dura do homem e da mulher do campo, dos catadores de café, dos trabalhadores urbanos empurrados para a Serra do Periperi. O maior problema da Igreja não era dogmático; era ético. Era pastoral. Era como anunciar Deus num contexto de opressão, exploração e violência estrutural. Foi nesse chão áspero que brotaram muitas vocações. Entre elas, a de Dom Zanoni.

No dia 23 de janeiro, Dom Zanoni completa 64 anos. Para os amigos, essa data se tornou mais do que um aniversário: é um Memorial. E memória, na tradição bíblica, não é nostalgia. É compromisso. Lembrar é atualizar. É não permitir que a história seja apagada. Entre celebrações em Feira de Santana, Vitória da Conquista e tantos outros lugares onde ele apascentou suas ovelhas.

As elites locais sempre desejaram uma Igreja que anunciasse um Deus-Poder, cúmplice da ordem estabelecida, legitimador da dominação e da desigualdade. Mas o Deus de Jesus — e o Deus vivido por Dom Zanoni — não se confunde com esse ídolo travestido de divindade. Ele é onipotente não porque domina, mas porque cria, sustenta e liberta. Por isso, ao abrir a Catedral para a missa de sétimo dia de Etelvino (Teté), assassinado na Fazenda Paixão, e ao denunciar publicamente os crimes cometidos contra os mais fracos, Dom Zanoni atraiu para si o ódio do conservadorismo burguês. A cruz, mais uma vez, deixou de ser símbolo e virou ameaça real.

A vocação profética não se escolhe sem consequências. Ao denunciar a chacina da Fazenda Mucambo, sua vida foi colocada em risco. Em uma reunião de grandes proprietários, decidiu-se que o “padre da Catedral” estava incomodando demais e deveria ser eliminado. A notícia chegou ao Bispo Dom Celso José. Coube ao Padre João Cardoso, em um gesto de coragem cívica, denunciar o plano no programa Resenha Geral, do saudoso Herzem Gusmão, impedindo que o martírio se consumasse. Mesmo sob ameaça de morte, Dom Zanoni não recuou. Foi a Brasília lutar pela desapropriação das terras. Hoje, o MST conta com 23 assentamentos na região. Isso não é ideologia: é fato histórico. É Evangelho encarnado.

Olhando para trás, para os caminhos percorridos por Dom Zanoni nesses mais de sessenta anos de vida, a conclusão se impõe com força serena: quem busca a paz precisa trabalhar pela justiça; e quem luta por justiça precisa colocar, como primícia inegociável, a defesa da vida. Vida ameaçada, vida esquecida, vida violentada. A fé que não passa por aí torna-se discurso vazio, liturgia sem alma, religião sem Deus.

Este artigo não é apenas homenagem. É testemunho. É memória ativa. É chamado. Em tempos de silêncio cúmplice e neutralidade confortável, a história de Dom Zanoni nos lembra que a vocação sacerdotal — quando fiel ao Evangelho — continua sendo um escândalo para os poderosos e uma boa notícia para os pobres.

Parabéns, companheiro.
Que a sua vida continue sendo sinal de que a justiça é o nome histórico do amor.

ARTIGO – Racismo Sem Fronteiras: quando o preconceito atravessa sotaques e expõe feridas abertas

 

 

Padre Carlos

O racismo no Brasil não é um desvio isolado nem um ruído ocasional da convivência social. Ele é uma ferida aberta, antiga, estrutural, que insiste em sangrar diante de nossos olhos. O que chama atenção, e precisa ser dito com coragem e responsabilidade, é o aumento recente de casos explícitos de injúria racial e preconceito racial envolvendo visitantes e turistas, muitos deles oriundos da região Sul do país, reproduzindo discursos de ódio que encontram no Brasil negro um alvo histórico.

Não se trata de demonizar regiões ou povos, mas de encarar fatos. O racismo não nasce do nada. Ele é ensinado, naturalizado, reproduzido em ambientes onde a branquitude é confundida com superioridade e onde a diferença é vista como ameaça. Quando esses valores atravessam fronteiras simbólicas, o resultado é violência verbal, humilhação pública e crimes que ferem a dignidade humana.

O caso da turista argentina Agostina Paz é emblemático. Flagrada cometendo atos de injúria racial no Rio de Janeiro, imitando macaco e utilizando termos racistas, ela permanece no país com tornozeleira eletrônica, passaporte apreendido e investigação concluída pela Polícia Civil. O Estado brasileiro deu uma resposta clara: racismo é crime e dá cadeia. Nem fama nas redes sociais, nem nacionalidade estrangeira, nem falsas denúncias intimidam a lei. A tentativa de inverter a narrativa, apresentando-se como vítima, apenas revela o velho expediente de quem nunca aprendeu a lidar com limites civilizatórios.

Outro episódio igualmente chocante ocorreu em Salvador, no coração do Pelourinho, território símbolo da resistência negra no Brasil. Uma turista do Rio Grande do Sul foi presa após chamar uma comerciante de “lixo”, cuspir nela e repetir, de forma quase ritualística, “eu sou branca”, como se a cor da pele fosse um salvo-conduto moral. O relato da vítima, Hanna, é devastador. Não apenas pela violência sofrida, mas pelo trauma que permanece quando o racismo deixa de ser conceito abstrato e se transforma em agressão direta, olho no olho.

Esses episódios não são exceções. São sintomas. Revelam como o racismo no Brasil continua operando com naturalidade assustadora, muitas vezes travestido de opinião, descontrole emocional ou “mal-entendido cultural”. Não é. Racismo é crime. Injúria racial é crime. Preconceito racial é crime. E mais do que isso: é um ataque direto à democracia, à justiça social e aos direitos humanos.

O Brasil precisa decidir quem quer ser. Um país que relativiza o ódio ou uma nação que protege seus cidadãos, especialmente aqueles historicamente violentados. A aplicação rigorosa da lei não é vingança; é pedagogia civilizatória. Cada punição justa é um recado claro: aqui, a dignidade humana não é negociável.

Enquanto o racismo for tratado como “excesso”, ele continuará matando simbolicamente — e às vezes fisicamente — corpos negros todos os dias. Denunciar é dever. Punir é obrigação. Silenciar é cumplicidade.

ARTIGO – Racismo Sem Fronteiras: quando o preconceito atravessa sotaques e expõe feridas abertas

 

 

Padre Carlos

O racismo no Brasil não é um desvio isolado nem um ruído ocasional da convivência social. Ele é uma ferida aberta, antiga, estrutural, que insiste em sangrar diante de nossos olhos. O que chama atenção, e precisa ser dito com coragem e responsabilidade, é o aumento recente de casos explícitos de injúria racial e preconceito racial envolvendo visitantes e turistas, muitos deles oriundos da região Sul do país, reproduzindo discursos de ódio que encontram no Brasil negro um alvo histórico.

Não se trata de demonizar regiões ou povos, mas de encarar fatos. O racismo não nasce do nada. Ele é ensinado, naturalizado, reproduzido em ambientes onde a branquitude é confundida com superioridade e onde a diferença é vista como ameaça. Quando esses valores atravessam fronteiras simbólicas, o resultado é violência verbal, humilhação pública e crimes que ferem a dignidade humana.

O caso da turista argentina Agostina Paz é emblemático. Flagrada cometendo atos de injúria racial no Rio de Janeiro, imitando macaco e utilizando termos racistas, ela permanece no país com tornozeleira eletrônica, passaporte apreendido e investigação concluída pela Polícia Civil. O Estado brasileiro deu uma resposta clara: racismo é crime e dá cadeia. Nem fama nas redes sociais, nem nacionalidade estrangeira, nem falsas denúncias intimidam a lei. A tentativa de inverter a narrativa, apresentando-se como vítima, apenas revela o velho expediente de quem nunca aprendeu a lidar com limites civilizatórios.

Outro episódio igualmente chocante ocorreu em Salvador, no coração do Pelourinho, território símbolo da resistência negra no Brasil. Uma turista do Rio Grande do Sul foi presa após chamar uma comerciante de “lixo”, cuspir nela e repetir, de forma quase ritualística, “eu sou branca”, como se a cor da pele fosse um salvo-conduto moral. O relato da vítima, Hanna, é devastador. Não apenas pela violência sofrida, mas pelo trauma que permanece quando o racismo deixa de ser conceito abstrato e se transforma em agressão direta, olho no olho.

Esses episódios não são exceções. São sintomas. Revelam como o racismo no Brasil continua operando com naturalidade assustadora, muitas vezes travestido de opinião, descontrole emocional ou “mal-entendido cultural”. Não é. Racismo é crime. Injúria racial é crime. Preconceito racial é crime. E mais do que isso: é um ataque direto à democracia, à justiça social e aos direitos humanos.

O Brasil precisa decidir quem quer ser. Um país que relativiza o ódio ou uma nação que protege seus cidadãos, especialmente aqueles historicamente violentados. A aplicação rigorosa da lei não é vingança; é pedagogia civilizatória. Cada punição justa é um recado claro: aqui, a dignidade humana não é negociável.

Enquanto o racismo for tratado como “excesso”, ele continuará matando simbolicamente — e às vezes fisicamente — corpos negros todos os dias. Denunciar é dever. Punir é obrigação. Silenciar é cumplicidade.

Vitória da Conquista promove Caminhada Ecológica no Parque das Lagoas das Bateias e reforça compromisso com o meio ambiente

 

 

 

Por Redação

Vitória da Conquista se prepara para viver, no próximo 1º de fevereiro de 2026, um momento simbólico e prático de mobilização ambiental. A partir das 7h30 da manhã, o Parque Ambiental Lagoa das Bateias será palco da 1ª Caminhada Ecológica, uma iniciativa que une conscientização, participação cidadã e cuidado coletivo com um dos principais patrimônios naturais do município.

Com o lema “O Parque é nosso. O cuidado também.”, o evento vai além de uma simples caminhada. Durante o percurso, os participantes irão realizar a coleta de resíduos descartados de forma inadequada dentro do parque, transformando o ato de caminhar em um gesto concreto de preservação ambiental.

A ação é promovida com apoio da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, por meio de suas secretarias e órgãos ambientais, e tem como objetivo despertar na população a responsabilidade compartilhada pela conservação dos espaços públicos, especialmente aqueles voltados ao lazer, à convivência e à sustentabilidade.

O Parque Ambiental Lagoa das Bateias, que ao longo dos anos se consolidou como área estratégica para o equilíbrio ecológico da cidade, enfrenta desafios comuns a muitos parques urbanos: descarte irregular de lixo, degradação de áreas verdes e falta de consciência ambiental por parte de uma parcela da população. A Caminhada Ecológica surge, portanto, como resposta pedagógica e mobilizadora a esse cenário.

Segundo a organização, a expectativa é reunir moradores, estudantes, ambientalistas, atletas amadores, famílias e representantes de movimentos sociais, reforçando a ideia de que o cuidado com o meio ambiente começa no território onde se vive. “É um convite à corresponsabilidade. Preservar o parque é preservar qualidade de vida”, destaca um dos organizadores.

Além da coleta de resíduos, o evento deve estimular reflexões sobre educação ambiental, sustentabilidade urbana e políticas públicas voltadas à proteção dos recursos naturais. A caminhada também se insere em um contexto mais amplo de debates globais sobre mudanças climáticas, cidades sustentáveis e participação social.

A orientação é que os participantes utilizem roupas leves, calçados confortáveis e, se possível, levem luvas para auxiliar na coleta do lixo. A organização reforça que a caminhada é aberta ao público e não exige inscrição prévia.

Ao promover a Caminhada Ecológica, Vitória da Conquista sinaliza que o cuidado com o meio ambiente não é apenas discurso, mas prática coletiva. Um passo de cada vez, a cidade reafirma que preservar hoje é garantir o amanhã.

Vitória da Conquista promove Caminhada Ecológica no Parque das Lagoas das Bateias e reforça compromisso com o meio ambiente

 

 

 

Por Redação

Vitória da Conquista se prepara para viver, no próximo 1º de fevereiro de 2026, um momento simbólico e prático de mobilização ambiental. A partir das 7h30 da manhã, o Parque Ambiental Lagoa das Bateias será palco da 1ª Caminhada Ecológica, uma iniciativa que une conscientização, participação cidadã e cuidado coletivo com um dos principais patrimônios naturais do município.

Com o lema “O Parque é nosso. O cuidado também.”, o evento vai além de uma simples caminhada. Durante o percurso, os participantes irão realizar a coleta de resíduos descartados de forma inadequada dentro do parque, transformando o ato de caminhar em um gesto concreto de preservação ambiental.

A ação é promovida com apoio da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, por meio de suas secretarias e órgãos ambientais, e tem como objetivo despertar na população a responsabilidade compartilhada pela conservação dos espaços públicos, especialmente aqueles voltados ao lazer, à convivência e à sustentabilidade.

O Parque Ambiental Lagoa das Bateias, que ao longo dos anos se consolidou como área estratégica para o equilíbrio ecológico da cidade, enfrenta desafios comuns a muitos parques urbanos: descarte irregular de lixo, degradação de áreas verdes e falta de consciência ambiental por parte de uma parcela da população. A Caminhada Ecológica surge, portanto, como resposta pedagógica e mobilizadora a esse cenário.

Segundo a organização, a expectativa é reunir moradores, estudantes, ambientalistas, atletas amadores, famílias e representantes de movimentos sociais, reforçando a ideia de que o cuidado com o meio ambiente começa no território onde se vive. “É um convite à corresponsabilidade. Preservar o parque é preservar qualidade de vida”, destaca um dos organizadores.

Além da coleta de resíduos, o evento deve estimular reflexões sobre educação ambiental, sustentabilidade urbana e políticas públicas voltadas à proteção dos recursos naturais. A caminhada também se insere em um contexto mais amplo de debates globais sobre mudanças climáticas, cidades sustentáveis e participação social.

A orientação é que os participantes utilizem roupas leves, calçados confortáveis e, se possível, levem luvas para auxiliar na coleta do lixo. A organização reforça que a caminhada é aberta ao público e não exige inscrição prévia.

Ao promover a Caminhada Ecológica, Vitória da Conquista sinaliza que o cuidado com o meio ambiente não é apenas discurso, mas prática coletiva. Um passo de cada vez, a cidade reafirma que preservar hoje é garantir o amanhã.

Saudade, Militância e Utopia: quando o passado ainda pulsa no peito

 

 

 

Quando foi que começamos a chamar de “ingenuidade” aquilo que, um dia, foi coragem?
Essa pergunta não grita. Ela sussurra. Sussurra no ouvido de quem viveu a juventude como quem vive um manifesto: com o corpo inteiro, com o coração desarmado, com a certeza — quase insolente — de que o mundo podia ser diferente.

Tenho saudade de um tempo.
E não é uma saudade qualquer. É dessas que não pedem licença, que chegam de madrugada, sentam na beira da cama e ficam. Saudade da juventude, da militância, da utopia que eu carregava como quem carrega um estandarte invisível. Saudade do que foi vivido em cada detalhe, quando tudo parecia eterno — e, por isso mesmo, não nos preparamos para o fim.

Havia abraços que eram trincheiras.
Conversas que duravam mais que a noite.
Um namoro escondido que, paradoxalmente, era mais verdadeiro do que muitas relações exibidas hoje à luz fria das redes sociais. Não sinto falta só de você — e aqui falo também no singular íntimo e no plural coletivo. Sinto falta de nós. Daquele acelerar do coração quando o encontro acontecia. Da sensação de que estávamos do lado certo da história, mesmo sem garantias, mesmo sem aplausos.

Essa saudade não é apenas afetiva. Ela é política.

Porque houve um tempo em que a militância não era cálculo, era entrega. Não era branding pessoal, era risco. Não era performance, era presença. Militávamos com os pés no chão e os olhos no horizonte. A utopia não era um slogan vazio; era um motor. Doía, cansava, frustrava — mas fazia sentido.

Hoje, o mundo parece ter trocado o verbo “transformar” pelo verbo “gerenciar”.
Gerenciar expectativas.
Gerenciar danos.
Gerenciar a própria indignação para não parecer excessivo.

No meio do caminho, algo se perdeu.

O ponto de virada talvez tenha sido silencioso. Não houve um anúncio oficial do fim das utopias. Elas simplesmente foram sendo empurradas para fora do debate, tratadas como coisa de jovens imaturos ou de velhos saudosistas. A palavra “sonho” passou a soar suspeita. A palavra “esperança”, ingênua. A palavra “militância”, inconveniente.

Mas a verdade — e ela precisa ser dita com coragem moral — é que sociedades não sobrevivem sem utopia. Democracias não respiram sem sonho. Projetos coletivos morrem quando a memória afetiva da luta é apagada.

Essa saudade que sentimos não é fuga do presente. É denúncia.
Denúncia de um tempo em que a política perdeu calor humano. Em que a técnica venceu a paixão. Em que o discurso ficou correto, mas vazio. E, talvez por isso, incapaz de mobilizar, de comover, de criar pertencimento.

Lembro de um companheiro — poderia ser qualquer um — que dizia, entre um panfleto e outro: “Se um dia isso aqui deixar de fazer o coração bater mais forte, a gente perdeu.” Na época, parecia exagero. Hoje, soa como advertência.

Não se trata de idealizar o passado. Ele tinha erros, contradições, derrotas duras. Mas tinha algo que faz falta: sentido. A sensação de que o esforço individual se dissolvia num “nós” maior. De que o amor, a política e a vida caminhavam juntos, ainda que tropeçando.

Talvez seja isso que mais doa na saudade: perceber que não sentimos falta apenas das pessoas, mas da versão de nós mesmos que acreditava sem cinismo, que amava sem medo, que lutava sem manual de instruções.

E, ainda assim, escrever sobre isso não é um exercício de melancolia estéril. É um chamado. Um lembrete incômodo de que a utopia pode até ter envelhecido, mas não morreu. Ela apenas espera ser reencontrada — não como repetição do passado, mas como reinvenção corajosa do futuro.

Porque, no fundo, enquanto houver saudade, ainda há vínculo.
Enquanto houver memória, ainda há possibilidade.
E enquanto o coração insistir em acelerar diante da ideia de um mundo mais justo, a luta — silenciosa ou ruidosa — ainda não terminou.

Saudade, Militância e Utopia: quando o passado ainda pulsa no peito

 

 

 

Quando foi que começamos a chamar de “ingenuidade” aquilo que, um dia, foi coragem?
Essa pergunta não grita. Ela sussurra. Sussurra no ouvido de quem viveu a juventude como quem vive um manifesto: com o corpo inteiro, com o coração desarmado, com a certeza — quase insolente — de que o mundo podia ser diferente.

Tenho saudade de um tempo.
E não é uma saudade qualquer. É dessas que não pedem licença, que chegam de madrugada, sentam na beira da cama e ficam. Saudade da juventude, da militância, da utopia que eu carregava como quem carrega um estandarte invisível. Saudade do que foi vivido em cada detalhe, quando tudo parecia eterno — e, por isso mesmo, não nos preparamos para o fim.

Havia abraços que eram trincheiras.
Conversas que duravam mais que a noite.
Um namoro escondido que, paradoxalmente, era mais verdadeiro do que muitas relações exibidas hoje à luz fria das redes sociais. Não sinto falta só de você — e aqui falo também no singular íntimo e no plural coletivo. Sinto falta de nós. Daquele acelerar do coração quando o encontro acontecia. Da sensação de que estávamos do lado certo da história, mesmo sem garantias, mesmo sem aplausos.

Essa saudade não é apenas afetiva. Ela é política.

Porque houve um tempo em que a militância não era cálculo, era entrega. Não era branding pessoal, era risco. Não era performance, era presença. Militávamos com os pés no chão e os olhos no horizonte. A utopia não era um slogan vazio; era um motor. Doía, cansava, frustrava — mas fazia sentido.

Hoje, o mundo parece ter trocado o verbo “transformar” pelo verbo “gerenciar”.
Gerenciar expectativas.
Gerenciar danos.
Gerenciar a própria indignação para não parecer excessivo.

No meio do caminho, algo se perdeu.

O ponto de virada talvez tenha sido silencioso. Não houve um anúncio oficial do fim das utopias. Elas simplesmente foram sendo empurradas para fora do debate, tratadas como coisa de jovens imaturos ou de velhos saudosistas. A palavra “sonho” passou a soar suspeita. A palavra “esperança”, ingênua. A palavra “militância”, inconveniente.

Mas a verdade — e ela precisa ser dita com coragem moral — é que sociedades não sobrevivem sem utopia. Democracias não respiram sem sonho. Projetos coletivos morrem quando a memória afetiva da luta é apagada.

Essa saudade que sentimos não é fuga do presente. É denúncia.
Denúncia de um tempo em que a política perdeu calor humano. Em que a técnica venceu a paixão. Em que o discurso ficou correto, mas vazio. E, talvez por isso, incapaz de mobilizar, de comover, de criar pertencimento.

Lembro de um companheiro — poderia ser qualquer um — que dizia, entre um panfleto e outro: “Se um dia isso aqui deixar de fazer o coração bater mais forte, a gente perdeu.” Na época, parecia exagero. Hoje, soa como advertência.

Não se trata de idealizar o passado. Ele tinha erros, contradições, derrotas duras. Mas tinha algo que faz falta: sentido. A sensação de que o esforço individual se dissolvia num “nós” maior. De que o amor, a política e a vida caminhavam juntos, ainda que tropeçando.

Talvez seja isso que mais doa na saudade: perceber que não sentimos falta apenas das pessoas, mas da versão de nós mesmos que acreditava sem cinismo, que amava sem medo, que lutava sem manual de instruções.

E, ainda assim, escrever sobre isso não é um exercício de melancolia estéril. É um chamado. Um lembrete incômodo de que a utopia pode até ter envelhecido, mas não morreu. Ela apenas espera ser reencontrada — não como repetição do passado, mas como reinvenção corajosa do futuro.

Porque, no fundo, enquanto houver saudade, ainda há vínculo.
Enquanto houver memória, ainda há possibilidade.
E enquanto o coração insistir em acelerar diante da ideia de um mundo mais justo, a luta — silenciosa ou ruidosa — ainda não terminou.

ARTIGO – (José de Andrade Brazil e a Arte Silenciosa de Costurar uma Cidade)

 

 

Padre Carlos

Quem costura a alma de uma cidade?
Não são apenas prefeitos, engenheiros ou grandes empresários. Às vezes, são homens discretos, de fala mansa, mãos firmes e olhar atento, que passam a vida alinhavando muito mais do que tecidos. José de Andrade Brazil foi um desses homens. E Vitória da Conquista, talvez sem perceber plenamente, perde com sua partida um de seus artesãos mais profundos.

Há mortes que fazem barulho. Outras chegam em silêncio. A de um alfaiate pertence à segunda categoria — mas o silêncio que fica é ensurdecedor. Porque José de Andrade não era apenas alguém que costurava roupas. Ele costurava dignidade. Ajustava o mundo ponto a ponto, com a paciência de quem sabe que o essencial não pode ser apressado.

Durante 86 anos, grande parte deles vividos na Praça José Gonçalves, a poucos metros do prédio da Prefeitura, ele foi testemunha viva da história urbana de Vitória da Conquista. Viu a cidade crescer, endurecer, modernizar-se, acelerar. E permaneceu ali, como uma âncora ética, praticando um ofício que exige precisão, escuta e respeito pelo corpo do outro. Um alfaiate precisa olhar com atenção, medir com cuidado, cortar com responsabilidade. Não há espaço para improviso irresponsável. Há método. Há ética. Há arte.

Num tempo dominado pelo descartável, pelo “serve assim mesmo”, José de Andrade representava a cultura do esmero. Da costura bem feita por dentro, mesmo quando ninguém vai ver. Isso não é apenas técnica — é caráter. É uma forma de estar no mundo.

Lembro-me de observar, certa vez, um homem simples sair de uma alfaiataria com o peito mais erguido. A roupa ajudava, claro. Mas o que realmente mudava era outra coisa: o sentimento de ser visto, respeitado, levado a sério. Bons artesãos fazem isso. Eles devolvem às pessoas a consciência da própria dignidade. José de Andrade fez isso por décadas, sem discursos, sem holofotes, sem redes sociais. Apenas com linha, agulha e silêncio.

A Prefeitura de Vitória da Conquista registra oficialmente o pesar. O velório no Salão San Marcos e o sepultamento no Cemitério da Saudade cumprem o rito institucional. Mas há um outro luto, mais profundo e menos formal: o da cidade que vai perdendo seus mestres anônimos, aqueles que sustentam a vida urbana não com cargos, mas com sentido.

Em tempos de crise de referências, a morte de um alfaiate deveria nos fazer pensar. Que tipo de cidade estamos costurando? Uma feita às pressas, com costuras aparentes, ou uma cidade bem alinhavada, onde cada detalhe importa? José de Andrade Brazil pertence à linhagem rara dos que acreditavam que fazer bem feito é, em si, um ato político e moral.

Que sua memória permaneça como metáfora e lição. Porque cidades também precisam de alfaiates. E quando eles se vão, cabe a nós decidir se deixaremos o tecido social se esgarçar — ou se aprenderemos, enfim, a cuidar melhor dos pontos que nos mantêm unidos.

ARTIGO – (José de Andrade Brazil e a Arte Silenciosa de Costurar uma Cidade)

 

 

Padre Carlos

Quem costura a alma de uma cidade?
Não são apenas prefeitos, engenheiros ou grandes empresários. Às vezes, são homens discretos, de fala mansa, mãos firmes e olhar atento, que passam a vida alinhavando muito mais do que tecidos. José de Andrade Brazil foi um desses homens. E Vitória da Conquista, talvez sem perceber plenamente, perde com sua partida um de seus artesãos mais profundos.

Há mortes que fazem barulho. Outras chegam em silêncio. A de um alfaiate pertence à segunda categoria — mas o silêncio que fica é ensurdecedor. Porque José de Andrade não era apenas alguém que costurava roupas. Ele costurava dignidade. Ajustava o mundo ponto a ponto, com a paciência de quem sabe que o essencial não pode ser apressado.

Durante 86 anos, grande parte deles vividos na Praça José Gonçalves, a poucos metros do prédio da Prefeitura, ele foi testemunha viva da história urbana de Vitória da Conquista. Viu a cidade crescer, endurecer, modernizar-se, acelerar. E permaneceu ali, como uma âncora ética, praticando um ofício que exige precisão, escuta e respeito pelo corpo do outro. Um alfaiate precisa olhar com atenção, medir com cuidado, cortar com responsabilidade. Não há espaço para improviso irresponsável. Há método. Há ética. Há arte.

Num tempo dominado pelo descartável, pelo “serve assim mesmo”, José de Andrade representava a cultura do esmero. Da costura bem feita por dentro, mesmo quando ninguém vai ver. Isso não é apenas técnica — é caráter. É uma forma de estar no mundo.

Lembro-me de observar, certa vez, um homem simples sair de uma alfaiataria com o peito mais erguido. A roupa ajudava, claro. Mas o que realmente mudava era outra coisa: o sentimento de ser visto, respeitado, levado a sério. Bons artesãos fazem isso. Eles devolvem às pessoas a consciência da própria dignidade. José de Andrade fez isso por décadas, sem discursos, sem holofotes, sem redes sociais. Apenas com linha, agulha e silêncio.

A Prefeitura de Vitória da Conquista registra oficialmente o pesar. O velório no Salão San Marcos e o sepultamento no Cemitério da Saudade cumprem o rito institucional. Mas há um outro luto, mais profundo e menos formal: o da cidade que vai perdendo seus mestres anônimos, aqueles que sustentam a vida urbana não com cargos, mas com sentido.

Em tempos de crise de referências, a morte de um alfaiate deveria nos fazer pensar. Que tipo de cidade estamos costurando? Uma feita às pressas, com costuras aparentes, ou uma cidade bem alinhavada, onde cada detalhe importa? José de Andrade Brazil pertence à linhagem rara dos que acreditavam que fazer bem feito é, em si, um ato político e moral.

Que sua memória permaneça como metáfora e lição. Porque cidades também precisam de alfaiates. E quando eles se vão, cabe a nós decidir se deixaremos o tecido social se esgarçar — ou se aprenderemos, enfim, a cuidar melhor dos pontos que nos mantêm unidos.

ARTIGO – O Espírito dos Cravos e a Alma da Democracia Portuguesa

 

 

Padre Carlos

Há momentos na história em que os povos são chamados a decidir não apenas entre projetos políticos, mas entre valores civilizatórios. Portugal vive um desses instantes. A recente pesquisa de segundo turno que aponta ampla vantagem do candidato socialista sobre o adversário da extrema direita revela algo mais profundo do que uma simples disputa eleitoral: revela que o povo português compreende, de forma madura, o que realmente está em jogo.

Não se trata, como muitos tentam reduzir, de uma batalha entre esquerda e direita, tampouco de um embate raso entre liberalismo e conservadorismo. O que está diante da sociedade portuguesa é a defesa da democracia, da paz social e da convivência plural contra o avanço do obscurantismo político, da intolerância xenofóbica e do discurso de ódio que corrói as instituições por dentro. Trata-se de preservar a alma do 25 de Abril, o espírito dos Cravos de 1974, que devolveu ao país a liberdade, a dignidade e a esperança.

O espírito dos Cravos não foi apenas um evento histórico; foi um pacto ético. Um compromisso coletivo com a democracia, com os direitos humanos, com a justiça social e com a qualidade de vida em comunidade. Foi a recusa consciente do autoritarismo, do arbítrio e da violência como método de organização política. Perder esse espírito seria mais grave do que perder uma eleição: seria perder a memória, a identidade e o sentido de nação.

A ascensão da extrema direita em diversas partes da Europa tem mostrado um padrão inquietante: o ataque sistemático às instituições democráticas, a instrumentalização do medo, a criminalização do diferente e a banalização da violência simbólica e real. Portugal, ao que tudo indica, resiste a esse movimento não por ingenuidade, mas por consciência histórica. A experiência da ditadura salazarista ainda ecoa como advertência viva de que o autoritarismo nunca entrega o que promete, apenas aprofunda desigualdades e silencia vozes.

Ao optar pela defesa da democracia, o eleitor português sinaliza que ética pública não é um luxo, mas um fundamento. Que segurança não se constrói com ódio, mas com justiça social. Que a paz não nasce da exclusão, mas do reconhecimento do outro como sujeito de direitos. Em tempos de radicalização política e fake news, essa postura revela maturidade democrática e responsabilidade histórica.

O risco de perder a alma existe sempre que a memória coletiva é substituída pela intolerância e pelo ressentimento. Mas, por ora, Portugal mostra que o espírito dos Cravos ainda floresce. Não como nostalgia romântica, mas como escolha concreta pela democracia, pela convivência civilizada e pela recusa firme de qualquer projeto que flerte com o autoritarismo. Defender esse espírito é, hoje, mais do que um gesto político: é um ato de fidelidade à própria história.

ARTIGO – O Espírito dos Cravos e a Alma da Democracia Portuguesa

 

 

Padre Carlos

Há momentos na história em que os povos são chamados a decidir não apenas entre projetos políticos, mas entre valores civilizatórios. Portugal vive um desses instantes. A recente pesquisa de segundo turno que aponta ampla vantagem do candidato socialista sobre o adversário da extrema direita revela algo mais profundo do que uma simples disputa eleitoral: revela que o povo português compreende, de forma madura, o que realmente está em jogo.

Não se trata, como muitos tentam reduzir, de uma batalha entre esquerda e direita, tampouco de um embate raso entre liberalismo e conservadorismo. O que está diante da sociedade portuguesa é a defesa da democracia, da paz social e da convivência plural contra o avanço do obscurantismo político, da intolerância xenofóbica e do discurso de ódio que corrói as instituições por dentro. Trata-se de preservar a alma do 25 de Abril, o espírito dos Cravos de 1974, que devolveu ao país a liberdade, a dignidade e a esperança.

O espírito dos Cravos não foi apenas um evento histórico; foi um pacto ético. Um compromisso coletivo com a democracia, com os direitos humanos, com a justiça social e com a qualidade de vida em comunidade. Foi a recusa consciente do autoritarismo, do arbítrio e da violência como método de organização política. Perder esse espírito seria mais grave do que perder uma eleição: seria perder a memória, a identidade e o sentido de nação.

A ascensão da extrema direita em diversas partes da Europa tem mostrado um padrão inquietante: o ataque sistemático às instituições democráticas, a instrumentalização do medo, a criminalização do diferente e a banalização da violência simbólica e real. Portugal, ao que tudo indica, resiste a esse movimento não por ingenuidade, mas por consciência histórica. A experiência da ditadura salazarista ainda ecoa como advertência viva de que o autoritarismo nunca entrega o que promete, apenas aprofunda desigualdades e silencia vozes.

Ao optar pela defesa da democracia, o eleitor português sinaliza que ética pública não é um luxo, mas um fundamento. Que segurança não se constrói com ódio, mas com justiça social. Que a paz não nasce da exclusão, mas do reconhecimento do outro como sujeito de direitos. Em tempos de radicalização política e fake news, essa postura revela maturidade democrática e responsabilidade histórica.

O risco de perder a alma existe sempre que a memória coletiva é substituída pela intolerância e pelo ressentimento. Mas, por ora, Portugal mostra que o espírito dos Cravos ainda floresce. Não como nostalgia romântica, mas como escolha concreta pela democracia, pela convivência civilizada e pela recusa firme de qualquer projeto que flerte com o autoritarismo. Defender esse espírito é, hoje, mais do que um gesto político: é um ato de fidelidade à própria história.

ARTIGO – Emprego, Dignidade e Esperança: Quando Vitória da Conquista Caminha na Direção Certa

 

 

 

Lucas Batista

Vitória da Conquista vive um tempo em que a palavra emprego deixou de ser apenas estatística e voltou a ser sinônimo de dignidade, esperança e recomeço. Em uma cidade marcada por desafios econômicos, desemprego estrutural e informalidade crescente, iniciativas concretas que aproximam trabalhadores de oportunidades reais merecem mais do que aplausos: merecem destaque, reflexão e reconhecimento público.

A presença da empresa Mais Serviço, por meio de sua equipe de recrutamento e seleção, durante a caminhada do dia primeiro de fevereiro, no Parque Ambiental da Lagoa das Bateias, é mais do que uma ação pontual. Trata-se de um gesto político no sentido mais nobre da palavra: agir para transformar a vida das pessoas. Ao anunciar cinquenta vagas de emprego imediato — entre controlador de acesso, auxiliar de limpeza, zelador, auxiliar de depósito, auxiliar de produção e outras funções — a empresa rompe o discurso vazio e apresenta soluções práticas para um problema real.

O simbolismo do local também importa. A Lagoa das Bateias, espaço de lazer, convivência e natureza, transforma-se em território de oportunidades, mostrando que desenvolvimento econômico e inclusão social podem caminhar juntos. A cidade que avança não é apenas a que cresce em prédios ou asfaltos, mas aquela que cria pontes entre quem precisa trabalhar e quem está disposto a contratar.

Há algo profundamente humano nesse gesto de “chegue cedo, traga seu currículo e participe”. Não se trata apenas de vagas de emprego em Vitória da Conquista; trata-se de resgatar a autoestima de quem, muitas vezes, já ouviu mais “nãos” do que “sins”. O critério do “primeiro que chegar” não exclui — pelo contrário, incentiva a participação, o movimento, a esperança ativa.

Vivemos uma era em que o desemprego afeta famílias inteiras, compromete a saúde mental, fragiliza relações e aprofunda desigualdades sociais. Por isso, ações como essa dialogam diretamente com temas como inclusão no mercado de trabalho, responsabilidade social empresarial, desenvolvimento local e geração de renda. Não são apenas palavras-chave para buscadores; são urgências da vida cotidiana.

Quando uma empresa se dispõe a ir até o povo, ocupar o espaço público e oferecer oportunidades reais, ela ajuda a redesenhar a narrativa da cidade. Vitória da Conquista precisa — e merece — mais iniciativas assim. Precisa de empresas comprometidas, de políticas públicas articuladas e de uma sociedade civil atenta, que valorize quem constrói caminhos e não apenas discursos.

Que esta caminhada seja, de fato, um símbolo: caminhar juntos para que Conquista avance, gere empregos, fortaleça sua economia e, sobretudo, cuide das pessoas. Porque cidade forte não é a que exclui, mas a que abre portas.

ARTIGO – Emprego, Dignidade e Esperança: Quando Vitória da Conquista Caminha na Direção Certa

 

 

 

Lucas Batista

Vitória da Conquista vive um tempo em que a palavra emprego deixou de ser apenas estatística e voltou a ser sinônimo de dignidade, esperança e recomeço. Em uma cidade marcada por desafios econômicos, desemprego estrutural e informalidade crescente, iniciativas concretas que aproximam trabalhadores de oportunidades reais merecem mais do que aplausos: merecem destaque, reflexão e reconhecimento público.

A presença da empresa Mais Serviço, por meio de sua equipe de recrutamento e seleção, durante a caminhada do dia primeiro de fevereiro, no Parque Ambiental da Lagoa das Bateias, é mais do que uma ação pontual. Trata-se de um gesto político no sentido mais nobre da palavra: agir para transformar a vida das pessoas. Ao anunciar cinquenta vagas de emprego imediato — entre controlador de acesso, auxiliar de limpeza, zelador, auxiliar de depósito, auxiliar de produção e outras funções — a empresa rompe o discurso vazio e apresenta soluções práticas para um problema real.

O simbolismo do local também importa. A Lagoa das Bateias, espaço de lazer, convivência e natureza, transforma-se em território de oportunidades, mostrando que desenvolvimento econômico e inclusão social podem caminhar juntos. A cidade que avança não é apenas a que cresce em prédios ou asfaltos, mas aquela que cria pontes entre quem precisa trabalhar e quem está disposto a contratar.

Há algo profundamente humano nesse gesto de “chegue cedo, traga seu currículo e participe”. Não se trata apenas de vagas de emprego em Vitória da Conquista; trata-se de resgatar a autoestima de quem, muitas vezes, já ouviu mais “nãos” do que “sins”. O critério do “primeiro que chegar” não exclui — pelo contrário, incentiva a participação, o movimento, a esperança ativa.

Vivemos uma era em que o desemprego afeta famílias inteiras, compromete a saúde mental, fragiliza relações e aprofunda desigualdades sociais. Por isso, ações como essa dialogam diretamente com temas como inclusão no mercado de trabalho, responsabilidade social empresarial, desenvolvimento local e geração de renda. Não são apenas palavras-chave para buscadores; são urgências da vida cotidiana.

Quando uma empresa se dispõe a ir até o povo, ocupar o espaço público e oferecer oportunidades reais, ela ajuda a redesenhar a narrativa da cidade. Vitória da Conquista precisa — e merece — mais iniciativas assim. Precisa de empresas comprometidas, de políticas públicas articuladas e de uma sociedade civil atenta, que valorize quem constrói caminhos e não apenas discursos.

Que esta caminhada seja, de fato, um símbolo: caminhar juntos para que Conquista avance, gere empregos, fortaleça sua economia e, sobretudo, cuide das pessoas. Porque cidade forte não é a que exclui, mas a que abre portas.

ARTIGO – O PCdoB e a batalha silenciosa pela ampliação de poder na Bahia

 

 

Padre Carlos

A estratégia do PCdoB para as eleições de outubro na Bahia revela mais do que uma simples ambição numérica. Ao estabelecer como meta a ampliação de sua bancada na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa da Bahia, o partido sinaliza que não pretende ocupar um papel secundário dentro da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. Trata-se de uma disputa silenciosa, porém decisiva, pela correlação de forças no interior do campo progressista baiano.

A informação obtida pelo Política e Resenha, em conversas recentes com dirigentes e quadros do partido, confirma que o PCdoB trabalha com um objetivo ousado: eleger três deputados federais, mesmo num cenário em que os votos precisam ser compartilhados com aliados históricos. A federação, que garante unidade institucional, também impõe um dilema prático: como crescer sem enfraquecer o conjunto? E, sobretudo, como crescer quando o PT segue sendo a força hegemônica da esquerda na Bahia?

A aposta passa pela manutenção de dois nomes consolidados — Alice Portugal e Daniel Almeida — e pela entrada de Olívia Santana na disputa por uma vaga em Brasília. A candidatura de Olívia não é apenas eleitoral; é simbólica. Representa a tentativa do PCdoB de renovar sua imagem, ampliar seu diálogo com setores populares, culturais e identitários, e marcar presença em um Congresso Nacional cada vez mais hostil às pautas sociais e democráticas.

O desafio é evidente. A federação exige cálculo fino, engenharia eleitoral precisa e maturidade política. A divisão de votos, se mal administrada, pode resultar em perdas coletivas. Mas o PCdoB parece disposto a correr o risco, apostando que a ampliação de sua bancada fortalecerá o próprio projeto da esquerda baiana e dará mais equilíbrio interno à federação.

No tabuleiro eleitoral de outubro, com mais de 11 milhões de eleitores indo às urnas para escolher governador, dois senadores, 63 deputados estaduais e 39 federais, cada movimento conta. O crescimento do PCdoB não interessa apenas ao partido, mas redefine o jogo interno da Federação Brasil da Esperança e influencia diretamente a governabilidade futura na Bahia e no Brasil.

No fundo, o que está em disputa não é apenas o número de cadeiras, mas o protagonismo político. O PCdoB quer mostrar que, mesmo em tempos de federação e alianças amplas, ainda é capaz de formular estratégia, disputar espaço e influenciar os rumos da esquerda brasileira. Outubro dirá se a ousadia será premiada ou se os limites da federação falarão mais alto.

ARTIGO – O PCdoB e a batalha silenciosa pela ampliação de poder na Bahia

 

 

Padre Carlos

A estratégia do PCdoB para as eleições de outubro na Bahia revela mais do que uma simples ambição numérica. Ao estabelecer como meta a ampliação de sua bancada na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa da Bahia, o partido sinaliza que não pretende ocupar um papel secundário dentro da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. Trata-se de uma disputa silenciosa, porém decisiva, pela correlação de forças no interior do campo progressista baiano.

A informação obtida pelo Política e Resenha, em conversas recentes com dirigentes e quadros do partido, confirma que o PCdoB trabalha com um objetivo ousado: eleger três deputados federais, mesmo num cenário em que os votos precisam ser compartilhados com aliados históricos. A federação, que garante unidade institucional, também impõe um dilema prático: como crescer sem enfraquecer o conjunto? E, sobretudo, como crescer quando o PT segue sendo a força hegemônica da esquerda na Bahia?

A aposta passa pela manutenção de dois nomes consolidados — Alice Portugal e Daniel Almeida — e pela entrada de Olívia Santana na disputa por uma vaga em Brasília. A candidatura de Olívia não é apenas eleitoral; é simbólica. Representa a tentativa do PCdoB de renovar sua imagem, ampliar seu diálogo com setores populares, culturais e identitários, e marcar presença em um Congresso Nacional cada vez mais hostil às pautas sociais e democráticas.

O desafio é evidente. A federação exige cálculo fino, engenharia eleitoral precisa e maturidade política. A divisão de votos, se mal administrada, pode resultar em perdas coletivas. Mas o PCdoB parece disposto a correr o risco, apostando que a ampliação de sua bancada fortalecerá o próprio projeto da esquerda baiana e dará mais equilíbrio interno à federação.

No tabuleiro eleitoral de outubro, com mais de 11 milhões de eleitores indo às urnas para escolher governador, dois senadores, 63 deputados estaduais e 39 federais, cada movimento conta. O crescimento do PCdoB não interessa apenas ao partido, mas redefine o jogo interno da Federação Brasil da Esperança e influencia diretamente a governabilidade futura na Bahia e no Brasil.

No fundo, o que está em disputa não é apenas o número de cadeiras, mas o protagonismo político. O PCdoB quer mostrar que, mesmo em tempos de federação e alianças amplas, ainda é capaz de formular estratégia, disputar espaço e influenciar os rumos da esquerda brasileira. Outubro dirá se a ousadia será premiada ou se os limites da federação falarão mais alto.

Jerônimo em xeque: quando o golpe vem de dentro

 

 

 

Os alertas feitos nos últimos meses não eram exercícios de futurologia nem alarmismo retórico. Eram a leitura atenta de sinais objetivos de um movimento que agora se materializa com clareza: o processo de esvaziamento político do governador Jerônimo Rodrigues como parte de uma disputa interna pelo controle do governo da Bahia em 2026. A matéria divulgada pelo blog Sertão Quente Notícia, ao revelar a conversa entre o presidente Lula e o ministro Rui Costa sobre o cenário eleitoral baiano, não inaugura o debate — apenas o confirma.

A tese central que se impõe é desconfortável, mas necessária: o chamado “golpe em Jerônimo” não parte da oposição formal, liderada por ACM Neto, mas de setores internos da própria base governista, especialmente daqueles que nunca aceitaram plenamente a transferência do comando do Palácio de Ondina após a saída de Rui Costa. Trata-se de uma clássica disputa intraelites, em que o discurso da viabilidade eleitoral funciona como verniz técnico para uma operação essencialmente política.

No centro dessa engrenagem está a vaga ao Senado. Ela é o nó estratégico da construção de uma chapa “puro-sangue”, capaz de acomodar projetos pessoais, preservar capital político acumulado e manter o controle do campo governista. Quando essa equação se torna instável — seja pela ambição simultânea de lideranças fortes, seja pelo risco de fragmentação da base — o elo mais frágil tende a ser sacrificado. Nesse tabuleiro, Jerônimo passa a ser visto não como solução, mas como variável de ajuste.

É nesse contexto que emerge a figura do “boi de piranha”. Jerônimo é exposto ao desgaste cotidiano da gestão, à cobrança permanente e às narrativas de ineficiência, enquanto outros atores se mantêm relativamente protegidos, preservando imagem, influência e margem de manobra. A rejeição apontada por pesquisas internas, amplamente ventilada como dado técnico, precisa ser lida com cuidado: ela pode ser menos a causa do problema e mais o efeito de um processo deliberado de isolamento político.

O papel do presidente Luís Inácio Lula da Silva nesse xadrez é decisivo e não pode ser interpretado de forma ingênua. A conversa com Rui Costa, conforme relatado pelo Sertão Quente Notícia, ultrapassa o campo administrativo. É um sinal político estratégico, que reposiciona peças, redefine expectativas e envia recados claros à base. Ao sugerir Rui como alternativa para o governo da Bahia, Lula não apenas reage ao crescimento de ACM Neto; ele interfere diretamente na correlação de forças internas do campo governista.

O uso de pesquisas, índices de rejeição regional e o avanço da oposição funcionam, nesse cenário, como justificativas técnicas para decisões que são, no fundo, políticas. A narrativa do “desgaste de Jerônimo” precisa ser problematizada: trata-se de um desgaste inevitável da governabilidade em um contexto adverso ou de uma construção política que fragiliza deliberadamente o governador para viabilizar sua substituição?

Da mesma forma, a movimentação em favor de Rui Costa pode ser lida sob dois prismas. De um lado, como tentativa legítima de conter o avanço de ACM Neto e proteger o projeto nacional de Lula. De outro — e talvez de forma mais realista — como uma reacomodação de poder dentro do próprio campo governista, em que a prioridade não é apenas vencer a oposição, mas definir quem controla a máquina, a narrativa e o futuro político da Bahia.

O que está em jogo, portanto, vai muito além de uma escolha eleitoral. Trata-se de um conflito de projetos, lideranças e controle político, no qual a legitimidade eleitoral é tensionada pelo pragmatismo e pela lógica da preservação de capital político. O discurso da viabilidade, repetido à exaustão, esconde uma operação clássica de substituição de liderança — prática antiga na política brasileira, especialmente quando a disputa não se dá contra o adversário externo, mas dentro de casa.

Na Bahia de 2026, o verdadeiro embate não é apenas entre governo e oposição. É, прежде de tudo, uma batalha silenciosa pelo comando do próprio campo governista. E Jerônimo Rodrigues, goste-se ou não, está no centro desse fogo cruzado.

Jerônimo em xeque: quando o golpe vem de dentro

 

 

 

Os alertas feitos nos últimos meses não eram exercícios de futurologia nem alarmismo retórico. Eram a leitura atenta de sinais objetivos de um movimento que agora se materializa com clareza: o processo de esvaziamento político do governador Jerônimo Rodrigues como parte de uma disputa interna pelo controle do governo da Bahia em 2026. A matéria divulgada pelo blog Sertão Quente Notícia, ao revelar a conversa entre o presidente Lula e o ministro Rui Costa sobre o cenário eleitoral baiano, não inaugura o debate — apenas o confirma.

A tese central que se impõe é desconfortável, mas necessária: o chamado “golpe em Jerônimo” não parte da oposição formal, liderada por ACM Neto, mas de setores internos da própria base governista, especialmente daqueles que nunca aceitaram plenamente a transferência do comando do Palácio de Ondina após a saída de Rui Costa. Trata-se de uma clássica disputa intraelites, em que o discurso da viabilidade eleitoral funciona como verniz técnico para uma operação essencialmente política.

No centro dessa engrenagem está a vaga ao Senado. Ela é o nó estratégico da construção de uma chapa “puro-sangue”, capaz de acomodar projetos pessoais, preservar capital político acumulado e manter o controle do campo governista. Quando essa equação se torna instável — seja pela ambição simultânea de lideranças fortes, seja pelo risco de fragmentação da base — o elo mais frágil tende a ser sacrificado. Nesse tabuleiro, Jerônimo passa a ser visto não como solução, mas como variável de ajuste.

É nesse contexto que emerge a figura do “boi de piranha”. Jerônimo é exposto ao desgaste cotidiano da gestão, à cobrança permanente e às narrativas de ineficiência, enquanto outros atores se mantêm relativamente protegidos, preservando imagem, influência e margem de manobra. A rejeição apontada por pesquisas internas, amplamente ventilada como dado técnico, precisa ser lida com cuidado: ela pode ser menos a causa do problema e mais o efeito de um processo deliberado de isolamento político.

O papel do presidente Luís Inácio Lula da Silva nesse xadrez é decisivo e não pode ser interpretado de forma ingênua. A conversa com Rui Costa, conforme relatado pelo Sertão Quente Notícia, ultrapassa o campo administrativo. É um sinal político estratégico, que reposiciona peças, redefine expectativas e envia recados claros à base. Ao sugerir Rui como alternativa para o governo da Bahia, Lula não apenas reage ao crescimento de ACM Neto; ele interfere diretamente na correlação de forças internas do campo governista.

O uso de pesquisas, índices de rejeição regional e o avanço da oposição funcionam, nesse cenário, como justificativas técnicas para decisões que são, no fundo, políticas. A narrativa do “desgaste de Jerônimo” precisa ser problematizada: trata-se de um desgaste inevitável da governabilidade em um contexto adverso ou de uma construção política que fragiliza deliberadamente o governador para viabilizar sua substituição?

Da mesma forma, a movimentação em favor de Rui Costa pode ser lida sob dois prismas. De um lado, como tentativa legítima de conter o avanço de ACM Neto e proteger o projeto nacional de Lula. De outro — e talvez de forma mais realista — como uma reacomodação de poder dentro do próprio campo governista, em que a prioridade não é apenas vencer a oposição, mas definir quem controla a máquina, a narrativa e o futuro político da Bahia.

O que está em jogo, portanto, vai muito além de uma escolha eleitoral. Trata-se de um conflito de projetos, lideranças e controle político, no qual a legitimidade eleitoral é tensionada pelo pragmatismo e pela lógica da preservação de capital político. O discurso da viabilidade, repetido à exaustão, esconde uma operação clássica de substituição de liderança — prática antiga na política brasileira, especialmente quando a disputa não se dá contra o adversário externo, mas dentro de casa.

Na Bahia de 2026, o verdadeiro embate não é apenas entre governo e oposição. É, прежде de tudo, uma batalha silenciosa pelo comando do próprio campo governista. E Jerônimo Rodrigues, goste-se ou não, está no centro desse fogo cruzado.

ARTIGO – “Sou Muito Amada: Quando o Amor Antecede o Diagnóstico”

 

 

Padre Carlos

A primeira frase dita diante de um diagnóstico de câncer não foi medo, nem revolta, nem desespero. Foi uma constatação simples, profunda e revolucionária: sou muito amada. Em outubro, a descoberta de um tumor maligno na bexiga trouxe o impacto que qualquer pessoa conhece — o chão some, o futuro silencia, o corpo passa a ser interrogado. Mas, desde o primeiro instante, algo maior já estava presente: uma rede de amor viva, concreta e atuante.

A cirurgia veio em novembro, seguida da biópsia e, com ela, a notícia que trouxe alívio e responsabilidade. Tumor em estágio inicial, sem infiltração, mas um carcinoma de alto grau. O protocolo foi claro: quimioterapia aplicada diretamente na bexiga. Seis semanas consecutivas, internação semanal, procedimento incômodo, reações físicas e emocionais. Nada romantizado. Tudo enfrentado.

E foi exatamente aí que o amor deixou de ser palavra abstrata e virou presença real. Companhia constante, cafés, mimos, telefonemas, mensagens, grupos de oração, visitas, passeios, conversas longas e silêncios respeitosos. Não houve solidão. Em nenhum momento. Houve escuta, acolhimento, partilha dos medos e fortalecimento mútuo. O corpo tratava o câncer; o afeto tratava a alma.

Os meses passaram rápidos. A cirurgia superada, a fase inicial da quimioterapia concluída e, segundo a equipe de oncologia, uma resposta melhor do que o esperado. Ainda há caminho a cumprir: aplicações mensais durante um ano e acompanhamento rigoroso por cinco anos. É o preço da vigilância, da ciência, da responsabilidade com a própria vida.

Aqui emerge uma dimensão que não pode ser silenciada: o acesso à saúde salva vidas. O diagnóstico precoce só foi possível porque exames anuais são feitos, porque há acesso à tecnologia de imagem, porque há acompanhamento médico de qualidade. Isso não pode ser privilégio. Precisa ser política pública. Precisa ser direito universal. Cuidar de pacientes oncológicos com dignidade não é favor — é obrigação do Estado.

O amor, porém, continua sendo o fio invisível que sustenta tudo. A família, descrita como algo que talvez nem exista mais no mundo, os amigos reunidos ao longo da vida como um verdadeiro tesouro, e a solidariedade comovente dos Deputados do PCdoB, com quem trabalho diariamente. Tudo isso constrói um chão firme quando o corpo vacila.

Há, acima de tudo, uma espiritualidade que não foge da realidade. Uma gratidão profunda a Deus, não como anestesia da dor, mas como força que atravessa o sofrimento e o transforma em consciência, responsabilidade e compromisso com a vida.

Este não é um relato de doença. É um manifesto sobre o poder do cuidado, da amizade, da saúde pública, da fé e do amor organizado. Porque, no fim, antes mesmo do diagnóstico, a verdade já estava dita: sou muito amada.

ARTIGO – “Sou Muito Amada: Quando o Amor Antecede o Diagnóstico”

 

 

Padre Carlos

A primeira frase dita diante de um diagnóstico de câncer não foi medo, nem revolta, nem desespero. Foi uma constatação simples, profunda e revolucionária: sou muito amada. Em outubro, a descoberta de um tumor maligno na bexiga trouxe o impacto que qualquer pessoa conhece — o chão some, o futuro silencia, o corpo passa a ser interrogado. Mas, desde o primeiro instante, algo maior já estava presente: uma rede de amor viva, concreta e atuante.

A cirurgia veio em novembro, seguida da biópsia e, com ela, a notícia que trouxe alívio e responsabilidade. Tumor em estágio inicial, sem infiltração, mas um carcinoma de alto grau. O protocolo foi claro: quimioterapia aplicada diretamente na bexiga. Seis semanas consecutivas, internação semanal, procedimento incômodo, reações físicas e emocionais. Nada romantizado. Tudo enfrentado.

E foi exatamente aí que o amor deixou de ser palavra abstrata e virou presença real. Companhia constante, cafés, mimos, telefonemas, mensagens, grupos de oração, visitas, passeios, conversas longas e silêncios respeitosos. Não houve solidão. Em nenhum momento. Houve escuta, acolhimento, partilha dos medos e fortalecimento mútuo. O corpo tratava o câncer; o afeto tratava a alma.

Os meses passaram rápidos. A cirurgia superada, a fase inicial da quimioterapia concluída e, segundo a equipe de oncologia, uma resposta melhor do que o esperado. Ainda há caminho a cumprir: aplicações mensais durante um ano e acompanhamento rigoroso por cinco anos. É o preço da vigilância, da ciência, da responsabilidade com a própria vida.

Aqui emerge uma dimensão que não pode ser silenciada: o acesso à saúde salva vidas. O diagnóstico precoce só foi possível porque exames anuais são feitos, porque há acesso à tecnologia de imagem, porque há acompanhamento médico de qualidade. Isso não pode ser privilégio. Precisa ser política pública. Precisa ser direito universal. Cuidar de pacientes oncológicos com dignidade não é favor — é obrigação do Estado.

O amor, porém, continua sendo o fio invisível que sustenta tudo. A família, descrita como algo que talvez nem exista mais no mundo, os amigos reunidos ao longo da vida como um verdadeiro tesouro, e a solidariedade comovente dos Deputados do PCdoB, com quem trabalho diariamente. Tudo isso constrói um chão firme quando o corpo vacila.

Há, acima de tudo, uma espiritualidade que não foge da realidade. Uma gratidão profunda a Deus, não como anestesia da dor, mas como força que atravessa o sofrimento e o transforma em consciência, responsabilidade e compromisso com a vida.

Este não é um relato de doença. É um manifesto sobre o poder do cuidado, da amizade, da saúde pública, da fé e do amor organizado. Porque, no fim, antes mesmo do diagnóstico, a verdade já estava dita: sou muito amada.