Política e Resenha

GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: CONQUISTA ESCOLHE A PREVENÇÃO EM VEZ DO SERMÃO

 

 

Padre Carlos

 

A decisão da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória da Conquista de implementar o Implanon na rede pública representa mais do que a simples incorporação de um novo método contraceptivo. Trata-se de um reconhecimento tardio, porém fundamental, de que a saúde reprodutiva das mulheres, especialmente das adolescentes, merece políticas públicas que vão além do discurso moralista e abracem a realidade com pragmatismo e respeito.

A gravidez na adolescência não é uma questão de valores familiares falidos ou de permissividade social, como alguns preferem simplificar. É um problema complexo de saúde pública que exige respostas concretas, não sermões. Quando uma menina de 15 ou 16 anos engravida, não estamos diante de uma falha moral individual, mas de uma falha coletiva: da educação sexual insuficiente, do acesso limitado a métodos contraceptivos eficazes e, muitas vezes, da perpetuação de desigualdades sociais que tornam algumas vidas mais vulneráveis que outras.

O Implanon, com seus 99,5% de eficácia e três anos de proteção contínua, oferece algo que outros métodos dificilmente conseguem: autonomia real. Uma adolescente que depende de tomar pílulas diariamente enfrenta obstáculos invisíveis para quem nunca precisou esconder contraceptivos dos pais, negociar seu uso com parceiros ou simplesmente lidar com a instabilidade da vida aos 16 anos. O implante subcutâneo elimina essas barreiras, colocando o controle onde ele deveria sempre estar: no corpo de quem pode engravidar.

É preciso, contudo, questionar a estratégia de priorização. Se o objetivo é combater a gravidez indesejada como problema de saúde pública, por que limitar inicialmente apenas a adolescentes? Mulheres adultas em situação de vulnerabilidade também enfrentam dificuldades no acesso e no uso consistente de contraceptivos. A gradualidade da implementação, embora compreensível do ponto de vista logístico, não pode se tornar uma nova forma de exclusão. As 1.376 unidades recebidas precisam ser o começo, não o limite.

Outro aspecto que merece atenção é a capacitação profissional. Garantir que cada unidade de saúde tenha ao menos um médico capacitado é fundamental, mas levanta questões: e se esse médico único estiver de férias, doente ou sobrecarregado? A rede precisa de redundância, não de pontos únicos de falha. Além disso, a capacitação deveria se estender a toda a equipe de saúde, incluindo enfermeiros e agentes comunitários, que são frequentemente o primeiro contato das usuárias com o sistema.

Vale ressaltar também o benefício adicional do Implanon na redução do fluxo menstrual intenso, algo mencionado quase como nota de rodapé, mas que representa uma melhoria significativa na qualidade de vida de muitas mulheres. A menstruação abundante não é apenas um incômodo, é uma condição que pode causar anemia, faltas ao trabalho e à escola, e limitar atividades cotidianas. Que este aspecto terapêutico seja reconhecido e oferecido também às mulheres que necessitam, independentemente da faixa etária.

Por fim, há uma dimensão dessa política que transcende a técnica médica: a mensagem que ela envia. Ao disponibilizar o Implanon no SUS, Vitória da Conquista está dizendo às suas jovens que elas importam, que seus projetos de vida têm valor, que uma gravidez não desejada não precisa ser o destino inevitável de quem nasce mulher e pobre. Está reconhecendo que prevenir é mais humano, mais econômico e mais ético do que remediar.

A verdadeira questão não é se devemos oferecer métodos contraceptivos de longa duração às adolescentes, mas por que demoramos tanto para fazê-lo. O Implanon não é uma solução mágica para todos os desafios da saúde reprodutiva, mas é uma ferramenta poderosa que, finalmente, está chegando a quem mais precisa. Agora, resta garantir que essa primeira etapa seja apenas o início de uma política mais ampla, que contemple todas as mulheres que desejam controlar sua própria fertilidade.

Porque, no fim das contas, saúde pública de qualidade não se faz com meias medidas. Faz-se com acesso universal, capacitação adequada e, principalmente, com o reconhecimento de que o direito de decidir sobre o próprio corpo não é um privilégio, é cidadania básica.

GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: CONQUISTA ESCOLHE A PREVENÇÃO EM VEZ DO SERMÃO

 

 

Padre Carlos

 

A decisão da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória da Conquista de implementar o Implanon na rede pública representa mais do que a simples incorporação de um novo método contraceptivo. Trata-se de um reconhecimento tardio, porém fundamental, de que a saúde reprodutiva das mulheres, especialmente das adolescentes, merece políticas públicas que vão além do discurso moralista e abracem a realidade com pragmatismo e respeito.

A gravidez na adolescência não é uma questão de valores familiares falidos ou de permissividade social, como alguns preferem simplificar. É um problema complexo de saúde pública que exige respostas concretas, não sermões. Quando uma menina de 15 ou 16 anos engravida, não estamos diante de uma falha moral individual, mas de uma falha coletiva: da educação sexual insuficiente, do acesso limitado a métodos contraceptivos eficazes e, muitas vezes, da perpetuação de desigualdades sociais que tornam algumas vidas mais vulneráveis que outras.

O Implanon, com seus 99,5% de eficácia e três anos de proteção contínua, oferece algo que outros métodos dificilmente conseguem: autonomia real. Uma adolescente que depende de tomar pílulas diariamente enfrenta obstáculos invisíveis para quem nunca precisou esconder contraceptivos dos pais, negociar seu uso com parceiros ou simplesmente lidar com a instabilidade da vida aos 16 anos. O implante subcutâneo elimina essas barreiras, colocando o controle onde ele deveria sempre estar: no corpo de quem pode engravidar.

É preciso, contudo, questionar a estratégia de priorização. Se o objetivo é combater a gravidez indesejada como problema de saúde pública, por que limitar inicialmente apenas a adolescentes? Mulheres adultas em situação de vulnerabilidade também enfrentam dificuldades no acesso e no uso consistente de contraceptivos. A gradualidade da implementação, embora compreensível do ponto de vista logístico, não pode se tornar uma nova forma de exclusão. As 1.376 unidades recebidas precisam ser o começo, não o limite.

Outro aspecto que merece atenção é a capacitação profissional. Garantir que cada unidade de saúde tenha ao menos um médico capacitado é fundamental, mas levanta questões: e se esse médico único estiver de férias, doente ou sobrecarregado? A rede precisa de redundância, não de pontos únicos de falha. Além disso, a capacitação deveria se estender a toda a equipe de saúde, incluindo enfermeiros e agentes comunitários, que são frequentemente o primeiro contato das usuárias com o sistema.

Vale ressaltar também o benefício adicional do Implanon na redução do fluxo menstrual intenso, algo mencionado quase como nota de rodapé, mas que representa uma melhoria significativa na qualidade de vida de muitas mulheres. A menstruação abundante não é apenas um incômodo, é uma condição que pode causar anemia, faltas ao trabalho e à escola, e limitar atividades cotidianas. Que este aspecto terapêutico seja reconhecido e oferecido também às mulheres que necessitam, independentemente da faixa etária.

Por fim, há uma dimensão dessa política que transcende a técnica médica: a mensagem que ela envia. Ao disponibilizar o Implanon no SUS, Vitória da Conquista está dizendo às suas jovens que elas importam, que seus projetos de vida têm valor, que uma gravidez não desejada não precisa ser o destino inevitável de quem nasce mulher e pobre. Está reconhecendo que prevenir é mais humano, mais econômico e mais ético do que remediar.

A verdadeira questão não é se devemos oferecer métodos contraceptivos de longa duração às adolescentes, mas por que demoramos tanto para fazê-lo. O Implanon não é uma solução mágica para todos os desafios da saúde reprodutiva, mas é uma ferramenta poderosa que, finalmente, está chegando a quem mais precisa. Agora, resta garantir que essa primeira etapa seja apenas o início de uma política mais ampla, que contemple todas as mulheres que desejam controlar sua própria fertilidade.

Porque, no fim das contas, saúde pública de qualidade não se faz com meias medidas. Faz-se com acesso universal, capacitação adequada e, principalmente, com o reconhecimento de que o direito de decidir sobre o próprio corpo não é um privilégio, é cidadania básica.

ARTIGO – A toga manchada: quando o corporativismo transforma escândalo em promoção

 

 

(Padre Carlos)

O que aconteceu no caso do desembargador federal Macário Ramos Judice Neto não é apenas um episódio policial. É um escândalo institucional, daqueles que corroem a confiança pública, ferem a credibilidade da Justiça e expõem, sem disfarces, o corporativismo do Judiciário brasileiro. Quando a Polícia Federal prende um desembargador acusado de vazar informações sigilosas para favorecer investigados, o problema já não é individual: é sistêmico.

Estamos diante de uma toga que sangra de escândalo. E o mais grave: essa toga não foi retirada a tempo. Ao contrário, foi protegida, blindada e, por fim, premiada com promoção. O Estado que deveria zelar pela moralidade administrativa permitiu que um magistrado com histórico de investigações, afastamentos, suspeitas de enriquecimento incompatível e ligações com esquemas criminosos retornasse ao cargo e ascendesse na carreira. Isso não é falha pontual. É fracasso estrutural da Justiça.

Os fatos são eloquentes. Desde 2005, Macário Judice acumulava denúncias graves: suspeitas de fraude em sentenças, vínculos com a máfia dos caça-níqueis no Espírito Santo, utilização do cargo para favorecer interesses ilegais, além de patrimônio incompatível com a renda. Foi afastado, reintegrado, aposentado compulsoriamente — punição que, na prática, funciona como prêmio financeiro vitalício — e depois trazido de volta sob o argumento da prescrição administrativa. Não apenas voltou: foi promovido a desembargador em 2023.

E agora, em 2025, a Polícia Federal cumpre mandado de prisão preventiva contra esse mesmo magistrado, apontando sua participação no vazamento de informações sigilosas que comprometeram operações contra o crime organizado no Rio de Janeiro, inclusive beneficiando figuras centrais da política fluminense. A pergunta é inevitável: quantas investigações foram sabotadas antes que o Estado resolvesse agir?

A Justiça errou em série. Errou ao permitir que processos administrativos prescrevessem. Errou ao tratar aposentadoria compulsória como punição exemplar. Errou ao reintegrar sem enfrentar o mérito moral das acusações. Errou ao promover alguém sob nuvem espessa de suspeitas. Errou, sobretudo, ao se proteger a si mesma, em nome de uma falsa ideia de autonomia que, muitas vezes, se confunde com impunidade.

Esse caso revela a face mais perversa do corporativismo judicial: juízes julgando juízes, tribunais protegendo seus membros, processos internos lentos e formais que não dialogam com o clamor social por ética, transparência e responsabilidade. A Constituição fala em moralidade administrativa, mas o cotidiano do Judiciário insiste em relativizá-la quando os acusados vestem toga.

É por isso que a reforma do Judiciário deixou de ser tabu e passou a ser necessidade democrática. Não se trata de atacar a magistratura como instituição — essencial ao Estado de Direito —, mas de romper privilégios, revisar mecanismos disciplinares, fortalecer o controle externo, acabar com a aposentadoria compulsória como punição e garantir que ninguém esteja acima da lei, nem mesmo quem a interpreta.

A credibilidade da Justiça é um ativo público. Quando ela se perde, abre-se espaço para o descrédito das instituições, para o cinismo social e para o avanço do autoritarismo. Um país onde juízes corruptos são promovidos não pode exigir ética da política nem respeito da sociedade.

A prisão de um desembargador é um fato grave. Mais grave ainda é tudo o que veio antes dela. O Brasil precisa decidir se continuará aceitando um Judiciário fechado em si mesmo ou se terá coragem de enfrentar seus próprios erros. Porque sem Justiça justa, não há democracia que resista.

ARTIGO – A toga manchada: quando o corporativismo transforma escândalo em promoção

 

 

(Padre Carlos)

O que aconteceu no caso do desembargador federal Macário Ramos Judice Neto não é apenas um episódio policial. É um escândalo institucional, daqueles que corroem a confiança pública, ferem a credibilidade da Justiça e expõem, sem disfarces, o corporativismo do Judiciário brasileiro. Quando a Polícia Federal prende um desembargador acusado de vazar informações sigilosas para favorecer investigados, o problema já não é individual: é sistêmico.

Estamos diante de uma toga que sangra de escândalo. E o mais grave: essa toga não foi retirada a tempo. Ao contrário, foi protegida, blindada e, por fim, premiada com promoção. O Estado que deveria zelar pela moralidade administrativa permitiu que um magistrado com histórico de investigações, afastamentos, suspeitas de enriquecimento incompatível e ligações com esquemas criminosos retornasse ao cargo e ascendesse na carreira. Isso não é falha pontual. É fracasso estrutural da Justiça.

Os fatos são eloquentes. Desde 2005, Macário Judice acumulava denúncias graves: suspeitas de fraude em sentenças, vínculos com a máfia dos caça-níqueis no Espírito Santo, utilização do cargo para favorecer interesses ilegais, além de patrimônio incompatível com a renda. Foi afastado, reintegrado, aposentado compulsoriamente — punição que, na prática, funciona como prêmio financeiro vitalício — e depois trazido de volta sob o argumento da prescrição administrativa. Não apenas voltou: foi promovido a desembargador em 2023.

E agora, em 2025, a Polícia Federal cumpre mandado de prisão preventiva contra esse mesmo magistrado, apontando sua participação no vazamento de informações sigilosas que comprometeram operações contra o crime organizado no Rio de Janeiro, inclusive beneficiando figuras centrais da política fluminense. A pergunta é inevitável: quantas investigações foram sabotadas antes que o Estado resolvesse agir?

A Justiça errou em série. Errou ao permitir que processos administrativos prescrevessem. Errou ao tratar aposentadoria compulsória como punição exemplar. Errou ao reintegrar sem enfrentar o mérito moral das acusações. Errou ao promover alguém sob nuvem espessa de suspeitas. Errou, sobretudo, ao se proteger a si mesma, em nome de uma falsa ideia de autonomia que, muitas vezes, se confunde com impunidade.

Esse caso revela a face mais perversa do corporativismo judicial: juízes julgando juízes, tribunais protegendo seus membros, processos internos lentos e formais que não dialogam com o clamor social por ética, transparência e responsabilidade. A Constituição fala em moralidade administrativa, mas o cotidiano do Judiciário insiste em relativizá-la quando os acusados vestem toga.

É por isso que a reforma do Judiciário deixou de ser tabu e passou a ser necessidade democrática. Não se trata de atacar a magistratura como instituição — essencial ao Estado de Direito —, mas de romper privilégios, revisar mecanismos disciplinares, fortalecer o controle externo, acabar com a aposentadoria compulsória como punição e garantir que ninguém esteja acima da lei, nem mesmo quem a interpreta.

A credibilidade da Justiça é um ativo público. Quando ela se perde, abre-se espaço para o descrédito das instituições, para o cinismo social e para o avanço do autoritarismo. Um país onde juízes corruptos são promovidos não pode exigir ética da política nem respeito da sociedade.

A prisão de um desembargador é um fato grave. Mais grave ainda é tudo o que veio antes dela. O Brasil precisa decidir se continuará aceitando um Judiciário fechado em si mesmo ou se terá coragem de enfrentar seus próprios erros. Porque sem Justiça justa, não há democracia que resista.

ARTIGO – QUANDO A IGREJA SILENCIA OS QUE GRITAM PELOS INVISÍVEIS

 

 

Há decisões que não se explicam apenas pela caneta que as assina; elas doem porque revelam uma ruptura moral. Nesta segunda-feira, muitos católicos acordaram com a sensação de que algo precioso estava sendo arrancado da Igreja brasileira: dom Odílio Scherer, arcebispo de São Paulo, decidiu transferir o padre Júlio Lancellotti da paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca, onde ele construiu, ao longo de quarenta anos, não apenas uma comunidade, mas um refúgio humano para aqueles que a cidade insiste em não ver. Não se trata de uma simples mudança administrativa. Trata-se de um gesto que fere a memória coletiva, a ética cristã e a própria ideia de Igreja como casa dos pobres.

Padre Júlio não é apenas um pároco. Ele se tornou símbolo. Símbolo de uma Igreja que desce às calçadas, que se ajoelha ao lado da população em situação de rua, que reparte pão, escuta histórias e devolve dignidade a quem foi esmagado pela engrenagem da exclusão social. Ao longo de décadas, sua presença na Mooca transformou aquela paróquia em um farol de justiça social, direitos humanos e compromisso evangélico radical. Retirá-lo dali é como apagar uma luz em uma cidade já marcada por sombras demais.

O drama humano se aprofunda quando se conhece o conteúdo da carta recebida no dia 10 de dezembro. Não apenas a transferência foi comunicada, mas também a proibição do uso das redes sociais e da transmissão online de suas missas. Silenciar a voz de padre Júlio não é um detalhe disciplinar; é um ato simbólico poderoso. Em tempos de crise democrática, quando a palavra é um dos poucos instrumentos de resistência, calar um sacerdote que denuncia a miséria, a violência institucional e a hipocrisia social é um gesto que ecoa para além dos muros da Igreja.

Perguntas inevitáveis surgem, e elas não são movidas por fofoca, mas por responsabilidade histórica. Por que tomar uma decisão tão drástica às vésperas da aposentadoria? Que interesses se sentem ameaçados por um padre que defende pessoas em situação de rua, a população LGBTQIA+ e que ousa se posicionar diante do massacre do povo palestino? Em uma cidade onde o mercado imobiliário, a política de direita e o higienismo social frequentemente se entrelaçam, é legítimo perguntar: quem ganha com o afastamento de padre Júlio da Mooca?

A Igreja sempre viveu tensões internas. Isso faz parte de sua história bimilenar. Mas há momentos em que a tensão deixa de ser teológica ou pastoral e se torna moral. Quando a instituição parece proteger a ordem e o silêncio em detrimento da profecia, algo essencial se perde. O Evangelho, afinal, não nasceu nos palácios, mas nas periferias humanas. Jesus não foi morto por ser discreto, mas por incomodar estruturas, denunciar injustiças e dar centralidade aos descartados.

O impacto dessa decisão não recai apenas sobre um sacerdote. Ele atinge diretamente milhares de homens e mulheres que encontram na Pastoral do Povo da Rua não apenas assistência, mas reconhecimento. O que será da Biblioteca Wilma Lancellotti, recém-inaugurada na rua Sapucaia, no Belém, com seus cerca de três mil livros, rodas de conversa e sonhos recém-plantados? O que acontece quando a Igreja retira o pastor justamente no momento em que o rebanho mais precisa de cuidado?

Há, aqui, um medo que precisa ser nomeado: o medo de que a Igreja se afaste dos pobres para se tornar novamente confortável para os poderosos. Esse medo não é paranoia; é memória histórica. Sempre que a instituição se esqueceu de sua opção preferencial pelos pobres, pagou um preço alto em credibilidade, relevância e alma. Por outro lado, há também uma esperança ativa que se recusa a morrer: a de que o clamor do povo, dos fiéis, dos católicos progressistas e de todos que acreditam em uma fé encarnada possa provocar uma revisão desse gesto.

Este não é um chamado à desobediência, mas à consciência. Pedir que dom Odílio Scherer reveja sua decisão não é atacar a hierarquia; é lembrar que autoridade, na tradição cristã, só se legitima quando serve. A Igreja não pode se dar ao luxo de perder padres como Júlio Lancellotti sem perder, junto, um pedaço de sua própria razão de existir.

Tirá-lo da Mooca é mais do que uma transferência: é uma ferida aberta no corpo eclesial e na cidade de São Paulo. Mantê-lo, ao contrário, seria um sinal claro de que a Igreja ainda escolhe estar ao lado dos que não têm voz, dos que dormem nas calçadas, dos que são tratados como problema e não como pessoas. A história observa. Os pobres sentem. E a consciência cristã será chamada a responder.

(Padre Carlos)

ARTIGO – QUANDO A IGREJA SILENCIA OS QUE GRITAM PELOS INVISÍVEIS

 

 

Há decisões que não se explicam apenas pela caneta que as assina; elas doem porque revelam uma ruptura moral. Nesta segunda-feira, muitos católicos acordaram com a sensação de que algo precioso estava sendo arrancado da Igreja brasileira: dom Odílio Scherer, arcebispo de São Paulo, decidiu transferir o padre Júlio Lancellotti da paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca, onde ele construiu, ao longo de quarenta anos, não apenas uma comunidade, mas um refúgio humano para aqueles que a cidade insiste em não ver. Não se trata de uma simples mudança administrativa. Trata-se de um gesto que fere a memória coletiva, a ética cristã e a própria ideia de Igreja como casa dos pobres.

Padre Júlio não é apenas um pároco. Ele se tornou símbolo. Símbolo de uma Igreja que desce às calçadas, que se ajoelha ao lado da população em situação de rua, que reparte pão, escuta histórias e devolve dignidade a quem foi esmagado pela engrenagem da exclusão social. Ao longo de décadas, sua presença na Mooca transformou aquela paróquia em um farol de justiça social, direitos humanos e compromisso evangélico radical. Retirá-lo dali é como apagar uma luz em uma cidade já marcada por sombras demais.

O drama humano se aprofunda quando se conhece o conteúdo da carta recebida no dia 10 de dezembro. Não apenas a transferência foi comunicada, mas também a proibição do uso das redes sociais e da transmissão online de suas missas. Silenciar a voz de padre Júlio não é um detalhe disciplinar; é um ato simbólico poderoso. Em tempos de crise democrática, quando a palavra é um dos poucos instrumentos de resistência, calar um sacerdote que denuncia a miséria, a violência institucional e a hipocrisia social é um gesto que ecoa para além dos muros da Igreja.

Perguntas inevitáveis surgem, e elas não são movidas por fofoca, mas por responsabilidade histórica. Por que tomar uma decisão tão drástica às vésperas da aposentadoria? Que interesses se sentem ameaçados por um padre que defende pessoas em situação de rua, a população LGBTQIA+ e que ousa se posicionar diante do massacre do povo palestino? Em uma cidade onde o mercado imobiliário, a política de direita e o higienismo social frequentemente se entrelaçam, é legítimo perguntar: quem ganha com o afastamento de padre Júlio da Mooca?

A Igreja sempre viveu tensões internas. Isso faz parte de sua história bimilenar. Mas há momentos em que a tensão deixa de ser teológica ou pastoral e se torna moral. Quando a instituição parece proteger a ordem e o silêncio em detrimento da profecia, algo essencial se perde. O Evangelho, afinal, não nasceu nos palácios, mas nas periferias humanas. Jesus não foi morto por ser discreto, mas por incomodar estruturas, denunciar injustiças e dar centralidade aos descartados.

O impacto dessa decisão não recai apenas sobre um sacerdote. Ele atinge diretamente milhares de homens e mulheres que encontram na Pastoral do Povo da Rua não apenas assistência, mas reconhecimento. O que será da Biblioteca Wilma Lancellotti, recém-inaugurada na rua Sapucaia, no Belém, com seus cerca de três mil livros, rodas de conversa e sonhos recém-plantados? O que acontece quando a Igreja retira o pastor justamente no momento em que o rebanho mais precisa de cuidado?

Há, aqui, um medo que precisa ser nomeado: o medo de que a Igreja se afaste dos pobres para se tornar novamente confortável para os poderosos. Esse medo não é paranoia; é memória histórica. Sempre que a instituição se esqueceu de sua opção preferencial pelos pobres, pagou um preço alto em credibilidade, relevância e alma. Por outro lado, há também uma esperança ativa que se recusa a morrer: a de que o clamor do povo, dos fiéis, dos católicos progressistas e de todos que acreditam em uma fé encarnada possa provocar uma revisão desse gesto.

Este não é um chamado à desobediência, mas à consciência. Pedir que dom Odílio Scherer reveja sua decisão não é atacar a hierarquia; é lembrar que autoridade, na tradição cristã, só se legitima quando serve. A Igreja não pode se dar ao luxo de perder padres como Júlio Lancellotti sem perder, junto, um pedaço de sua própria razão de existir.

Tirá-lo da Mooca é mais do que uma transferência: é uma ferida aberta no corpo eclesial e na cidade de São Paulo. Mantê-lo, ao contrário, seria um sinal claro de que a Igreja ainda escolhe estar ao lado dos que não têm voz, dos que dormem nas calçadas, dos que são tratados como problema e não como pessoas. A história observa. Os pobres sentem. E a consciência cristã será chamada a responder.

(Padre Carlos)

ARTIGO – Quando Governar Vira Sobrevivência: a Cooptação Silenciosa dos Prefeitos de Oposição

 

 

 

 

Padre Carlos

Há decisões políticas que não nascem da convicção, mas do cansaço. Outras brotam do medo. E algumas são paridas no desespero absoluto de quem governa cidades estranguladas pela violência, pela falta de recursos e pela pressão cotidiana de uma população que cobra soluções imediatas. A notícia de que Zé Cocá deve trocar o PP pelo PSB e aderir formalmente ao grupo que apoia o governador da Bahia não é um fato isolado. É um sinal de alerta. Um retrato cru da forma como a política estadual tem operado sua silenciosa, porém eficaz, máquina de cooptação.

Jequié, cidade governada por Cocá, figura hoje nos rankings mais sombrios da segurança pública nacional. Violência urbana, sensação de abandono, medo cotidiano. Governar um município nessas condições é caminhar sobre escombros. Não há discurso ideológico que sustente uma gestão quando faltam viaturas, investimentos, presença do Estado e respostas concretas para uma população acuada. Diante disso, a pergunta incômoda se impõe: até que ponto um prefeito pode manter suas convicções políticas quando a sobrevivência da cidade parece depender do alinhamento com o poder estadual?

Segundo comentários, a máquina do poder não opera apenas com promessas. Ela se alimenta da necessidade. Trabalha com o desespero. Age onde a carência é maior. Prefeitos de pequenas e médias cidades da Bahia sabem disso. Sem alinhamento político estadual e federal, as portas se fecham, os convênios emperram, os recursos atrasam, os projetos não andam. O sistema transforma gestores eleitos pelo voto popular em reféns de uma engrenagem que não tolera dissidência prolongada.

Nesse contexto, a fala da deputada Lídice da Mata é reveladora. Ao narrar as conversas, os desencontros, as articulações e os contatos com intermediários, ela expõe, ainda que involuntariamente, o funcionamento interno desse processo. Nada é abrupto. Nada é público de imediato. Tudo se dá em reuniões, viagens, agendas cruzadas, telefonemas estratégicos. Deputados do PP migram para o PSB, prefeitos seguem o mesmo caminho, e o movimento é apresentado como algo quase natural, inevitável, pragmático.

Mas o pragmatismo, quando se torna regra absoluta, corrói a democracia. A oposição deixa de existir não porque perdeu o debate público, mas porque foi asfixiada pela lógica do poder concentrado. A política deixa de ser espaço de ideias e passa a ser território de sobrevivência administrativa. Prefeitos não abandonam seus ideais por convicção súbita; fazem isso porque o sistema lhes apresenta uma escolha cruel: alinhar-se ou assistir à própria cidade definhar.

O caso de Jequié é emblemático, mas não é único. Ele simboliza uma Bahia onde o alinhamento político se tornou condição quase obrigatória para governar. Onde a autonomia municipal é frágil. Onde a promessa federativa esbarra na realidade de um Estado forte e municípios dependentes. O resultado é um mapa político cada vez mais homogêneo, menos plural, menos crítico.

A pergunta que fica não é se Zé Cocá fez a escolha certa ou errada. A pergunta verdadeira é outra: que tipo de sistema político obriga gestores eleitos a escolher entre suas convicções e o bem-estar mínimo de sua população? Quando governar vira um ato de rendição, algo está profundamente errado. E enquanto aceitarmos essa engrenagem como normal, a democracia continuará sendo administrada pelo medo, pela necessidade e pela lógica implacável do poder.

ARTIGO – Quando Governar Vira Sobrevivência: a Cooptação Silenciosa dos Prefeitos de Oposição

 

 

 

 

Padre Carlos

Há decisões políticas que não nascem da convicção, mas do cansaço. Outras brotam do medo. E algumas são paridas no desespero absoluto de quem governa cidades estranguladas pela violência, pela falta de recursos e pela pressão cotidiana de uma população que cobra soluções imediatas. A notícia de que Zé Cocá deve trocar o PP pelo PSB e aderir formalmente ao grupo que apoia o governador da Bahia não é um fato isolado. É um sinal de alerta. Um retrato cru da forma como a política estadual tem operado sua silenciosa, porém eficaz, máquina de cooptação.

Jequié, cidade governada por Cocá, figura hoje nos rankings mais sombrios da segurança pública nacional. Violência urbana, sensação de abandono, medo cotidiano. Governar um município nessas condições é caminhar sobre escombros. Não há discurso ideológico que sustente uma gestão quando faltam viaturas, investimentos, presença do Estado e respostas concretas para uma população acuada. Diante disso, a pergunta incômoda se impõe: até que ponto um prefeito pode manter suas convicções políticas quando a sobrevivência da cidade parece depender do alinhamento com o poder estadual?

Segundo comentários, a máquina do poder não opera apenas com promessas. Ela se alimenta da necessidade. Trabalha com o desespero. Age onde a carência é maior. Prefeitos de pequenas e médias cidades da Bahia sabem disso. Sem alinhamento político estadual e federal, as portas se fecham, os convênios emperram, os recursos atrasam, os projetos não andam. O sistema transforma gestores eleitos pelo voto popular em reféns de uma engrenagem que não tolera dissidência prolongada.

Nesse contexto, a fala da deputada Lídice da Mata é reveladora. Ao narrar as conversas, os desencontros, as articulações e os contatos com intermediários, ela expõe, ainda que involuntariamente, o funcionamento interno desse processo. Nada é abrupto. Nada é público de imediato. Tudo se dá em reuniões, viagens, agendas cruzadas, telefonemas estratégicos. Deputados do PP migram para o PSB, prefeitos seguem o mesmo caminho, e o movimento é apresentado como algo quase natural, inevitável, pragmático.

Mas o pragmatismo, quando se torna regra absoluta, corrói a democracia. A oposição deixa de existir não porque perdeu o debate público, mas porque foi asfixiada pela lógica do poder concentrado. A política deixa de ser espaço de ideias e passa a ser território de sobrevivência administrativa. Prefeitos não abandonam seus ideais por convicção súbita; fazem isso porque o sistema lhes apresenta uma escolha cruel: alinhar-se ou assistir à própria cidade definhar.

O caso de Jequié é emblemático, mas não é único. Ele simboliza uma Bahia onde o alinhamento político se tornou condição quase obrigatória para governar. Onde a autonomia municipal é frágil. Onde a promessa federativa esbarra na realidade de um Estado forte e municípios dependentes. O resultado é um mapa político cada vez mais homogêneo, menos plural, menos crítico.

A pergunta que fica não é se Zé Cocá fez a escolha certa ou errada. A pergunta verdadeira é outra: que tipo de sistema político obriga gestores eleitos a escolher entre suas convicções e o bem-estar mínimo de sua população? Quando governar vira um ato de rendição, algo está profundamente errado. E enquanto aceitarmos essa engrenagem como normal, a democracia continuará sendo administrada pelo medo, pela necessidade e pela lógica implacável do poder.

ARTIGO – Paz em Tempos de Ruído: o Direito de Silenciar a Alma

 

 

 

 

Vivemos uma era em que a paz virou artigo de luxo. Enquanto o mundo grita, notifica, acusa e convoca para batalhas diárias — muitas delas vazias — cresce silenciosamente um cansaço coletivo que não aparece nas estatísticas, mas pesa na alma. “Quero paz na alma, sossego na mente e calma no coração” não é apenas um desejo íntimo; é um grito político, ético e humano de uma sociedade exausta de sobreviver em estado permanente de alerta.

A cena é simples: uma pessoa sentada num banco, cercada por árvores outonais, folhas caídas, tempo suspenso. Mas o que parece quietude esconde um conflito profundo. A busca por paz interior acontece justamente quando o mundo parece determinado a nos arrancar dela. A mente, sitiada por notícias falsas, discursos de ódio, crises econômicas e ameaças à democracia, já não encontra repouso. O coração, sobrecarregado por injustiças normalizadas, aprende a bater mais rápido, não por amor, mas por medo.

Há uma perversidade nisso tudo. A sociedade que nos adoece é a mesma que nos cobra produtividade, engajamento, opinião imediata. Quem silencia é acusado de omissão; quem busca calma é visto como alienado. Mas há momentos na história em que o verdadeiro ato de resistência é preservar a sanidade. A paz na alma não é fuga: é trincheira. O sossego da mente não é neutralidade: é lucidez. A calma no coração não é indiferença: é humanidade preservada.

A memória coletiva nos ensina que tempos de ruído extremo quase sempre antecederam rupturas graves — guerras, ditaduras, colapsos morais. Quando a sociedade perde a capacidade de respirar, perde também a capacidade de discernir. E sem discernimento, a democracia apodrece por dentro. O medo constante anestesia a consciência; a indignação sem reflexão vira instrumento de manipulação. Por isso, cuidar da paz interior é também um gesto de responsabilidade histórica.

Não se trata de romantizar o silêncio nem de ignorar a dor do mundo. Trata-se de compreender que só quem encontra um mínimo de equilíbrio emocional consegue lutar com ética, denunciar com justiça e sonhar com esperança ativa. A empatia nasce do coração calmo; a justiça exige mente serena; a indignação moral só é legítima quando não está contaminada pelo ódio.

Hoje, mais do que nunca, precisamos reaprender a sentar no banco da vida, olhar o tempo cair como folhas e perguntar: a quem interessa nossa exaustão permanente? Quem lucra com nossa mente em guerra e nosso coração em pânico? A paz que desejamos não é ausência de conflito, mas presença de sentido. Não é silêncio cúmplice, mas escuta profunda. Não é desistência, mas preparação interior para continuar.

Buscar paz na alma, sossego na mente e calma no coração é um ato político num mundo que se alimenta do caos. É um gesto de desobediência ética diante da cultura do ódio, da ansiedade coletiva, da desumanização cotidiana. Que essa escolha nos inquiete, nos fortaleça e nos convoque a reconstruir o mundo a partir de dentro — porque nenhuma transformação social sobreviverá se antes não resgatarmos o direito humano de estar em paz.

(Padre Carlos)

ARTIGO – Paz em Tempos de Ruído: o Direito de Silenciar a Alma

 

 

 

 

Vivemos uma era em que a paz virou artigo de luxo. Enquanto o mundo grita, notifica, acusa e convoca para batalhas diárias — muitas delas vazias — cresce silenciosamente um cansaço coletivo que não aparece nas estatísticas, mas pesa na alma. “Quero paz na alma, sossego na mente e calma no coração” não é apenas um desejo íntimo; é um grito político, ético e humano de uma sociedade exausta de sobreviver em estado permanente de alerta.

A cena é simples: uma pessoa sentada num banco, cercada por árvores outonais, folhas caídas, tempo suspenso. Mas o que parece quietude esconde um conflito profundo. A busca por paz interior acontece justamente quando o mundo parece determinado a nos arrancar dela. A mente, sitiada por notícias falsas, discursos de ódio, crises econômicas e ameaças à democracia, já não encontra repouso. O coração, sobrecarregado por injustiças normalizadas, aprende a bater mais rápido, não por amor, mas por medo.

Há uma perversidade nisso tudo. A sociedade que nos adoece é a mesma que nos cobra produtividade, engajamento, opinião imediata. Quem silencia é acusado de omissão; quem busca calma é visto como alienado. Mas há momentos na história em que o verdadeiro ato de resistência é preservar a sanidade. A paz na alma não é fuga: é trincheira. O sossego da mente não é neutralidade: é lucidez. A calma no coração não é indiferença: é humanidade preservada.

A memória coletiva nos ensina que tempos de ruído extremo quase sempre antecederam rupturas graves — guerras, ditaduras, colapsos morais. Quando a sociedade perde a capacidade de respirar, perde também a capacidade de discernir. E sem discernimento, a democracia apodrece por dentro. O medo constante anestesia a consciência; a indignação sem reflexão vira instrumento de manipulação. Por isso, cuidar da paz interior é também um gesto de responsabilidade histórica.

Não se trata de romantizar o silêncio nem de ignorar a dor do mundo. Trata-se de compreender que só quem encontra um mínimo de equilíbrio emocional consegue lutar com ética, denunciar com justiça e sonhar com esperança ativa. A empatia nasce do coração calmo; a justiça exige mente serena; a indignação moral só é legítima quando não está contaminada pelo ódio.

Hoje, mais do que nunca, precisamos reaprender a sentar no banco da vida, olhar o tempo cair como folhas e perguntar: a quem interessa nossa exaustão permanente? Quem lucra com nossa mente em guerra e nosso coração em pânico? A paz que desejamos não é ausência de conflito, mas presença de sentido. Não é silêncio cúmplice, mas escuta profunda. Não é desistência, mas preparação interior para continuar.

Buscar paz na alma, sossego na mente e calma no coração é um ato político num mundo que se alimenta do caos. É um gesto de desobediência ética diante da cultura do ódio, da ansiedade coletiva, da desumanização cotidiana. Que essa escolha nos inquiete, nos fortaleça e nos convoque a reconstruir o mundo a partir de dentro — porque nenhuma transformação social sobreviverá se antes não resgatarmos o direito humano de estar em paz.

(Padre Carlos)

ARTIGO – O Fim da Zona de Conforto e a Disputa Real pelo Voto Rural

 

(Padre Carlos)

Durante quase duas décadas, os deputados ligados à esquerda nadaram em águas tranquilas no Sudoeste baiano. Cidades vizinhas e, sobretudo, a vasta área rural de Vitória da Conquista funcionaram como território seguro, onde o discurso e a presença política se confundiam com as obras executadas pelo Governo da Bahia e com o longo ciclo administrativo do PT no município, que durou vinte anos. Estradas, escolas, postos de saúde e programas sociais foram, legitimamente, conquistas do poder público estadual, mas acabaram sendo apropriadas politicamente por mandatos que pouco precisaram disputar, de fato, a confiança renovada do eleitor.

Esse tempo, ao que tudo indica, ficou para trás.

A realidade política de hoje é outra, mais fragmentada, mais competitiva e menos tolerante com a acomodação. Uma nova liderança emerge dentro do próprio campo político que sustenta o governo estadual no Sudoeste baiano. Vinda de Belo Campo, com base eleitoral sólida e capital político testado nas urnas — inclusive com a expressiva votação que elegeu sua esposa —, essa candidatura não pode mais ser tratada como figurante no tabuleiro eleitoral. Ao contrário: tudo indica que poderá surpreender, tornando-se o nome mais votado desse campo político nas áreas rurais e nas cidades do entorno de Vitória da Conquista.

Esse movimento altera profundamente o equilíbrio de forças. Deputados tradicionais, que por anos mantiveram bases quase automáticas, começam a sentir o esvaziamento de apoios locais. Lideranças comunitárias mudaram de lado, prefeitos e vereadores recalculam alianças, e o eleitor rural — frequentemente tratado apenas como número estatístico — passa a ser disputado com mais intensidade, promessas concretas e presença efetiva.

A disputa pelo voto da área rural não será simples nem previsível. De um lado, surge Quinho, que tem conseguido canalizar obras e investimentos do Governo do Estado, fortalecendo sua imagem de interlocutor eficiente. De outro, Wagner Alves, marido da prefeita, entra no jogo com o peso da máquina municipal, algo que nunca deve ser subestimado em eleições proporcionais. Ambos disputam o mesmo território simbólico e eleitoral que antes parecia cativo de poucos nomes.

Nesse novo cenário, os antigos deputados enfrentam um desgaste que vai além do natural cansaço do tempo. A falta de renovação, a repetição do discurso e a dependência excessiva do “voto de obra” cobram seu preço. O eleitor urbano, mais crítico, informado e sensível a pautas de opinião, dificilmente será conquistado apenas pela memória de gestões passadas ou por vínculos partidários históricos. A travessia do voto rural para o voto de opinião urbano se mostra cada vez mais difícil.

O que se desenha, portanto, é uma eleição marcada pela ruptura da previsibilidade. Vitória da Conquista e seu entorno deixam de ser um campo de conforto para se tornarem um território de disputa real, onde presença, entrega concreta, articulação política e capacidade de renovação farão a diferença. Quem não compreender essa mudança corre o risco de descobrir, tarde demais, que o tempo da hegemonia silenciosa acabou.

A política, como a história, não perdoa a estagnação. E o Sudoeste baiano parece ter decidido seguir em movimento.

ARTIGO – O Fim da Zona de Conforto e a Disputa Real pelo Voto Rural

 

(Padre Carlos)

Durante quase duas décadas, os deputados ligados à esquerda nadaram em águas tranquilas no Sudoeste baiano. Cidades vizinhas e, sobretudo, a vasta área rural de Vitória da Conquista funcionaram como território seguro, onde o discurso e a presença política se confundiam com as obras executadas pelo Governo da Bahia e com o longo ciclo administrativo do PT no município, que durou vinte anos. Estradas, escolas, postos de saúde e programas sociais foram, legitimamente, conquistas do poder público estadual, mas acabaram sendo apropriadas politicamente por mandatos que pouco precisaram disputar, de fato, a confiança renovada do eleitor.

Esse tempo, ao que tudo indica, ficou para trás.

A realidade política de hoje é outra, mais fragmentada, mais competitiva e menos tolerante com a acomodação. Uma nova liderança emerge dentro do próprio campo político que sustenta o governo estadual no Sudoeste baiano. Vinda de Belo Campo, com base eleitoral sólida e capital político testado nas urnas — inclusive com a expressiva votação que elegeu sua esposa —, essa candidatura não pode mais ser tratada como figurante no tabuleiro eleitoral. Ao contrário: tudo indica que poderá surpreender, tornando-se o nome mais votado desse campo político nas áreas rurais e nas cidades do entorno de Vitória da Conquista.

Esse movimento altera profundamente o equilíbrio de forças. Deputados tradicionais, que por anos mantiveram bases quase automáticas, começam a sentir o esvaziamento de apoios locais. Lideranças comunitárias mudaram de lado, prefeitos e vereadores recalculam alianças, e o eleitor rural — frequentemente tratado apenas como número estatístico — passa a ser disputado com mais intensidade, promessas concretas e presença efetiva.

A disputa pelo voto da área rural não será simples nem previsível. De um lado, surge Quinho, que tem conseguido canalizar obras e investimentos do Governo do Estado, fortalecendo sua imagem de interlocutor eficiente. De outro, Wagner Alves, marido da prefeita, entra no jogo com o peso da máquina municipal, algo que nunca deve ser subestimado em eleições proporcionais. Ambos disputam o mesmo território simbólico e eleitoral que antes parecia cativo de poucos nomes.

Nesse novo cenário, os antigos deputados enfrentam um desgaste que vai além do natural cansaço do tempo. A falta de renovação, a repetição do discurso e a dependência excessiva do “voto de obra” cobram seu preço. O eleitor urbano, mais crítico, informado e sensível a pautas de opinião, dificilmente será conquistado apenas pela memória de gestões passadas ou por vínculos partidários históricos. A travessia do voto rural para o voto de opinião urbano se mostra cada vez mais difícil.

O que se desenha, portanto, é uma eleição marcada pela ruptura da previsibilidade. Vitória da Conquista e seu entorno deixam de ser um campo de conforto para se tornarem um território de disputa real, onde presença, entrega concreta, articulação política e capacidade de renovação farão a diferença. Quem não compreender essa mudança corre o risco de descobrir, tarde demais, que o tempo da hegemonia silenciosa acabou.

A política, como a história, não perdoa a estagnação. E o Sudoeste baiano parece ter decidido seguir em movimento.

ARTIGO – A nova sede da Câmara de Vitória da Conquista: visão, planejamento e compromisso com o futuro

 

 

 

(Padre Carlos)

Há momentos na vida pública em que a iniciativa, por si só, já diz muito sobre a qualidade da liderança. A movimentação do presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, ao conduzir os vereadores para uma visita técnica ao Centro Cultural Glauber Rocha, sinaliza exatamente isso: visão de futuro, senso de responsabilidade institucional e compromisso com a modernização do Poder Legislativo.

É preciso reconhecer, sem rodeios, que a Câmara cresceu. Hoje são 23 vereadores, uma estrutura administrativa mais complexa e novas demandas da sociedade, que exigem transparência, comunicação eficiente e presença institucional. Nesse contexto, pensar em uma nova sede não é luxo, nem vaidade política; é necessidade administrativa e respeito ao cidadão.

O grande mérito da iniciativa está no fato de ela não nascer como decisão fechada, mas como processo. A busca por alternativas, a escuta técnica e o diálogo com outras áreas da gestão pública demonstram maturidade política. O presidente Ivan Cordeiro acerta ao tratar o tema com seriedade, evitando improvisações e colocando a discussão no campo do planejamento urbano e institucional.

A possibilidade de instalar a nova sede em uma área estratégica da cidade, como a zona oeste, também deve ser vista como um avanço. Vitória da Conquista é uma cidade em expansão, e descentralizar equipamentos públicos significa aproximar o poder das pessoas, facilitar o acesso da população e integrar o Legislativo à dinâmica real do município. Isso fortalece a democracia local e rompe com a lógica de um poder distante e enclausurado.

Outro ponto extremamente positivo é a perspectiva de modernização. Uma nova sede abre espaço para melhores condições de trabalho, acessibilidade plena, uso de tecnologia, transparência dos atos legislativos e implantação de projetos como a TV institucional. Tudo isso contribui para um Legislativo mais aberto, mais visível e mais conectado com a sociedade conquistense.

Também merece destaque o simbolismo do gesto político. Ao tratar a nova sede como um investimento no funcionamento da democracia, e não como obra meramente física, a presidência da Câmara demonstra compreensão do papel histórico do Legislativo. Uma Casa adequada não serve apenas aos vereadores; ela serve ao debate público, à fiscalização, à participação popular e ao fortalecimento das instituições.

Vitória da Conquista é uma cidade que se orgulha de sua tradição política, de sua vida cultural e de seu protagonismo regional. Uma Câmara moderna, funcional e bem planejada está à altura dessa história. A iniciativa em curso aponta exatamente nessa direção: responsabilidade, planejamento e compromisso com o futuro.

Quando o poder público decide agir com visão estratégica, ganha a instituição, ganha a cidade e ganha, sobretudo, o cidadão. Nesse sentido, a condução do processo pelo presidente da Câmara merece reconhecimento e apoio, porque representa um passo firme rumo a um Legislativo mais eficiente, transparente e alinhado com as necessidades do nosso tempo.

ARTIGO – A nova sede da Câmara de Vitória da Conquista: visão, planejamento e compromisso com o futuro

 

 

 

(Padre Carlos)

Há momentos na vida pública em que a iniciativa, por si só, já diz muito sobre a qualidade da liderança. A movimentação do presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, ao conduzir os vereadores para uma visita técnica ao Centro Cultural Glauber Rocha, sinaliza exatamente isso: visão de futuro, senso de responsabilidade institucional e compromisso com a modernização do Poder Legislativo.

É preciso reconhecer, sem rodeios, que a Câmara cresceu. Hoje são 23 vereadores, uma estrutura administrativa mais complexa e novas demandas da sociedade, que exigem transparência, comunicação eficiente e presença institucional. Nesse contexto, pensar em uma nova sede não é luxo, nem vaidade política; é necessidade administrativa e respeito ao cidadão.

O grande mérito da iniciativa está no fato de ela não nascer como decisão fechada, mas como processo. A busca por alternativas, a escuta técnica e o diálogo com outras áreas da gestão pública demonstram maturidade política. O presidente Ivan Cordeiro acerta ao tratar o tema com seriedade, evitando improvisações e colocando a discussão no campo do planejamento urbano e institucional.

A possibilidade de instalar a nova sede em uma área estratégica da cidade, como a zona oeste, também deve ser vista como um avanço. Vitória da Conquista é uma cidade em expansão, e descentralizar equipamentos públicos significa aproximar o poder das pessoas, facilitar o acesso da população e integrar o Legislativo à dinâmica real do município. Isso fortalece a democracia local e rompe com a lógica de um poder distante e enclausurado.

Outro ponto extremamente positivo é a perspectiva de modernização. Uma nova sede abre espaço para melhores condições de trabalho, acessibilidade plena, uso de tecnologia, transparência dos atos legislativos e implantação de projetos como a TV institucional. Tudo isso contribui para um Legislativo mais aberto, mais visível e mais conectado com a sociedade conquistense.

Também merece destaque o simbolismo do gesto político. Ao tratar a nova sede como um investimento no funcionamento da democracia, e não como obra meramente física, a presidência da Câmara demonstra compreensão do papel histórico do Legislativo. Uma Casa adequada não serve apenas aos vereadores; ela serve ao debate público, à fiscalização, à participação popular e ao fortalecimento das instituições.

Vitória da Conquista é uma cidade que se orgulha de sua tradição política, de sua vida cultural e de seu protagonismo regional. Uma Câmara moderna, funcional e bem planejada está à altura dessa história. A iniciativa em curso aponta exatamente nessa direção: responsabilidade, planejamento e compromisso com o futuro.

Quando o poder público decide agir com visão estratégica, ganha a instituição, ganha a cidade e ganha, sobretudo, o cidadão. Nesse sentido, a condução do processo pelo presidente da Câmara merece reconhecimento e apoio, porque representa um passo firme rumo a um Legislativo mais eficiente, transparente e alinhado com as necessidades do nosso tempo.

ARTIGO – Quando a Palavra Vira Escudo: Proselitismo como Cortina de Fumaça

 

(Padre Carlos)

Há palavras que não nascem para explicar, mas para proteger. Funcionam como escudos retóricos, lançados quando os argumentos se esgotam e o desconforto se instala. “Proselitismo político” é uma dessas palavras. Foi ela a escolhida por um deputado de Vitória da Conquista para rebater críticas legítimas da oposição sobre o endividamento do governo da Bahia. Como se questionar R$ 26 bilhões em empréstimos públicos, pagos com o suor do povo baiano, fosse apenas um jogo menor de retórica partidária.

Essa inversão de sentidos não é apenas desonesta. Ela é dolorosa. Porque toca uma ferida antiga da democracia brasileira: a tentativa recorrente de silenciar o questionamento público por meio da desqualificação moral de quem pergunta.

Vinte e dois pedidos de empréstimo. Repita esse número com calma. Vinte e dois. Em sucessivas idas às instituições financeiras, o governador Jerônimo Rodrigues comprometeu o futuro de gerações inteiras. Em novembro, sob o argumento da urgência — palavra frequentemente usada para atropelar o debate — mais R$ 2,9 bilhões foram solicitados. O problema não é apenas o volume da dívida pública estadual, que já pesa como nuvem carregada antes da tempestade. O que fere é a opacidade, a falta de transparência, a ausência de explicações claras sobre a destinação desses recursos.

Onde será aplicado esse dinheiro? Quais políticas públicas serão efetivamente fortalecidas? Quais regiões serão beneficiadas? Quais gerações pagarão a conta? O silêncio do governo da Bahia diante dessas perguntas básicas é ensurdecedor. E silêncio, em política, nunca é neutro.

Mas a contradição se torna ainda mais gritante quando olhamos para o próprio quintal. O mesmo deputado que acusa a oposição de “proselitismo político” parece esquecer — ou escolhe esquecer — que, em Vitória da Conquista, sua adversária política, a prefeita Sheila Lemos, solicitou autorização da Câmara Municipal para contratar R$ 400 milhões em empréstimos. E aqui reside o ponto central que desmonta o discurso fácil.

Não se trata de condenar o endividamento público em si. Dívida pode ser instrumento legítimo de desenvolvimento quando acompanhada de planejamento, clareza e controle social. A prefeita foi objetiva: mobilidade urbana, saneamento básico, infraestrutura. Obras visíveis, mensuráveis, capazes de transformar a vida cotidiana da população. Há diferença profunda — quase moral — entre endividar-se com propósito declarado e endividar-se no escuro. Entre apresentar um plano e pedir carta branca. Entre respeitar o cidadão e tratá-lo como figurante.

O verdadeiro proselitismo político não está em fiscalizar. Está em confundir deliberadamente. Está em acusar o outro daquilo que se pratica. Está em defender transparência no município e blindar a opacidade no Estado. Está em transformar a fiscalização — dever constitucional da oposição e direito do cidadão — em pecado ideológico.

Proselitismo é usar palavras como fumaça para esconder números. É tentar convencer o povo de que perguntar é crime, de que desconfiar é deslealdade, de que exigir prestação de contas é sabotagem política. É infantilizar a sociedade e esperar aplausos.

Este artigo é, antes de tudo, um convite à lucidez. Não podemos aceitar que nos roubem o direito de perguntar. Não podemos permitir que o debate sobre endividamento público, dívida estadual, empréstimos bilionários e transparência governamental seja interditado por rótulos vazios. Democracia não combina com medo da pergunta. Combina com resposta.

Vitória da Conquista deu explicações. O governo da Bahia ainda deve as suas. E ao deputado que escolheu a palavra “proselitismo” como escudo, fica um lembrete simples: as palavras têm memória. A história registra não apenas o que foi dito, mas também o que se tentou esconder.

No fim, não se trata de PT ou oposição. Trata-se de transparência ou opacidade, de respeito ou descaso, de democracia ou autoritarismo disfarçado.
E essas escolhas — que pesam tanto quanto bilhões em dívidas — não admitem relativização.

ARTIGO – Quando a Palavra Vira Escudo: Proselitismo como Cortina de Fumaça

 

(Padre Carlos)

Há palavras que não nascem para explicar, mas para proteger. Funcionam como escudos retóricos, lançados quando os argumentos se esgotam e o desconforto se instala. “Proselitismo político” é uma dessas palavras. Foi ela a escolhida por um deputado de Vitória da Conquista para rebater críticas legítimas da oposição sobre o endividamento do governo da Bahia. Como se questionar R$ 26 bilhões em empréstimos públicos, pagos com o suor do povo baiano, fosse apenas um jogo menor de retórica partidária.

Essa inversão de sentidos não é apenas desonesta. Ela é dolorosa. Porque toca uma ferida antiga da democracia brasileira: a tentativa recorrente de silenciar o questionamento público por meio da desqualificação moral de quem pergunta.

Vinte e dois pedidos de empréstimo. Repita esse número com calma. Vinte e dois. Em sucessivas idas às instituições financeiras, o governador Jerônimo Rodrigues comprometeu o futuro de gerações inteiras. Em novembro, sob o argumento da urgência — palavra frequentemente usada para atropelar o debate — mais R$ 2,9 bilhões foram solicitados. O problema não é apenas o volume da dívida pública estadual, que já pesa como nuvem carregada antes da tempestade. O que fere é a opacidade, a falta de transparência, a ausência de explicações claras sobre a destinação desses recursos.

Onde será aplicado esse dinheiro? Quais políticas públicas serão efetivamente fortalecidas? Quais regiões serão beneficiadas? Quais gerações pagarão a conta? O silêncio do governo da Bahia diante dessas perguntas básicas é ensurdecedor. E silêncio, em política, nunca é neutro.

Mas a contradição se torna ainda mais gritante quando olhamos para o próprio quintal. O mesmo deputado que acusa a oposição de “proselitismo político” parece esquecer — ou escolhe esquecer — que, em Vitória da Conquista, sua adversária política, a prefeita Sheila Lemos, solicitou autorização da Câmara Municipal para contratar R$ 400 milhões em empréstimos. E aqui reside o ponto central que desmonta o discurso fácil.

Não se trata de condenar o endividamento público em si. Dívida pode ser instrumento legítimo de desenvolvimento quando acompanhada de planejamento, clareza e controle social. A prefeita foi objetiva: mobilidade urbana, saneamento básico, infraestrutura. Obras visíveis, mensuráveis, capazes de transformar a vida cotidiana da população. Há diferença profunda — quase moral — entre endividar-se com propósito declarado e endividar-se no escuro. Entre apresentar um plano e pedir carta branca. Entre respeitar o cidadão e tratá-lo como figurante.

O verdadeiro proselitismo político não está em fiscalizar. Está em confundir deliberadamente. Está em acusar o outro daquilo que se pratica. Está em defender transparência no município e blindar a opacidade no Estado. Está em transformar a fiscalização — dever constitucional da oposição e direito do cidadão — em pecado ideológico.

Proselitismo é usar palavras como fumaça para esconder números. É tentar convencer o povo de que perguntar é crime, de que desconfiar é deslealdade, de que exigir prestação de contas é sabotagem política. É infantilizar a sociedade e esperar aplausos.

Este artigo é, antes de tudo, um convite à lucidez. Não podemos aceitar que nos roubem o direito de perguntar. Não podemos permitir que o debate sobre endividamento público, dívida estadual, empréstimos bilionários e transparência governamental seja interditado por rótulos vazios. Democracia não combina com medo da pergunta. Combina com resposta.

Vitória da Conquista deu explicações. O governo da Bahia ainda deve as suas. E ao deputado que escolheu a palavra “proselitismo” como escudo, fica um lembrete simples: as palavras têm memória. A história registra não apenas o que foi dito, mas também o que se tentou esconder.

No fim, não se trata de PT ou oposição. Trata-se de transparência ou opacidade, de respeito ou descaso, de democracia ou autoritarismo disfarçado.
E essas escolhas — que pesam tanto quanto bilhões em dívidas — não admitem relativização.

O Grito Silencioso da Lagoa das Bateias: Como Estamos Afogando Nosso Próprio Futuro

 

 

 

A Ferida Aberta no Coração de Nossa Cidade

Existe uma dor silenciosa que se espalha pelas margens da Lagoa das Bateias. Não é a dor que grita, que se manifesta em protestos ou reclamações públicas. É aquela dor surda, constante, que nasce quando testemunhamos a destruição daquilo que deveria ser sagrado: o nosso lar comum, a nossa terra, o reflexo de quem somos como povo.

Quando caminhamos pelo Parque Ambiental da Lagoa das Bateias e deparamos com garrafas plásticas flutuando na água, com sacos de lixo abandonados às margens, com resíduos espalhados por aquele espaço que deveria ser um santuário de vida, sentimos algo muito além de frustração. Sentimos vergonha. Sentimos a traição de nós mesmos contra nós mesmos.

Este parque não nasceu do nada. Ele nasceu de um sonho coletivo, de um investimento que é, antes de tudo, um ato de fé na humanidade que habita Vitória da Conquista. Cada centavo aplicado ali representa a esperança de que seríamos capazes de honrar aquilo que nos foi confiado. Representa a crença de que poderíamos, finalmente, enxergar a água onde antes só havia abandono, sentir a brisa onde antes só havia esquecimento.

Mas como podemos falar de conquista quando conquistamos algo apenas para destruí-lo com nossas próprias mãos?

Há uma ironia cruel neste cenário. Recebemos um presente precioso – um espaço de respiração numa cidade que cresce acelerada, um oásis verde em meio ao concreto, um espelho d’água que deveria refletir o céu e não nosso descaso – e o tratamos como lixeira. Cada embalagem jogada ali é mais que um resíduo físico: é um fragmento de nossa dignidade que se perde, é um pedaço de futuro que negamos às nossas crianças.

Enquanto milhões de pessoas no mundo imploram por uma única gota de água limpa, nós temos o privilégio de ter um parque ambiental sendo recuperado, limpo, devolvido à sua vocação natural. E nossa resposta? Poluir. Sujar. Destruir. Como se não compreendêssemos que cada ato de negligência é uma sentença que assinamos contra nós mesmos.

Há quem diga que a prefeitura não faz, que os recursos vão sempre para os mesmos lugares, que há descaso. Mas pergunto: que descaso é maior que aquele que praticamos contra aquilo que nos pertence? A máquina que precisa voltar para limpar o que já foi limpo, a caçamba que retorna onde já havia passado – isso não é apenas desperdício de dinheiro público. É o desperdício de uma oportunidade histórica de mostrarmos que somos dignos daquilo que conquistamos.

A Lagoa das Bateias não é propriedade de político algum. Ela não tem dono com nome e sobrenome. Ela pertence a cada conquistense que acorda cedo, que trabalha duro, que sonha com uma cidade melhor. Ela pertence às crianças que merecem correr em espaços verdes. Ela pertence aos idosos que precisam de lugares tranquilos para descansar. Ela pertence a todos nós – e, portanto, a responsabilidade por sua preservação também é nossa.

Quando jogamos lixo no parque, não estamos apenas sujando um espaço físico. Estamos declarando ao mundo que não valorizamos aquilo que é nosso. Estamos dizendo que preferimos a comodidade momentânea de descartar nosso lixo onde bem entendemos ao trabalho diário de construir uma cidade mais limpa, mais digna, mais humana. Estamos escolhendo o caminho mais fácil, mesmo sabendo que ele nos leva ao abismo.

Mas ainda há tempo. Sempre há tempo quando existe vontade de mudança.

Precisamos nos tornar guardiões uns dos outros. Quando virmos alguém jogando lixo, não podemos simplesmente virar o rosto e seguir em frente. Precisamos ter a coragem de intervir, de educar, de mostrar que aquele ato aparentemente pequeno tem consequências imensuráveis. Cada garrafa plástica que flutua na lagoa é um futuro que se compromete. Cada resíduo que polui a água é uma doença que se anuncia.

A natureza não fala, mas grita em silêncio. Ela pede socorro através das águas que se tornam turvas, através dos peixes que morrem, através da beleza que se perde. E nós, que temos a capacidade de ouvi-la, escolhemos nos fazer de surdos.

Imaginem um futuro onde possamos, quem sabe, mergulhar nessas águas. Onde as crianças possam brincar sem medo, onde as famílias possam fazer piqueniques às margens sem se deparar com montanhas de lixo. Esse futuro é possível. Mas ele só se concretizará se entendermos, de uma vez por todas, que o Parque Ambiental da Lagoa das Bateias é nosso espelho coletivo. Ele reflete quem somos. E, neste momento, a imagem refletida não é bonita.

Que possamos despertar para essa verdade antes que seja tarde demais. Que cada conquistense possa olhar para a Lagoa das Bateias e sentir orgulho, não vergonha. Que possamos dizer às futuras gerações: “Nós recebemos este presente e o honramos. Nós fomos dignos.”

Porque, no final das contas, a verdadeira conquista não está em receber um parque ambiental. Está em ser capaz de preservá-lo. Está em reconhecer que cuidar do que é nosso é a forma mais sincera de demonstrar amor por nossa cidade, por nosso povo, por nós mesmos.

A Lagoa das Bateias está esperando. Esperando que sejamos, enfim, a altura do presente que recebemos.

Lucas Batista

O Grito Silencioso da Lagoa das Bateias: Como Estamos Afogando Nosso Próprio Futuro

 

 

 

A Ferida Aberta no Coração de Nossa Cidade

Existe uma dor silenciosa que se espalha pelas margens da Lagoa das Bateias. Não é a dor que grita, que se manifesta em protestos ou reclamações públicas. É aquela dor surda, constante, que nasce quando testemunhamos a destruição daquilo que deveria ser sagrado: o nosso lar comum, a nossa terra, o reflexo de quem somos como povo.

Quando caminhamos pelo Parque Ambiental da Lagoa das Bateias e deparamos com garrafas plásticas flutuando na água, com sacos de lixo abandonados às margens, com resíduos espalhados por aquele espaço que deveria ser um santuário de vida, sentimos algo muito além de frustração. Sentimos vergonha. Sentimos a traição de nós mesmos contra nós mesmos.

Este parque não nasceu do nada. Ele nasceu de um sonho coletivo, de um investimento que é, antes de tudo, um ato de fé na humanidade que habita Vitória da Conquista. Cada centavo aplicado ali representa a esperança de que seríamos capazes de honrar aquilo que nos foi confiado. Representa a crença de que poderíamos, finalmente, enxergar a água onde antes só havia abandono, sentir a brisa onde antes só havia esquecimento.

Mas como podemos falar de conquista quando conquistamos algo apenas para destruí-lo com nossas próprias mãos?

Há uma ironia cruel neste cenário. Recebemos um presente precioso – um espaço de respiração numa cidade que cresce acelerada, um oásis verde em meio ao concreto, um espelho d’água que deveria refletir o céu e não nosso descaso – e o tratamos como lixeira. Cada embalagem jogada ali é mais que um resíduo físico: é um fragmento de nossa dignidade que se perde, é um pedaço de futuro que negamos às nossas crianças.

Enquanto milhões de pessoas no mundo imploram por uma única gota de água limpa, nós temos o privilégio de ter um parque ambiental sendo recuperado, limpo, devolvido à sua vocação natural. E nossa resposta? Poluir. Sujar. Destruir. Como se não compreendêssemos que cada ato de negligência é uma sentença que assinamos contra nós mesmos.

Há quem diga que a prefeitura não faz, que os recursos vão sempre para os mesmos lugares, que há descaso. Mas pergunto: que descaso é maior que aquele que praticamos contra aquilo que nos pertence? A máquina que precisa voltar para limpar o que já foi limpo, a caçamba que retorna onde já havia passado – isso não é apenas desperdício de dinheiro público. É o desperdício de uma oportunidade histórica de mostrarmos que somos dignos daquilo que conquistamos.

A Lagoa das Bateias não é propriedade de político algum. Ela não tem dono com nome e sobrenome. Ela pertence a cada conquistense que acorda cedo, que trabalha duro, que sonha com uma cidade melhor. Ela pertence às crianças que merecem correr em espaços verdes. Ela pertence aos idosos que precisam de lugares tranquilos para descansar. Ela pertence a todos nós – e, portanto, a responsabilidade por sua preservação também é nossa.

Quando jogamos lixo no parque, não estamos apenas sujando um espaço físico. Estamos declarando ao mundo que não valorizamos aquilo que é nosso. Estamos dizendo que preferimos a comodidade momentânea de descartar nosso lixo onde bem entendemos ao trabalho diário de construir uma cidade mais limpa, mais digna, mais humana. Estamos escolhendo o caminho mais fácil, mesmo sabendo que ele nos leva ao abismo.

Mas ainda há tempo. Sempre há tempo quando existe vontade de mudança.

Precisamos nos tornar guardiões uns dos outros. Quando virmos alguém jogando lixo, não podemos simplesmente virar o rosto e seguir em frente. Precisamos ter a coragem de intervir, de educar, de mostrar que aquele ato aparentemente pequeno tem consequências imensuráveis. Cada garrafa plástica que flutua na lagoa é um futuro que se compromete. Cada resíduo que polui a água é uma doença que se anuncia.

A natureza não fala, mas grita em silêncio. Ela pede socorro através das águas que se tornam turvas, através dos peixes que morrem, através da beleza que se perde. E nós, que temos a capacidade de ouvi-la, escolhemos nos fazer de surdos.

Imaginem um futuro onde possamos, quem sabe, mergulhar nessas águas. Onde as crianças possam brincar sem medo, onde as famílias possam fazer piqueniques às margens sem se deparar com montanhas de lixo. Esse futuro é possível. Mas ele só se concretizará se entendermos, de uma vez por todas, que o Parque Ambiental da Lagoa das Bateias é nosso espelho coletivo. Ele reflete quem somos. E, neste momento, a imagem refletida não é bonita.

Que possamos despertar para essa verdade antes que seja tarde demais. Que cada conquistense possa olhar para a Lagoa das Bateias e sentir orgulho, não vergonha. Que possamos dizer às futuras gerações: “Nós recebemos este presente e o honramos. Nós fomos dignos.”

Porque, no final das contas, a verdadeira conquista não está em receber um parque ambiental. Está em ser capaz de preservá-lo. Está em reconhecer que cuidar do que é nosso é a forma mais sincera de demonstrar amor por nossa cidade, por nosso povo, por nós mesmos.

A Lagoa das Bateias está esperando. Esperando que sejamos, enfim, a altura do presente que recebemos.

Lucas Batista

ARTIGO – Quando a Justiça Entra em Promoção: Leve um Golpe, Pague Meia Pena

 

 

(Padre Carlos)

No Brasil, a Justiça é uma senhora respeitável — até o momento em que alguém resolve “dar um jeitinho”. Aí ela escorrega, senta na calçada do oportunismo e aceita negociar princípios como quem pechincha preço de feira. O mais novo espetáculo desse teatro tragicômico atende pelo nome elegante de dosimetria penal. Um termo técnico, sofisticado, que soa quase científico. Pena que, por trás dele, esteja escondido algo bem menos nobre: a tentativa de transformar crimes graves em meros detalhes contábeis.

O 8 de janeiro de 2023, aquele dia em que a democracia brasileira foi tratada como decoração descartável, ainda nem esfriou na memória coletiva. Os prédios públicos estavam quebrados, mas havia quem jurasse que o dano maior tinha sido estético. Afinal, segundo a nova sensibilidade jurídica, talvez tudo não passe de excesso de entusiasmo patriótico. E se for assim, nada mais justo do que recalibrar as penas, reduzir responsabilidades e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

A proposta de “ajuste técnico” na dosimetria surge como um analgésico legislativo: não cura a doença, mas promete aliviar a dor — principalmente a dor de quem deveria estar respondendo por crimes contra o Estado Democrático de Direito. E o detalhe perverso está no pacote completo: ao aliviar para os golpistas, alivia-se também para corruptos e agressores sexuais. Um verdadeiro combo da impunidade, desses que o Brasil insiste em oferecer de tempos em tempos.

O senador Otto Alencar, ao pedir um estudo mais profundo sobre o projeto, fez algo quase subversivo no atual cenário político: leu o texto. E, ao ler, percebeu aquilo que muitos fingiam não ver. A tal moderação das penas não distingue golpista de estuprador, corrupto de sabotador da democracia. A régua é a mesma, o desconto é geral. Como se todas as vítimas — da violência política à sexual — pudessem ser empilhadas no mesmo parágrafo do Código Penal.

É o jeitinho brasileiro elevado à categoria de política de Estado. Não aquele jeitinho folclórico, da gambiarra criativa, mas o jeitinho cínico, calculado, que usa o juridiquês como cortina de fumaça. Um jeitinho que não conserta o sistema, apenas o contorna, deixando para trás uma trilha de descrédito institucional e vergonha pública.

Quando alguém afirma que a Câmara virou um ajuntamento desconectado da realidade brasileira, não se trata de exagero retórico. Basta olhar o conjunto da obra: agressões entre parlamentares, ataques à imprensa, projetos que parecem escritos sob encomenda para agradar interesses pouco republicanos. A Casa que deveria ser o coração do debate democrático parece mais um balcão de negócios, onde princípios entram como moeda fraca.

E aqui chegamos ao ponto mais perigoso: o esquecimento. Esquecer é conveniente. Esquecer poupa constrangimentos, evita conflitos, facilita acordos. Mas esquecer também corrói. O 8 de janeiro não foi um passeio cívico que deu errado. Foi um ataque deliberado, financiado, incentivado e executado contra a democracia. Tratar isso como excesso penal passível de desconto é dizer, nas entrelinhas, que tentar derrubar o regime democrático não é tão grave assim.

A memória, nesse contexto, torna-se um ato de resistência. Lembrar é incômodo. Lembrar cobra posicionamento. Lembrar exige justiça. Por isso mesmo, lembrar incomoda tanto quem prefere varrer o passado recente para debaixo do tapete da conveniência legislativa.

O Senado, agora, aparece como a última trincheira antes que a história seja reescrita com tinta apagável. Ao prometer que o texto só avançará se estiver “redondo”, Otto Alencar reacende uma chama rara: a de que ainda existe responsabilidade institucional. Mas não nos enganemos. Nenhuma Casa Legislativa salva sozinha uma democracia se a sociedade aceitar, passivamente, que crimes graves sejam relativizados em nome da pacificação artificial.

Este não é um debate técnico. É um debate moral, político e histórico. Quando corrupção, violência sexual e ataque à democracia passam a compartilhar o mesmo atalho para a redução de penas, a mensagem é clara: tudo é negociável. Tudo tem preço. Tudo pode esperar.

Mas a democracia não pode. A justiça não pode. A dignidade das vítimas não pode. Se aceitarmos esse jogo, não será a dosimetria que estará em debate, mas a própria noção de responsabilidade no Brasil.

Que não sejamos lembrados como a geração que transformou a Justiça em liquidação. Que não sejamos aqueles que olharam para o ataque à democracia e disseram: “vamos dar um desconto”. Algumas feridas exigem tratamento sério, não maquiagem jurídica. Porque quando a Justiça vira deboche, o próximo a pagar a conta é sempre a sociedade.

ARTIGO – Quando a Justiça Entra em Promoção: Leve um Golpe, Pague Meia Pena

 

 

(Padre Carlos)

No Brasil, a Justiça é uma senhora respeitável — até o momento em que alguém resolve “dar um jeitinho”. Aí ela escorrega, senta na calçada do oportunismo e aceita negociar princípios como quem pechincha preço de feira. O mais novo espetáculo desse teatro tragicômico atende pelo nome elegante de dosimetria penal. Um termo técnico, sofisticado, que soa quase científico. Pena que, por trás dele, esteja escondido algo bem menos nobre: a tentativa de transformar crimes graves em meros detalhes contábeis.

O 8 de janeiro de 2023, aquele dia em que a democracia brasileira foi tratada como decoração descartável, ainda nem esfriou na memória coletiva. Os prédios públicos estavam quebrados, mas havia quem jurasse que o dano maior tinha sido estético. Afinal, segundo a nova sensibilidade jurídica, talvez tudo não passe de excesso de entusiasmo patriótico. E se for assim, nada mais justo do que recalibrar as penas, reduzir responsabilidades e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

A proposta de “ajuste técnico” na dosimetria surge como um analgésico legislativo: não cura a doença, mas promete aliviar a dor — principalmente a dor de quem deveria estar respondendo por crimes contra o Estado Democrático de Direito. E o detalhe perverso está no pacote completo: ao aliviar para os golpistas, alivia-se também para corruptos e agressores sexuais. Um verdadeiro combo da impunidade, desses que o Brasil insiste em oferecer de tempos em tempos.

O senador Otto Alencar, ao pedir um estudo mais profundo sobre o projeto, fez algo quase subversivo no atual cenário político: leu o texto. E, ao ler, percebeu aquilo que muitos fingiam não ver. A tal moderação das penas não distingue golpista de estuprador, corrupto de sabotador da democracia. A régua é a mesma, o desconto é geral. Como se todas as vítimas — da violência política à sexual — pudessem ser empilhadas no mesmo parágrafo do Código Penal.

É o jeitinho brasileiro elevado à categoria de política de Estado. Não aquele jeitinho folclórico, da gambiarra criativa, mas o jeitinho cínico, calculado, que usa o juridiquês como cortina de fumaça. Um jeitinho que não conserta o sistema, apenas o contorna, deixando para trás uma trilha de descrédito institucional e vergonha pública.

Quando alguém afirma que a Câmara virou um ajuntamento desconectado da realidade brasileira, não se trata de exagero retórico. Basta olhar o conjunto da obra: agressões entre parlamentares, ataques à imprensa, projetos que parecem escritos sob encomenda para agradar interesses pouco republicanos. A Casa que deveria ser o coração do debate democrático parece mais um balcão de negócios, onde princípios entram como moeda fraca.

E aqui chegamos ao ponto mais perigoso: o esquecimento. Esquecer é conveniente. Esquecer poupa constrangimentos, evita conflitos, facilita acordos. Mas esquecer também corrói. O 8 de janeiro não foi um passeio cívico que deu errado. Foi um ataque deliberado, financiado, incentivado e executado contra a democracia. Tratar isso como excesso penal passível de desconto é dizer, nas entrelinhas, que tentar derrubar o regime democrático não é tão grave assim.

A memória, nesse contexto, torna-se um ato de resistência. Lembrar é incômodo. Lembrar cobra posicionamento. Lembrar exige justiça. Por isso mesmo, lembrar incomoda tanto quem prefere varrer o passado recente para debaixo do tapete da conveniência legislativa.

O Senado, agora, aparece como a última trincheira antes que a história seja reescrita com tinta apagável. Ao prometer que o texto só avançará se estiver “redondo”, Otto Alencar reacende uma chama rara: a de que ainda existe responsabilidade institucional. Mas não nos enganemos. Nenhuma Casa Legislativa salva sozinha uma democracia se a sociedade aceitar, passivamente, que crimes graves sejam relativizados em nome da pacificação artificial.

Este não é um debate técnico. É um debate moral, político e histórico. Quando corrupção, violência sexual e ataque à democracia passam a compartilhar o mesmo atalho para a redução de penas, a mensagem é clara: tudo é negociável. Tudo tem preço. Tudo pode esperar.

Mas a democracia não pode. A justiça não pode. A dignidade das vítimas não pode. Se aceitarmos esse jogo, não será a dosimetria que estará em debate, mas a própria noção de responsabilidade no Brasil.

Que não sejamos lembrados como a geração que transformou a Justiça em liquidação. Que não sejamos aqueles que olharam para o ataque à democracia e disseram: “vamos dar um desconto”. Algumas feridas exigem tratamento sério, não maquiagem jurídica. Porque quando a Justiça vira deboche, o próximo a pagar a conta é sempre a sociedade.