
Padre Carlos
O Brasil amanhece, mais uma vez, perplexo. O Congresso Nacional — instituição que deveria ser guardiã da legalidade, do decoro e da Constituição — insiste em enviar sinais perigosos, imorais e corrosivos para a democracia. A impressão transmitida à sociedade é devastadora: se você é condenado pela justiça, se está foragido, se é investigado por crimes graves, o lugar mais seguro não é o lar, não é o escritório, não é a igreja. É o Parlamento brasileiro.
Quando o corporativismo se torna mais forte que o compromisso com o país, o Legislativo perde sua alma. O que vimos no caso de Carla Zambelli — condenada com trânsito em julgado, foragida e ainda assim protegida por manobras regimentais — revela um Congresso em rota de colisão com a Justiça e com a própria sociedade. É o teste de estresse institucional levado ao limite, uma afronta aberta ao Supremo Tribunal Federal e um recado perigoso: “Aqui, decisões judiciais não valem.”
E se o Parlamento não cumpre a lei que aprova, que autoridade moral tem para legislar?
A blindagem oferecida ao deputado Alexandre Ramagem, investigado e considerado foragido pela Polícia Federal, reforça a sensação de que estamos diante de uma obra institucional chamada “Manual da Impunidade Parlamentar”. Antes disso, houve complacência explícita com Eduardo Bolsonaro. E, enquanto isso, o Conselho de Ética — que deveria ser o espaço de defesa da moralidade e da transparência — se transforma, cada vez mais, numa sala de blindagem e autoproteção.
Se é para proteger criminosos, fecha o Conselho de Ética. Fecha logo.
O discurso é sempre o mesmo: perseguição política, injustiça, exageros. Uma fórmula repetida à exaustão por quem tenta transformar o Parlamento numa caverna de Ali Babá e os 40 ladrões, onde o lema parece ser “indúbio pró-mandato”.
Sim, indúbio pró-mandato: a nova invenção de quem faz contorcionismo retórico para contrariar decisões definitivas do STF.
E esse comportamento não só degrada o Congresso — ele alimenta o discurso antipolítica, empurra a sociedade para o cinismo, abre espaço para aventureiros e fortalece a percepção de que Brasília se tornou um bunker de criminosos engravatados. Ao agir assim, deputados se transformam no maior cabo eleitoral da própria desmoralização.
Quando o relator decide revisar a sentença da Justiça — sentença unânime, robusta, fundamentada — ele assume um papel que não é seu: vira juiz, vira instância revisora, vira supremo de si mesmo. O Legislativo não tem esse poder. E ao usurpar essa função, corrói o equilíbrio entre os poderes.
É simples: se a parlamentar está condenada, se estará presa, se ultrapassa o limite de faltas, o mandato está automaticamente comprometido. É apenas cumprir a lei, não reinterpretá-la por conveniência política.
Mas a lógica corporativista – feita para proteger os seus – fala mais alto.
É por isso que o Congresso parece cada vez mais um território onde a impunidade se instala, cresce e cria raízes. E quando a sociedade percebe que ali se abriga a “escória condenada pela Justiça”, como muitos analistas têm dito, o desgaste institucional se torna inevitável.
O Brasil não suporta mais esse teatro absurdo. A democracia brasileira, tão duramente conquistada, não merece ser ferida por dentro, por quem deveria defendê-la.
Enquanto o Congresso enfrentar a Justiça como inimiga, proteger criminosos como aliados e tratar suas próprias regras como enfeites, continuaremos nesse ciclo de degradação, alimentando o fantasma da antipolítica e permitindo que a confiança pública se esfarele.
E isso, sim, golpeia a democracia.











