
Por José Maria Caires
Há feridas que não sangram, mas doem mais que qualquer corte. Há distâncias que não se medem em quilômetros, mas em sonhos destroçados e identidades perdidas. E há injustiças que se vestem de números, de tarifas, de “políticas comerciais” – mas que, no fundo, estão arrancando pedaços da nossa alma baiana.
A Dor que Pousa na Mesa da MAXTOUR
Todos os dias, sentado atrás do balcão da MAXTOUR, sou testemunha silenciosa de uma tragédia que se repete. Vejo conquistenses – nossos irmãos de terra vermelha e coração sertanejo – virando as costas para Salvador. Não por desamor, não por ingratidão, mas por uma força maior que suas vontades: a impossibilidade econômica de voar para casa.
É devastador ver uma senhora idosa, lágrimas nos olhos, cancelar sua consulta com o cardiologista do Hospital Português – aquele mesmo médico que acompanha sua família há gerações – para marcar com um desconhecido em São Paulo. Não porque São Paulo seja melhor, mas porque é o que ela pode pagar. Seu coração baiano se parte duas vezes: pela doença e pela traição forçada às suas raízes.
Quando R$ 4.100 Vale Mais que uma Alma
Que país é este onde é mais barato voar para Miami – cruzar oceanos, fronteiras e culturas – do que conectar dois pedaços da mesma alma? Que lógica perversa faz com que R$ 2.800 te levem aos Estados Unidos, enquanto R$ 4.100 mal te aproximam de Salvador?
Estes números não são apenas tarifas. São muralhas construídas entre corações que batem no mesmo ritmo, entre pessoas que dividem a mesma história, o mesmo sotaque, a mesma forma de ver o mundo. Cada real a mais nessas passagens é uma pedrada na janela da nossa identidade coletiva.
O Êxodo dos Eventos e dos Sonhos
Lembro-me quando Vitória da Conquista fervilhava com a chegada dos soteropolitanos. Nossos eventos eram celebrações conjuntas, nossas festas eram abraços entre o sertão e o litoral. O conquistense subia para Salvador como quem vai visitar os parentes, e o soteropolitano descia para Conquista como quem vem buscar as raízes.
Hoje, esse intercâmbio morreu. Não por falta de amor, mas por falta de acesso. Os eventos de Conquista ecoam mais vazios, não porque perdemos a capacidade de encantar, mas porque o preço do encontro se tornou impagável. Estamos sendo forçados a construir muros onde antes havia pontes.
A Identidade que Se Perde no Ar
E o que dizer dos nossos jovens conquistenses que, em busca de oportunidades de estudo e trabalho, olham mais para São Paulo do que para Salvador? Não os culpo – quando voar para a capital paulista custa dez vezes menos que voar para nossa capital baiana, a conta é cruel mas matemática.
Estamos perdendo uma geração inteira de baianos que não conhecerão o Pelourinho como segunda casa, que não sentirão o cheiro do acarajé da Dinha misturado com a brisa do Farol da Barra, que não entenderão que Salvador não é apenas uma cidade – é o útero cultural donde todos nascemos.
A Revolta que Nasce da Injustiça
Não posso mais ficar calado diante dessa aberração econômica que está fragmentando nossa identidade. Não é possível que, em pleno século XXI, em um estado rico como a Bahia, tenhamos que escolher entre nossa carteira e nossa alma.
Onde estão nossos representantes? Onde estão aqueles que juraram defender os interesses baianos? Como podem dormir tranquilos sabendo que cada dia que passa, mais um conquistense desiste de Salvador não por escolha, mas por impossibilidade?
O Grito que Precisa Ser Ouvido
Esta não é apenas uma questão de aviação civil – é uma questão de direito à identidade, de direito ao pertencimento, de direito de ser baiano por inteiro. Quando tornam impossível o acesso entre duas cidades do mesmo estado, estão cometendo um crime contra nossa cultura, nossa história, nossa essência.
É inadmissível que uma mãe tenha que escolher entre levar o filho doente para se tratar em Salvador ou conseguir pagar o tratamento. É inaceitável que um estudante universitário desista da UFBA porque as passagens custam mais que a mensalidade. É revoltante que empresários conquistenses prefiram fazer negócios em São Paulo porque é mais barato chegar lá.
O Chamado para a Ação
Não podemos mais aceitar essa situação com resignação sertaneja. Precisamos da fúria dos ventos que varrem nossas serras, da força das águas que nascem em nossas nascentes, da determinação do povo que transformou caatinga em cidade próspera.
Exigimos voos regulares e acessíveis entre Conquista e Salvador. Exigimos que nossa ligação com a capital baiana seja tratada como prioridade de estado, não como negócio de ocasião. Exigimos que parem de transformar nossa identidade em mercadoria de luxo.
A Esperança que Não Pode Morrer
Ainda acredito que podemos reverter essa situação. Ainda sonho com o dia em que um conquistense poderá voar para Salvador pelo mesmo preço que voa para São Paulo. Ainda espero ver nossos eventos voltarem a receber soteropolitanos de braços abertos, ainda quero presenciar jovens baianos escolhendo Salvador não por obrigação, mas por amor.
Mas para isso, precisamos lutar. Precisamos fazer barulho. Precisamos transformar nossa dor em movimento, nossa indignação em mudança.
Porque ser baiano não pode ser um privilégio para poucos. Porque voar para casa não pode custar mais que voar para o fim do mundo. Porque nossa identidade não pode ser refém de planilhas de lucro.
Somos baianos. Somos conquistenses. E merecemos voar para casa sem ter que vender a alma.
José Maria Caires é proprietário da agência de viagens MAXTOUR e testemunha diária dos impactos da falta de conectividade aérea acessível entre o interior e a capital baiana.