
Por Padre Carlos
“Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10,42)
Irmãos e irmãs, quando contemplamos o Evangelho de Lucas que nos apresenta Jesus na casa de Marta e Maria, somos convidados a mergulhar em uma das mais profundas lições sobre a vida cristã autêntica. Ali, naquela casa em Betânia, desenrola-se um drama que ecoa em nossas vidas cotidianas: o eterno dilema entre a ação e a contemplação, entre o servir e o escutar.
Duas Mulheres, Uma Só Verdade
Marta e Maria não são apenas duas personalidades distintas; elas representam duas dimensões essenciais da experiência cristã. Marta, solícita e dedicada, encarna a ação amorosa, o cuidado concreto, a hospitalidade que se faz serviço. Maria, aos pés do Mestre, personifica a contemplação, a escuta atenta, a sede da Palavra que transforma.
Quantas vezes não nos vemos divididos entre essas duas atitudes! Quantas vezes não sentimos o peso das responsabilidades práticas competindo com o chamado à oração e ao silêncio interior! Jesus, porém, não veio para criar divisões, mas para mostrar-nos que ambas as dimensões são necessárias e se complementam.
O Reino em Primeiro Lugar
Quando o Senhor nos ensina a buscar “primeiro o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33), Ele não está desprezando nossas responsabilidades terrenas. Pelo contrário, está nos ensinando a hierarquia dos valores que deve orientar nossa vida. O Reino se manifesta tanto na contemplação silenciosa quanto na ação caridosa, tanto no momento de oração quanto no gesto de serviço.
Para o cristão leigo, o mundo se torna seu altar. Nas realidades temporais – a família, o trabalho, a sociedade – ele é chamado a fazer o Reino acontecer. Não é uma fuga do mundo, mas uma santificação do mundo através de sua presença consciente e amorosa.
O Perigo do Ativismo Estéril
Aqui reside uma armadilha sutil que o Padre Johan Konings nos ajuda a compreender: “O ativismo, mesmo a serviço dos outros, corre o perigo de ser um serviço a si mesmo: autoafirmação à custa de quem é ‘objeto’ de nossa caridade.”
Quando Marta se queixa de Maria, ela revela uma preocupação que vai além do serviço. Há uma busca de reconhecimento, uma necessidade de validação que contamina a pureza do seu gesto. Jesus não repreende Marta por servir, mas por querer que Maria abandonasse a escuta para se igualar às suas preocupações.
Quantas vezes nosso ativismo pastoral, nosso envolvimento nas ações da Igreja, pode se tornar uma forma disfarçada de alimentarmos nosso ego ao invés de alimentarmos a fé dos outros! A pergunta que devemos nos fazer é penetrante: Estamos alimentando o Senhor com nosso ativismo ou sendo por Ele alimentados?
A Eucaristia: Síntese Perfeita
Na Eucaristia encontramos a resposta para essa aparente dicotomia. Ali, todos somos hóspedes, todos somos convidados à mesa do Senhor. E o que Ele nos oferece é precisamente a síntese perfeita entre contemplação e ação: a Palavra e o Pão.
A Palavra nos alimenta na contemplação, nos ensina, nos transforma. O Pão nos fortalece para a ação, nos une em comunidade, nos envia em missão. Maria não escolheu simplesmente “a melhor parte” porque optou pela contemplação, mas porque compreendeu que toda ação autêntica deve brotar da escuta atenta ao Mestre.
O Trabalho Santificado
Jesus, que se apresenta como aquele que trabalha juntamente com o Pai (“Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho” – Jo 5,17), nos ensina que o trabalho é participação na obra da criação e da redenção. Não se trata de escolher entre trabalhar ou orar, mas de trabalhar orando e orar trabalhando.
O trabalho humano, quando orientado pela escuta da Palavra, torna-se meio de santificação e instrumento de construção do bem comum. Não trabalhamos apenas para nossa própria grandeza, mas para que o Reino de Deus se manifeste através de nossas mãos, de nossa competência, de nosso amor.
A Proximidade que Transforma
Na vida eclesial, seja na celebração da Palavra, na Santa Missa, nas pastorais ou demais ações, somos chamados a criar espaços onde as pessoas saiam do anonimato e da solidão. Mais do que providenciar coisas práticas, devemos proporcionar relacionamentos solidários onde cada pessoa seja um dom para a outra.
É nessa proximidade, nesse afeto, nessa ternura concreta que o mistério de Deus se revela. Como Maria soube enxergar em Jesus o porta-voz de Deus, nós devemos aprender a ver o rosto de Cristo em cada pessoa que encontramos, especialmente nos mais necessitados.
Um Chamado à Integração
O Evangelho de Marta e Maria não nos convida a escolher entre contemplação e ação, mas a integrar ambas em nossa vida cristã. A contemplação sem ação pode se tornar egoísmo espiritual; a ação sem contemplação pode se transformar em ativismo estéril.
A “melhor parte” que Maria escolheu não é a contemplação em si, mas a atitude de escuta que purifica e orienta toda ação posterior. É a capacidade de se deixar alimentar por Deus para, então, alimentar os irmãos com autenticidade e amor.
Conclusão: Frutos para o Reino
Que possamos, como discípulos de Jesus, encontrar o equilíbrio entre o servir e o escutar, entre o cuidar das necessidades práticas e o cultivo da vida interior. Que nossas ações brotem da contemplação e que nossa contemplação se traduza em ações concretas de amor.
Somente assim produziremos frutos abundantes para o Reino de Deus, sendo, ao mesmo tempo, Marta e Maria em nossa caminhada de fé. Pois o Senhor não nos pede para escolher entre essas duas dimensões, mas para vivê-las em harmonia, permitindo que uma purifique e potencialize a outra.
Que a Virgem Maria, que soube contemplar e agir, escutar e servir, seja nosso modelo e nossa intercessora neste caminho de crescimento espiritual e apostólico.
Amém.











