
Por Padre Carlos
Vitória da Conquista encontra-se diante de uma oportunidade singular, daquelas que definem o legado de uma geração: a requalificação da vasta área do antigo Aeroporto Pedro Otacílio Figueiredo. O recente anúncio da inclusão do espaço no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do governo federal e a qualificação para estudos de múltiplos usos através da Resolução CPPI nº 325, de março de 2025, acendem um farol de esperança, mas também nos convocam à reflexão e, principalmente, à ação.
A dimensão do desafio é proporcional à da área. Como apontam as informações veiculadas, o custo de urbanizar e dotar o local da infraestrutura necessária é vultoso, e a Prefeitura, por si só, não disporia dos recursos para um empreendimento desta magnitude – lembremos da tentativa de financiamento internacional de 71 milhões de dólares em 2023, que não prosperou. O modelo de Parceria Público-Privada (PPP) surge, portanto, como o caminho natural. Contudo, a questão que se impõe é: quem serão esses parceiros?
É aqui que Vitória da Conquista pode, e deve, ousar fazer diferente. Em vez de aguardarmos apenas por investidores externos, cujos interesses nem sempre se alinham perfeitamente com as aspirações mais profundas da nossa comunidade, por que não olharmos para dentro? Por que não mobilizar a força empreendedora que pulsa em nossas veias conquistenses?
Temos em nossa cidade empresários de visão, com histórico de sucesso e, crucialmente, com raízes fincadas neste solo. Nomes como Gedel Couto, à frente da VCA, entre tantos outros empreendedores que construíram seus impérios e contribuem diariamente para a economia local, são exemplos da capacidade realizadora da nossa gente. Este é o momento de conclamá-los a serem protagonistas desta transformação.
Ganhos para a Prefeitura, Ganhos para a Comunidade
Ao fomentar um consórcio de investidores locais, ou mesmo ao atrair individualmente esses capitalistas da terra, a Prefeitura não apenas viabiliza o projeto, mas também colhe uma série de benefícios estratégicos. Primeiramente, garante que o desenvolvimento da área esteja sintonizado com as necessidades e anseios da população – afinal, quem melhor para entender o que Conquista precisa do que aqueles que vivem e investem aqui?
A visão de um novo bairro, “pensado já no futuro, pensando na acessibilidade, mobilidade, com corredores preferenciais para ônibus, pensando na mobilidade e no meio ambiente”, como idealizado pela gestão municipal, ganha contornos mais realistas e customizados quando o capital investido tem “CPF conquistense”. A priorização de unidades habitacionais de baixa renda e equipamentos públicos, conforme os indicadores socioeconômicos, como preveem os estudos em cooperação com a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e o governo do estado, pode ser fiscalizada e impulsionada com maior proximidade e engajamento.
Para a comunidade, os ganhos são exponenciais. Além da óbvia valorização urbana, da criação de um novo polo de convivência, serviços e, quem sabe, um centro administrativo e de convenções – ideias que já circularam e que merecem ser amadurecidas –, há a geração de empregos diretos e indiretos, desde a fase de obras até a ocupação plena dos novos espaços. Mais do que isso, ao ver o capital local reinvestido na própria cidade, fortalece-se o sentimento de pertencimento e a certeza de que os frutos desse desenvolvimento beneficiarão, em primeiro lugar, quem é daqui. O lucro gerado tende a permanecer e a ser reinvestido na economia local, criando um ciclo virtuoso.
O Papel Estratégico do Empresariado Conquistense
Aos empresários de Vitória da Conquista, o convite é para que enxerguem além do retorno financeiro imediato, embora este seja um componente legítimo e esperado. Trata-se da oportunidade de deixar um legado, de inscrever seus nomes na história da cidade como agentes de uma transformação urbanística e social sem precedentes. O antigo aeroporto é uma tela em branco, esperando para ser pintada com as cores da inovação, da sustentabilidade e, acima de tudo, do compromisso com o futuro de Conquista.
A formação de um masterplan, que está em fase de estudos para alternativas de parcerias, segundo a última atualização do PPI em 8 de maio, deve ser um processo participativo, onde a expertise e a visão de futuro dos nossos empreendedores se somem às diretrizes do poder público. Que tal um modelo onde empresas locais, talvez reunidas em um fundo de investimento específico ou em consórcios por projeto, assumam fatias do desenvolvimento, especializando-se naquilo que fazem de melhor – seja construção civil, hotelaria, centros comerciais, tecnologia ou serviços?
A área, que há 88 anos foi doada pela Prefeitura e não retornará ao Município, agora pode ser redesenhada com o DNA da própria cidade. A questão principal, como bem se sabe, é o dinheiro. Que esse dinheiro, então, venha prioritariamente das mãos daqueles que conhecem, amam e querem ver Vitória da Conquista voar ainda mais alto. Este é o momento de unir forças – poder público, iniciativa privada local e comunidade – para que o antigo aeroporto não seja apenas um projeto grandioso, mas um símbolo perene da nossa capacidade de construir o futuro com as nossas próprias mãos. O futuro de Conquista pode e deve decolar em casa.