Política e Resenha

O que fica quando tudo vai embora

Artigo de Opinião  ·  Fé & Experiência Humana

✝ ✝ ✝

O que fica quando tudo vai embora

Sobre a alegria que não depende de ninguém —
e como Deus nos ensina isso da forma mais difícil

“Deus nos dá pessoas e coisas para aprendermos a alegria.”

“Depois retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos.”

“Essa é a alegria que ele quer.”

I

Os Sonhos que não existem mais

Há uma pessoa que eu me lembro com clareza, que povoou minha mente embora faz anos que ela não existe mais.

Quando ela foi, minha juventude e meus sonhos foram juntos. O cheiro foi. O som daquela voz foi.

E eu fiquei perguntando — como tantos ficam perguntando — o que é que sobra.

II

Deus dá. Deus retoma.

As três frases que abrem este artigo não são de teólogo nem de filósofo. São do tipo de sabedoria que chega sem cerimônia, na boca de quem já enterrou alguém querido e continuou acordando de manhã de todo jeito. Uma sabedoria que dói ao ser dita, justamente porque é verdadeira.

Deus dá. Isso o senhor já sabe. Dá pessoa, dá coisa, dá dia bom, dá afeto de gente querida. Dá igual quem bota mesa farta pra visita — pra que o de dentro aprenda o gosto do bem.

Mas aí vem o que pega: Deus também retoma.

Não é por mal, não. É que ele quer ver se o ensinado ficou — ou se foi embora junto com o professor.

“A pergunta que a perda faz não é por que você levou?
A pergunta é: o que ficou em mim enquanto eu tinha?

III

A retirada não é crueldade

Há quem leia a retirada de Deus como crueldade. E é compreensível — a dor da perda é real, concreta, devastadora. Não há poesia que a suavize de todo, e não é justo fingir que suaviza. Mas reduzir a experiência a um castigo é perder o que há de mais radical nessas três frases: a revelação de que a alegria, para ser verdadeira, não pode depender de circunstâncias externas.

A retirada é, na linguagem da fé, um exame. Não o exame cruel do professor que quer reprovar — mas o exame necessário de quem quer saber se o aluno realmente aprendeu, ou se apenas repetia o que ouvia enquanto o mestre estava por perto.

IV

O legado que fica tatuado

Pense em quem você amou de um jeito que mudou você. Pode ser pessoa, pode ser lugar, pode ser um ofício aprendido nas mãos de alguém. Agora pense: o que essa presença te ensinou sobre você mesmo? Sobre o que você é capaz de sentir, de oferecer, de ser?

Essa transformação — esse antes e depois que toda perda verdadeira carrega — é o legado. Não a coisa em si. Não a pessoa. Mas o que passou pelo contato com ela e ficou tatuado na sua forma de existir.

Isso é o que Deus guarda. Isso é o que a retirada testa. Não o quanto você sofre pela ausência — isso qualquer um sofre, porque somos feitos de apego. Mas se, no silêncio que vem depois, ainda há dentro de você alguma coisa viva.

V

O equívoco gentil

Existe um equívoco gentil que cometemos quando perdemos: achamos que a alegria foi junto. Que era dela a alegria, ou dele, ou daquele tempo. Que a gente era feliz porque tinha, e agora que não tem, a felicidade fechou a porta e foi.

Mas e se a alegria nunca foi deles? E se eles eram apenas — e isso não é pouco, é muito — os espelhos por onde você enxergou, pela primeira vez, que havia alegria em você?

Essa é a distinção que as três frases propõem, e ela é vertiginosa. Porque muda completamente a pergunta.

A pergunta não é mais como volto a ser feliz sem você? A pergunta passa a ser: o que aprendi sobre alegria enquanto eu te tinha — e isso ainda está em mim?

“Não é ingratidão esquecer a dor.
É fé acreditar que o que foi dado não some —
só muda de forma.

VI

A coragem que só se aprende perdendo

Não estou dizendo que é fácil. Estou dizendo o oposto: é a coisa mais difícil que existe. Sustentar a alegria sem apoio externo requer uma espécie de coragem que ninguém ensina na escola — porque só se aprende perdendo. Só se descobre no escuro o que brilha sem precisar de luz emprestada.

Há pessoas que passaram por perdas que deveriam ter destruído tudo — e saíram do outro lado não intactas, mas inteiras. Não porque não sofreram. Mas porque descobriram que dentro delas havia algo que a perda não conseguiu levar.

Isso não é estoicismo. Não é negação da dor. É o que as tradições espirituais chamam, cada uma à sua maneira, de interioridade. A capacidade de encontrar em si mesmo uma fonte — não uma reserva que esgota, mas uma fonte que brota.

VII

O retorno à mesa

A minha avó foi. A mesa foi. O cheiro foi.

Mas ainda sei fazer comida que cheira a cuidado. Ainda sei receber visita como se a mesa fosse farta mesmo quando não é. Ainda tenho dentro de mim uma voz que diz — fica, come, não precisa ter pressa.

Ela me ensinou isso. E então Deus a levou.

E agora eu sei se esse ensinamento ficou.

Ficou.

Os três pilares da alegria verdadeira

Receber

Deixar que o dom nos ensine o gosto do bem, sem confundir a fonte com o canal.

Soltar

Atravessar a perda sem deixar que ela leve junto o que foi aprendido pelo amor.

Florescer

Descobrir que a alegria era sua desde o início — e que ninguém pode retomá-la.

✝ ✝ ✝

A alegria verdadeira não é o que nos foi dado.

É o que descobrimos por causa do que foi dado.

E isso — isso ninguém retoma.

O que fica quando tudo vai embora

Artigo de Opinião  ·  Fé & Experiência Humana

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O que fica quando tudo vai embora

Sobre a alegria que não depende de ninguém —
e como Deus nos ensina isso da forma mais difícil

“Deus nos dá pessoas e coisas para aprendermos a alegria.”

“Depois retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos.”

“Essa é a alegria que ele quer.”

I

Os Sonhos que não existem mais

Há uma pessoa que eu me lembro com clareza, que povoou minha mente embora faz anos que ela não existe mais.

Quando ela foi, minha juventude e meus sonhos foram juntos. O cheiro foi. O som daquela voz foi.

E eu fiquei perguntando — como tantos ficam perguntando — o que é que sobra.

II

Deus dá. Deus retoma.

As três frases que abrem este artigo não são de teólogo nem de filósofo. São do tipo de sabedoria que chega sem cerimônia, na boca de quem já enterrou alguém querido e continuou acordando de manhã de todo jeito. Uma sabedoria que dói ao ser dita, justamente porque é verdadeira.

Deus dá. Isso o senhor já sabe. Dá pessoa, dá coisa, dá dia bom, dá afeto de gente querida. Dá igual quem bota mesa farta pra visita — pra que o de dentro aprenda o gosto do bem.

Mas aí vem o que pega: Deus também retoma.

Não é por mal, não. É que ele quer ver se o ensinado ficou — ou se foi embora junto com o professor.

“A pergunta que a perda faz não é por que você levou?
A pergunta é: o que ficou em mim enquanto eu tinha?

III

A retirada não é crueldade

Há quem leia a retirada de Deus como crueldade. E é compreensível — a dor da perda é real, concreta, devastadora. Não há poesia que a suavize de todo, e não é justo fingir que suaviza. Mas reduzir a experiência a um castigo é perder o que há de mais radical nessas três frases: a revelação de que a alegria, para ser verdadeira, não pode depender de circunstâncias externas.

A retirada é, na linguagem da fé, um exame. Não o exame cruel do professor que quer reprovar — mas o exame necessário de quem quer saber se o aluno realmente aprendeu, ou se apenas repetia o que ouvia enquanto o mestre estava por perto.

IV

O legado que fica tatuado

Pense em quem você amou de um jeito que mudou você. Pode ser pessoa, pode ser lugar, pode ser um ofício aprendido nas mãos de alguém. Agora pense: o que essa presença te ensinou sobre você mesmo? Sobre o que você é capaz de sentir, de oferecer, de ser?

Essa transformação — esse antes e depois que toda perda verdadeira carrega — é o legado. Não a coisa em si. Não a pessoa. Mas o que passou pelo contato com ela e ficou tatuado na sua forma de existir.

Isso é o que Deus guarda. Isso é o que a retirada testa. Não o quanto você sofre pela ausência — isso qualquer um sofre, porque somos feitos de apego. Mas se, no silêncio que vem depois, ainda há dentro de você alguma coisa viva.

V

O equívoco gentil

Existe um equívoco gentil que cometemos quando perdemos: achamos que a alegria foi junto. Que era dela a alegria, ou dele, ou daquele tempo. Que a gente era feliz porque tinha, e agora que não tem, a felicidade fechou a porta e foi.

Mas e se a alegria nunca foi deles? E se eles eram apenas — e isso não é pouco, é muito — os espelhos por onde você enxergou, pela primeira vez, que havia alegria em você?

Essa é a distinção que as três frases propõem, e ela é vertiginosa. Porque muda completamente a pergunta.

A pergunta não é mais como volto a ser feliz sem você? A pergunta passa a ser: o que aprendi sobre alegria enquanto eu te tinha — e isso ainda está em mim?

“Não é ingratidão esquecer a dor.
É fé acreditar que o que foi dado não some —
só muda de forma.

VI

A coragem que só se aprende perdendo

Não estou dizendo que é fácil. Estou dizendo o oposto: é a coisa mais difícil que existe. Sustentar a alegria sem apoio externo requer uma espécie de coragem que ninguém ensina na escola — porque só se aprende perdendo. Só se descobre no escuro o que brilha sem precisar de luz emprestada.

Há pessoas que passaram por perdas que deveriam ter destruído tudo — e saíram do outro lado não intactas, mas inteiras. Não porque não sofreram. Mas porque descobriram que dentro delas havia algo que a perda não conseguiu levar.

Isso não é estoicismo. Não é negação da dor. É o que as tradições espirituais chamam, cada uma à sua maneira, de interioridade. A capacidade de encontrar em si mesmo uma fonte — não uma reserva que esgota, mas uma fonte que brota.

VII

O retorno à mesa

A minha avó foi. A mesa foi. O cheiro foi.

Mas ainda sei fazer comida que cheira a cuidado. Ainda sei receber visita como se a mesa fosse farta mesmo quando não é. Ainda tenho dentro de mim uma voz que diz — fica, come, não precisa ter pressa.

Ela me ensinou isso. E então Deus a levou.

E agora eu sei se esse ensinamento ficou.

Ficou.

Os três pilares da alegria verdadeira

Receber

Deixar que o dom nos ensine o gosto do bem, sem confundir a fonte com o canal.

Soltar

Atravessar a perda sem deixar que ela leve junto o que foi aprendido pelo amor.

Florescer

Descobrir que a alegria era sua desde o início — e que ninguém pode retomá-la.

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A alegria verdadeira não é o que nos foi dado.

É o que descobrimos por causa do que foi dado.

E isso — isso ninguém retoma.

VCA DIZ “SIM” AO BRASIL: O EVENTO QUE APROXIMOU O SONHO DA CASA PRÓPRIA DA REALIDADE

 

Por Padre Carlos

 

Ontem não foi apenas mais um evento no calendário do setor imobiliário. Foi, na essência, um marco simbólico de reconexão entre o sonho popular e a realidade possível. A campanha “DIZ SIM PRO SEU LAR COM A VCA” mostrou que, quando há estratégia, sensibilidade social e inteligência de mercado, a casa própria deixa de ser promessa distante e se torna projeto concreto.

Em um país onde milhões de brasileiros ainda vivem de aluguel, muitas vezes reféns de contratos instáveis e custos crescentes, iniciativas como essa representam mais do que oportunidades comerciais — são instrumentos de transformação social. O sucesso do evento realizado pela VCA Construtora revela algo que o mercado precisa entender com urgência: o consumidor não desistiu de sonhar, apenas aguardava condições reais para acreditar novamente.

E foi exatamente isso que se viu. Filas, interesse, negociações e, sobretudo, esperança. A combinação de parcelas acessíveis, entrada parcelada, documentação facilitada e os subsídios do programa Minha Casa Minha Vida — que podem chegar a R$ 55 mil — cria um ambiente onde o crédito imobiliário deixa de ser um obstáculo e passa a ser uma ponte.

O setor imobiliário brasileiro, muitas vezes acusado de elitização, encontrou nesse tipo de ação um caminho inteligente para ampliar sua base e fortalecer sua relevância econômica. Afinal, estimular o acesso à moradia não é apenas uma questão social — é também um poderoso motor de desenvolvimento, que movimenta a construção civil, gera empregos e aquece toda a cadeia produtiva.

Mas o verdadeiro valor do evento vai além dos números. Ele está no brilho no olhar de quem percebe que sair do aluguel não é mais um privilégio inalcançável. Está na família que começa a redesenhar o futuro. Está na sensação de pertencimento que só um lar pode oferecer.

A abertura do UniHouse, ampliando as opções habitacionais, reforça essa nova lógica de mercado: diversificação, acessibilidade e foco no cliente real, aquele que precisa de condições viáveis e não apenas de vitrines luxuosas.

O sucesso de ontem deixa um recado claro: o futuro do mercado imobiliário passa pela inclusão. Não basta construir imóveis — é preciso construir possibilidades. Não basta vender casas — é preciso entregar dignidade.

E quando o mercado entende isso, o resultado não é apenas sucesso de vendas. É transformação de vidas.

Ontem, mais do que contratos assinados, foram firmados compromissos com o sonho brasileiro.

E talvez seja exatamente isso que o país mais precisa neste momento: menos distância entre o querer e o poder.

VCA DIZ “SIM” AO BRASIL: O EVENTO QUE APROXIMOU O SONHO DA CASA PRÓPRIA DA REALIDADE

 

Por Padre Carlos

 

Ontem não foi apenas mais um evento no calendário do setor imobiliário. Foi, na essência, um marco simbólico de reconexão entre o sonho popular e a realidade possível. A campanha “DIZ SIM PRO SEU LAR COM A VCA” mostrou que, quando há estratégia, sensibilidade social e inteligência de mercado, a casa própria deixa de ser promessa distante e se torna projeto concreto.

Em um país onde milhões de brasileiros ainda vivem de aluguel, muitas vezes reféns de contratos instáveis e custos crescentes, iniciativas como essa representam mais do que oportunidades comerciais — são instrumentos de transformação social. O sucesso do evento realizado pela VCA Construtora revela algo que o mercado precisa entender com urgência: o consumidor não desistiu de sonhar, apenas aguardava condições reais para acreditar novamente.

E foi exatamente isso que se viu. Filas, interesse, negociações e, sobretudo, esperança. A combinação de parcelas acessíveis, entrada parcelada, documentação facilitada e os subsídios do programa Minha Casa Minha Vida — que podem chegar a R$ 55 mil — cria um ambiente onde o crédito imobiliário deixa de ser um obstáculo e passa a ser uma ponte.

O setor imobiliário brasileiro, muitas vezes acusado de elitização, encontrou nesse tipo de ação um caminho inteligente para ampliar sua base e fortalecer sua relevância econômica. Afinal, estimular o acesso à moradia não é apenas uma questão social — é também um poderoso motor de desenvolvimento, que movimenta a construção civil, gera empregos e aquece toda a cadeia produtiva.

Mas o verdadeiro valor do evento vai além dos números. Ele está no brilho no olhar de quem percebe que sair do aluguel não é mais um privilégio inalcançável. Está na família que começa a redesenhar o futuro. Está na sensação de pertencimento que só um lar pode oferecer.

A abertura do UniHouse, ampliando as opções habitacionais, reforça essa nova lógica de mercado: diversificação, acessibilidade e foco no cliente real, aquele que precisa de condições viáveis e não apenas de vitrines luxuosas.

O sucesso de ontem deixa um recado claro: o futuro do mercado imobiliário passa pela inclusão. Não basta construir imóveis — é preciso construir possibilidades. Não basta vender casas — é preciso entregar dignidade.

E quando o mercado entende isso, o resultado não é apenas sucesso de vendas. É transformação de vidas.

Ontem, mais do que contratos assinados, foram firmados compromissos com o sonho brasileiro.

E talvez seja exatamente isso que o país mais precisa neste momento: menos distância entre o querer e o poder.

Dom Celso José: A Trajetória de um Pastor que Moldou a Igreja no Brasil Contemporâneo

Perfil Eclesiástico · Política e Resenha

Dom Celso José Pinto da Silva

O Itinerário do Serviço e a Arquitetura Pastoral do Catolicismo Brasileiro Contemporâneo

✚   ✚   ✚
1933  –  2018

A
trajetória de Dom Celso José Pinto da Silva (1933–2018) constitui um dos registros mais significativos da transição e consolidação da Igreja Católica no Brasil entre a segunda metade do século XX e o início do século XXI. Como presbítero, bispo e arcebispo, sua vida não apenas acompanhou as transformações estruturais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mas também refletiu a aplicação prática das diretrizes do Concílio Vaticano II em geografias sociais e culturais profundamente distintas: a metrópole carioca, o sertão baiano e as terras piauienses.

Este relatório analisa exaustivamente seu percurso, desde a formação intelectual em Roma até sua maturidade como Arcebispo Metropolitano, fundamentando-se no lema que norteou sua existência:

“Para Servir”

Lema Episcopal de Dom Celso José Pinto da Silva

✦   ✦   ✦

I. Gênese e Formação: O Contexto Carioca e o Horizonte Romano (1933–1959)

Celso José Pinto da Silva nasceu em 29 de outubro de 1933, na cidade do Rio de Janeiro, então o epicentro político e cultural do Brasil. Sua infância e juventude transcorreram em um ambiente onde a Igreja Católica exercia uma influência hegemônica na estrutura social, mas que já começava a enfrentar os desafios da modernização urbana. Seus estudos de primeiro e segundo graus foram realizados no Ginásio José Bonifácio e no Colégio Dois de Dezembro, instituições que proviam uma base humanística sólida, preparando-o para o ingresso na vida eclesiástica.

O discernimento vocacional levou-o ao Seminário Arquidiocesano de São José, no Rio de Janeiro, onde cursou Filosofia entre 1951 e 1955. Este período foi crucial para sua estruturação lógica e metafísica, dentro da tradição neoescolástica que, embora dominante, já começava a dialogar com as correntes personalistas europeias. Contudo, o divisor de águas em sua formação intelectual ocorreu quando foi enviado a Roma para cursar Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana.

A experiência romana (1955–1959) imergiu o jovem seminarista no coração da catolicidade. A “Gregoriana” era, naquele momento, um laboratório de efervescência teológica que antecipava muitos dos temas do Concílio Vaticano II. Ali, Celso José foi exposto a uma visão universal da Igreja, compreendendo as nuances da dogmática e da história eclesiástica sob a tutela de alguns dos maiores teólogos da época. Sua ordenação presbiteral em Roma, no dia 14 de março de 1959, marcou o fim de seu ciclo de formação básica e o início de um ministério que duraria quase sessenta anos.

✚   Matriz de Formação Acadêmica e Intelectual
Nível de Ensino Instituição Período Localização
Educação Básica Ginásio José Bonifácio / Colégio Dois de Dezembro Rio de Janeiro, RJ
Filosofia Seminário Arquidiocesano de São José 1951–1955 Rio de Janeiro, RJ
Teologia Pontifícia Universidade Gregoriana 1955–1959 Roma, Itália
Especialização Formação Continuada e Prática Pastoral 1960–1978 Rio de Janeiro / CNBB

✦   ✦   ✦

II. O Ministério Presbiteral: Docência, Família e Estrutura Institucional (1960–1978)

Ao retornar ao Rio de Janeiro em 1960, o Padre Celso José assumiu funções que demonstravam sua versatilidade e a confiança que a hierarquia depositava em sua capacidade administrativa e espiritual. Por seis anos, entre 1960 e 1966, atuou como professor e diretor espiritual nos Seminários Menor e Maior da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Esta função era de suma importância estratégica, pois ele era responsável por moldar a mentalidade do clero jovem em um período de profundas mudanças pós-conciliares.

Paralelamente à formação sacerdotal, sua atuação no Movimento Familiar Cristão (MFC) como Assistente Diocesano e Vice-Assistente Nacional (1966–1969) revelou sua preocupação com o laicato e com a célula fundamental da sociedade. O MFC era um movimento de vanguarda que buscava uma espiritualidade conjugal ativa e engajada socialmente. Esta experiência conferiu ao Padre Celso uma compreensão empírica das realidades familiares brasileiras, o que mais tarde se refletiria em suas cartas pastorais e decisões administrativas.

A inserção institucional na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também ocorreu cedo em sua carreira. Como Subsecretário do Regional Leste 1 entre 1960 e 1970, ele participou da organização burocrática e pastoral da Igreja no estado do Rio de Janeiro. Em 1970, sua nomeação como Assessor da Comissão Episcopal de Pastoral (CEP) da CNBB nacional consolidou sua imagem como um técnico eclesial de alta competência.

A decade de 1970 marcou seu retorno à pastoral de base, sem abandonar as responsabilidades administrativas de alto nível — um equilíbrio entre o zelo paroquial e a visão macro-eclesial que definiria sua marca episcopal.

Entre 1972 e 1978, acumulou funções que exigiam precisamente esse equilíbrio:


  • Pároco da Paróquia de São Sebastião e Santa Cecília: Atuou diretamente na assistência espiritual e administrativa da paróquia, vivenciando os dilemas cotidianos da comunidade.

  • Vigário Episcopal do Vicariato Oeste: Esta função conferia-lhe autoridade sobre uma vasta região da arquidiocese, exigindo coordenação entre diversas paróquias e o governo central do Cardeal Eugênio Sales.

  • Gestão de Recursos e Planejamento: Sua participação na CEP da CNBB exigia a elaboração de planos pastorais que servissem de diretriz para todo o Brasil, integrando teologia e realidade sociológica.

✦   ✦   ✦

III. O Episcopado no Rio de Janeiro: A Titularidade de Urusi (1978–1981)

O reconhecimento final de seu serviço à Igreja carioca veio com a nomeação para o episcopado pelo Papa Paulo VI. Em 6 de março de 1978, foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e Bispo Titular de Urusi. A ordenação episcopal ocorreu em 1º de maio de 1978, tendo como consagrante principal o Cardeal Eugênio de Araújo Sales.

Nesta fase, Dom Celso funcionou como um dos principais articuladores da pastoral urbana no Rio. Sua colaboração com o Cardeal Sales — conhecido por seu perfil centralizador e extremamente organizado — refinou as habilidades de Dom Celso em gestão de crises e administração eclesiástica. No entanto, seu papel como bispo auxiliar seria apenas uma preparação para o desafio que o aguardava no Nordeste brasileiro.

✦   ✦   ✦

IV. A Missão em Vitória da Conquista: Duas Décadas de Construção (1981–2001)

Em 4 de julho de 1981, Dom Celso José Pinto da Silva foi transferido para a Diocese de Vitória da Conquista, na Bahia. Ele assumiu a diocese em um momento em que a região sudoeste da Bahia experimentava um crescimento demográfico acelerado e desafios sociais latentes decorrentes da seca e da desigualdade fundiária.

Durante vinte anos, Dom Celso dedicou-se a estruturar a diocese. Sua gestão foi caracterizada por um equilíbrio entre o desenvolvimento infraestrutural e a animação das pastorais sociais. Ele foi o grande impulsionador da formação de comunidades rurais e do fortalecimento das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) dentro de um marco de comunhão hierárquica. Sob seu comando, a diocese viu o nascimento de novos centros pastorais e o incentivo às vocações locais, diminuindo a dependência de clero estrangeiro.

Vinte anos de episcopado conquistense: uma gestão marcada pelo equilíbrio entre o desenvolvimento infraestrutural e a animação das pastorais sociais.

Liderança Regional e Nacional

A atuação de Dom Celso em Vitória da Conquista não se limitou às fronteiras diocesanas. Sua competência levou-o a ocupar cargos de liderança no Regional Nordeste 3 da CNBB (Bahia e Sergipe), onde foi Presidente entre 1991 e 1994. Nesta função, ele articulou a resposta da Igreja regional a problemas como a mortalidade infantil e a assistência às vítimas da seca.

Dom Celso também representou a Igreja brasileira em momentos históricos internacionais:

  1. 1
    Sínodo Episcopal de 1987: Eleito representante da CNBB em Roma para discutir a missão dos leigos.
  2. 2
    Conferência de Santo Domingo (1992): Participou da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, contribuindo para o debate sobre a inculturação da fé e a nova evangelização.

Legado Estrutural em Vitória da Conquista

A marca de sua gestão é tão profunda que, em 2024, a arquidiocese inaugurou o Centro Pastoral Arquidiocesano Dom Celso José, transformando o antigo Ginásio Diocesano em um complexo de eventos, formação acadêmica (Instituto de Filosofia) e ação social. A prefeitura também homenageou sua memória nomeando a Alameda Dom Celso José Pinto da Silva, localizada estrategicamente defronte à Praça Tancredo Neves.

✚   Homenagens e Estruturas — Vitória da Conquista
Objeto / Estrutura Localização Relevância
Alameda Dom Celso José Pinto da Silva Centro, Vitória da Conquista Referência urbanística em frente à catedral e praça principal.
Centro Pastoral Dom Celso José Antigo Ginásio Diocesano, VC Sede do Instituto de Filosofia e grandes assembleias sinodais.
Luto Oficial de 3 dias (2018) Prefeitura Municipal de VC Reconhecimento civil pelos 20 anos de serviço episcopal.
Citação em “O Fascínio das Catedrais” Literatura Regional / Teológica Contribuição intelectual sobre a simbologia do espaço sagrado.

✦   ✦   ✦

V. Arcebispado de Teresina: Maturidade e Síntese (2001–2008)

Em 21 de fevereiro de 2001, o Papa João Paulo II nomeou Dom Celso como o 5º Arcebispo Metropolitano de Teresina, no Piauí. Ele tomou posse em 1º de maio de 2001, sucedendo a Dom Miguel Fenelon Câmara Filho.

Em Teresina, Dom Celso aplicou toda a sua experiência acumulada no Rio e na Bahia. Como metropolita, ele tinha a responsabilidade de coordenar as dioceses sufragâneas do estado, promovendo uma pastoral orgânica. Ele foi descrito como um homem de diálogo, dotado de uma “mansidão e firmeza” que permitiam resolver conflitos e impulsionar as ações eclesiais. Sua gestão focou no fortalecimento das pastorais da Criança, do Migrante e Carcerária, demonstrando que seu lema “Para Servir” era uma diretriz prática e não apenas um ornamento heráldico.

Ele permaneceu à frente da arquidiocese por sete anos, até que sua renúncia foi aceita por limite de idade em 3 de setembro de 2008, tornando-se Arcebispo Emérito. Mesmo após a aposentadoria, Dom Celso escolheu continuar vivendo em Teresina, na Casa do Clero, integrando-se definitivamente à alma do povo piauiense.

✚   Tabela de Sucessão Eclesiástica — Arquidiocese de Teresina
Ordem Nome do Arcebispo Início Fim Notas
Dom Miguel Fenelon Câmara Filho 1984 2001 Predecessor direto de Dom Celso.
Dom Celso José Pinto da Silva 2001 2008 Foco em diálogo e pastoral orgânica.
Dom Sérgio da Rocha 2008 2011 Promovido a Cardeal em Salvador posteriormente.
Dom Jacinto Furtado de Brito Sobrinho 2012 2023 Sucedeu o período de transição de Dom Sérgio.

✦   ✦   ✦

VI. Sucessão Apostólica e Linhagem Episcopal

A validade e a continuidade do ministério episcopal de Dom Celso estão inseridas na linhagem apostólica romana, especificamente na linhagem do Cardeal Scipione Rebiba, que é a mais comum entre os bispos católicos contemporâneos. A análise de sua árvore de consagração revela conexões com importantes figuras da história da Igreja:


  • Principal Consagrante: Eugênio de Araújo Cardeal Sales (1954).

  • Co-consagrantes principais: Arcebispo Adelmo Cavalcante Machado e Bispo Othon Motta.

  • Linha de Sucessão: Através do Cardeal Sales, Dom Celso conecta-se a Dom Jaime de Barros Câmara, e recuando nos séculos, ao Papa Bento XIII e ao Cardeal Rebiba.

  • Co-consagrações relevantes: Participou na ordenação de Dom Geraldo Lyrio Rocha (1984), que viria a ser presidente da CNBB.

✦   ✦   ✦

VII. Legado Intelectual e Contribuições Literárias

Dom Celso não foi apenas um administrador de dioceses, mas um intelectual que refletiu sobre o papel da Igreja na sociedade contemporânea. Sua colaboração em obras literárias demonstra um interesse pela estética e pela teologia do espaço sagrado. No livro “O Fascínio das Catedrais”, da escritora Maria da Conceição Meira Barros, Dom Celso contribuiu com crônicas e reflexões sobre a simbologia das catedrais de Milão, Florença e outras, analisando-as sob a ótica teológica e canônica.

Ele compreendia a catedral não apenas como um monumento histórico, mas como a “Cátedra” do bispo, o símbolo da unidade e do ensino apostólico. Esta visão refletia-se em sua preocupação com a preservação do patrimônio histórico-religioso em Vitória da Conquista e Teresina.

Além disso, seu pensamento está registrado nos anais das assembleias da CNBB e em cartas pastorais que circularam amplamente no Regional Nordeste 3. Embora seu estilo fosse sóbrio e direto, havia sempre uma profundidade espiritual fundamentada na teologia da “Igreja-Servidora”, característica central do período pós-Vaticano II.

✦   ✦   ✦

VIII. O Ocaso de um Servo: Falecimento e Memória

Dom Celso José Pinto da Silva faleceu na madrugada de 28 de setembro de 2018, aos 84 anos de idade. Ele sofreu uma parada cardíaca na Casa do Clero em Teresina e, apesar de ter sido levado ao Hospital de Urgência de Teresina (HUT), não resistiu. Sua morte ocorreu a um mês de completar 85 anos.

“Como o grão de trigo que caiu na terra, morreu e floresceu.”

Cardeal Sérgio da Rocha — Nota de Pesar da CNBB, 2018

A comoção foi nacional. Seu velório e sepultamento na Catedral Nossa Senhora das Dores, em Teresina, atraíram milhares de fiéis, autoridades civis e membros do clero de todo o país.

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IX. O Modelo Pastoral: Reflexões Finais

O modelo de bispo exercido por Dom Celso é frequentemente citado como uma síntese do “Bispo Conciliar”. Sua trajetória integrou três pilares que raramente se articulam com tanta harmonia:

✚   Colegialidade

Forte atuação na CNBB e nos regionais, promovendo a união dos bispos e a responsabilidade compartilhada na condução da Igreja no Brasil.

✚   Proximidade com o Laicato

Experiência formativa no Movimento Familiar Cristão e foco consistente na formação de lideranças leigas comprometidas com o Evangelho e a sociedade.

✚   Equilíbrio Social e Espiritual

Defesa dos direitos humanos e assistência social — pastorais da Criança, do Migrante, Carcerária — sem perder o foco na missão evangelizadora e litúrgica da Igreja.

A biografia de Dom Celso José Pinto da Silva é, em última análise, a história de um homem que levou a sério a ideia de que a autoridade na Igreja é, essencialmente, uma forma de serviço. Da sofisticação acadêmica de Roma à simplicidade da Casa do Clero no Piauí, sua trajetória permanece como um farol para a compreensão da identidade do episcopado brasileiro no século XXI.

Padre Carlos
Teólogo · Colunista · Editor — Política e Resenha

Padre, teólogo e jornalista, escreve sobre política, cultura e fé a partir de Vitória da Conquista, Bahia. Editor do blog Política e Resenha.

Perfil Eclesiástico · CNBB · Episcopado Brasileiro · Diocese de Vitória da Conquista

Dom Celso José: A Trajetória de um Pastor que Moldou a Igreja no Brasil Contemporâneo

Perfil Eclesiástico · Política e Resenha

Dom Celso José Pinto da Silva

O Itinerário do Serviço e a Arquitetura Pastoral do Catolicismo Brasileiro Contemporâneo

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1933  –  2018

A
trajetória de Dom Celso José Pinto da Silva (1933–2018) constitui um dos registros mais significativos da transição e consolidação da Igreja Católica no Brasil entre a segunda metade do século XX e o início do século XXI. Como presbítero, bispo e arcebispo, sua vida não apenas acompanhou as transformações estruturais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mas também refletiu a aplicação prática das diretrizes do Concílio Vaticano II em geografias sociais e culturais profundamente distintas: a metrópole carioca, o sertão baiano e as terras piauienses.

Este relatório analisa exaustivamente seu percurso, desde a formação intelectual em Roma até sua maturidade como Arcebispo Metropolitano, fundamentando-se no lema que norteou sua existência:

“Para Servir”

Lema Episcopal de Dom Celso José Pinto da Silva

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I. Gênese e Formação: O Contexto Carioca e o Horizonte Romano (1933–1959)

Celso José Pinto da Silva nasceu em 29 de outubro de 1933, na cidade do Rio de Janeiro, então o epicentro político e cultural do Brasil. Sua infância e juventude transcorreram em um ambiente onde a Igreja Católica exercia uma influência hegemônica na estrutura social, mas que já começava a enfrentar os desafios da modernização urbana. Seus estudos de primeiro e segundo graus foram realizados no Ginásio José Bonifácio e no Colégio Dois de Dezembro, instituições que proviam uma base humanística sólida, preparando-o para o ingresso na vida eclesiástica.

O discernimento vocacional levou-o ao Seminário Arquidiocesano de São José, no Rio de Janeiro, onde cursou Filosofia entre 1951 e 1955. Este período foi crucial para sua estruturação lógica e metafísica, dentro da tradição neoescolástica que, embora dominante, já começava a dialogar com as correntes personalistas europeias. Contudo, o divisor de águas em sua formação intelectual ocorreu quando foi enviado a Roma para cursar Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana.

A experiência romana (1955–1959) imergiu o jovem seminarista no coração da catolicidade. A “Gregoriana” era, naquele momento, um laboratório de efervescência teológica que antecipava muitos dos temas do Concílio Vaticano II. Ali, Celso José foi exposto a uma visão universal da Igreja, compreendendo as nuances da dogmática e da história eclesiástica sob a tutela de alguns dos maiores teólogos da época. Sua ordenação presbiteral em Roma, no dia 14 de março de 1959, marcou o fim de seu ciclo de formação básica e o início de um ministério que duraria quase sessenta anos.

✚   Matriz de Formação Acadêmica e Intelectual
Nível de Ensino Instituição Período Localização
Educação Básica Ginásio José Bonifácio / Colégio Dois de Dezembro Rio de Janeiro, RJ
Filosofia Seminário Arquidiocesano de São José 1951–1955 Rio de Janeiro, RJ
Teologia Pontifícia Universidade Gregoriana 1955–1959 Roma, Itália
Especialização Formação Continuada e Prática Pastoral 1960–1978 Rio de Janeiro / CNBB

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II. O Ministério Presbiteral: Docência, Família e Estrutura Institucional (1960–1978)

Ao retornar ao Rio de Janeiro em 1960, o Padre Celso José assumiu funções que demonstravam sua versatilidade e a confiança que a hierarquia depositava em sua capacidade administrativa e espiritual. Por seis anos, entre 1960 e 1966, atuou como professor e diretor espiritual nos Seminários Menor e Maior da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Esta função era de suma importância estratégica, pois ele era responsável por moldar a mentalidade do clero jovem em um período de profundas mudanças pós-conciliares.

Paralelamente à formação sacerdotal, sua atuação no Movimento Familiar Cristão (MFC) como Assistente Diocesano e Vice-Assistente Nacional (1966–1969) revelou sua preocupação com o laicato e com a célula fundamental da sociedade. O MFC era um movimento de vanguarda que buscava uma espiritualidade conjugal ativa e engajada socialmente. Esta experiência conferiu ao Padre Celso uma compreensão empírica das realidades familiares brasileiras, o que mais tarde se refletiria em suas cartas pastorais e decisões administrativas.

A inserção institucional na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também ocorreu cedo em sua carreira. Como Subsecretário do Regional Leste 1 entre 1960 e 1970, ele participou da organização burocrática e pastoral da Igreja no estado do Rio de Janeiro. Em 1970, sua nomeação como Assessor da Comissão Episcopal de Pastoral (CEP) da CNBB nacional consolidou sua imagem como um técnico eclesial de alta competência.

A decade de 1970 marcou seu retorno à pastoral de base, sem abandonar as responsabilidades administrativas de alto nível — um equilíbrio entre o zelo paroquial e a visão macro-eclesial que definiria sua marca episcopal.

Entre 1972 e 1978, acumulou funções que exigiam precisamente esse equilíbrio:


  • Pároco da Paróquia de São Sebastião e Santa Cecília: Atuou diretamente na assistência espiritual e administrativa da paróquia, vivenciando os dilemas cotidianos da comunidade.

  • Vigário Episcopal do Vicariato Oeste: Esta função conferia-lhe autoridade sobre uma vasta região da arquidiocese, exigindo coordenação entre diversas paróquias e o governo central do Cardeal Eugênio Sales.

  • Gestão de Recursos e Planejamento: Sua participação na CEP da CNBB exigia a elaboração de planos pastorais que servissem de diretriz para todo o Brasil, integrando teologia e realidade sociológica.

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III. O Episcopado no Rio de Janeiro: A Titularidade de Urusi (1978–1981)

O reconhecimento final de seu serviço à Igreja carioca veio com a nomeação para o episcopado pelo Papa Paulo VI. Em 6 de março de 1978, foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e Bispo Titular de Urusi. A ordenação episcopal ocorreu em 1º de maio de 1978, tendo como consagrante principal o Cardeal Eugênio de Araújo Sales.

Nesta fase, Dom Celso funcionou como um dos principais articuladores da pastoral urbana no Rio. Sua colaboração com o Cardeal Sales — conhecido por seu perfil centralizador e extremamente organizado — refinou as habilidades de Dom Celso em gestão de crises e administração eclesiástica. No entanto, seu papel como bispo auxiliar seria apenas uma preparação para o desafio que o aguardava no Nordeste brasileiro.

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IV. A Missão em Vitória da Conquista: Duas Décadas de Construção (1981–2001)

Em 4 de julho de 1981, Dom Celso José Pinto da Silva foi transferido para a Diocese de Vitória da Conquista, na Bahia. Ele assumiu a diocese em um momento em que a região sudoeste da Bahia experimentava um crescimento demográfico acelerado e desafios sociais latentes decorrentes da seca e da desigualdade fundiária.

Durante vinte anos, Dom Celso dedicou-se a estruturar a diocese. Sua gestão foi caracterizada por um equilíbrio entre o desenvolvimento infraestrutural e a animação das pastorais sociais. Ele foi o grande impulsionador da formação de comunidades rurais e do fortalecimento das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) dentro de um marco de comunhão hierárquica. Sob seu comando, a diocese viu o nascimento de novos centros pastorais e o incentivo às vocações locais, diminuindo a dependência de clero estrangeiro.

Vinte anos de episcopado conquistense: uma gestão marcada pelo equilíbrio entre o desenvolvimento infraestrutural e a animação das pastorais sociais.

Liderança Regional e Nacional

A atuação de Dom Celso em Vitória da Conquista não se limitou às fronteiras diocesanas. Sua competência levou-o a ocupar cargos de liderança no Regional Nordeste 3 da CNBB (Bahia e Sergipe), onde foi Presidente entre 1991 e 1994. Nesta função, ele articulou a resposta da Igreja regional a problemas como a mortalidade infantil e a assistência às vítimas da seca.

Dom Celso também representou a Igreja brasileira em momentos históricos internacionais:

  1. 1
    Sínodo Episcopal de 1987: Eleito representante da CNBB em Roma para discutir a missão dos leigos.
  2. 2
    Conferência de Santo Domingo (1992): Participou da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, contribuindo para o debate sobre a inculturação da fé e a nova evangelização.

Legado Estrutural em Vitória da Conquista

A marca de sua gestão é tão profunda que, em 2024, a arquidiocese inaugurou o Centro Pastoral Arquidiocesano Dom Celso José, transformando o antigo Ginásio Diocesano em um complexo de eventos, formação acadêmica (Instituto de Filosofia) e ação social. A prefeitura também homenageou sua memória nomeando a Alameda Dom Celso José Pinto da Silva, localizada estrategicamente defronte à Praça Tancredo Neves.

✚   Homenagens e Estruturas — Vitória da Conquista
Objeto / Estrutura Localização Relevância
Alameda Dom Celso José Pinto da Silva Centro, Vitória da Conquista Referência urbanística em frente à catedral e praça principal.
Centro Pastoral Dom Celso José Antigo Ginásio Diocesano, VC Sede do Instituto de Filosofia e grandes assembleias sinodais.
Luto Oficial de 3 dias (2018) Prefeitura Municipal de VC Reconhecimento civil pelos 20 anos de serviço episcopal.
Citação em “O Fascínio das Catedrais” Literatura Regional / Teológica Contribuição intelectual sobre a simbologia do espaço sagrado.

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V. Arcebispado de Teresina: Maturidade e Síntese (2001–2008)

Em 21 de fevereiro de 2001, o Papa João Paulo II nomeou Dom Celso como o 5º Arcebispo Metropolitano de Teresina, no Piauí. Ele tomou posse em 1º de maio de 2001, sucedendo a Dom Miguel Fenelon Câmara Filho.

Em Teresina, Dom Celso aplicou toda a sua experiência acumulada no Rio e na Bahia. Como metropolita, ele tinha a responsabilidade de coordenar as dioceses sufragâneas do estado, promovendo uma pastoral orgânica. Ele foi descrito como um homem de diálogo, dotado de uma “mansidão e firmeza” que permitiam resolver conflitos e impulsionar as ações eclesiais. Sua gestão focou no fortalecimento das pastorais da Criança, do Migrante e Carcerária, demonstrando que seu lema “Para Servir” era uma diretriz prática e não apenas um ornamento heráldico.

Ele permaneceu à frente da arquidiocese por sete anos, até que sua renúncia foi aceita por limite de idade em 3 de setembro de 2008, tornando-se Arcebispo Emérito. Mesmo após a aposentadoria, Dom Celso escolheu continuar vivendo em Teresina, na Casa do Clero, integrando-se definitivamente à alma do povo piauiense.

✚   Tabela de Sucessão Eclesiástica — Arquidiocese de Teresina
Ordem Nome do Arcebispo Início Fim Notas
Dom Miguel Fenelon Câmara Filho 1984 2001 Predecessor direto de Dom Celso.
Dom Celso José Pinto da Silva 2001 2008 Foco em diálogo e pastoral orgânica.
Dom Sérgio da Rocha 2008 2011 Promovido a Cardeal em Salvador posteriormente.
Dom Jacinto Furtado de Brito Sobrinho 2012 2023 Sucedeu o período de transição de Dom Sérgio.

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VI. Sucessão Apostólica e Linhagem Episcopal

A validade e a continuidade do ministério episcopal de Dom Celso estão inseridas na linhagem apostólica romana, especificamente na linhagem do Cardeal Scipione Rebiba, que é a mais comum entre os bispos católicos contemporâneos. A análise de sua árvore de consagração revela conexões com importantes figuras da história da Igreja:


  • Principal Consagrante: Eugênio de Araújo Cardeal Sales (1954).

  • Co-consagrantes principais: Arcebispo Adelmo Cavalcante Machado e Bispo Othon Motta.

  • Linha de Sucessão: Através do Cardeal Sales, Dom Celso conecta-se a Dom Jaime de Barros Câmara, e recuando nos séculos, ao Papa Bento XIII e ao Cardeal Rebiba.

  • Co-consagrações relevantes: Participou na ordenação de Dom Geraldo Lyrio Rocha (1984), que viria a ser presidente da CNBB.

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VII. Legado Intelectual e Contribuições Literárias

Dom Celso não foi apenas um administrador de dioceses, mas um intelectual que refletiu sobre o papel da Igreja na sociedade contemporânea. Sua colaboração em obras literárias demonstra um interesse pela estética e pela teologia do espaço sagrado. No livro “O Fascínio das Catedrais”, da escritora Maria da Conceição Meira Barros, Dom Celso contribuiu com crônicas e reflexões sobre a simbologia das catedrais de Milão, Florença e outras, analisando-as sob a ótica teológica e canônica.

Ele compreendia a catedral não apenas como um monumento histórico, mas como a “Cátedra” do bispo, o símbolo da unidade e do ensino apostólico. Esta visão refletia-se em sua preocupação com a preservação do patrimônio histórico-religioso em Vitória da Conquista e Teresina.

Além disso, seu pensamento está registrado nos anais das assembleias da CNBB e em cartas pastorais que circularam amplamente no Regional Nordeste 3. Embora seu estilo fosse sóbrio e direto, havia sempre uma profundidade espiritual fundamentada na teologia da “Igreja-Servidora”, característica central do período pós-Vaticano II.

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VIII. O Ocaso de um Servo: Falecimento e Memória

Dom Celso José Pinto da Silva faleceu na madrugada de 28 de setembro de 2018, aos 84 anos de idade. Ele sofreu uma parada cardíaca na Casa do Clero em Teresina e, apesar de ter sido levado ao Hospital de Urgência de Teresina (HUT), não resistiu. Sua morte ocorreu a um mês de completar 85 anos.

“Como o grão de trigo que caiu na terra, morreu e floresceu.”

Cardeal Sérgio da Rocha — Nota de Pesar da CNBB, 2018

A comoção foi nacional. Seu velório e sepultamento na Catedral Nossa Senhora das Dores, em Teresina, atraíram milhares de fiéis, autoridades civis e membros do clero de todo o país.

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IX. O Modelo Pastoral: Reflexões Finais

O modelo de bispo exercido por Dom Celso é frequentemente citado como uma síntese do “Bispo Conciliar”. Sua trajetória integrou três pilares que raramente se articulam com tanta harmonia:

✚   Colegialidade

Forte atuação na CNBB e nos regionais, promovendo a união dos bispos e a responsabilidade compartilhada na condução da Igreja no Brasil.

✚   Proximidade com o Laicato

Experiência formativa no Movimento Familiar Cristão e foco consistente na formação de lideranças leigas comprometidas com o Evangelho e a sociedade.

✚   Equilíbrio Social e Espiritual

Defesa dos direitos humanos e assistência social — pastorais da Criança, do Migrante, Carcerária — sem perder o foco na missão evangelizadora e litúrgica da Igreja.

A biografia de Dom Celso José Pinto da Silva é, em última análise, a história de um homem que levou a sério a ideia de que a autoridade na Igreja é, essencialmente, uma forma de serviço. Da sofisticação acadêmica de Roma à simplicidade da Casa do Clero no Piauí, sua trajetória permanece como um farol para a compreensão da identidade do episcopado brasileiro no século XXI.

Padre Carlos
Teólogo · Colunista · Editor — Política e Resenha

Padre, teólogo e jornalista, escreve sobre política, cultura e fé a partir de Vitória da Conquista, Bahia. Editor do blog Política e Resenha.

Perfil Eclesiástico · CNBB · Episcopado Brasileiro · Diocese de Vitória da Conquista

Quando o Amor Não Recua: A Coragem de Sofrer em Tempos de Fuga

 

 Padre Carlos

 

Vivemos uma era que desaprendeu a sofrer.

Não porque o sofrimento tenha desaparecido — ele está mais presente do que nunca, infiltrado nas casas silenciosas, nas mentes inquietas e nos corações exaustos —, mas porque criamos uma cultura que o nega, o esconde ou o descarta como um erro da existência. A lógica contemporânea é simples e cruel: sentir dor é fracassar.

Mas a fé cristã nunca negociou com essa ilusão.

Ao contrário, como recordava São João Paulo II, o sofrimento não é o fim da história humana — é passagem. E talvez seja justamente isso que mais incomoda o homem moderno: a ideia de que a dor não pode ser eliminada, mas precisa ser atravessada.

A Ressurreição de Cristo não apagou a cruz. Ela a transformou.

E aqui está o ponto que muitos não querem aceitar: não existe ressurreição sem entrega, não existe esperança sem travessia, não existe amor verdadeiro que não passe pelo sacrifício. A promessa cristã não é a ausência da dor, mas o seu sentido.

Enquanto o mundo vende atalhos para a felicidade, o Evangelho continua oferecendo um caminho — estreito, exigente e profundamente humano.

E é nesse caminho que a Igreja encontra sua verdadeira identidade.

Não nos templos cheios apenas de palavras, nem nos discursos vazios de compromisso, mas no encontro direto com o sofrimento humano. É ali, no leito de um enfermo, na solidão de um idoso, no desespero silencioso de quem perdeu o sentido de viver, que a fé deixa de ser teoria e se torna presença.

A Igreja não é chamada a explicar a dor. Ela é chamada a permanecer nela.

Num tempo em que todos passam apressados, ignorando a queda do outro, ser cristão é parar. É inclinar-se. É tocar a ferida. É recusar a indiferença.

Porque o sofrimento do outro não é um incômodo — é um chamado.

E talvez seja isso que o mundo mais rejeita: a responsabilidade de amar quando é difícil.

O amor verdadeiro não recua.

Não recua diante da doença, não recua diante da perda, não recua diante da fragilidade humana. E é exatamente por isso que ele se torna sinal de algo maior. Como lembra o Papa Leão XIV, mesmo nas frestas mais escuras da existência, há sinais discretos de ressurreição.

Pequenos gestos. Silenciosos. Invisíveis aos olhos do mundo.

Mas poderosos o suficiente para sustentar a esperança.

Talvez o maior erro do nosso tempo seja acreditar que a felicidade está na ausência de dor, quando, na verdade, ela pode estar na forma como escolhemos enfrentá-la.

O sofrimento, quando atravessado com fé, deixa de ser prisão e se torna altar.

E nesse altar invisível, onde lágrimas se misturam com esperança, algo extraordinário acontece: o amor se revela em sua forma mais pura.

Não como sentimento, mas como decisão.

Não como discurso, mas como entrega.

No fim, a grande pergunta não é por que sofremos.

A pergunta é: o que fazemos com a dor que nos encontra?

Podemos fugir dela — como faz a maioria.

Ou podemos transformá-la — como fez Cristo.

E é nessa escolha silenciosa, cotidiana, quase invisível, que se decide o destino da alma humana.

Porque onde há dor, ainda pode nascer redenção.

E onde o amor não recua… a vida sempre encontra um caminho.

Quando o Amor Não Recua: A Coragem de Sofrer em Tempos de Fuga

 

 Padre Carlos

 

Vivemos uma era que desaprendeu a sofrer.

Não porque o sofrimento tenha desaparecido — ele está mais presente do que nunca, infiltrado nas casas silenciosas, nas mentes inquietas e nos corações exaustos —, mas porque criamos uma cultura que o nega, o esconde ou o descarta como um erro da existência. A lógica contemporânea é simples e cruel: sentir dor é fracassar.

Mas a fé cristã nunca negociou com essa ilusão.

Ao contrário, como recordava São João Paulo II, o sofrimento não é o fim da história humana — é passagem. E talvez seja justamente isso que mais incomoda o homem moderno: a ideia de que a dor não pode ser eliminada, mas precisa ser atravessada.

A Ressurreição de Cristo não apagou a cruz. Ela a transformou.

E aqui está o ponto que muitos não querem aceitar: não existe ressurreição sem entrega, não existe esperança sem travessia, não existe amor verdadeiro que não passe pelo sacrifício. A promessa cristã não é a ausência da dor, mas o seu sentido.

Enquanto o mundo vende atalhos para a felicidade, o Evangelho continua oferecendo um caminho — estreito, exigente e profundamente humano.

E é nesse caminho que a Igreja encontra sua verdadeira identidade.

Não nos templos cheios apenas de palavras, nem nos discursos vazios de compromisso, mas no encontro direto com o sofrimento humano. É ali, no leito de um enfermo, na solidão de um idoso, no desespero silencioso de quem perdeu o sentido de viver, que a fé deixa de ser teoria e se torna presença.

A Igreja não é chamada a explicar a dor. Ela é chamada a permanecer nela.

Num tempo em que todos passam apressados, ignorando a queda do outro, ser cristão é parar. É inclinar-se. É tocar a ferida. É recusar a indiferença.

Porque o sofrimento do outro não é um incômodo — é um chamado.

E talvez seja isso que o mundo mais rejeita: a responsabilidade de amar quando é difícil.

O amor verdadeiro não recua.

Não recua diante da doença, não recua diante da perda, não recua diante da fragilidade humana. E é exatamente por isso que ele se torna sinal de algo maior. Como lembra o Papa Leão XIV, mesmo nas frestas mais escuras da existência, há sinais discretos de ressurreição.

Pequenos gestos. Silenciosos. Invisíveis aos olhos do mundo.

Mas poderosos o suficiente para sustentar a esperança.

Talvez o maior erro do nosso tempo seja acreditar que a felicidade está na ausência de dor, quando, na verdade, ela pode estar na forma como escolhemos enfrentá-la.

O sofrimento, quando atravessado com fé, deixa de ser prisão e se torna altar.

E nesse altar invisível, onde lágrimas se misturam com esperança, algo extraordinário acontece: o amor se revela em sua forma mais pura.

Não como sentimento, mas como decisão.

Não como discurso, mas como entrega.

No fim, a grande pergunta não é por que sofremos.

A pergunta é: o que fazemos com a dor que nos encontra?

Podemos fugir dela — como faz a maioria.

Ou podemos transformá-la — como fez Cristo.

E é nessa escolha silenciosa, cotidiana, quase invisível, que se decide o destino da alma humana.

Porque onde há dor, ainda pode nascer redenção.

E onde o amor não recua… a vida sempre encontra um caminho.

Quando o Passado Não Basta: a Igreja e o Desafio de Reconquistar a Juventude

 

 

Há algo de profundamente revelador — e, ao mesmo tempo, inquietante — no anúncio de que o Frei Gilson fará sua primeira apresentação em Vitória da Conquista, no dia 14 de novembro de 2026, com o show “Um Encontro de Fé”. O evento, promovido pela Arquidiocese como parte de um Ano Vocacional voltado à juventude, carrega em si mais do que uma agenda pastoral: revela um movimento de adaptação, talvez tardio, de uma Igreja que se vê desafiada a reencontrar o coração pulsante das novas gerações.

É preciso dizer com clareza: a Igreja demorou a perceber que os jovens não abandonaram a fé — abandonaram, isso sim, as formas rígidas, silenciosas e, muitas vezes, distantes com que ela se apresentava. Enquanto outras expressões religiosas avançaram com linguagem acessível, música vibrante e forte senso de pertencimento, a Igreja tradicional hesitou, presa entre o zelo pela tradição e o medo de se descaracterizar.

O resultado está diante de nós. O fenômeno religioso contemporâneo, impulsionado sobretudo pela onda neopentecostal, não apenas cresceu — ocupou espaços emocionais, sociais e espirituais que a Igreja deixou vagos. Não se trata de uma derrota da fé, mas de uma vitória de quem soube comunicar melhor essa mesma fé.

Por isso, iniciativas como o show de Frei Gilson não devem ser vistas com desconfiança ou nostalgia crítica, mas com lucidez estratégica. Trata-se de reconhecer que a evangelização, para ser eficaz, precisa falar a língua do seu tempo. Jovens não se encantam apenas com discursos; eles buscam experiência, encontro, emoção, sentido compartilhado. Querem uma fé que se viva, não apenas que se explique.

E aqui reside o ponto central: a Igreja não pode confundir essência com forma. A mensagem permanece eterna, mas os meios precisam ser constantemente renovados. Se ontem o silêncio reverente falava alto, hoje ele muitas vezes não atravessa o ruído do mundo digital e acelerado. É preciso cantar, reunir, emocionar — não como espetáculo vazio, mas como ponte verdadeira para o transcendente.

Há, no entanto, um risco que não pode ser ignorado. Ao tentar dialogar com a cultura contemporânea, a Igreja não pode se tornar refém dela. Evangelizar não é entreter. A música, os eventos e os grandes encontros devem conduzir a algo mais profundo: o compromisso, a vocação, a transformação de vida. Caso contrário, tudo se dilui em mais um evento passageiro, incapaz de gerar raízes.

Quem conheceu a Igreja das décadas de 70 e 80, marcada por uma sobriedade quase austera, pode sentir estranhamento diante dessa nova configuração. E talvez com razão. Aquela Igreja, feita de silêncio, de comunidades mais orgânicas e de vínculos mais duradouros, já não existe como antes. Mas isso não significa que a fé tenha se perdido. Significa, apenas, que ela precisa encontrar novas moradas.

A verdade é dura, mas necessária: a Igreja é feita por homens, e os homens mudam com o tempo. As gerações passam, as sensibilidades se transformam, e a instituição que não acompanha esse movimento corre o risco de falar sozinha. Não se trata de ceder ao mundo, mas de compreender o mundo para melhor iluminá-lo.

O evento com Frei Gilson, portanto, é mais do que um show. É um sintoma — e também uma possibilidade. Sintoma de uma Igreja que reconhece suas lacunas na relação com a juventude. Possibilidade de um novo caminho, onde fé e linguagem contemporânea não se excluem, mas se fortalecem.

Se a Igreja deseja, de fato, tocar os jovens, precisará ir além de iniciativas pontuais. Será necessário construir presença constante, escuta verdadeira e espaços reais de protagonismo juvenil. Porque, no fim das contas, os jovens não querem apenas ser convidados para eventos — querem ser parte da história.

E talvez aí esteja a grande virada: não basta chamar os jovens para dentro da Igreja. É preciso permitir que eles ajudem a reconstruí-la.

A vida, afinal, é um grande ciclo de homens e ideias. E a fé, quando verdadeiramente viva, não teme recomeçar.

Quando o Passado Não Basta: a Igreja e o Desafio de Reconquistar a Juventude

 

 

Há algo de profundamente revelador — e, ao mesmo tempo, inquietante — no anúncio de que o Frei Gilson fará sua primeira apresentação em Vitória da Conquista, no dia 14 de novembro de 2026, com o show “Um Encontro de Fé”. O evento, promovido pela Arquidiocese como parte de um Ano Vocacional voltado à juventude, carrega em si mais do que uma agenda pastoral: revela um movimento de adaptação, talvez tardio, de uma Igreja que se vê desafiada a reencontrar o coração pulsante das novas gerações.

É preciso dizer com clareza: a Igreja demorou a perceber que os jovens não abandonaram a fé — abandonaram, isso sim, as formas rígidas, silenciosas e, muitas vezes, distantes com que ela se apresentava. Enquanto outras expressões religiosas avançaram com linguagem acessível, música vibrante e forte senso de pertencimento, a Igreja tradicional hesitou, presa entre o zelo pela tradição e o medo de se descaracterizar.

O resultado está diante de nós. O fenômeno religioso contemporâneo, impulsionado sobretudo pela onda neopentecostal, não apenas cresceu — ocupou espaços emocionais, sociais e espirituais que a Igreja deixou vagos. Não se trata de uma derrota da fé, mas de uma vitória de quem soube comunicar melhor essa mesma fé.

Por isso, iniciativas como o show de Frei Gilson não devem ser vistas com desconfiança ou nostalgia crítica, mas com lucidez estratégica. Trata-se de reconhecer que a evangelização, para ser eficaz, precisa falar a língua do seu tempo. Jovens não se encantam apenas com discursos; eles buscam experiência, encontro, emoção, sentido compartilhado. Querem uma fé que se viva, não apenas que se explique.

E aqui reside o ponto central: a Igreja não pode confundir essência com forma. A mensagem permanece eterna, mas os meios precisam ser constantemente renovados. Se ontem o silêncio reverente falava alto, hoje ele muitas vezes não atravessa o ruído do mundo digital e acelerado. É preciso cantar, reunir, emocionar — não como espetáculo vazio, mas como ponte verdadeira para o transcendente.

Há, no entanto, um risco que não pode ser ignorado. Ao tentar dialogar com a cultura contemporânea, a Igreja não pode se tornar refém dela. Evangelizar não é entreter. A música, os eventos e os grandes encontros devem conduzir a algo mais profundo: o compromisso, a vocação, a transformação de vida. Caso contrário, tudo se dilui em mais um evento passageiro, incapaz de gerar raízes.

Quem conheceu a Igreja das décadas de 70 e 80, marcada por uma sobriedade quase austera, pode sentir estranhamento diante dessa nova configuração. E talvez com razão. Aquela Igreja, feita de silêncio, de comunidades mais orgânicas e de vínculos mais duradouros, já não existe como antes. Mas isso não significa que a fé tenha se perdido. Significa, apenas, que ela precisa encontrar novas moradas.

A verdade é dura, mas necessária: a Igreja é feita por homens, e os homens mudam com o tempo. As gerações passam, as sensibilidades se transformam, e a instituição que não acompanha esse movimento corre o risco de falar sozinha. Não se trata de ceder ao mundo, mas de compreender o mundo para melhor iluminá-lo.

O evento com Frei Gilson, portanto, é mais do que um show. É um sintoma — e também uma possibilidade. Sintoma de uma Igreja que reconhece suas lacunas na relação com a juventude. Possibilidade de um novo caminho, onde fé e linguagem contemporânea não se excluem, mas se fortalecem.

Se a Igreja deseja, de fato, tocar os jovens, precisará ir além de iniciativas pontuais. Será necessário construir presença constante, escuta verdadeira e espaços reais de protagonismo juvenil. Porque, no fim das contas, os jovens não querem apenas ser convidados para eventos — querem ser parte da história.

E talvez aí esteja a grande virada: não basta chamar os jovens para dentro da Igreja. É preciso permitir que eles ajudem a reconstruí-la.

A vida, afinal, é um grande ciclo de homens e ideias. E a fé, quando verdadeiramente viva, não teme recomeçar.

25 de Abril: Quando os Cravos Falam Mais Alto que as Armas

 

 

Há datas que não são apenas marcas no calendário, mas sim símbolos vivos de transformação, esperança e coragem. O 25 de Abril de 1974 é uma dessas datas para Portugal — um dia em que o silêncio imposto pela ditadura foi quebrado pelo som de uma canção, pelo aroma dos cravos e pela voz uníssona de um povo que decidiu escrever o seu próprio destino.

A Revolução dos Cravos: Um Ato de Coragem Coletiva

A Revolução dos Cravos não foi apenas um golpe militar, mas um movimento popular que uniu civis e soldados em torno de um ideal comum: liberdade. Sem violência, sem ódio, mas com uma determinação inquebrantável, os portugueses mostraram ao mundo que a mudança é possível quando a justiça e a fraternidade guiam os passos de uma nação.

Os cravos, colocados nos canos das armas pelos soldados, tornaram-se o símbolo dessa revolução pacífica. Eles representavam a delicadeza da esperança em meio à dureza dos tempos, e a certeza de que um novo Portugal estava nascendo — um país onde a democracia, a igualdade e os direitos humanos seriam os pilares de uma sociedade renovada.

Grândola, Vila Morena: A Canção que Mudou a História

Na madrugada daquele dia, a canção “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, ecoou pelas rádios. Mais do que uma música, ela foi a senha para a ação, um hino de resistência que uniu corações e mentes. Os versos simples, mas profundos, falavam de fraternidade, de um povo que “mais ordena” dentro da sua própria terra. Era a voz daqueles que, durante décadas, haviam sido silenciados.

O Legado do 25 de Abril: Liberdade, Democracia e Memória

Passadas mais de cinco décadas, o 25 de Abril continua a inspirar. Não é apenas uma data para celebrar, mas um lembrete de que a liberdade é um bem precioso, conquistado com luta e mantido com responsabilidade. É um convite para refletirmos sobre o valor da democracia, da participação cívica e da justiça social.

Hoje, quando olhamos para trás, vemos que a Revolução dos Cravos não foi apenas um evento histórico — foi um ato de amor pela pátria. Um amor que se traduz na construção de um país mais justo, mais livre e mais humano.

Conclusão: A Revolução que Nunca Acaba

O 25 de Abril não pertence apenas ao passado. Ele vive em cada um de nós que acredita na força da unidade, na importância da memória e na necessidade de lutar, todos os dias, por um mundo melhor. Que este dia nos lembre sempre: a liberdade não é um dom, é uma conquista.

25 de Abril: Quando os Cravos Falam Mais Alto que as Armas

 

 

Há datas que não são apenas marcas no calendário, mas sim símbolos vivos de transformação, esperança e coragem. O 25 de Abril de 1974 é uma dessas datas para Portugal — um dia em que o silêncio imposto pela ditadura foi quebrado pelo som de uma canção, pelo aroma dos cravos e pela voz uníssona de um povo que decidiu escrever o seu próprio destino.

A Revolução dos Cravos: Um Ato de Coragem Coletiva

A Revolução dos Cravos não foi apenas um golpe militar, mas um movimento popular que uniu civis e soldados em torno de um ideal comum: liberdade. Sem violência, sem ódio, mas com uma determinação inquebrantável, os portugueses mostraram ao mundo que a mudança é possível quando a justiça e a fraternidade guiam os passos de uma nação.

Os cravos, colocados nos canos das armas pelos soldados, tornaram-se o símbolo dessa revolução pacífica. Eles representavam a delicadeza da esperança em meio à dureza dos tempos, e a certeza de que um novo Portugal estava nascendo — um país onde a democracia, a igualdade e os direitos humanos seriam os pilares de uma sociedade renovada.

Grândola, Vila Morena: A Canção que Mudou a História

Na madrugada daquele dia, a canção “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, ecoou pelas rádios. Mais do que uma música, ela foi a senha para a ação, um hino de resistência que uniu corações e mentes. Os versos simples, mas profundos, falavam de fraternidade, de um povo que “mais ordena” dentro da sua própria terra. Era a voz daqueles que, durante décadas, haviam sido silenciados.

O Legado do 25 de Abril: Liberdade, Democracia e Memória

Passadas mais de cinco décadas, o 25 de Abril continua a inspirar. Não é apenas uma data para celebrar, mas um lembrete de que a liberdade é um bem precioso, conquistado com luta e mantido com responsabilidade. É um convite para refletirmos sobre o valor da democracia, da participação cívica e da justiça social.

Hoje, quando olhamos para trás, vemos que a Revolução dos Cravos não foi apenas um evento histórico — foi um ato de amor pela pátria. Um amor que se traduz na construção de um país mais justo, mais livre e mais humano.

Conclusão: A Revolução que Nunca Acaba

O 25 de Abril não pertence apenas ao passado. Ele vive em cada um de nós que acredita na força da unidade, na importância da memória e na necessidade de lutar, todos os dias, por um mundo melhor. Que este dia nos lembre sempre: a liberdade não é um dom, é uma conquista.

O Cheiro do Tempo – Crônica Literária


Crônica Literária

O Cheiro do Tempo

por Padre Carlos

― ✦ ―

Há manhãs que não pedem licença.

Entram pela janela antes mesmo de você abrir os olhos — primeiro o cheiro, depois a luz, e só por último a consciência de que um novo dia começou. Nessas manhãs, o tempo não é um relógio. É um velho que prepara café sem coador, que assopra a chaleira velha, que deixa o pó assentar no fundo como quem sabe que a pressa é inimiga do sabor. E do vivido.

Conheci um homem assim. Ou talvez eu o tenha inventado. Ou talvez ele seja todos os velhos que já vi de manhã cedo, sentados à soleira, com um copo nas mãos e os olhos voltados para um horizonte que só eles enxergavam. O aroma do café que ele preparava não ficava na cozinha. Subia, atravessava cômodos, dobrava corredores, e ia pousar, manso, em cada canto da casa — como um fio de memória tecendo a manhã, como diria o poeta.

Ele cantava. Não se sabe bem se para si mesmo ou para alguém que já foi. “Você por aqui é novidade” — essa frase de canção antiga que, repetida vezes sem conta, vai deixando de ser canção e vira reza, encantamento, mantra.

Há palavras que, de tanto ditas, perdem o significado e ganham outra coisa: ganham peso, ganham silêncio, ganham a textura do tempo.

― ― ―

Lembro das arraias.

Aqui em Salvador, ninguém chama de pipa. Arraia é o nome certo, o nome da terra, e a palavra já tem asas só de ser dita. Arraias no céu de fim de tarde — leves, loucas, disputando o azul com as nuvens e os pássaros. Cada linha puxada por uma mão de criança que ainda não sabe que está aprendendo a soltar: a soltar o barbante, a soltar o dia, a soltar tudo que um dia vai embora de qualquer jeito.

A infância é isso. Um copo de água fresca bebido sem pensar, porque quando se é criança não se pensa em sede, se bebe. Um raio de sol na montanha que aquece sem queimar — porque tudo, nessa idade, vem na medida certa do milagre. Uma cabeleira comprida boiando nos lagos da memória, que a gente vai puxando, puxando, e ela não acaba nunca, porque a memória é funda e o passado não tem fundo.

O sino não conta minutos,
conta momentos.

O menino que eu quero lembrar — e que mora em algum lugar dentro de cada um que leu até aqui — sentia o cheiro de jasmim vindo da casa grande. Havia uma casa grande, sempre há uma casa grande na infância de quem cresceu em um balneário. Com seus mistérios e suas sombras, com seu jardim que cheirava diferente do resto do mundo. E havia o sino da Igreja, marcando as horas que o relógio não sabia marcar — porque o sino não conta minutos, conta momentos.

E as freiras que passavam em frente ao portão, com seus hábitos brancos ou seria marrom? Seus passos silenciosos, como se carregassem nas solas dos sapatos o segredo de como se atravessa um dia com graça.

Mais um dia se ia. Assim. Quieto.

― ― ―

O filósofo diria que o tempo é uma flecha. O físico, que é uma dimensão. O poeta, que é um rio. Mas o cronista — esse ser menor e mais humano — diria apenas que o tempo cheira a café.

E que há hábitos que o corpo guarda depois que a mente esquece. O jeito de segurar o copo. O gesto de assoar. A melodia murmurada sem letra, sem começo, sem fim. Esses hábitos não são nostalgia — a nostalgia dói, a nostalgia sabe que perdeu. Esses hábitos são outra coisa: são o tempo que ficou no corpo como uma caixa de recordações que ninguém mais abre, mas todos sabem onde está.

O vento leva as arraias. O café esfria. O sino para de tocar. As freiras dobram a esquina e somem. O jasmim fecha suas pétalas quando escurece. E o velho do copo de café, que cantava sem saber que cantava, vai ficando quieto — não porque não tenha mais nada a dizer, mas porque chegou àquela hora da tarde em que as palavras são desnecessárias e basta existir.

― ― ―

Há manhãs que não pedem licença.

E há crônicas que são apenas isso: a tentativa honesta de dizer que existimos, que sentimos, que o cheiro do café ainda sobe pela janela, e que enquanto isso acontecer, o tempo — esse velho sem coador, esse menino de arraia, esse sino que marca o que o relógio esquece — ainda não terminou.

✦ ✦ ✦

Vitória da Conquista, abril de 2026

O Cheiro do Tempo – Crônica Literária


Crônica Literária

O Cheiro do Tempo

por Padre Carlos

― ✦ ―

Há manhãs que não pedem licença.

Entram pela janela antes mesmo de você abrir os olhos — primeiro o cheiro, depois a luz, e só por último a consciência de que um novo dia começou. Nessas manhãs, o tempo não é um relógio. É um velho que prepara café sem coador, que assopra a chaleira velha, que deixa o pó assentar no fundo como quem sabe que a pressa é inimiga do sabor. E do vivido.

Conheci um homem assim. Ou talvez eu o tenha inventado. Ou talvez ele seja todos os velhos que já vi de manhã cedo, sentados à soleira, com um copo nas mãos e os olhos voltados para um horizonte que só eles enxergavam. O aroma do café que ele preparava não ficava na cozinha. Subia, atravessava cômodos, dobrava corredores, e ia pousar, manso, em cada canto da casa — como um fio de memória tecendo a manhã, como diria o poeta.

Ele cantava. Não se sabe bem se para si mesmo ou para alguém que já foi. “Você por aqui é novidade” — essa frase de canção antiga que, repetida vezes sem conta, vai deixando de ser canção e vira reza, encantamento, mantra.

Há palavras que, de tanto ditas, perdem o significado e ganham outra coisa: ganham peso, ganham silêncio, ganham a textura do tempo.

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Lembro das arraias.

Aqui em Salvador, ninguém chama de pipa. Arraia é o nome certo, o nome da terra, e a palavra já tem asas só de ser dita. Arraias no céu de fim de tarde — leves, loucas, disputando o azul com as nuvens e os pássaros. Cada linha puxada por uma mão de criança que ainda não sabe que está aprendendo a soltar: a soltar o barbante, a soltar o dia, a soltar tudo que um dia vai embora de qualquer jeito.

A infância é isso. Um copo de água fresca bebido sem pensar, porque quando se é criança não se pensa em sede, se bebe. Um raio de sol na montanha que aquece sem queimar — porque tudo, nessa idade, vem na medida certa do milagre. Uma cabeleira comprida boiando nos lagos da memória, que a gente vai puxando, puxando, e ela não acaba nunca, porque a memória é funda e o passado não tem fundo.

O sino não conta minutos,
conta momentos.

O menino que eu quero lembrar — e que mora em algum lugar dentro de cada um que leu até aqui — sentia o cheiro de jasmim vindo da casa grande. Havia uma casa grande, sempre há uma casa grande na infância de quem cresceu em um balneário. Com seus mistérios e suas sombras, com seu jardim que cheirava diferente do resto do mundo. E havia o sino da Igreja, marcando as horas que o relógio não sabia marcar — porque o sino não conta minutos, conta momentos.

E as freiras que passavam em frente ao portão, com seus hábitos brancos ou seria marrom? Seus passos silenciosos, como se carregassem nas solas dos sapatos o segredo de como se atravessa um dia com graça.

Mais um dia se ia. Assim. Quieto.

― ― ―

O filósofo diria que o tempo é uma flecha. O físico, que é uma dimensão. O poeta, que é um rio. Mas o cronista — esse ser menor e mais humano — diria apenas que o tempo cheira a café.

E que há hábitos que o corpo guarda depois que a mente esquece. O jeito de segurar o copo. O gesto de assoar. A melodia murmurada sem letra, sem começo, sem fim. Esses hábitos não são nostalgia — a nostalgia dói, a nostalgia sabe que perdeu. Esses hábitos são outra coisa: são o tempo que ficou no corpo como uma caixa de recordações que ninguém mais abre, mas todos sabem onde está.

O vento leva as arraias. O café esfria. O sino para de tocar. As freiras dobram a esquina e somem. O jasmim fecha suas pétalas quando escurece. E o velho do copo de café, que cantava sem saber que cantava, vai ficando quieto — não porque não tenha mais nada a dizer, mas porque chegou àquela hora da tarde em que as palavras são desnecessárias e basta existir.

― ― ―

Há manhãs que não pedem licença.

E há crônicas que são apenas isso: a tentativa honesta de dizer que existimos, que sentimos, que o cheiro do café ainda sobe pela janela, e que enquanto isso acontecer, o tempo — esse velho sem coador, esse menino de arraia, esse sino que marca o que o relógio esquece — ainda não terminou.

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Vitória da Conquista, abril de 2026

Governar é Trabalho, Excelência — Não Susto em Coletiva


Política & Resenha — Opinião

✦ ✦ ✦

Oh, que choque! Jerônimo ficou surpreso

Quando o governador descobre que governar exige mais do que tomar sustos em entrevista coletiva


Por Padre Carlos  |  Vitória da Conquista, 25 de abril de 2026

A
ssim que li a manchete, precisei reler. Uma vez. Duas. Três. “Jerônimo critica troca de aeronaves da Azul e cobra respeito a Vitória da Conquista.” Fiquei eu também surpreso — não com a Azul, cujo pragmatismo empresarial é tão previsível quanto o pôr do sol no sertão, mas com o espetáculo de um governador do estado mais rico do Nordeste descobrindo, em coletiva de imprensa na cidade de Brumado, que uma empresa aérea tomou uma decisão comercial sem lhe pedir licença. Que drama. Que tragédia grega. Que cena.

A Azul Linhas Aéreas — empresa privada, movida por lucro, guiada por planilhas — anunciou que substituirá o ATR 72, de 72 assentos, pelo Cessna Grand Caravan, com espaço para nove almas corajosas dispostas a cruzar os céus do Sudoeste Baiano como em tempos de Lampião. A reação institucional do governador Jerônimo Rodrigues Souza foi a que qualquer cidadão deveria esperar de um representante eleito: ele ficou chocado. Profundamente chocado. Moralmente indignado. E nos comunicou esse choque com a solenidade de quem acaba de descobrir que a Terra é redonda.

“Nós não vamos aceitar que Vitória da Conquista seja tratada dessa forma.”

— Jerônimo Rodrigues, em declaração memorável à imprensa

Não vão aceitar. Categórico. Contundente. Vibrante. Só faltou a trilha sonora e os fogos de artifício. Pois bem, Excelência: a Azul já aceitou. É ela quem opera os aviões, é ela quem decide a rota, é ela quem faz a conta entre receita e custo. E, diante desse implacável teorema do capitalismo, o governador saiu da coletiva de imprensa armado de indignação — aquele instrumento tão útil quanto uma espingarda de água numa floresta em chamas.

— ✦ —

Esta atitude seria trágica se não fosse cômica. E seria cômica se não fosse reveladora. Ela revela um traço que, infelizmente, tem marcado certa cultura de gestão pública no Brasil: a confusão entre governar e protestar. O governante que perde tempo ficando chocado diante de uma decisão empresarial está, na prática, terceirizando sua função executiva para os microfones. Está fazendo o papel do torcedor — aquele que grita da arquibancada, bate no peito, aponta o dedo para o campo, mas jamais entra em campo.

Governador não é pra se indignar. Governador é pra trabalhar. Sentar com a empresa. Abrir a planilha. Oferecer incentivos fiscais, isenções, contrapartidas que tornem a rota viável e atrativa. Mapear outras companhias aéreas interessadas no Aeroporto Glauber Rocha — afinal, o mercado da aviação regional no Brasil é dinâmico e a ANAC não é uma entidade mística inacessível. Ligar para a LATAM, para a Gol, para quem quer que opere aviões com mais de nove assentos. Isso seria governar. Isso seria executar. Isso não gera manchete edificante, é verdade — mas gera resultado.

O papel de ficar chocado, contrariado, vociferante e indignado já tem dono nas democracias: chama-se parlamento. Deputados e vereadores existem exatamente para isso — para fazer barulho, para cobrar, para pressionar, para subir o tom. É a função deles. É pra isso que o povo os elege. O governador tem outra função: a chata, silenciosa, cotidiana e absolutamente indispensável função de resolver.

Mas há algo esteticamente perfeito na cena. Ali estava o governador da Bahia, em Brumado, sendo abordado sobre o Cessna de nove lugares que ameaça substituir o voo para Salvador — e ele ficou surpreso. Surpreso! Como se a decisão tivesse caído do céu de paraquedas naquela manhã de sexta-feira. Como se ninguém em seu secretariado, em sua assessoria técnica, em seu gabinete de desenvolvimento econômico houvesse acompanhado os movimentos da Azul Conecta, empresa que há meses reorganiza suas rotas regionais pelo interior do Brasil. A surpresa, num chefe do Executivo estadual, não é um sinal de humanidade. É um sinal de desacompanhamento.

— ✦ —

Já os demais personagens desta pequena ópera cômica completam o cenário com esmero. O empresário e ex-prefeito de Dom Basílio, entusiasta da aviação, declarou que Conquista está “abandonada”. O vereador Luís Carlos Dudé, do União Brasil, fustigou o “teco-teco” e evocou um retrocesso de oitenta anos. Certo. Legítimo. Barulhento. É o que parlamentares fazem — e fazem bem. Que gritem. Que pressionem. É a função deles, e exercem-na com vigor admirável.

O problema é quando o governador decide brincar de parlamentar. Quando o Executivo abandona o árido território da negociação técnica e vai disputar espaço nos microfones com quem foi eleito para isso. Resultado: muito barulho, nenhuma rota nova, nenhum assento a mais. O Cessna continua no hangar, esperando decolar com seus nove passageiros — enquanto o governador espera que a Azul leia o jornal e se envergonhe.

Vitória da Conquista — a Terra do Radialista Herzem Gusmão, como o blog irmão a celebra com carinho regionalista — é de fato a terceira maior cidade da Bahia. Merece conectividade aérea digna. Merece um aeroporto Glauber Rocha pulsante, com frequências, companhias e assentos. Merece, sobretudo, um gestor estadual que não precise descobrir em coletiva de imprensa que uma empresa privada age como empresa privada. Isso a cidade merece — e ainda não tem.

✦ ✦ ✦

Enquanto o governador aguarda que a Azul se comova com seu discurso e reponha os 63 assentos que pretende subtrair, o Cessna segue lá, pequenino, novecentas vezes mais honesto do que qualquer declaração pública: ele simplesmente vai. Sem barulho. Sem manchete. Sem choque. Com nove lugares e uma turbina. É modesto, é insuficiente, é inaceitável — mas vai. Talvez fosse uma boa metáfora para o que Vitória da Conquista precisa do seu governador: menos espanto, mais motor.

— ✦ —

Padre Carlos

Teólogo, colunista político & editor do Política e Resenha — Vitória da Conquista, Bahia

As opiniões expressas neste artigo são de inteira responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a posição de qualquer partido, diocese ou companhia aérea de pequeno porte.

Governar é Trabalho, Excelência — Não Susto em Coletiva


Política & Resenha — Opinião

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Oh, que choque! Jerônimo ficou surpreso

Quando o governador descobre que governar exige mais do que tomar sustos em entrevista coletiva


Por Padre Carlos  |  Vitória da Conquista, 25 de abril de 2026

A
ssim que li a manchete, precisei reler. Uma vez. Duas. Três. “Jerônimo critica troca de aeronaves da Azul e cobra respeito a Vitória da Conquista.” Fiquei eu também surpreso — não com a Azul, cujo pragmatismo empresarial é tão previsível quanto o pôr do sol no sertão, mas com o espetáculo de um governador do estado mais rico do Nordeste descobrindo, em coletiva de imprensa na cidade de Brumado, que uma empresa aérea tomou uma decisão comercial sem lhe pedir licença. Que drama. Que tragédia grega. Que cena.

A Azul Linhas Aéreas — empresa privada, movida por lucro, guiada por planilhas — anunciou que substituirá o ATR 72, de 72 assentos, pelo Cessna Grand Caravan, com espaço para nove almas corajosas dispostas a cruzar os céus do Sudoeste Baiano como em tempos de Lampião. A reação institucional do governador Jerônimo Rodrigues Souza foi a que qualquer cidadão deveria esperar de um representante eleito: ele ficou chocado. Profundamente chocado. Moralmente indignado. E nos comunicou esse choque com a solenidade de quem acaba de descobrir que a Terra é redonda.

“Nós não vamos aceitar que Vitória da Conquista seja tratada dessa forma.”

— Jerônimo Rodrigues, em declaração memorável à imprensa

Não vão aceitar. Categórico. Contundente. Vibrante. Só faltou a trilha sonora e os fogos de artifício. Pois bem, Excelência: a Azul já aceitou. É ela quem opera os aviões, é ela quem decide a rota, é ela quem faz a conta entre receita e custo. E, diante desse implacável teorema do capitalismo, o governador saiu da coletiva de imprensa armado de indignação — aquele instrumento tão útil quanto uma espingarda de água numa floresta em chamas.

— ✦ —

Esta atitude seria trágica se não fosse cômica. E seria cômica se não fosse reveladora. Ela revela um traço que, infelizmente, tem marcado certa cultura de gestão pública no Brasil: a confusão entre governar e protestar. O governante que perde tempo ficando chocado diante de uma decisão empresarial está, na prática, terceirizando sua função executiva para os microfones. Está fazendo o papel do torcedor — aquele que grita da arquibancada, bate no peito, aponta o dedo para o campo, mas jamais entra em campo.

Governador não é pra se indignar. Governador é pra trabalhar. Sentar com a empresa. Abrir a planilha. Oferecer incentivos fiscais, isenções, contrapartidas que tornem a rota viável e atrativa. Mapear outras companhias aéreas interessadas no Aeroporto Glauber Rocha — afinal, o mercado da aviação regional no Brasil é dinâmico e a ANAC não é uma entidade mística inacessível. Ligar para a LATAM, para a Gol, para quem quer que opere aviões com mais de nove assentos. Isso seria governar. Isso seria executar. Isso não gera manchete edificante, é verdade — mas gera resultado.

O papel de ficar chocado, contrariado, vociferante e indignado já tem dono nas democracias: chama-se parlamento. Deputados e vereadores existem exatamente para isso — para fazer barulho, para cobrar, para pressionar, para subir o tom. É a função deles. É pra isso que o povo os elege. O governador tem outra função: a chata, silenciosa, cotidiana e absolutamente indispensável função de resolver.

Mas há algo esteticamente perfeito na cena. Ali estava o governador da Bahia, em Brumado, sendo abordado sobre o Cessna de nove lugares que ameaça substituir o voo para Salvador — e ele ficou surpreso. Surpreso! Como se a decisão tivesse caído do céu de paraquedas naquela manhã de sexta-feira. Como se ninguém em seu secretariado, em sua assessoria técnica, em seu gabinete de desenvolvimento econômico houvesse acompanhado os movimentos da Azul Conecta, empresa que há meses reorganiza suas rotas regionais pelo interior do Brasil. A surpresa, num chefe do Executivo estadual, não é um sinal de humanidade. É um sinal de desacompanhamento.

— ✦ —

Já os demais personagens desta pequena ópera cômica completam o cenário com esmero. O empresário e ex-prefeito de Dom Basílio, entusiasta da aviação, declarou que Conquista está “abandonada”. O vereador Luís Carlos Dudé, do União Brasil, fustigou o “teco-teco” e evocou um retrocesso de oitenta anos. Certo. Legítimo. Barulhento. É o que parlamentares fazem — e fazem bem. Que gritem. Que pressionem. É a função deles, e exercem-na com vigor admirável.

O problema é quando o governador decide brincar de parlamentar. Quando o Executivo abandona o árido território da negociação técnica e vai disputar espaço nos microfones com quem foi eleito para isso. Resultado: muito barulho, nenhuma rota nova, nenhum assento a mais. O Cessna continua no hangar, esperando decolar com seus nove passageiros — enquanto o governador espera que a Azul leia o jornal e se envergonhe.

Vitória da Conquista — a Terra do Radialista Herzem Gusmão, como o blog irmão a celebra com carinho regionalista — é de fato a terceira maior cidade da Bahia. Merece conectividade aérea digna. Merece um aeroporto Glauber Rocha pulsante, com frequências, companhias e assentos. Merece, sobretudo, um gestor estadual que não precise descobrir em coletiva de imprensa que uma empresa privada age como empresa privada. Isso a cidade merece — e ainda não tem.

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Enquanto o governador aguarda que a Azul se comova com seu discurso e reponha os 63 assentos que pretende subtrair, o Cessna segue lá, pequenino, novecentas vezes mais honesto do que qualquer declaração pública: ele simplesmente vai. Sem barulho. Sem manchete. Sem choque. Com nove lugares e uma turbina. É modesto, é insuficiente, é inaceitável — mas vai. Talvez fosse uma boa metáfora para o que Vitória da Conquista precisa do seu governador: menos espanto, mais motor.

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Padre Carlos

Teólogo, colunista político & editor do Política e Resenha — Vitória da Conquista, Bahia

As opiniões expressas neste artigo são de inteira responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a posição de qualquer partido, diocese ou companhia aérea de pequeno porte.

Sangue no Planalto: A Guerra dos Peduros e Meletes

 

 

 

Por Padre Carlos 

 

Há episódios que não envelhecem — apenas são escondidos. E quanto mais se tenta soterrá-los sob o pó da conveniência histórica, mais eles insistem em respirar por entre as frestas da memória coletiva. O janeiro de 1919, em Vitória da Conquista, não é apenas um capítulo esquecido: é um espelho incômodo. Um daqueles que não refletem o rosto que queremos ver, mas o que insistimos em negar.

O conflito entre Peduros e Meletes não foi um acidente. Não foi um desvio da norma. Foi, ao contrário, a revelação brutal da norma em seu estado mais puro.

O Poder Como Herança — E Como Arma

O que se convencionou chamar de “guerra” entre facções familiares não tinha nada de ideológico, nada de programático, nada de republicano. Era, em essência, uma disputa patrimonial. O poder local não era entendido como função pública, mas como extensão da propriedade privada. Governar não era servir — era possuir.

A genealogia política da cidade, fincada na conquista armada do território e consolidada pela endogamia das elites, produziu algo mais sólido que instituições: produziu um sistema fechado. Um sistema onde o sobrenome valia mais que o voto, onde alianças matrimoniais tinham mais peso que qualquer projeto de governo, e onde a política era menos debate e mais herança.

Quando o Coronel Gugé morreu, não foi apenas um homem que partiu. Foi o último mecanismo de contenção de um modelo que nunca aprendeu a conviver com limites. Sua autoridade pessoal — não institucional — era o que mantinha a paz. E isso, por si só, já é uma acusação histórica grave: a ordem dependia de um homem, não de regras.

Quando a Política Fala Pela Espingarda

A guerra de janeiro de 1919 foi, portanto, inevitável. Não porque os homens fossem particularmente violentos — mas porque o sistema era.

Sem mediação institucional, sem cultura democrática, sem freios legais eficazes, a disputa pelo comando da cidade recorreu ao único instrumento que sempre esteve disponível: a força. E a força, no sertão político da Primeira República, não era exceção — era linguagem.

Peduros e Meletes não representavam visões distintas de futuro. Representavam o mesmo passado disputando o controle do presente.

E o mais revelador não foi o confronto em si — mas o que veio depois.

A Legitimação do Vencedor

Menos de um mês após o derramamento de sangue, o poder estadual reconheceu o resultado. Não houve investigação profunda, não houve responsabilização exemplar, não houve ruptura. Houve nomeação.

Ascendino Melo dos Santos, líder dos vencedores, foi alçado à Intendência com a naturalidade de quem apenas assume aquilo que, na lógica vigente, já lhe pertencia. O gesto do governo estadual não foi de reprovação — foi de homologação.

Aqui reside o ponto mais desconcertante de toda a história: o sistema não apenas tolerava a violência — ele a incorporava como método de seleção de liderança.

Não se tratava de um colapso institucional. Era o funcionamento regular de uma engrenagem perversa.

O Que Mudou? Quase Nada.

A vitória dos Peduros não representou transformação. Representou continuidade com novos nomes.

O modelo oligárquico permaneceu intacto. A exclusão política seguiu sendo regra. A democracia continuou sendo ritual, não substância. Eleições sem concorrência, decisões tomadas fora do espaço público, concentração de poder nas mesmas mãos — tudo isso persistiu com a mesma naturalidade silenciosa de antes.

A cidade mudou de comando, mas não mudou de lógica.

E talvez essa seja a constatação mais dura: o conflito não rompeu o sistema — ele o reforçou.

O Eco no Presente

Seria confortável tratar esse episódio como uma relíquia de um Brasil arcaico, distante, superado. Mas isso exigiria uma dose de ingenuidade que a realidade não permite.

A história dos Peduros e Meletes não fala apenas de 1919. Fala de um padrão recorrente: a captura do público pelo privado, a fragilidade das instituições diante de estruturas de poder consolidadas, a substituição do debate pela imposição.

Os nomes mudam. As formas se sofisticam. Mas a lógica — essa, infelizmente, demonstra uma inquietante capacidade de adaptação.

Hoje não se duelam famílias com rifles nas ruas. Mas ainda se disputam espaços de poder com ferramentas que contornam — ou esvaziam — o espírito das instituições. Ainda se confundem interesses pessoais com decisões públicas. Ainda se perpetuam estruturas que resistem à renovação real.

A Advertência Ignorada

O episódio de 1919 não deveria ser apenas um registro histórico. Deveria ser um alerta permanente.

Ele nos lembra que instituições frágeis não contêm ambições fortes. Que democracia sem cultura democrática é apenas aparência. E que, quando o poder deixa de ser regulado por regras impessoais, ele inevitavelmente retorna ao seu estado mais primitivo: o da imposição.

A tragédia não está apenas no sangue derramado naquele janeiro distante. Está no fato de que, mais de um século depois, ainda reconhecemos — em versões menos explícitas, mas não menos preocupantes — os mesmos mecanismos em funcionamento.

A história não grita. Ela sussurra.

E o problema nunca foi a falta de aviso. Foi a falta de escuta.

Sangue no Planalto: A Guerra dos Peduros e Meletes

 

 

 

Por Padre Carlos 

 

Há episódios que não envelhecem — apenas são escondidos. E quanto mais se tenta soterrá-los sob o pó da conveniência histórica, mais eles insistem em respirar por entre as frestas da memória coletiva. O janeiro de 1919, em Vitória da Conquista, não é apenas um capítulo esquecido: é um espelho incômodo. Um daqueles que não refletem o rosto que queremos ver, mas o que insistimos em negar.

O conflito entre Peduros e Meletes não foi um acidente. Não foi um desvio da norma. Foi, ao contrário, a revelação brutal da norma em seu estado mais puro.

O Poder Como Herança — E Como Arma

O que se convencionou chamar de “guerra” entre facções familiares não tinha nada de ideológico, nada de programático, nada de republicano. Era, em essência, uma disputa patrimonial. O poder local não era entendido como função pública, mas como extensão da propriedade privada. Governar não era servir — era possuir.

A genealogia política da cidade, fincada na conquista armada do território e consolidada pela endogamia das elites, produziu algo mais sólido que instituições: produziu um sistema fechado. Um sistema onde o sobrenome valia mais que o voto, onde alianças matrimoniais tinham mais peso que qualquer projeto de governo, e onde a política era menos debate e mais herança.

Quando o Coronel Gugé morreu, não foi apenas um homem que partiu. Foi o último mecanismo de contenção de um modelo que nunca aprendeu a conviver com limites. Sua autoridade pessoal — não institucional — era o que mantinha a paz. E isso, por si só, já é uma acusação histórica grave: a ordem dependia de um homem, não de regras.

Quando a Política Fala Pela Espingarda

A guerra de janeiro de 1919 foi, portanto, inevitável. Não porque os homens fossem particularmente violentos — mas porque o sistema era.

Sem mediação institucional, sem cultura democrática, sem freios legais eficazes, a disputa pelo comando da cidade recorreu ao único instrumento que sempre esteve disponível: a força. E a força, no sertão político da Primeira República, não era exceção — era linguagem.

Peduros e Meletes não representavam visões distintas de futuro. Representavam o mesmo passado disputando o controle do presente.

E o mais revelador não foi o confronto em si — mas o que veio depois.

A Legitimação do Vencedor

Menos de um mês após o derramamento de sangue, o poder estadual reconheceu o resultado. Não houve investigação profunda, não houve responsabilização exemplar, não houve ruptura. Houve nomeação.

Ascendino Melo dos Santos, líder dos vencedores, foi alçado à Intendência com a naturalidade de quem apenas assume aquilo que, na lógica vigente, já lhe pertencia. O gesto do governo estadual não foi de reprovação — foi de homologação.

Aqui reside o ponto mais desconcertante de toda a história: o sistema não apenas tolerava a violência — ele a incorporava como método de seleção de liderança.

Não se tratava de um colapso institucional. Era o funcionamento regular de uma engrenagem perversa.

O Que Mudou? Quase Nada.

A vitória dos Peduros não representou transformação. Representou continuidade com novos nomes.

O modelo oligárquico permaneceu intacto. A exclusão política seguiu sendo regra. A democracia continuou sendo ritual, não substância. Eleições sem concorrência, decisões tomadas fora do espaço público, concentração de poder nas mesmas mãos — tudo isso persistiu com a mesma naturalidade silenciosa de antes.

A cidade mudou de comando, mas não mudou de lógica.

E talvez essa seja a constatação mais dura: o conflito não rompeu o sistema — ele o reforçou.

O Eco no Presente

Seria confortável tratar esse episódio como uma relíquia de um Brasil arcaico, distante, superado. Mas isso exigiria uma dose de ingenuidade que a realidade não permite.

A história dos Peduros e Meletes não fala apenas de 1919. Fala de um padrão recorrente: a captura do público pelo privado, a fragilidade das instituições diante de estruturas de poder consolidadas, a substituição do debate pela imposição.

Os nomes mudam. As formas se sofisticam. Mas a lógica — essa, infelizmente, demonstra uma inquietante capacidade de adaptação.

Hoje não se duelam famílias com rifles nas ruas. Mas ainda se disputam espaços de poder com ferramentas que contornam — ou esvaziam — o espírito das instituições. Ainda se confundem interesses pessoais com decisões públicas. Ainda se perpetuam estruturas que resistem à renovação real.

A Advertência Ignorada

O episódio de 1919 não deveria ser apenas um registro histórico. Deveria ser um alerta permanente.

Ele nos lembra que instituições frágeis não contêm ambições fortes. Que democracia sem cultura democrática é apenas aparência. E que, quando o poder deixa de ser regulado por regras impessoais, ele inevitavelmente retorna ao seu estado mais primitivo: o da imposição.

A tragédia não está apenas no sangue derramado naquele janeiro distante. Está no fato de que, mais de um século depois, ainda reconhecemos — em versões menos explícitas, mas não menos preocupantes — os mesmos mecanismos em funcionamento.

A história não grita. Ela sussurra.

E o problema nunca foi a falta de aviso. Foi a falta de escuta.

Sexta-feira começa fria e fim de semana terá tempo instável em Vitória da Conquista

A sexta-feira (24) amanheceu com temperaturas baixas em Vitória da Conquista, marcando a transição do outono e antecipando características típicas do inverno. Os termômetros variaram entre 15°C e 18°C durante a madrugada até o início da manhã.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, a previsão para o fim de semana é de tempo instável. O céu deve permanecer encoberto, com possibilidade de chuvas isoladas e ventos moderados, o que pode intensificar a sensação de frio.

As temperaturas mínimas devem continuar em torno dos 15°C, enquanto as máximas não devem ultrapassar os 24°C no sábado (25) e domingo (26).

A neblina também deve marcar presença nas primeiras horas do dia e durante a noite, exigindo maior atenção de motoristas nas rodovias e vias urbanas.

Sexta-feira começa fria e fim de semana terá tempo instável em Vitória da Conquista

A sexta-feira (24) amanheceu com temperaturas baixas em Vitória da Conquista, marcando a transição do outono e antecipando características típicas do inverno. Os termômetros variaram entre 15°C e 18°C durante a madrugada até o início da manhã.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, a previsão para o fim de semana é de tempo instável. O céu deve permanecer encoberto, com possibilidade de chuvas isoladas e ventos moderados, o que pode intensificar a sensação de frio.

As temperaturas mínimas devem continuar em torno dos 15°C, enquanto as máximas não devem ultrapassar os 24°C no sábado (25) e domingo (26).

A neblina também deve marcar presença nas primeiras horas do dia e durante a noite, exigindo maior atenção de motoristas nas rodovias e vias urbanas.