Por Padre Carlos
Nunca os homens — e especialmente os brasileiros — precisaram tanto de leveza quanto agora. Há um peso duro, quase mineral, assentado sobre as relações humanas. Um peso que endurece as conversas, petrifica as posições e transforma qualquer discordância em duelo. Esse estado de espírito, que Italo Calvino descreveu tão bem, encontra no Brasil um cenário ainda mais evidente: o país da brincadeira, da música espontânea e do improviso perdeu sua alma leve, sua malandragem criativa, sua ginga de quem “se vira” sem perder o humor.
Hoje, o que chamávamos de “malandro” — não o criminoso, mas o arquetípico artista do cotidiano, que tirava poesia da pobreza e riso da tragédia — foi substituído pelo sujeito tenso, vigilante, sempre pronto para o conflito. Aquele Brasil que fazia piada de si mesmo agora parece uma maquete turística de um país que já fomos um dia: sambódromos para inglês ver, festas embaladas para fotos no Instagram, blocos seguidos por drones. A alegria virou produto. O riso virou performance. E a leveza virou exceção.
Calvino, na primeira de suas conferências, recorre ao mito de Perseu para ensinar algo essencial: não se vence a Medusa enfrentando-a frontalmente. É com sandálias aladas, com inteligência e leveza que se evita o olhar que petrifica. Perseu não foge do monstro — ele o encara através do espelho, mediado pela reflexão. E é justamente do sangue da própria Medusa que nasce Pégaso, o cavalo alado. Ou seja: até a pedra mais dura pode gerar um ser capaz de voar.
É exatamente essa lição que estamos esquecendo. Nossa Medusa contemporânea — a polarização — petrifica quem ousa olhar diretamente para ela. A política perdeu o centro, e o discurso perdeu a temperatura humana. Vivemos entre torcidas organizadas de opinião: quem não é “um lado”, automaticamente é tratado como “o outro”. O que antes era conversa virou catecismo. O que era debate virou duelo. O peso venceu.
E, como se não bastasse, até os nossos templos de extravasamento — as arquibancadas — deixaram de ser lugares onde o povo lavava a alma. A antiga geral, democrática, onde o torcedor pobre vibrava, sofria e ria com um desconhecido ao seu lado, desapareceu. Os estádios de hoje têm mais câmeras que batuques, mais assentos numerados que abraços espontâneos. O futebol, que já foi uma ópera popular, virou espetáculo corporativo. E o torcedor, impedido de extravasar ali, extravasa em outro lugar: nas redes sociais, nas conversas de bar, no trânsito, na política. O que antes era grito de gol virou grito de guerra.
Mas a leveza que Calvino propõe — e que o Brasil sempre simbolizou — não é superficialidade. Não é viver rindo à toa. Rir demais é desespero. A leveza verdadeira é ética e é força. É a leveza do pássaro, não da pluma. A pluma vai para onde o vento manda; o pássaro escolhe o voo.
O Brasil está precisando lembrar disso. Porque leveza não significa ausência de convicção — significa não transformar cada convicção em punhal. Não significa viver num carnaval eterno — significa resgatar o espírito que permitia discordar sem se odiar, brincar sem humilhar, debater sem destruir.
Nietzsche, diria que o peso é o dogma: aquilo que quer ser eterno, rígido, imutável. A leveza é o cavalo alado: movimento, criação, dança. O país que já fez da música, da rua, do futebol e da festa expressões de leveza tornou-se, em pouco tempo, um território saturado de sangue quente e cabeça quente. Todos com opinião, poucos com alma leve.
É urgente inverter esse movimento antes que seja tarde. Recuperar não o país idealizado, mas o país real, que sabia rir da própria tragédia sem negar a tragédia; que sabia discordar sem se destruir; que sabia que o peso existe, mas que, mesmo assim, é preciso manter sandálias aladas nos pés.
O Brasil precisa reencontrar seu Pégaso.
E talvez ele esteja escondido exatamente onde nasceu no mito: no interior da própria ferida, na própria dureza do tempo que vivemos.
Não se trata de negar o peso, mas de não perder a capacidade de voar sobre ele.












