
(Padre Carlos)
A política baiana, há quase vinte anos marcada pela hegemonia petista, começa a dar sinais de exaustão. A recente pesquisa do instituto Apex Partners, realizada entre os dias 1º e 3 de outubro com mil eleitores em todo o estado, acendeu um alerta vermelho no Palácio de Ondina. Os números mostram um cenário inédito desde 2006: o atual governador Jerônimo Rodrigues (PT) pode ser derrotado ainda no primeiro turno pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) — algo que, até pouco tempo atrás, parecia impensável na Bahia.
Segundo o levantamento, ACM Neto aparece com 48,6% das intenções de voto, enquanto Jerônimo soma 34,2%, uma diferença de 14,4 pontos percentuais. Em seguida, vêm João Roma (PL) com 5%, Kleber Rosa (PSOL) com 1,8%, José Carlos Aleluia (Republicanos) com 0,7%, além de 5,4% de votos brancos e nulos e 4,3% de indecisos. Em outro cenário testado, o ex-prefeito chega a 49,4%, ampliando sua vantagem sobre o governador, que cai para 30,9%.
Esses números, mais do que um simples retrato momentâneo, são um termômetro político e simbólico. Eles refletem uma sensação de cansaço do eleitorado baiano diante de uma hegemonia de quase duas décadas, marcada por promessas de transformação social e avanços que, na prática, não se traduziram plenamente em qualidade de vida. O eleitor que, em 2006, abraçou o projeto petista como uma alternativa à velha política, hoje começa a questionar o que foi efetivamente entregue.
Jerônimo Rodrigues herdou a máquina e o apoio de Rui Costa e, por consequência, de Lula, mas não herdou o carisma nem o mesmo capital político. Ele é um gestor técnico, mas pouco comunicativo, e num cenário dominado pela estética da imagem e pela linguagem emocional, essa característica pesa. O eleitor não vota apenas em programas — vota em símbolos, em afetos, em narrativas. E, nesse aspecto, Jerônimo ainda não encontrou a sua própria voz.
Enquanto isso, ACM Neto, com dois mandatos bem avaliados à frente da prefeitura de Salvador e o respaldo de um grupo político que conseguiu reeleger Bruno Reis no primeiro turno, surge como o principal símbolo da mudança com estabilidade. Seu discurso é pragmático, moderno e distante do radicalismo ideológico. Ele representa, para muitos, a volta de uma Bahia com gestão eficiente, planejamento urbano e foco em resultados — algo que o eleitor médio da capital e das grandes cidades interioranas valoriza.
O contraste é visível: enquanto o governo estadual é visto como lento, centralizador e burocrático, ACM Neto se apresenta como gestor arrojado, técnico e dialogante. Essa diferença de percepção é crucial. A política, no fim das contas, é uma disputa pela narrativa.
O desgaste da máquina e o peso do cotidiano
Há uma diferença abissal entre governar e administrar bem. A população baiana vive, nos últimos anos, sob o impacto do aumento da violência, do colapso na saúde pública e da lentidão em obras estruturantes. A sensação de insegurança é o ponto mais sensível: os números de homicídios continuam altos, e o governo estadual parece não conseguir oferecer respostas efetivas.
Os indicadores sociais também preocupam. O IDH baiano ainda figura entre os mais baixos do país, e mesmo os avanços na educação não foram suficientes para compensar o estancamento em outras áreas. O eleitor olha para o presente e não vê no governo estadual a agilidade que esperava. Essa percepção se reflete diretamente nas pesquisas.
A força do Lulismo no Nordeste é inegável. Lula mantém alto índice de aprovação na região, o que poderia ajudar Jerônimo em 2026. Contudo, a transferência de votos já não ocorre com a mesma intensidade do passado. O eleitor do interior e das grandes cidades parece mais autônomo, mais atento ao desempenho local. É o “lulista crítico”: vota em Lula, mas pode votar em ACM Neto para governador se sentir que a Bahia precisa de novos rumos.
O peso simbólico da virada
O possível triunfo de ACM Neto na Bahia teria impacto nacional imediato. Não se trata apenas de uma mudança local, mas de uma ruptura na geografia política do Brasil. A Bahia é o maior colégio eleitoral do Nordeste, região que se tornou o bastião da resistência petista desde a ascensão de Lula. Uma eventual vitória de Neto reconfiguraria o mapa político e enfraqueceria a narrativa de hegemonia da esquerda nordestina.
Isso explicaria por que o Palácio do Planalto acompanha com atenção redobrada cada pesquisa no estado. Lula sabe que perder a Bahia seria perder mais do que votos — seria perder o coração simbólico do seu projeto político.
A força das máquinas e o fator Lula
Por outro lado, o jogo está longe de definido. O governo ainda detém o peso da máquina pública, o que inclui obras, programas sociais e a capacidade de mobilizar prefeitos e lideranças regionais. Além disso, o apoio direto de Lula continua sendo um ativo poderoso.
O presidente deverá intensificar sua presença no estado em 2025 e 2026, inaugurando obras e reforçando o discurso de continuidade. O governo federal investe pesado no Novo PAC, com dezenas de projetos em infraestrutura, educação e saúde para a Bahia. A estratégia é clara: colar Jerônimo na imagem de Lula e transformar a eleição estadual em um novo plebiscito nacional.
Mas, há um risco. O eleitorado parece cansado da polarização. O discurso de “nós contra eles”, tão útil no passado, pode soar ultrapassado diante de uma população que quer resultados práticos — segurança, emprego e eficiência administrativa.

O eleitor quer coerência e esperança
O eleitor baiano, assim como o brasileiro, vive um momento de redefinição. A geração que cresceu sob o domínio petista agora é adulta, crítica e mais exigente. Ela quer coerência — quer ver discursos convertidos em ação. A velha retórica de que “o Estado está melhor do que antes” já não convence quem sente a precariedade dos serviços públicos no dia a dia.
Os dados da Apex Partners apontam para um novo ciclo político, talvez o mais desafiador desde 2006. A Bahia, que sempre foi um laboratório político do Brasil, pode novamente antecipar tendências nacionais. Se a mudança se consolidar aqui, ela irradiará para todo o país.
Em resumo, a pesquisa é mais do que uma fotografia do momento: é um retrato psicológico da Bahia contemporânea. Um estado que continua fiel às suas raízes progressistas, mas que começa a flertar com a alternância de poder. Um povo que aprendeu a votar com o coração, mas que agora começa a votar também com o bolso e com a razão.
No fim, como ensina a própria história política baiana, nenhum reinado é eterno. A força das urnas é o sopro que derruba impérios e inaugura novas eras.
E talvez, em 2026, a Bahia esteja prestes a escrever mais um capítulo decisivo — não apenas da sua história, mas da história política do Brasil.