
(Padre Carlos)
Em uma guinada que surpreendeu, mas não exatamente espantou o país, Ciro Gomes anunciou sua desfiliação do PDT, partido ao qual serviu e do qual se serviu desde 2015. A decisão, entregue em carta ao presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, encerra uma longa história de idas e vindas do ex-governador do Ceará e ex-ministro de Lula — e marca o início de um novo capítulo: o da travessia para a direita.
Fontes próximas afirmam que o “coronel de Sobral” já flerta abertamente com o PSDB e o União Brasil, legendas que poderiam oferecer-lhe guarida para um novo projeto presidencial em 2026 — desta vez, contra Lula. A ironia é que Ciro, que se autoproclamava o mais coerente crítico da direita, agora busca nela o espaço político que perdeu no campo progressista.
Mas não se trata apenas de uma mudança partidária. É, sobretudo, uma inflexão moral e ideológica. Enquanto o governo Lula colhe resultados expressivos — desemprego em queda, valorização do salário mínimo, reconstrução da indústria nacional e o retorno do Brasil ao mapa da segurança alimentar — Ciro parece querer reeditar o velho script da autossabotagem. Um homem que poderia ser ponte, prefere ser muro.
A lógica da traição política
Ao observar o movimento de Ciro, é inevitável lembrar da história da Social-Democracia alemã que, temendo o avanço dos comunistas, fechou os olhos à ascensão de Hitler. Acreditaram que, eliminando seus rivais de esquerda, teriam mais espaço para governar. O resultado foi trágico: foram devorados pelo monstro que ajudaram a criar.
Ciro parece seguir a mesma lógica. Em sua ânsia de destruir o PT e Lula, termina por fortalecer as forças que sempre combateram os direitos sociais e a soberania nacional. Seu discurso ácido e sua vaidade travestida de lucidez transformaram-no em instrumento involuntário — ou talvez consciente — do bolsonarismo.
Quando o ex-ministro proclama que “unidade é o cacete” e debocha da necessidade de convergência das esquerdas, revela que sua obsessão não é derrotar o fascismo, mas eliminar o rival que lhe tirou o protagonismo. Para ele, não importa se o país retrocede; o que importa é que Ciro brilhe.
A inveja e o espelho
A inveja é um veneno sutil. Ela não nasce da ausência, mas do espelho. Ciro inveja Lula porque vê nele o que nunca conseguiu ser: um líder amado, capaz de falar ao coração do povo. A inveja política é a mais corrosiva das paixões, porque nasce do desejo de ocupar o lugar do outro — e não de servir ao mesmo ideal.
O ex-ministro esquece que estadistas não se constroem com discursos inflamados, mas com humildade. O verdadeiro líder não se mede pelo número de votos que teve, mas pela capacidade de inspirar confiança e esperança. E nisso, Ciro fracassou.
A armadilha da lógica tribal
A máxima “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” é o mantra dos oportunistas. Em política, esse raciocínio cria alianças de conveniência e destrói pontes de futuro. É o que vemos agora: setores da direita celebrando a ruptura de Ciro com o PDT como uma vitória — não por acreditarem nele, mas por saberem que ele enfraquece o campo progressista.
Ao romper com Lupi, ao atacar Lula e ao flertar com os conservadores, Ciro selou seu destino. Tornou-se personagem de uma tragédia anunciada: o homem que confundiu lucidez com soberba, independência com isolamento, e crítica com destruição.
A esquerda e a necessidade de lucidez
O PT, com todos os seus erros e acertos, segue sendo o eixo da esquerda brasileira. É o maior partido do país, com 67 deputados federais, e o único capaz de mobilizar massas e construir uma agenda de governo sólida. Ignorar esse papel é negar a realidade.
Lula, com sua trajetória de luta e seu compromisso com os mais pobres, continua sendo a figura central da reconstrução nacional. E Carlos Lupi, mesmo após divergências, reconhece isso: “Lula é meu amigo há mais de 35 anos e é vítima de uma grande injustiça”, disse o presidente do PDT.
Epílogo: o jardim e as borboletas
Ciro quer caçar borboletas — o poder, o holofote, o aplauso. Mas esquece que as borboletas só voltam a quem cuida do jardim. O Brasil não precisa de caçadores de glória, e sim de jardineiros da esperança.
Enquanto o ex-ministro se perde em sua própria ambição, o país segue seu curso. E a história, impiedosa com os que traem seus ideais, já começou a escrever o epitáfio político de Ciro Gomes:
“Aqui jaz um homem que confundiu coragem com rancor, e grandeza com vaidade.”